Ficha Tcnica

Ttulo: Zona Quente.
Ttulo original: THE HOT ZONE.
Autor: Richard Preston.
Gnero: Investigao Cientfica.
Editora: Rocco Ltda.
Digitalizao e reviso de Vtor Chaves.
Numerao de pgina: Rodap.
Nmero total de Pginas 319.
Sinopse
Zona quente no  fico, mas histria verdadeira com gente de verdade. Tem todos os 
ingredientes de uma apaixonante trama ficcional, porque trata de um assunto que 
nenhuma fico pode desprezar  a vida.  ela o principal personagem deste relato 
sobre as ameaas que organismos microscpicos representam para o futuro da espcie 
humana.
Usando todos os recursos de uma narrativa eletrizante, sem exagero ou sensacionalismo, 
Richard Preston conta em detalhes a origem dos vrus que nos ltimos anos foram 
identificados como o maior flagelo que a humanidade ter de enfrentar nas prximas 
dcadas. Provenientes da floresta tropical africana, adormecidos, mas no inertes, h 
milhes de anos, eles agora esto s portas dos aglomerados urbanos contemporneos. 
Como se deu este salto entre uma ameaa devastadora, incubada h sculos, e sua 
presentificao na vida cotidiana?
Ao longo da obra de Preston, uma provvel resposta se insinua: a natureza tem meios 
interessantes de manter o prprio equilbrio.
ZONA QUENTE
Ttulo original THE HOT ZONE
Copyright edio brasileira  1995 by Editora Rocco Ltda. Copyright  1994 by 
Richard M. Preston
Todos os direitos reservados, incluindo os de reproduo no todo ou em parte sob 
qualquer forma
Direitos mundiais para a lngua portuguesa
reservados com exclusividade 
EDITORA ROCCO LTDA.
Rua Rodrigo Silva, 26  5 andar
20011-040  Rio de Janeiro, RJ
Tel.: 507-2000  Fax: 507-2244
Telex: 38462 EDRC BR
reviso tcnica DR. ANTNIO S. LIMA NETO
preparao de originais FRANCISCO AGUIAR
reviso
WALTER VERSSIMO/MAURCIO NETTO
HENRIQUE TARNAPOLSKY
WENDELL SETBAL
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Preston, Richard, 1954-P939z Zona quente Richard Preston; traduo de Aulyde Soares 
gues.  Rio de Janeiro: Rocco, 1995.Traduo de: The hot zoneCDD - 614.57 CDU - 
616-022.6RICHARD PRESTON
ZONA QUENTE
Traduo de AULYDE SOARES RODRIGUES
Rio de Janeiro  1995
Um agradecido reconhecimento  feito aos que se seguem pela permisso para o uso de 
material publicado e no publicado:
Dan W. Dalgard: breves extratos de Chronology of Events de Dan W. Dalgard. 
Copyright  1989, 1994, by Dan W. Dalgard. Reproduzido com autorizao.
Karl M. Johnson: extrato de uma carta de Karl M. Johnson para Richard Preston. 
Reproduzido com autorizao.
The Washington Post: extrato de "Deadly Ebola Virus Found in Va.
Laboratory" de D'Vera Cohn (1/12/89). Copyright  1989 by The Washington
Post. Reproduzido com autorizao.
Este livro narra fatos acontecidos entre 1967 e 1993. O perodo de incubao dos vrus 
aqui descritos  menor do que vinte e quatro dias. Ningum que sofra de qualquer um 
deles ou que tenha tido contato com algum sofrendo de um deles pode pegar ou 
transmitir os vrus fora do perodo de incubao. Nenhuma das pessoas vivas referidas 
neste livro sofre de qualquer doena contagiosa. Os vrus no podem sobreviver mais de 
dez dias a menos que sejam preservados e congelados com procedimentos especiais e 
equipamento laboratorial. Nenhuma das locaes em Reston ou Washington, D.C., 
regio descrita neste livro,  infectada ou perigosa.
Para Frederic Delano Grant, Jr., admirado por todos que o conhecem
O autor agradece a autorizao para pesquisa concedida pela Alfred P. Sloan 
Foundation.
O segundo anjo esvaziou seu recipiente no mar e este ficou como o sangue de um 
homem morto.
Apocalipse
Ao leitor...
ESTE LIVRO NO  fico. A histria  verdadeira e as pessoas so reais. Em certos 
casos mudei os nome das vtimas, incluindo "Charles Monet" e "Peter Cardinal", mas os 
personagens principais aparecem com seus nomes verdadeiros.
O dilogo foi reconstitudo de acordo com a lembrana dos participantes. Em certos 
momentos eu descrevo os pensamentos de determinada pessoa. Nesses casos, a 
narrativa  baseada em entrevistas, em que os entrevistados lembram dos seus 
pensamentos, muitas vezes repetidos, seguidos por sesses de verificao de fatos, que 
confirmaram essas lembranas. Quando se pergunta a uma pessoa, "O que voc estava 
pensando?", pode-se obter uma resposta mais completa e mais reveladora da condio 
humana do que qualquer cadeia de pensamentos que um romancista possa inventar. Eu 
tento ver as mentes das pessoas por meio de seus rostos e ouvir suas vidas nas suas 
palavras, e o que tenho encontrado est alm da imaginao.
Richard Preston
Sumrio
Primeira parte  A sombra do Monte Elgon............. 29
Segunda parte  A casa dos macacos...................... 133
Terceira parte  A destruio................................. 221
Quarta parte  A caverna Kitum............................283
Personagens principais........................................... 312
Glossrio............................................................ 314
Crditos.............................................................. 317
PRIMEIRA PARTE
A SOMBRA
DO
MONTE ELGON
Alguma coisa na floresta
1980  DIA DE ANO-NOVO
CHARLES MONET era um solitrio. Um francs que morava sozinho numa pequena 
casa de madeira no terreno da usina de acar Nzoia, uma plantao no oeste do 
Qunia, que se estendia ao longo do rio Nzoia  sombra do monte Elgon, um enorme e 
solitrio vulco extinto, com 4.700 metros de altura, prximo ao vale Rift. No se sabe 
ao certo o que levou Monet  frica. Como a de muitos expatriados, sua histria  um 
tanto obscura. Talvez tivesse tido algum problema na Frana, ou talvez tenha sido 
atrado pela beleza do Qunia. Monet era naturalista amador, apreciador de pssaros e 
animais mas no da humanidade em geral. Tinha 56 anos, altura e peso medianos, 
cabelos castanhos lisos e brilhantes. Um belo homem. Aparentemente seus nicos 
amigos eram as mulheres que moravam nas cidades vizinhas  montanha, porm nem 
mesmo elas puderam dar muitas informaes a respeito dele aos mdicos que 
investigaram sua morte. Monet era encarregado do maquinrio que bombeava gua do 
rio Nzoia para irrigar vrios quilmetros de plantao de cana-de-acar. Dizem que 
passava grande parte do dia no interior da casa das bombas, como se gostasse de 
observar e ouvir o trabalho das mquinas.
Como acontece muitas vezes em casos como esse,  difcil determinar os detalhes. Os 
mdicos lembravam-se dos sinais clnicos, porque qualquer pessoa que tenha visto os 
efeitos do agente do nvel de biorrisco no organismo humano jamais esquece, porm os 
efeitos acumulam-se, uns sobre os outros, at a pessoa ser completamente obliterada. O 
caso de Charles Monet surge  nossa vista numa geometria fria de fato clnico, 
combinada com flashes de horror to brilhantes e
perturbadores que nos obrigam a recuar, piscando os olhos, como se estivssemos 
vendo um sol aliengena descolorido. Monet chegou ao Qunia no vero de 1979, na 
poca em que o vrus humano da imunodeficincia, ou HIV, o vrus da JAIDS, 
libertava-se finalmente das florestas tropicais da frica central para comear sua longa 
destruio da raa humana. A AIDS j havia cado como uma sombra sobre a populao 
da frica central, embora ningum soubesse ainda da sua existncia. Espalhava-se 
silenciosamente ao longo da rodovia Kinshasa, uma estrada transcontinental que 
atravessa a frica de leste a oeste, passando pelas praias do lago Vitria,  sombra do 
monte Elgon. O HIV  um agente do nvel de segurana biolgica 2, com alto ndice de 
mortalidade, mas no muito contagioso. No passa facilmente de pessoa para pessoa e 
no  transmitido atravs do ar. No  preciso usar um traje espacial biolgico para 
manejar o sangue infectado com o HIV.
Monet trabalhava arduamente na casa das bombas nos dias teis e nos fins de semana e 
feriados visitava reas florestais perto da usina de acar. Levava comida, espalhava no 
cho e ficava observando os pssaros e os animais que se aproximavam para comer. 
Podia ficar completamente imvel quando observava um animal. As pessoas que o 
conheciam lembram que ele tratava os macacos selvagens com muito carinho, de um 
modo todo especial. Contam que ficava sentado, segurando um pouco de alimento na 
mo estendida at o macaco se aproximar e comer na sua mo.
 noite ele ficava sozinho na sua casa de madeira. Tinha uma faxineira, Johnnie, que 
fazia a limpeza e cozinhava para Sele. Monet estava aprendendo a identificar os 
pssaros africanos. Uma colnia de pssaros teceles vivia numa rvore ao lado da sua 
casa e ele passava o tempo vendo-os construir e manter os ninhos em forma de saco. 
Dizem que certo dia, perto do Natal, ele levou um pssaro doente para sua casa e ele 
morreu, talvez em suas mos. Podia ter sido um pssaro tecelo - ningum sabe  e 
pode ter morrido em conseqncia de um vrus do nvel 4  ningum sabe. Monet era 
tambm amigo de um corvo. Era um pssaro pintado de branco e preto que as pessoas, 
na frica, tm s vezes como animais de estimao. Era um pssaro amistoso e 
inteligente que gostava de pousar no telhado da casa de Monet e observar suas idas e 
vindas. Quando o corvo tinha fome, descia para a varanda, entrava na casa e Monet 
dava a ele restos de comida da sua mesa.
Monet ia a p para o trabalho, fazendo uma caminhada de trs quilmetros, todos os 
dias, atravs dos canaviais. Naquela semana do Natal, os trabalhadores haviam 
queimado os campos, deixando-os negros e chamuscados. Para o norte, atravs da 
paisagem calcinada, a 40 quilmetros de distncia, ele via os dois picos gmeos do 
monte Elgon. A montanha mudava constantemente de aparncia, mostrando ora uma 
face de sombra, ora de chuva e de sol, num espetculo africano de luz. Ao nascer do dia, 
o monte Elgon parecia uma pilha quase amorfa de cristas cinzentas desaparecendo na 
neblina, culminando nos dois picos, que so os lados opostos do cone trabalhado pela 
eroso. Quando o sol se erguia, a montanha ficava verde-prateada, a cor da floresta 
tropical do monte Elgon, e  medida que o dia se adiantava, apareciam nuvens que a 
ocultavam completamente. No fim da tarde, quase ao pr-do-sol, as nuvens ficavam 
mais espessas e formavam uma forja tempestuosa que cintilava com relmpagos 
silenciosos. A parte inferior da nuvem tinha a cor do carvo, e a parte superior subia 
como pluma para o ar, tingida de cor de laranja pelo sol poente e acima da nuvem o cu 
era azul-escuro, pintalgado com poucas estrelas tropicais.
Monet tinha algumas amigas na cidade de Eldoret, a sudoeste da montanha, habitada 
por um povo pobre que mora em cabanas feitas com tbuas de madeira e metal. Ele 
dava dinheiro para essas amigas e elas alegremente o amavam. Quando chegaram suas 
frias de Natal, ele resolveu acampar no monte Elgon e convidou uma das mulheres de 
Eldoret para acompanh-lo. Ao que parece, ningum lembra mais o nome dela.
Monet e a amiga seguiram num Land Rover pela estrada reta de terra que leva a 
Endebess Bluff, um rochedo saliente no lado leste do vulco. A estrada de p vulcnico 
 vermelha como sangue seco. Subiram a aba mais baixa da montanha e atravessaram 
milharais e cafezais, em seguida extenses de pasto e passaram por velhas casas 
coloniais inglesas de fazenda, em runas, escondidas entre fileiras de eucaliptos. O ar 
ficava mais frio  medida que subiam e guias coroadas voavam das copas dos cedros. 
Poucos turistas visitavam o monte Elgon, assim, o carro em que iam Monet e a amiga 
era talvez o nico na estrada, embora fosse grande o nmero de pedestres, moradores 
das aldeias prximas, que cultivavam pequenas fazendas na parte inferior da encosta da 
montanha. Aproximaram-se da parte externa da floresta tropical do monte Elgon, 
passando por pontas e ilhas de rvores e pelo Mount Elgon Lodge, um hotel rstico 
ingls, construdo na primeira metade do sculo, agora abandonado, com as paredes 
rachadas e a tinta descascando sob o sol e a chuva.
O monte Elgon ocupa os dois lados da fronteira entre Uganda e o Qunia e no fica 
muito longe do Sudo. A montanha  uma ilha biolgica de floresta tropical no centro 
da frica, um mundo isolado que se ergue acima das plancies, estendendo-se por 8 
quilmetros, cobertos de rvores, bambu e pntano alpino.  uma protuberncia na 
espinha dorsal da frica central. O vulco formou-se entre sete e dez milhes de anos 
atrs, produzindo erupes violentas com exploses de cinzas que varriam 
repetidamente as florestas nas suas encostas, crescendo at alcanar uma altura 
tremenda, talvez maior que a do Kilimanjaro hoje em dia. Antes de ser desgastado pela 
eroso, o monte Elgon deve ter sido a montanha mais alta da frica. Ainda  a mais 
larga. Quando o sol se levanta, a sombra do monte Elgon estende-se para leste at 
Uganda e quando o sol se pe, a sombra vai at o Qunia. Dentro da sombra do monte 
Elgon esto as aldeias dos Elgon Masai, um povo de pastores vindo do norte, que se 
instalou em volta da montanha h alguns sculos e construiu um castelo. As encostas 
mais baixas da montanha so irrigadas com chuvas brandas, o ar  sempre frio e limpo e 
o solo vulcnico produz uma farta colheita de milho e relva alta para o gado, 
alimentando uma densa populao humana. As aldeias formam em volta do vulco um 
anel de habitaes humanas que cada vez se fecha mais ao redor da floresta das 
encostas, como uma corda estrangulando o ecossistema da montanha. A floresta est 
sendo devastada, as rvores gigantescas cortadas para lenha e para formar pastos e os 
elefantes da floresta esto desaparecendo.
Uma pequena parte do monte Elgon  um parque nacional. Monet e a amiga pararam no 
porto do parque para comprar ingresso. Um macaco, talvez um babuno  ningum 
parece lembrar  costumava ficar perto do porto, esperando restos de comida e 
Monet, oferecendo uma banana, o fez sentar no seu ombro. A amiga riu, mas os dois 
ficaram completamente imveis enquanto o animal comia. Subiram mais um pouco e 
armaram a tenda numa clareira com relva verde e mida que descia at um regato. A 
gua saa do meio da floresta e tinha uma cor estranha, leitosa com poeira vulcnica. A 
relva era mantida baixa pelos bfalos do Cabo que pastavam no local e pontilhada com 
as fezes dos animais.
A floresta tropical do Elgon pairava sobre a clareira, uma teia de nodosas oliveiras 
africanas, engalanadas com musgo e trepadeira e com as suas azeitonas venenosas. Eles 
ouviam os rudos de um bando de macacos, o zumbido dos insetos. Bandos de pombos 
de oliveira saam das rvores numa velocidade espantosa, sua estratgia para se livrar 
dos gavies que mergulham sobre eles e os apanham em pleno vo. Havia rvores de 
cnfora, teca, cedro africano, antimnio vermelho e aqui e ali uma nuvem verde-escura 
de folhas erguendo-se acima do plio cerrado da floresta. Eram as coroas das rvores 
podo, a maior rvore da frica, quase do tamanho da sequia americana. Naquele 
tempo havia ainda milhares de elefantes nas montanhas e ouvia-se perfeitamente sua 
passagem no meio das rvores, estalos de galhos quebrados e de casca de rvores 
arrancada.
 tarde deve ter chovido, como sempre acontece no monte Elgon, portanto, eles ficaram 
na tenda e talvez tivessem feito amor, enquanto a tempestade martelava a lona que os 
protegia. Comeou a escurecer e a chuva amainou. Fizeram uma fogueira e prepararam 
a refeio. Era a vspera do Ano-Novo. Talvez tenham comemorado com champanhe. 
As nuvens devem ter desaparecido em poucas horas, como sempre acontece, e o vulco 
surgiu como uma sombra negra sob a Via Lctea. Talvez Monet estivesse de p na relva 
da clareira,  meia-noite, olhando para as estrelas  a cabea inclinada para trs, um 
pouco embriagado com champanhe.
Na manh do dia de Ano-Novo, um pouco depois do caf  uma manh fria, a 
temperatura do ar mais ou menos de cinco graus, a relva molhada e fria  Monet e a 
amiga subiram de carro por um caminho enlameado e pararam num pequeno vale 
abaixo da caverna Kitum. Eles seguiram, abrindo caminho na mata, seguindo as trilhas 
dos elefantes que acompanhavam as curvas do pequeno regato entre os olivais e 
campinas de relva. Estavam atentos para a possvel apario de bfalos do Cabo, 
animais perigosos no meio da floresta. A caverna se abria na extremidade mais alta do 
vale e o regato formava uma cascata na entrada. As trilhas dos elefantes juntavam-se na 
entrada da caverna e entravam. Monet e a amiga passaram ali todo o dia de Ano-Novo. 
Provavelmente choveu e eles devem ter ficado sentados na entrada durante horas, 
olhando a gua do regato que descia como um vu. Olhando para o vale, estavam 
atentos ao aparecimento dos elefantes e viram alguns pequenos hiracides  animais 
peludos do tamanho de uma marmota  correndo para cima e para baixo nas pedras, 
perto da entrada da caverna.
Manadas de elefantes entram na caverna Kitum  noite,  procura de sais e minerais. 
Nas plancies  fcil para eles encontrar sal no subsolo e nos poos rasos e secos, mas na 
floresta tropical, o sal  uma preciosidade. A caverna tem espao suficiente para 70 
elefantes de cada vez. Eles passam a noite no interior da caverna, dormindo em p ou 
furando a rocha com suas presas. Eles retiram pedaos da rocha, amassam com os 
dentes e engolem. As fezes de elefantes dentro da caverna so cheias de rocha moda.
Com a lanterna que tinham levado, Monet e a amiga caminharam para o fundo da 
caverna. A entrada  enorme  55 metros de largura  e fica mais larga na parte de 
dentro. Atravessaram uma plataforma coberta com fezes secas de elefantes, seus ps 
levantando nuvens de poeira enquanto caminhavam. A caverna ficou mais escura e o 
solo comeou a subir numa srie de prateleiras cobertas de limo verde. O limo era 
guano de morcego, matria vegetal digerida, excretada por uma colnia de morcegos 
frutfagos que vivia no teto.
Os morcegos saam voando dos nichos da caverna, passavam pela luz da lanterna, 
voavam em volta das suas cabeas com gritos estridentes. A lanterna os perturbou e 
outros mais acordaram. Centenas de olhos como jias vermelhas os observavam do teto 
da caverna. O som espalhava-se em ondas no teto, ecoando de um lado para o outro, um 
grito seco e raspante, como uma poro de portas com dobradias enferrujadas. Ento 
eles viram a maior maravilha da caverna Kitum.
A caverna  uma floresta tropical petrificada. Troncos mineralizados projetavam-se das 
paredes e do teto. Eram troncos de rvores da floresta tropical transformadas em pedra-
teca, rvores podo, conferas. Uma erupo do monte Elgon, h mais ou menos sete 
milhes de anos, enterrou a floresta sob a cinza e os troncos transformaram-se em opala 
e slex. Os troncos eram rodeados por cristais, agulhas brancas de minerais sados das 
rochas, pontiagudos como seringas de injeo, que cintilavam  luz da lanterna.
Monet e a amiga caminharam pela caverna, iluminando com a lanterna a floresta 
petrificada. Ter ele passado as mos nas rvores de pedra e espetado o dedo em um dos 
cristais? Encontraram ossos petrificados no teto e nas paredes da caverna. Ossos de 
crocodilos, de antigos hipoptamos e ancestrais dos elefantes. Aranhas esperavam em 
suas teias entre os troncos, alimentando-se de mariposas e outros insetos.
Chegaram a uma leve subida, onde a cmara principal tinha mais de cem metros de 
largura  mais larga do que o comprimento de um campo de futebol. Encontraram uma 
fenda e iluminaram o fundo com a lanterna. Havia alguma coisa estranha  uma massa 
cinza e marrom. Eram os corpos mumificados de filhotes de elefante. Quando os 
elefantes andavam pela caverna,  noite, guiavam-se pelo tato, experimentando o 
caminho  frente com as trombas. Os filhotes, s vezes, caam na fenda.
Monet e a amiga continuaram at o fundo da caverna, descendo uma rampa, e chegaram 
a uma coluna que parecia suportar o teto, com marcas profundas feitas pelas presas dos 
elefantes  os animais tinham arrancado pedaos de rocha em volta da base da coluna, 
mastigando para extrair o sal. Se os elefantes continuassem a cavar, a coluna poderia 
cair, levando com ela o teto da caverna Kitum. No fundo da caverna encontraram outra 
coluna, esta quebrada. Sobre ela estava pendurada uma colnia inteira de morcegos. 
Estava suja de guano  um tipo diferente do guano verde que havia perto da entrada da 
caverna. Esses morcegos alimentavam-se de insetos e o guano era uma massa pegajosa 
de insetos digeridos. Teria Monet posto a mo nessa massa?
A mulher desapareceu por vrios anos depois da viagem ao monte Elgon com Charles 
Monet. Ento, inesperadamente apareceu num bar em Mombaa, onde trabalhava como 
prostituta. Um mdico do Qunia, que havia investigado o caso lie Monet, estava 
tomando cerveja no bar e, conversando com lia, mencionou o nome de Monet. Ficou 
atnito quando ela disse, "Eu sei desse caso. Eu sou do oeste de Qunia e sou a mulher 
que estava com Charles Monet." A princpio o mdico no acreditou, mas mudou de 
opinio depois que ela contou a histria com grande preciso de detalhes. Depois desse 
encontro ela desapareceu na intensamente povoada Mombaa e a esta altura 
provavelmente j deve ter morrido de AIDS. Charles Monet voltou ao trabalho na casa 
das bombas da usina de acar. Atravessava diariamente os canaviais queimados, sem 
dvida admirando o monte Elgon e quando a montanha estava envolta nas nuvens, 
talvez sentisse sua atrao, como a fora de gravidade de um planeta invisvel. 
Enquanto Isso, alguma coisa estava fabricando cpias de si mesma dentro de Monet. 
Uma forma de vida adotou Charles Monet como hospedeiro e estava se multiplicando.
Uma DOR DE CABEA COMEA, tipicamente, no stimo dia depois da exposio ao 
agente. No stimo dia, depois da visita de Ano-Novo  caverna Kitum  isto , 8 de 
janeiro de 1980, Monet sentiu uma dor latejante atrs dos olhos. Resolveu ficar em casa 
e foi para a cama na sua casa de madeira. A dor ficou mais forte. A dor nos olhos 
continuava e estendia-se agora para as tmporas, como um crculo em volta da sua 
cabea. No cedia com aspirina e ento comeou uma dor excruciante nas costas. A 
faxineira, Johnnie, estava ainda de frias e ele havia contratado uma outra temporria. 
Ela tentou cuidar dele, mas na verdade no sabia o que fazer. Ento, no terceiro dia aps 
o comeo da dor de cabea, ele ficou nauseado e comeou a vomitar. A nusea ficou 
mais intensa e Monet estava vomitando em seco. Ao mesmo tempo, tornou-se 
estranhamento passivo. O rosto perdeu toda a aparncia de vida, transformando numa 
mscara inexpressiva, com os olhos fixos, paralisados, abertos. As plpebras estavam 
levemente cadas, contribuindo para uma aparncia peculiar, como se os olhos 
estivessem saindo das rbitas, semifechados. Os globos oculares
estavam vermelhos e brilhantes e pareciam congelados. A pele do rosto com um tom 
amarelado parecia queijo Limburger, com manchas vermelhas brilhantes em forma de 
estrelas. Monet parecia um zumbi. A faxineira ficou assustada. No compreendia aquela 
transformao. A personalidade dele mudou. Ficou taciturno, ressentido, zangado e sua 
memria desapareceu. Monet no delirava. Podia responder a perguntas, embora 
parecesse no saber exatamente onde estava. Agia como se acabasse de ter um leve 
derrame.
Quando Monet no apareceu no trabalho, seus companheiros ficaram preocupados e 
finalmente resolveram ir at sua casa. O corvo branco e negro, no telhado, viu quando 
eles entraram. Olharam para Monet e decidiram que ele devia ir para o hospital. Uma 
vez que ele estava muito mal e no podia dirigir, um dos seus companheiros o levou a 
um hospital particular na cidade de Kisumu, nas margens do lago Vitria. Os mdicos 
do hospital examinaram Monet e no encontraram explicao para o que havia 
acontecido com seus olhos, seu rosto e sua mente. Achando que ele devia estar com 
uma infeco bacteriana, aplicaram injees de antibiticos, sem nenhum resultado.
Os mdicos acharam que ele devia ir para o hospital Nairobi, o melhor hospital 
particular no leste da frica. Os telefones praticamente no funcionavam e no parecia 
valer a pena o esforo de avisar o hospital da chegada de Monet. Ele ainda podia andar e 
parecia capaz de viajar sozinho. Tinha dinheiro e compreendeu que devia ir para 
Nairobi. Eles o puseram no txi para o aeroporto e Monet embarcou num avio da 
Qunia Airways.
Um vrus quente da floresta tropical pode viver no interior de um avio, durante 24 
horas de vo, entre quaisquer cidades da terra. Todas as cidades so ligadas por uma 
teia de vias areas. Essa teia  uma rede. Uma vez que o vrus atinge a rede, pode se 
transportar para qualquer lugar num dia  Paris, Tquio, Nova York, Los Angeles, 
qualquer lugar a que o avio se destine. Charles Monet e a vida que se hospedava no seu 
corpo haviam entrado na rede.
O avio era um Fokker Friendship com propulso a hlice, voando numa ponte area e 
tinha 35 lugares. Levantou vo no lago Vitria, azul e cintilante, pontilhado com 
pirogas de pescadores. O Friendship fez meia-volta e inclinou para o leste, subindo 
acima das montanhas verdes com plantaes de ch e pequenas fazendas. Os avies de 
vos domsticos que roncam nos cus da frica geralmente viajam lotados, caso 
provvel daquele vo. O avio passou sobre faixas de florestas, conjuntos de cabanas 
redondas e aldeias com telhados de zinco. A terra desceu de repente, em prateleiras e 
desfiladeiros, passando de verde para marrom. Estavam cruzando o vale Rift. Os 
passageiros olharam para baixo, pelas janelas, para o local onde nascera a espcie 
humana. Viram grupos de cabanas, que pareciam pequenos pontos, no meio de crculos 
de mata virgem, com trilhas de gado irradiando delas. Os motores roncaram e o 
Friendship entrou nos corredores das nuvens fofas do Rift e comeou a balanar e saltar. 
Monet ficou nauseado.
As poltronas desse tipo de avio so estreitas e muito juntas umas das outras e  fcil 
ver tudo que acontece na cabine, hermeticamente fechada com o ar recirculando no seu 
interior. Qualquer cheiro espalha-se imediatamente. No  possvel ignorar o homem 
que vomita, inclinado para a frente, na sua poltrona. H alguma coisa errada com ele, 
mas ningum pode dizer exatamente o qu.
Ele segura o saco junto da boca. Tosse e regurgita e o saco est quase cheio. Talvez ele 
olhe em volta e ento possam ver os lbios manchados com uma coisa pegajosa e 
vermelha, Com pontos negros, como se ele estivesse mastigando gros de Caf. Os 
olhos tm a cor do rubi e o rosto  uma mscara inexpressiva de equimoses. As manchas 
vermelhas, que haviam aparecido alguns dias atrs com forma de estrelas, expandiram-
se  se confundiram com enormes sombras arroxeadas. Toda a cabea est ficando 
negra e azul. Os msculos do rosto ficam flcidos. O tecido conjuntivo est se 
dissolvendo e o rosto parece pender visivelmente do osso, como se estivesse se 
desprendendo da cabea. Ele abre a boca e vomita sem parar, o lquido continuando a 
sair mesmo depois de o estmago estar completamente vazio. O saco est cheio at a 
borda com uma substncia conhecida como vmito negro. O vmito negro no  
realmente negro, mas um lquido pontilhado com duas cores, negro e vermelho, uma 
mistura de grnulos negros com sangue arterial.  uma hemorragia e cheira como um 
matadouro. O vmito negro  repleto de vrus.  extremamente infeccioso, e letal, um 
lquido que apavora qualquer especialista militar em biorrisco. O cheiro do vmito 
negro enche o ar da cabine de passageiros. Monet enrola a parte superior do saco, cheio 
demais, ameaando transbordar, e o entrega para uma comissria de bordo.
Quando um vrus quente se multiplica num hospedeiro pode saturar o corpo com suas 
partculas, do crebro  pele. Ento, os especialistas militares dizem que o vrus passou 
por "extrema amplificao". No  algo como o resfriado comum. Quando uma extrema 
amplificao se manifesta, uma gota do sangue da vtima pode conter centenas de 
milhes do vrus. Durante o processo, o corpo  parcialmente transformado em 
partculas de vrus. Em outras palavras, o hospedeiro  possudo por uma forma de vida 
que tenta transform-lo em algo igual a ela. Entretanto, a transformao no  
inteiramente bem-sucedida e o resultado  uma grande quantidade de carne liquidificada 
misturada ao vrus, uma espcie de acidente biolgico. Extrema amplificao ocorreu 
em Monet e o sinal  o vmito negro.
Ele parece procurar manter o corpo rgido, como se qualquer movimento pudesse 
romper alguma coisa dentro dele. Seu sangue est coagulando  a corrente sangnea 
lana cogulos que se alojam por toda parte. O fgado, os rins, pulmes, mos, ps e a 
cabea comeam a ficar congestionados com cogulos sangneos. Na verdade, ele est 
tendo um derrame no corpo inteiro. Os cogulos acumulam-se nos msculos intestinais, 
cortando o suprimento de sangue para os intestinos. Os msculos intestinais comeam a 
morrer e os intestinos comeam a relaxar e ficam flcidos. Monet no parece mais sentir 
dor, porque os cogulos alojados no crebro cortaram o suprimento de sangue, 
provocando pequenos derrames. Sua personalidade est sendo eliminada pelo dano 
infligido ao crebro. Isso se chama desper-sonalizao, quando a vida e os detalhes do 
carter parecem desaparecer e o homem torna-se um autmato. Pequenos pontos do seu 
crebro esto se liqefazendo. As funes superiores da conscincia apagam-se em 
primeiro lugar, deixando as partes profundas do tlamo (o crebro primitivo do rato, do 
lagarto) ainda vivas, ainda em funcionamento. Pode-se dizer que o quem de Charles 
Monet j est morto, enquanto o qu de Charles Monet continua vivo.
A crise de vmito parece ter rompido alguns vasos sangneos no seu nariz  ele tem 
uma hemorragia nasal. O sangue corre das duas narinas, um lquido brilhante, arterial, 
sem cogulos, que pinga nos dentes e no queixo. Esse sangue no coagula e corre sem 
cessar. Uma comissria d a ele algumas toalhas de papel, mas o sangue no coagula e 
as toalhas ficam encharcadas.
Quando um homem parece estar morrendo numa poltrona de avio ao seu lado, voc 
no quer embara-lo chamando sua ateno para o problema. Voc quer se convencer 
de que o homem vai ficar bem. Talvez ele no se d bem com viagens de avio. Est 
enjoado, o pobrezinho, e no so raras hemorragias nasais em avies, onde o ar  seco e 
rarefeito... e voc pergunta com certa hesitao se pode fazer alguma coisa para ajud-
lo. Ele no responde, ou resmunga palavras que voc no entende. Ento, voc procura 
ignorar o caso todo, mas a viagem parece interminvel. Talvez os comissrios se 
ofeream para ajud-lo. Mas as vtimas desse tipo de vrus quente sofrem alterao do 
comportamento que pode incapacit-las para responder a um oferecimento de ajuda. 
Tornam-se hostis e no querem ser tocadas. No querem falar, respondem s perguntas 
com rosnados ou monosslabos. Parecem no encontrar as palavras. Podem dizer como 
se chamam, mas no sabem o dia da semana nem podem explicar o que est 
acontecendo com elas.
O Friendship continua roncando no meio das nuvens, acompanhando a extenso do vale 
Rift e Monet recosta na poltrona e agora parece estar dormindo... Talvez alguns 
passageiros pensem que est morto. No, no, no est morto. Est se mexendo. Os 
olhos vermelhos esto abertos e olhando lentamente em volta.
 o fim da tarde e o sol desce na direo das montanhas a oeste do vale Rift, lanando 
lminas de luz em todas as direes, como se estivesse se partindo sobre o equador. O 
Friendship faz uma volta suave e atravessa a escarpa leste do Rift. A terra, mais alta 
agora, passa de marrom para verde e uma linha de montanhas verdes passa sob a asa 
direita. Um minuto depois, o avio desce e aterrissa no aeroporto internacional de Jomo 
Kenyatta. Monet se move. Ele pode andar. Fica de p com dificuldade. Cambaleia na 
escada de desembarque at o asfalto da pista. Sua camisa est vermelha de sangue. No 
tem bagagem. Tudo que leva est dentro do seu corpo, uma carga de vrus amplificados. 
Monet foi transformado numa bomba humana de vrus. Caminha lentamente para o 
terminal, passa pelo porto de desembarque e sai para uma rua sinuosa onde esto os 
txis. Os motoristas o cercam.
 Txi? Txi?
 Nairobi... Hospital  ele murmura.
Um deles o ajuda a entrar no carro. Os taxistas de Nairobi gostam de conversar com os 
passageiros e esse provavelmente pergunta se ele est enjoado. A resposta deve ser 
bvia. O estmago de Monet est um pouco melhor, pesado, amortecido e intumescido, 
como se estivesse cheio de comida e no vazio, lacerado e em fogo.
O txi entra na rodovia Uhuru, seguindo para Nairobi. Passa por campos pontilhados 
com rvores de accia doce, fbricas, chega a um cruzamento e entra no movimento 
intenso de Nairobi. Multides amontoam-se no acostamento da estrada, mulheres 
caminham na trilha de terra batida, homens passeiam, crianas de bicicleta, um homem 
conserta sapatos ao lado da estrada, um trator puxa um vago carregado com carvo. O 
txi vira para a esquerda na estrada Ngong, passa por um parque municipal, sobe uma 
colina, passa fileiras de altas rvores gomferas, entra numa rua estreita, passa pelo 
posto da guarda e entra no terreno do hospital Nairobi. Estaciona num ponto de txis ao 
lado de uma barraca de flores. A tabuleta ao lado da porta de vidro indica 
EMERGNCIA. Monet d ao motorista algum dinheiro, sai do txi, abre a porta de 
vidro, vai at o balco de recepo e indica que est muito doente. Tem dificuldade para 
falar.
O homem est sangrando e eles vo admiti-lo dentro de poucos minutos. Deve esperar 
ao lado de uma porta, at o mdico ser chamado, mas ser atendido imediatamente, no 
precisa se preocupar. Monet senta na sala de espera.
 uma sala pequena, com bancos estofados. A luz antiga, clara e forte do leste da frica 
passa atravs de uma fileira de janelas, iluminando a mesa cheia de revistas sujas, 
desenhando retngulos de luz no cho de pedra cinzenta que tem um ralo no centro. A 
sala cheira vagamente a madeira queimada e suor e est repleta de pessoas com ar 
abatido. Africanos e europeus sentados lado a lado. Sempre h algum na emergncia, 
com um corte, esperando para ser suturado. Todos esperam pacientemente, apertando 
um pedao de toalha contra a cabea, segurando um curativo ensangentado na ponta de 
um dedo. Assim, Charles Monet est sentado na seo de emergncia e no parece 
muito diferente dos outros, exceto por sua face cheia de manchas roxas e os olhos 
vermelhos. Um cartaz na parede aconselha os pacientes a terem cuidado com roubo de 
bolsas e carteiras e outro diz:
POR FAVOR, GUARDEM SILNCIO
AGRADECEMOS SUA COOPERAO.
AVISO: ESTE  UM DEPARTAMENTO DE EMERGNCIA.
OS CASOS DE EMERGNCIA TERO PRIORIDADE. PODEMOS PEDIR A VOC 
PARA ESPERAR POR ESSES
CASOS ANTES DE SER ATENDIDO.
Monet guarda silncio, esperando ser atendido. De repente ele entra na ltima fase. A 
bomba humana de vrus explode. Os militares especializados em biorrisco tm uma 
expresso para descrever isso. Eles dizem que a vtima "desmoronou e sangrou at o 
fim", ou, mais delicadamente, dizem que a vtima "entrou em colapso".
Monet fica tonto e extremamente fraco, sua espinha est flcida e sem nervos e ele 
perde todo o senso de equilbrio. A sala est girando. Ele est entrando em choque. Est 
se despedaando. No pode parar. Inclina-se para a frente, encosta a cabea nos joelhos, 
e com um gemido rouco traz do estmago para a boca uma quantidade incrvel de 
sangue. Monet perde a conscincia e cai no cho. O nico som  o estertor na sua 
garganta, enquanto ele continua vomitando, mesmo inconsciente. Ento, com o som de 
um lenol que se rasga, suas entranhas se abrem na altura do esfncter e o sangue jorra. 
O sangue sai misturado com o revestimento interno dos intestinos. Suas entranhas esto 
desfeitas. O revestimento dos intestinos se desprendeu e est sendo expelido com 
enorme quantidade de sangue. Monet desmoronou e est sangrando at o fim.
Os outros pacientes na sala de espera levantam-se, afastam-se do homem no cho e 
pedem para chamar um mdico. O sangue forma poas cada vez maiores em volta dele. 
Tendo destrudo seu hospedeiro, o agente est agora saindo por todos os orifcios e 
"tentando" encontrar um novo anfitrio.
Saltador
15 DE JANEIRO DE 1980
ENFERMEIROS E ATENDENTES chegam correndo, pem Charles Monet na maca e 
o levam para a unidade de tratamento intensivo do hospital Nairobi. O mdico  
chamado nos alto-falantes: um paciente est sangrando na UTI. Um jovem mdico, 
Shem Musoke, corre para a cena. Um homem vigoroso com senso de humor, o Dr. 
Musoke era considerado um dos melhores jovens mdicos do hospital. Trabalhava 
longas horas e era muito bom em casos de emergncia. Encontrou Monet na maca. No 
tinha idia do que havia com o homem, a no ser a hemorragia bvia e macia. No 
havia tempo para descobrir a causa. A respirao do homem ficava cada vez mais 
difcil. Ento, ele engoliu sangue e parou de respirar.
O Dr. Musoke procurou o pulso. Estava fraco e irregular. Uma enfermeira levou um 
laringoscpio, um tubo que pode ser usado para abrir as vias respiratrias. O Dr. 
Musoke rasgou a camisa de Monet para observar o movimento do peito e na cabeceira 
da maca, inclinou-se para o rosto de Monet, at ver os olhos do paciente, de cabea para 
baixo.
Os olhos vermelhos fixos no Dr. Musoke estavam completamente imveis, com as 
pupilas dilatadas: leso cerebral. Ningum em casa. O nariz estava ensangentado e a 
boca tambm. O Dr. Musoke inclinou a cabea do paciente para trs, para abrir as vias 
respiratrias, e inserir o laringoscpio. No estava usando luvas de borracha. Passou o 
dedo em volta da lngua do paciente, para limpar os resduos, tirando muco e sangue. 
Sua mo ficou coberta de sangue coagulado e pegajoso. O paciente cheirava a vmito e 
sangue, mas isso no era novidade para o Dr. Musoke e ele se concentrou no trabalho. 
Inclinou-se para a frente e com o rosto a poucos centmetros do de Monet, examinou sua 
boca. Ento, afastou a lngua de Monet para o lado para ver melhor a epiglote e inseriu 
o la-ringoscpio na passagem que leva aos pulmes, com um dos olhos na extremidade 
do instrumento. De repente Monet estremeceu numa convulso.
Monet vomitou.
O vmito negro subiu em volta do tubo e saiu pela boca, o fluido vermelho e negro 
espirrando no ar, e caindo como uma chuva sobre o Dr. Musoke. O lquido atingiu os 
olhos do mdico, seu jaleco branco e escorreu por seu peito, marcando-o com listras de 
gosma vermelha com pintas negras. Dos olhos correu para a boca.
Ele ajeitou a cabea do paciente na maca e limpou o vmito da boca com os dedos. O 
sangue cobriu as mos e os braos do mdico e estava em toda parte, na maca, no cho. 
Os enfermeiros da UTI no podiam acreditar no que estavam vendo e recuaram, sem 
saber o que fazer. O Dr. Musoke olhou para a garganta do paciente e empurrou o larin-
goscpio at o pulmo. Viu que as vias areas estavam cheias de sangue.
O paciente recomeou a respirar e o ar parecia raspar seus pulmes.
Aparentemente estava em choque devido  perda de sangue e comeava a desidratar. O 
sangue sara praticamente de todos os orifcios do seu corpo e no havia o suficiente 
para manter a circulao. Por isso o corao estava lento demais e a presso arterial 
caindo a zero. Precisava de uma transfuso.
Uma enfermeira levou um saco de plstico cheio de sangue. O Dr. Musoke o prendeu 
no suporte e inseriu a agulha no brao do paciente. Havia alguma coisa errada com as 
veias, o sangue se espalhou em volta da agulha. O Dr. Musoke tentou outra vez, em 
outro lugar do brao, procurando a veia. No conseguiu, mais sangue. Tentou vrias 
outras vezes, mas, cada vez que inseria a agulha, o sangue escorria das picadas pelo 
brao do paciente, sem coagular. O Dr. Musoke desistiu, temendo que o paciente viesse 
a morrer da hemorragia intensa nas vrias picadas da agulha. Os intestinos continuavam 
a sangrar e a hemorragia era agora negra como piche.
Monet entrou em coma profundo e nunca mais recobrou a conscincia. Morreu na 
unidade de tratamento intensivo s primeiras horas da manh. O Dr. Musoke ficou ao 
lado dele at o fim.
No tinham idia do que o havia matado. A causa da morte era extremamente incerta  
uma morte inexplicada. Abriram o corpo para a autpsia e descobriram que os rins 
estavam destrudos e o fgado morto. O fgado deixara de funcionar vrios dias antes da 
sua morte. Estava amarelo e com algumas partes liqefeitas  parecia o fgado de um 
cadver de trs dias. Era como se Monet tivesse se transformado num cadver antes 
mesmo de morrer. A expulso dos intestinos quando o revestimento se desprende  
outro efeito geralmente encontrado em cadveres de dois ou trs dias. Qual era 
exatamente a causa da morte? Era impossvel dizer, porque havia muitas causas 
possveis. Tudo tinha se desfeito dentro do homem, absolutamente tudo e cada um 
desses danos podia ser fatal, a coagulao do sangue, as hemorragias macias, a morte 
do fgado, os intestinos cheios de sangue. Na falta de palavras, categorias ou 
terminologia para descrever o que havia acontecido com o homem, eles finalmente 
resolveram rotular sua morte como um caso de "colapso fulminante do fgado". Os 
restos mortais foram postos num saco  prova d'gua e, segundo uma testemunha, 
enterrados no local. Quando visitei Nairobi, alguns anos depois, ningum lembrava 
onde ficava o tmulo.
NOVE DIAS DEPOIS de ser atingido nos olhos e na boca pelo vmito do paciente, o 
Dr. Shem Musoke comeou a sentir dor nas costas. No era afeito a esse tipo de dor  
na verdade, jamais havia tido dor nas costas em toda a sua vida, mas estava chegando 
aos trinta e nessa idade, muitas pessoas comeam a ter problemas de coluna. Nos 
ltimos dias o Dr. Musoke tinha trabalhado intensamente. Passou uma noite em claro ao 
lado de um paciente com problemas cardacos, depois, na noite seguinte, foi o francs 
com hemorragia, vindo de algum lugar do norte. Assim, h alguns dias ele no dormia. 
No pensou muito no incidente do vmito e quando a dor comeou a se espalhar por seu 
corpo, no relacionou uma coisa com a outra. Ento, quando olhou no espelho notou 
que seus olhos estavam ficando vermelhos.
Olhos vermelhos  seria malria? Estava com febre, portanto era uma infeco. A dor 
nas costas aumentou at atingir todos os msculos. Comeou a tomar comprimidos 
contra malria, mas sem nenhum efeito, ento pediu a uma enfermeira para aplicar uma 
injeo contra malria.
A enfermeira aplicou no msculo do brao. O Dr. Musoke sentiu uma dor intensa com a 
injeo. Isso nunca havia acontecido antes. Ento, comeou a dor abdominal e ele 
pensou que podia estar com febre tifide. Tomou uma srie de comprimidos 
antibiticos, mas sem nenhum efeito. Enquanto isso, os pacientes precisavam dele e o 
Dr. Musoke continuou a trabalhar no hospital. A dor no estmago e nos msculos 
tornou-se intolervel e ele ficou ictrico.
Incapaz de diagnosticar a prpria doena e com dores fortssimas, ele procurou a Dra. 
Antonia Bagshawe, mdica do hospital Nairobi. Ela o examinou, tirou a temperatura, 
verificou os olhos vermelhos, a ictercia, a dor abdominal e no chegou a um 
diagnstico definido, mas imaginou que podiam ser pedras na vescula. Uma crise de 
pedras na vescula ou um abscesso no fgado pode provocar febre, ictercia e dor 
abdominal  os olhos vermelhos ela no sabia explicar  e ela pediu uma ultra-
sonografia do fgado. A Dra. Bagshawe estudou as imagens do fgado do Dr. Musoke e 
viu que o rgo estava aumentado, mas alm disso no encontrou nada de anormal. 
Continuou a achar que eram pedras na vescula. A essa altura ele estava muito doente e 
eles o puseram num quarto particular com enfermeiras que o atendiam durante 24 horas. 
O rosto do Dr. Musoke era agora uma mscara inexpressiva.
Essa possvel crise de pedras na vescula podia ser fatal. A Dra. Bagshawe recomendou 
uma cirurgia exploratria. Ele foi operado na principal sala de cirurgia do hospital 
Nairobi pelo Dr. Imre Lofler. Fizeram uma inciso na altura do fgado e afastaram os 
msculos abdominais. O que encontraram dentro do Dr. Musoke era amedrontador e 
sem explicao. O fgado inchado e vermelho parecia em pssimas condies, mas no 
encontraram nenhuma pedra. Enquanto isso ele no parava de sangrar. Qualquer 
procedimento cirrgico corta vasos sangneos que sangram por algum tempo, depois o 
sangue coagula, ou, se a hemorragia continua, o cirurgio aplica compressas de espuma 
gelatinosa para parar o sangramento. Os vasos sangneos de Musoke no paravam de 
sangrar  o sangue no coagulava. Era como se tivesse ficado hemoflico. Passaram 
gel em toda a superfcie do fgado e o sangue atravessava a espuma. O sangue vazava 
como de uma esponja espremida. Usaram os aparelhos de suco para retirar uma 
grande quantidade de sangue, mas  medida que bombeavam, a cavidade se enchia outra 
vez. Era como cavar um buraco abaixo de um lenol d'gua. Mais tarde, um dos 
cirurgies disse que a equipe estava "mergulhada em sangue at os cotovelos". Tiraram 
uma amostra do fgado para bipsia que puseram num vidro com soluo salina e 
trataram de fechar Musoke o mais depressa possvel.
A deteriorao foi rpida depois da cirurgia e seus rins comearam a falhar. Ele parecia 
estar morrendo. Enquanto isso, a Dra. Antonia Bagshawe precisou viajar e foi 
substituda pelo Dr. David Silverstein. A perspectiva de colapso dos rins e aplicao de 
dilise no Dr. Musoke criou um clima de emergncia no hospital  ele era muito 
estimado pelos colegas que no queriam perd-lo. Silverstein comeou a suspeitar que 
Musoke fora atacado por um vrus pouco comum. Retirou uma amostra de sangue do 
paciente e extraiu o soro, um lquido dourado claro que resta quando so retirados os 
glbulos vermelhos. Enviou alguns tubos de soro congelado aos laboratrios  ao 
Instituto Nacional de Virologia, em Sandringham, frica do Sul, e para os Centros de 
Controle de Doenas, em Atlanta, Gergia, Estados Unidos. Ento esperou os 
resultados.
Diagnstico
DAVID SILVERSTEINMORA em Nairobi, mas tem uma casa perto de Washington, 
D.C. Recentemente, no vero, quando ele estava nos Estados Unidos tratando de alguns 
negcios, encontrei-me com ele numa lanchonete do shopping, no muito distante da 
sua casa. Sentamos a uma mesa e ele me falou sobre os casos de Monet e Musoke. 
Silverstein  pequeno e magro, mais ou menos quarenta anos, usa bigode e culos e tem 
um olhar vivo e atento. Embora seja americano, tem um leve sotaque swahili. No dia 
em que nos encontramos ele usava um palet de brim e cala jeans, estava com um belo 
bronzeado e parecia em tima forma e bem descansado. Silverstein  piloto e dirige o 
prprio avio. Tem a maior clnica particular da frica oriental e  uma figura famosa 
em Nairobi.  o mdico pessoal de Daniel arap Moi, presidente do Qunia, e o 
acompanha nas viagens ao exterior. Trata de todas as pessoas importantes da frica 
oriental, os polticos corruptos, os atores e as atrizes que adoecem nos safris, a 
decadente nobreza anglo-africana. Viajou com Diana, lady Delamere, como seu mdico 
pessoal quando ela comeou a envelhecer, para monitorar a presso e o corao (ela 
queria continuar a praticar seu esporte preferido, a pesca em alto-mar, mas sofria do 
corao) e foi tambm mdico de Beryl Markham. Markham, autora de West With 
theNight, uma memria dos seus dias de aviadora na frica oriental, costumava 
freqentar o aeroclube de Nairobi, onde tinha fama de desordeira e valentona quando 
bebia. ("Ela era uma senhora muito conservada quando a conheci.") Seu paciente, o Dr. 
Musoke, tambm se tornou uma celebridade nos anais da doena. "Determinei um 
tratamento de manuteno", disse Silverstein. "Era tudo que podia fazer. Tentei 
aliment-lo e procurava abaixar a febre quando ficava muito alta. Basicamente, eu 
estava tratando algum sem planos de sobrevivncia."
Uma noite, s duas horas da madrugada, o telefone de Sil-verstein tocou em sua casa, 
em Nairobi. Era um pesquisador americano, que trabalhava no Qunia, para dizer que os 
sul-africanos haviam encontrado algo muito estranho no sangue de Musoke. "Ele  soro-
positivo para o vrus de Marburg. Isto  muito grave. No sabemos muito sobre 
Marburg."
Silverstein nunca ouvira falar no vrus de Marburg. "Depois do telefonema, no 
consegui mais dormir", disse ele. "Tive uma espcie de sonho acordado, imaginando o 
que podia ser Marburg. Deitado na cama, ele pensou no sofrimento do amigo e colega 
Musoke, temendo que o vrus tivesse se espalhado pelo hospital. Ouvia a voz do 
pesquisador dizendo, "No sabemos muito sobre Marburg." Finalmente, levantou, 
vestiu-se e foi para o hospital, chegando ao seu consultrio antes do nascer do dia. O 
vrus de Marburg era citado num dos livros de medicina que ele apanhou.
Era uma descrio muito breve. O Marburg  um organismo africano com nome 
alemo. Os vrus recebem o nome do lugar em que so descobertos. Marburg  uma 
cidade antiga no norte da Alemanha, cercada por florestas e campinas, com fbricas nos 
vales verdes. O vrus apareceu em Marburg em 1967, numa fbrica chamada Behring 
Works, que fabricava vacinas usando clulas dos rins de macacos verdes africanos. A 
Behring Works importava regularmente macacos da frica central. O vrus chegou  
Alemanha escondido em algum lugar de uma remessa de quinhentos ou seiscentos 
animais de Entebe, Uganda. ns dois ou trs animais tinham o vrus incubado, 
provavelmente sem sinal visvel da doena. De qualquer modo, logo depois da chegada 
dos macacos na Behring Works, o vrus comeou a se disseminar entre os animais e 
alguns deles desmoronaram e morreram de hemorragia. O agente Marburg viajou 
invisvel da frica central para a Alemanha e quando chegou l, trocou de espcie, 
atacando a populao humana. Este  um exemplo de amplificao de vrus.
A primeira pessoa infectada pelo agente Marburg foi Klaus E, empregado da fbrica de 
vacinas Behring Works, encarregado de alimentar os macacos e lavar suas jaulas. Ele 
adoeceu com o vrus em 8 de agosto de 1967 e morreu duas semanas depois.  to 
pouco o que se sabe sobre o agente Marburg que s um livro foi publicado a respeito, 
uma coleo de trabalhos apresentados num simpsio sobre o vrus, na Universidade de 
Marburg, em 1970. Nesse livro aprendemos que:
O tratador dos macacos, HEINRICH R, voltou das frias no dia 13 de agosto de 1967 e 
fez seu trabalho de matar macacos do dia 14 ao dia 23. Os primeiros sintomas 
apareceram em 21 de agosto.
A assistente de laboratrio RENATE L. quebrou um tubo de ensaio que ia ser 
esterilizado, que continha material infectado, no dia 28 de agosto, e adoeceu em 4 de 
setembro de 1967.
E assim por diante. As vtimas comearam a sentir dor de cabea no stimo dia depois 
da exposio ao vrus e da em diante foram piorando rapidamente, com febre alta, 
perdas de sangue e choque terminal. Durante alguns dias, em Marburg os mdicos 
pensaram que o mundo ia acabar. Trinta pessoas apanharam o vrus e sete morreram em 
verdadeiros lagos de sangue. O ndice de mortes em Marburg foi, no total, de uma 
pessoa em cada quatro, o que faz do Marburg um agente extremamente letal. Mesmo 
nos melhores hospitais, onde os pacientes so ligados a mquinas revivificadoras, o 
Marburg mata um quarto dos doentes. O vrus da febre amarela, considerado um vrus 
extremamente letal, em comparao, mata somente um em cada vinte pacientes que 
chegam ao hospital.
O Marburg pertence  famlia de vrus chamados filovrus. O Marburg foi o primeiro 
filovrus descoberto. A palavra "filovrus"  latina e significa "vrus filamentoso". Todos 
os filovrus se parecem, como se fossem irmos e so diferentes de qualquer outro vrus 
do mundo. Enquanto a maior parte dos vrus apresenta-se como partculas redondas 
como gros de pimenta, o vrus filamentoso j foi comparado a fios embaralhados de 
corda, a fios de cabelo, a vermes, a cobras. Quando aparecem numa enorme massa 
lquida, como so vistos depois de destrurem uma vtima, so como um tubo de 
espaguete jogado no cho. As partculas do Marburg s vezes se enrolam, formando 
laos. Marburg  o nico vrus conhecido com forma de anel.
Na Alemanha, os efeitos do Marburg no crebro foram excepcionalmente assustadores, 
semelhantes aos efeitos da raiva. O vrus provocava leso no sistema nervoso central e 
podia destruir o crebro, como a raiva. As partculas do Marburg tambm se pareciam 
com as partculas da raiva. A partcula do vrus da raiva tem a forma de uma bala de 
revlver. Se esticarmos uma bala, ela comea a parecer com um pedao de corda e se 
fizermos um lao, ela se transforma num anel, como o Marburg. Pensando que o 
Marburg podia ser relacionado com a raiva, eles o chamaram de "raiva distendida". 
Mais tarde, ficou claro que o Marburg pertence  sua prpria famlia.
Em 1980, quando Charles Monet morreu, a famlia dos filovrus compreendia o 
Marburg e mais dois tipos de vrus chamados Ebola. Os Ebolas receberam o nome de 
Ebola Zaire e Ebola Sudo. O Marburg era o mais brando dos trs irmos filovrus. O 
pior era o Ebola Zaire. O ndice de mortes nos seres humanos infectados com o Ebola 
Zaire  de nove entre dez. Noventa por cento das pessoas que apanham o Ebola Zaire 
morrem. O Ebola Zaire  um eliminador de seres humanos.
O vrus Marburg  o irmo mais brando  afeta os humanos mais ou menos como a 
radiao nuclear, lesando praticamente todos os tecidos do corpo. Ataca com ferocidade 
especial os rgos internos, tecidos conjuntivos, intestinos e a pele. Na Alemanha, todos 
os sobreviventes perderam o cabelo  ficaram completa ou parcialmente calvos. O 
cabelo morria na raiz e caa aos maos, como se tivessem recebido queimaduras de 
radiao. A hemorragia ocorria de todos os orifcios do corpo. Vi a fotografia de um dos 
homens mortos pelo Marburg, tirada horas depois da sua morte. Ele est na cama com o 
torso descoberto. O rosto  inexpressivo. O peito, os braos e o rosto apresentam 
manchas e equimoses e gotculas de sangue aparecem nos mamilos.
Durante o perodo de convalescena dos sobreviventes, a pele se soltou dos seus rostos, 
mos, ps e genitais externos. Alguns homens ficaram com os testculos inchados e 
semi-apodrecidos. Um dos piores casos foi o de um atendente do necrotrio que havia 
manejado corpos de vtimas do Marburg. Mesmo depois de a infeco desaparecer, o 
smen desses homens continuava repleto de vrus Marburg durante meses depois da 
cura e s vezes o vrus se instalava nos testculos e se multiplicava. O vrus permaneceu 
tambm por muitos meses no fluido do interior dos olhos. Um homem infectou a mulher 
com o Marburg atravs de relaes sexuais.
O agente Marburg tinha um efeito estranho no crebro. "A maioria dos pacientes 
apresentava comportamento sombrio, levemente agressivo ou negativista", segundo o 
livro. "Dois pacientes tinham a sensao de estarem deitados sobre migalhas de po." 
Um paciente ficou psictico, aparentemente em resultado da leso cerebral. O paciente 
chamado Hans O.V. no apresentou sinal de perturbao cerebral e sua febre baixou, ele 
parecia estar se recuperando quando, inesperadamente, teve uma queda aguda de 
presso, as pupilas dilataram at os olhos se transformarem em pontos negros e fundos 
 ele estava entrando em colapso  e morreu. A autpsia revelou uma hemorragia 
macia e fatal no centro do crebro. Ele "sangrou at a morte" no interior do crebro.
A Organizao Mundial de Sade procurou urgentemente descobrir o local exato de 
origem dos macacos, a fim de determinar onde o vrus Marburg vivia in natura. Parecia 
evidente que o vrus Marburg no circulava naturalmente nos macacos, porque os 
matava to rapidamente que no poderia us-los como hospedeiros teis. Sendo assim, 
o Marburg vivia em outro tipo de hospedeiro  um inseto, um rato, uma aranha, um 
rptil? Onde, exatamente, os macacos haviam sido apanhados? Porque esse lugar seria o 
esconderijo do vrus. Logo depois do aparecimento do vrus na Alemanha, uma equipe 
de investigadores da Organizao Mundial de Sade voou para Uganda e entrevistou os 
nativos que apanhavam os macacos. Eles foram muito vagos sobre o local em que 
pegavam os animais. Pareciam no querer dar informao, e no se lembravam de onde 
tinham vindo os macacos. A equipe da Organizao Mundial de Sade concluiu que os 
macacos vinham das florestas no centro de Uganda, mas no puderam descobrir o local 
exato de origem dos animais, nem do vrus.
O mistrio continuou por muitos anos. Ento, em 1982 um veterinrio ingls apareceu 
com uma histria interessante sobre os macacos Marburg. Chamarei o veterinrio de Sr.
Jones (hoje, ele prefere permanecer no anonimato). No vero de 1967, quando o vrus 
apareceu na Alemanha, o Sr. Jones tinha um emprego temporrio, substituindo o 
inspetor veterinrio que estava de licena, no departamento de exportao de animais, 
em Entebe, onde os macacos com o vrus Mar-burg foram embarcados. Essa casa de 
macacos, dirigida por um negociante alemo (um "maroto simptico" como disse b Sr. 
Jones) estava exportando cerca de 13 mil macacos por ano, para a Europa, o que 
representava uma boa entrada de divisas, pelo menos segundo os padres de Uganda. A 
carga infectada foi embarcada num vo noturno para Londres e da, para a Alemanha  
onde os vrus saram dos macacos e "tentaram" se instalar na populao humana de 
Marburg.
Depois de vrios telefonemas, finalmente localizei o Sr. Jones, em Cambridge, 
Inglaterra, onde mora hoje, aposentado da sua posio na Cambridge University, e 
trabalha como veterinrio consultor. Ele me disse: "Tudo que os animais receberam, 
antes do embarque, foi uma inspeo visual."
 Feita por quem?  perguntei.
 Por mim  disse ele.  Eu os examinei para ver se pareciam normais. s vezes 
acontecia de um ou dois se machucarem no transporte ou apresentarem leses na pele.
Seu mtodo consistia em apanhar os que pareciam doentes e remov-los, antes do 
embarque no avio. Quando, algumas semanas depois, os macacos comearam a morrer 
com o vrus Marburg, Jones ficou arrasado.
 Fiquei chocado porque havia assinado a guia de exportao  disse ele.  Sinto 
hoje que tenho as mortes daquelas pessoas nas minhas mos. Mas isso sugere que eu 
podia ter feito alguma coisa para evitar. Entretanto, de modo algum eu podia saber.
Naquela poca, o vrus era desconhecido pela cincia e uns dois ou trs macacos sem 
sintomas muito visveis podem ter provocado a deflagrao da doena.
A histria fica mais sinistra. Ele continuou: "Estavam matando os animais doentes, ou 
pelo menos foi o que pensei." Porm, mais tarde, ficou sabendo que no era isso que 
estava acontecendo. O alemo, dono da companhia, estava enviando os macacos para 
uma pequena ilha no lago Vitria, onde eles eram soltos. Com tantos macacos doentes 
soltos, a ilha deve ter se tornado um foco de vrus. "Ento, quando esse cara precisava 
de macacos, ele ia at a ilha e apanhava alguns, sem o meu conhecimento." O Sr. Jones 
acredita na possibilidade de o agente Marburg ter se instalado na ilha, passando a 
circular entre os macacos e que alguns dos animais que foram parar na Alemanha 
tenham sado da ilha. Mas quando a equipe da OMS foi investigar, mais tarde, "meu 
patro, o alemo, me deu ordem para no dizer nada, a no ser que perguntassem". 
Aconteceu que ningum perguntou coisa alguma ao Sr. Jones  ele nem chegou a se 
encontrar com a equipe da OMS. O fato de a equipe no procurar o inspetor dos 
macacos "foi uma falha no servio de epidemiologia, mas uma boa poltica", ele 
observou. Se ele tivesse revelado a existncia de uma doena infestando uma ilha no 
lago Vitria, o alemo, negociante de macacos, perderia seus fregueses europeus e 
Uganda perderia uma fonte de divisas muito valiosa.
Logo depois do caso de Marburg, o Sr. Jones lembrou um fato que comeou a lhe 
parecer importante. Entre 1962 e 1965, ele estava no leste de Uganda, nas encostas do 
monte Elgon, examinando o gado. Durante esse perodo, soube pelos chefes locais que 
os habitantes do lado norte do vulco, ao longo do rio Greek, estavam sofrendo de uma 
doena que provocava hemorragia, morte e "uma estranha erupo na pele"  e que os 
macacos da rea estavam morrendo de uma doena parecida. O Sr. Jones no investigou 
o caso e assim no chegou a confirmar a natureza da doena. Porm, parece possvel 
que nos anos anteriores ao aparecimento do vrus Marburg na Alemanha, uma epidemia 
da doena alastrou-se nas encostas do monte Elgon.
A VISO PESSOAL DO SR. JONES da epidemia do Marburg me faz pensar numa 
lanterna apontada para um buraco escuro. D-nos uma viso direcionada mas 
assustadora do fenmeno mais amplo da origem e disseminao dos vrus tropicais. Ele 
me sugeriu que alguns dos macacos Marburg foram apanhados num grupo de ilhas no 
lago Vitria, as ilhas Sese. As ilhas
Sese consistem num arquiplago plano, coberto de florestas, na parte noroeste do lago 
Vitria e podem ser alcanadas com uma pequena viagem de barco de Entebe. A ilha 
das pragas podia estar situada entre as Sese ou perto delas. O Sr. Jones no lembra o 
nome da ilha quente. Diz que  "perto" de Entebe. O patro do Sr. Jones na poca, o 
negociante de macacos, fez um trato com os habitantes das ilhas Sese, para comprar os 
macacos que eles apanhassem. Os macacos eram uma praga nas ilhas e eles ficaram 
satisfeitos por se livrarem deles, especialmente em troca de dinheiro. Assim, o 
negociante comprava macacos selvagens das ilhas Sese e os animais doentes ele soltava 
em outra ilha, perto de Entebe. E alguns dos macacos da ilha das pragas aparentemente 
iam parar na Europa.
Entre os juncos de papiros e nas plancies desoladas da costa oeste do lago Vitria, de 
frente para as ilhas Sese, fica uma colnia de pescadores chamada Kasensero, de onde 
se avista as ilhas Sese. Kasensero foi um dos primeiros lugares do mundo em que 
apareceu o vrus da AIDS. Desde ento, os epidemiologistas descobriram que a costa 
noroeste do lago Vitria foi um dos epicentros iniciais da AIDS. A crena geral  de que 
a AIDS originou-se nos primatas da frica, macacos pequenos e grandes e que, de certo 
modo, saltou desses animais para a raa humana. Supe-se que o vrus tenha passado 
por uma srie de mutaes muito rpidas na ocasio desse salto dos primatas para os 
humanos, o que permitiu que se estabelecesse com sucesso nos seres humanos. Nos 
anos decorridos desde o aparecimento da AIDS, o povoado de Kasensero foi devastado. 
O vrus matou uma grande parte dos habitantes. Dizem que outros povoados nas 
margens do lago Vitria foram completamente apagados do mapa.
Os pescadores de Kasensero eram e so contrabandistas famosos. Nos seus barcos de 
madeira e canoas com motor de popa eles transportavam mercadoria ilegal de um lado 
para o outro do lago, usando as ilhas Sese como esconderijo.  fcil supor que se um 
negociante de macacos estivesse transportando os animais de uma margem para outra 
do lago Vitria, certamente devia visitar os contrabandistas Kasensero ou seus vizinhos.
Uma teoria generalizada sobre a origem da AIDS sustenta que no fim da dcada de 
1960 surgiu um negcio muito lucrativo na frica, a exportao de primatas para os 
pases industrializados para serem usados em pesquisas mdicas. Uganda era uma das 
fontes principais desses animais. Quando o comrcio de macacos se estabeleceu por 
toda a frica central, os nativos que trabalhavam para o sistema, os caadores de 
macacos e todos que lidavam com os animais foram expostos a um grande nmero de 
macacos selvagens, alguns deles com vrus raros. Esses animais, por sua vez, eram 
amontoados em jaulas, passando os vrus de um para outro. Alm disso, espcies 
diferentes de macacos ficavam juntas. Um ambiente perfeito para uma epidemia de 
vrus capazes de saltar de uma espcie para outra. Era tambm um laboratrio natural 
para a rpida evoluo do vrus e possivelmente levou  criao do HIV. O ataque do 
HIV  raa humana teria sido um resultado do comrcio de macacos. Ser que a AIDS 
veio de uma ilha do lago Vitria? Uma ilha quente? Quem sabe. Quando comeamos a 
investigar as origens da AIDS e do Marburg, as luzes se apagam e tudo fica escuro, mas 
podemos sentir conexes secretas. Os dois vrus parecem ter o mesmo padro.
QUANDO SOUBE O efeito do vrus Marburg nos seres humanos, o Dr. David 
Siherstein persuadiu as autoridades do servio de sade do Qunia a fechar o hospital 
Nairobi. Durante uma semana, os pacientes que chegavam ao hospital eram recusados, 
enquanto sessenta pessoas ficaram de quarentena, a maior parte da equipe mdica. 
Incluam o mdico que havia feito a autpsia em Monet, enfermeiros que haviam 
atendido Monet ou Musoke, a equipe cirrgica e enfermeiros que haviam atendido 
Musoke bem como enfermeiros, atendentes e tcnicos que tivessem manipulado 
qualquer secreo dos dois homens. Foi verificado que grande parte do pessoal do 
hospital tivera contato direto com um ou com outro, ou com amostras de sangue e 
fluidos dos dois pacientes. Os cirurgies que haviam operado Musoke, lembrando 
perfeitamente que tinham ficado "com sangue at os cotovelos", amargaram a 
quarentena por duas semanas, sem saber se iam adoecer vtimas do vrus Marburg. Uma 
nica bomba humana de vrus entrou na sala de espera da emergncia, explodiu e 
obrigou o hospital a fechar as portas. Charles Monet foi o mssil Exocet que atingiu o 
hospital abaixo da linha d'gua.
O Dr. Shem Musoke sobreviveu ao encontro com o agente quente. Dez dias depois de 
adoecer, ele notou uma mudana para melhor. Em vez de ficar quieto na cama, 
desorientado e furioso recusou-se a tomar os remdios. Certo dia, quando uma 
enfermeira tentava vir-lo na cama, ele brandiu o punho fechado para ela e exclamou, 
"Eu tenho uma bengala e vou bater em voc". A partir da ele comeou a melhorar e 
depois de tantos dias, a febre cedeu e os olhos clarearam. Sua mente e sua personalidade 
voltaram e ele se recuperou lenta, mas completamente. Hoje  um dos principais 
mdicos no hospital Nairobi, trabalhando na equipe de David Silverstein. Quando o 
entrevistei, ele disse que quase no tinha lembrana das semanas em que estivera 
infectado com o vrus Marburg. "Lembro-me apenas de uma coisa ou outra", disse ele. 
"Lembro que estava na maior confuso. Lembro que, antes da operao, sa do quarto 
com o tubo da endovenosa dependurado do meu brao. Lembro das enfermeiras me 
virando e virando na cama. No lembro muito da dor. A nica de que posso falar  a que 
senti nos msculos e nas costas. E lembro-me de Monet vomitando em mim." Ningum 
mais no hospital apresentou um caso comprovado da doena de Marburg.
Quando um vrus est "tentando", por assim dizer, atacar a espcie humana, o sinal de 
alarme  uma srie de casos que aparecem em tempos e lugares diferentes. Esses so os 
mi-croataques. O que aconteceu no hospital de Nairobi foi uma emergncia isolada, um 
microataque de um vrus da floresta tropical com potencial desconhecido para iniciar 
uma cadeia explosiva de transmisso letal na raa humana.
Amostras do sangue do Dr. Musoke foram enviadas para laboratrios de todo o mundo, 
que incluram o vrus Marburg nas suas colees de formas de vida. O Marburg no seu 
sangue veio originalmente do vmito negro de Monet. Hoje esse tipo particular de vrus 
 conhecido como tipo Musoke. Uma parte foi parar em frascos de vidro nos 
congeladores do Exrcito dos Estados Unidos, onde  mantido vivo num zoolgico de 
agentes quentes.
Mulher e soldado
25 DE SETEMBRO DE 1983, 18 HORAS
THURMONT, MARYLAND. Trs anos depois da morte de Charles Monet. Comeo da 
noite. Uma tpica cidade americana. Na montanha Catoctin, uma cordilheira dos montes 
Apalaches, que se estende do norte para o sul, no centro do estado, as rvores 
comeavam a mudar de cor, passando do verde para amarelos e dourados. Adolescentes 
dirigiam suas pickups lentamente nas ruas da cidade, esperando que alguma coisa 
acontecesse, desejando que o vero no tivesse terminado. Fracos odores de outono 
tocavam o ar, o cheiro de mas maduras, um azedume de folhas mortas, ps de milho 
secando nos campos. Nas plantaes de ma, na periferia da cidade, bandos de melros 
barulhentos instalavam-se nos galhos, para a noite. Os faris dos carros seguiam para o 
norte na rua Gettysburg.
Na cozinha de uma casa vitoriana, perto do centro da cidade, a major Nancy Jaax, 
veterinria do exrcito dos Estados Unidos, preparava o jantar para os filhos. Ps um 
prato no microondas e apertou o boto. Estava na hora de esquentar a galinha para as 
crianas. Nancy Jaax vestia cala de malha, camiseta e estava descala. Tinha calos nos 
ps, resultado do treinamento de artes marciais. Tinha cabelos castanhos avermelhados, 
que chegavam  altura dos ombros e olhos esverdeados. Na verdade, seus olhos eram de 
duas cores, verdes, com um halo em volta da ris cor de mbar. Era ex-rainha  miss 
Agricultura do Estado do Kansas. Seu corpo era esguio e atltico e seus movimentos 
rpidos, com gestos leves dos braos e das mos. Seus filhos estavam impacientes e 
cansados e ela procurava preparar o jantar o mais depressa possvel.
Jaime, de cinco anos, estava agarrada na perna da me. Agarrou a cala de Nancy e 
puxou, fazendo a me se inclinar para um lado. Ento Jaime puxou para o outro lado e 
Nancy quase caiu. Jaime era pequena para a idade e tinha olhos esverdeados como os de 
Nancy. Seu filho, Jason, com sete anos, via televiso na sala de estar. Era um menino 
extremamente magro e quieto e provavelmente ia ser alto, como o pai.
O marido de Nancy, tenente-coronel Jerry Jaax, tambm era veterinrio. Estava no 
Texas para um curso de treinamento e Nancy estava sozinha com as crianas. Jerry 
tinha telefonado para dizer que o Texas estava quente como o inferno, que estava com 
saudades e queria estar em casa. Nancy tambm sentia falta dele. Desde que comearam 
a namorar, no curso preparatrio, nunca estiveram separados mais do que alguns dias.
Nancy e Jerry Jaax  o sobrenome  pronunciado "Jacks"  eram membros do Corpo 
de Veterinrios do Exrcito, um pequeno grupo de "mdicos de ces". Eles cuidavam 
dos ces de guarda do Exrcito, bem como dos cavalos, das vacas, das ovelhas, dos 
porcos, das mulas, coelhos, camundongos e macacos. Inspecionavam tambm a comida 
do Exrcito.
Nancy e Jerry tinham comprado a casa vitoriana logo depois que foram designados para 
Fort Detrick. A base onde trabalhavam ficava perto e eles estavam remodelando a casa 
aos poucos. A cozinha era muito pequena e, no momento, os canos e os fios estavam 
ainda  mostra. No muito distante da cozinha, a sala de estar tinha janelas abauladas e 
largas com uma coleo de plantas tropicais e samambaias no parapeito interno e entre 
as plantas uma gaiola com um papagaio da Amaznia chamado Herky. O papagaio 
comeou a cantar.
Eu vou, eu vou,
P'ra casa agora eu vou!
 Mame! Mame!  ele gritou, alvoroado, imitando a voz de Jason.
 O qu?  disse Nancy. Ento, vendo que era o papagaio murmurou.  Idiota.
O papagaio queria pousar no ombro dela. "Mame! Mame! Jerry! Jaime! Jason!" 
gritou o papagaio, chamando todos os membros da famlia. Como ningum respondeu, 
assobiou "Colonel Bogey March" da Ponte do rio Kwai. E ento, "O quee! O quee! 
Mame! Mame!"
Nancy no queria tirar Herky da gaiola.
Ela trabalhava rapidamente, arrumando os pratos e os talheres na mesa. Alguns oficiais 
em Fort Detrick haviam notado que ela movimentava as mos de modo um tanto 
abrupto e a acusavam de ter mos "rpidas demais" para um trabalho delicado em 
situaes de perigo. Nancy comeara a treinar artes marciais em parte para conseguir 
gestos firmes, calmos e potentes e tambm por sentir as frustraes de uma oficial 
feminina tentando fazer carreira no Exrcito. Tinha um metro e 65 de altura. Gostava de 
treinar com soldados fortes, com um metro e oitenta. Gostava de bater um pouco neles, 
tinha satisfao em erguer o p acima das suas cabeas. Nancy usava mais os ps do que 
as mos nos treinos, porque suas mos eram delicadas. Podia partir quatro tbuas com 
um pontap, num movimento giratrio. Tinha chegado ao ponto de ser capaz de matar 
um homem com os ps descalos, uma idia que no era muito agradvel. J havia sado 
dos treinos com um dedo do p quebrado, o nariz sangrando ou um olho roxo. Jerry 
balanava a cabea. "Nancy com outro olho roxo."
Major Nancy detestava fazer todo o servio da casa. Limpar gelia de uva dos tapetes 
no era uma tarefa gratificante e, alm disso, Nancy no tinha tempo. Uma vez ou outra 
tinha uns ataques de limpeza e durante uma hora corria pela casa, jogando coisas dentro 
dos armrios. Tambm cozinhava para a famlia. Jerry era um fracasso na cozinha. 
Tambm discutiam por causa da tendncia de Jerry de comprar coisas impulsivamente 
 uma motocicleta, um barco a vela. Jerry comprou o veleiro quando estavam em Fort 
Riley, no Kansas. Depois foi aquele maldito Cadillac a diesel, com os bancos forrados 
de couro vermelho. Eles iam juntos para o trabalho, no Cadillac, mas ento o carro 
comeou a soltar fumaa pelo caminho inteiro, antes mesmo de estar todo pago. Um dia 
Nancy perdeu a pacincia e disse para o marido: "Voc pode sentar naquele couro 
vermelho, com o carro parado na frente da casa, quanto quiser, mas eu no entro mais 
nele." Assim, venderam o Cadillac e compraram um Honda Accord. Ento chegou o dia 
em que Jerry foi longe demais e comprou essa casa vitoriana em pssimo estado, sem 
consult-la. Chegou em casa e disse:
 Ei, Nancy, adivinhe o que comprei. Uma casa em Thur-iapnt.
 Voc fez o qu?
O resultado foi uma pequena briga que durou pouco. A casa dos Jaax era a maior casa 
vitoriana da cidade, uma pilha de tijolos torreada, com telhas de ardsia, janelas altas e 
cpula. Ficava numa esquina movimentada perto da estao de ambulncias. As sirenes 
os acordavam  noite. A casa
No foi muito cara. Estava vazia, abandonada, com vidros das janelas quebrados e na 
cidade diziam que o ltimo proprietrio tinha se enforcado no poro. Um dia a viva do 
suposto
Sr
forcado apareceu na porta dos Jaax. A velhinha pequena enrugada queria dar uma 
olhada na sua antiga casa e fixando em Nancy os olhos azuis disse. "Menina, voc vai 
odiar esta casa. Eu odiei."
Havia outros animais na casa, alm do papagaio. Numa gaiola na sala de estar morava 
uma jibia chamada Sanso.
Uma vez ou outra ela fugia da gaiola, entrava no suporte centrl da mesa de jantar, que 
era oco, e dormia durante alguns dias. A idia de uma jibia dormindo debaixo da mesa 
provocava arrepios em Nancy. Imaginava se a cobra ia acordar quando estivessem 
jantando. Nancy fez um estdio na cpula da casa. Certa vez a jibia saiu da gaiola e 
desapareceu durante vrios dias. Eles bateram e bateram no suporte da mesa mas ela 
no estava l. Ento, tarde da noite, Nancy estava no estdio e a jibia saiu do meio das 
vigas do teto e ficou dependurada na frente do seu rosto, olhando para ela com os olhos 
parados. Nancy gritou. Tinham tambm um setter irlands e um terrier Airedale. 
Sempre que os Jaax eram designados para outro posto, os animais iam com eles, em 
caixas e gaiolas, o ecossistema porttil da famlia.
A despeito das diferenas, Nancy amava Jerry. Era um homem alto, bonito, com cabelos 
prematuramente grisalhos e a fala macia com que tentou convenc-la a comprar o 
Cadillac diesel forrado com couro vermelho. Jerry tinha olhos castanhos, nariz afilado, 
como o de um gavio e compreendia Nancy melhor do que qualquer outra pessoa no 
mundo. Nancy e Jerry
jaax tinham pouca vida social fora do casamento. Os dois tinham crescido na zona rural 
do Kansas, onde as fazendas ficavam a mais de 30 quilmetros umas das outras, mas s 
se conheceram na faculdade de veterinria da Universidade Estadual do Kansas. 
Ficaram noivos algumas semanas depois e casaram quando Nancy tinha vinte anos. Por 
ocasio da formatura estavam quebrados e com dvidas, sem dinheiro para abrir uma 
clnica veterinria. Resolveram ento se alistar no Exrcito.
Como Nancy no tinha tempo para cozinhar durante a semana, ela passava o sbado na 
cozinha. Fazia um ensopado de carne ou um cozido, ou preparava algumas galinhas, que 
guardava no freezer. Durante a semana, ela descongelava e aquecia o jantar no 
microondas. Nessa noite, enquanto descongelava a galinha, tentava resolver a questo 
dos vegetais. Que tal ervilhas em lata? As crianas gostavam. A av de Nancy tinha um 
armazm em Wichita, Kansas, onde s vendia ervilhas em lata da marca Libby's. Nancy 
abriu o armrio da cozinha e tirou uma lata de ervilhas Libby's.
Procurou em duas gavetas e no encontrou o abridor de latas. Abriu ento a gaveta onde 
estavam os utenslios mais variados, como colheres de cozinha e descascadores de 
vegetais, numa desordem de pesadelo.
Para o diabo com o abridor. Tirou um faco da gaveta. Seu pai sempre dizia que nunca 
se deve usar faca para abrir uma lata. Nancy Jaax nunca deu ateno aos conselhos do 
pai. Enfiou a ponta do faco na lata e bateu no cabo com a mo aberta. De repente sua 
mo escorregou para baixo e deslizou pela lmina, antes que ela pudesse evitar. O corte 
foi profundo.
O faco caiu no cho e gotas de sangue pingaram no balco da cozinha. "Filho da 
me!", ela gritou. A lmina cortou o centro da palma da sua mo direita. Nancy 
imaginou se tinha atingido o osso ou cortado algum tendo. Pressionou o corte para 
fazer parar o sangue, ps a mo sob a torneira aberta e a pia imediatamente ficou 
vermelha. Nancy moveu os dedos. Estavam todos funcionando, portanto nenhum tendo 
fora atingido. No era um corte muito grave. Erguendo a mo acima da cabea foi ao 
banheiro e apanhou a caixa de Band-Aid. Assim que o sangue coagulou, juntou as 
bordas do corte e aplicou o Band-Aid, para apressar a cicatrizao. Nancy detestava ver 
sangue, mesmo que fosse o seu. Tinha averso por sangue. Ela sabia o que o sangue 
pode conter.
Nancy dispensou o banho das crianas por causa do corte na mo e levou os dois para a 
cama. Jaime dormia com ela.
Nancy no se importava, especialmente agora que Jerry no estava em casa e isso a 
fazia sentir-se mais perto dos filhos. Jaime parecia precisar da sensao de segurana e 
sempre ficava um pouco inquieta quando o pai estava fora da cidade.
Projeto Ebola
26 DE SETEMBRO DE 1983
NA MANH SEGUINTE, Nancy Jaax acordou s quatro horas. Levantou-se 
silenciosamente para no acordar Jaime, tomou banho de chuveiro e vestiu o uniforme, 
cala verde-oliva com uma listra negra no lado externo da perna, camisa verde-oliva e, 
como estava frio, antes do nascer do sol vestiu o suter militar negro, com as divisas de 
major e folhas douradas no ombro. Tomou uma Diet-Coke para espantar o sono e subiu 
para seu estdio na cpula da casa.
Nesse dia ela ia vestir o traje espacial biolgico. Estava fazendo treinamento de 
patologia veterinria, o estudo das doenas dos animais. Sua especialidade seriam os 
efeitos dos agentes quentes do nvel 4 de biossegurana e na presena desse tipo de 
agentes era preciso usar o traje espacial biolgico. Estava estudando tambm para as 
provas de doutorado em patologia, que seriam na semana seguinte. Quando o sol se 
ergueu naquela manh acima das plantaes de ma e dos campos do lado leste da 
cidade, ela abriu seus livros e inclinou-se sobre eles. Os melros comeavam a grasnar 
nas rvores e os caminhes passavam pelas ruas de Thurmont, debaixo da sua janela. A 
palma da sua mo direita ainda latejava.
s sete horas ela desceu para o quarto e acordou Jaime, que estava enrodilhada na 
cama. Foi ao quarto de Jason e s depois de algumas sacudidelas ele acordou. A 
babysitter chegou, uma mulher de idade, a Sra. Trapane, vestiu Jaime e Jason e preparou 
o caf para os dois, enquanto Nancy voltava para a cpula e para seus livros. A Sra. 
Trapane depois do caf levava Jason at o nibus da escola e ficava com Jaime at 
Nancy voltar do trabalho,  noite.
s sete e meia, Nancy fechou os livros, beijou os filhos e saiu, lembrando que precisava 
passar no banco e retirar dinheiro para pagar a Sra. Trapane. Dirigindo o Honda, seguiu 
para o sul na estrada Gettysburg, acompanhando o sop da montanha Catoctin. Perto de 
Fort Detrick, na cidade de Fre-derick o trnsito era mais intenso e ela diminuiu a 
marcha. Saiu da estrada e chegou ao porto principal da base. O guarda acenou para ela. 
Entrou  direita, passou pela praa de armas com o mastro da bandeira e estacionou na 
vaga ao lado do prdio compacto, com poucas janelas, feito de concreto e tijolos 
amarelos, que ocupava quase dez acres de terreno. Dos respiradouros altos, em cima do 
telhado saa o ar filtrado pelo exaustor, bombeado dos laboratrios de biologia, 
hermeticamente fechados, no interior do prdio. Era ali o Instituto de Pesquisas Mdicas 
de Doenas Infecciosas do Exrcito dos Estados Unidos United States Army Medicai 
Research Institute oflnfec-tious Diseases), ou USAMRIID.
Os militares geralmente chamam o USAMRIID simplesmente de "instituto". Quando 
dizem USAMRIID, arrastam a palavra, como fazem os militares, como se estivessem 
dizendo You Sam Rid, fazendo-a ecoar por mais tempo no ar. A misso do USAMRIID 
 defesa mdica. O instituto conduz pesquisas no sentido de proteger os soldados contra 
armas biolgicas e doenas infecciosas naturais. Especializa-se em medicamentos, 
vacinas e conteno biolgica. H sempre vrios programas simultneos em andamento 
 pesquisa para vacinas contra vrios tipos de bactrias, como o antraz e o botulismo, 
pesquisas sobre as caractersticas de vrus que podem infectar os soldados americanos, 
naturalmente ou sob a forma de arma de guerra. No comeo da sua existncia, o 
USAMRIID realizava pesquisas sobre armas biolgicas ofensivas  estava 
desenvolvendo tipos de bactrias e vrus letais, que podiam ser acondicionados em 
bombas e lanados sobre o inimigo. Em 1969, o presidente Richard Nixon assinou uma 
ordem executiva declarando ilegal o desenvolvimento de armas biolgicas ofensivas nos 
Estados Unidos. O USAMRIID passou ento a desenvolver vacinas protetoras, 
concentrando-se na pesquisa bsica para controlar microorganismos letais. O instituto 
tem meios para deter um vrus monstro antes que ele acenda o pavio da cadeia explosiva 
de transmisso letal na raa humana.
Major Nancy Jaax entrou pela porta dos fundos do prdio e mostrou seu distintivo de 
segurana ao guarda que sorriu para ela. Dirigiu-se  rea principal das zonas de 
conteno, passando por um labirinto de corredores. Por toda parte viam-se soldados 
com uniforme de trabalho, cientistas e tcnicos civis com crachs de identificao. 
Todos pareciam muito ocupados e raramente algum parava nos corredores para 
conversar.
Nancy queria ver o que tinha acontecido com os macacos Ebola durante aquela noite. 
Seguiu pelo corredor do Nvel Zero de biossegurana, na direo de um nvel 4 da rea 
de conteno chamada AA-5, ou a sute Ebola. Os nveis so numerados 0, 2 3 e 
finalmente 4, o mais alto. (Por algum motivo no existe nvel 1.) Todos os nveis de 
conteno do instituto, do nvel 2 ao nvel 4, so mantidos sob presso negativa do ar. 
Assim, se acontecer um vazamento, o ar flui para dentro das zonas e no para fora, para 
o mundo normal. A sute chamada AA-5 era um grupo de salas de bioconteno com 
pressurizao negativa, planejada por um cientista civil do Exrcito, Eugene Johnson, 
para servir de laboratrio de pesquisa do vrus Ebola e do seu irmo, o Marburg. 
Johnson havia infectado alguns macacos com o vrus Ebola e os estava tratando com 
vrios medicamentos, procurando deter o Ebola. H poucos dias os macacos tinham 
comeado a morrer. Nancy fazia parte do projeto Ebola na funo de patologista. Seu 
trabalho consistia em determinar a causa da morte dos macacos.
Nancy aproximou-se de uma janela interna, feita de vidro pesado, como um aqurio, 
que dava diretamente para a sute Ebola, no nvel 4. Dali no podia ver os macacos. 
Todas as manhs, um civil tratador de animais vestia um traje espacial e entrava para 
alimentar os macacos, limpar as gaiolas e verificar sua condio fsica. Nessa manh 
havia um papel pregado na face interior do vidro com alguma coisa escrita a mo pelo 
tratador. O papel dizia que durante a noite dois animais tinham "desmoronado", isto , 
haviam entrado em colapso e sangrado at a morte.
Nancy devia vestir o traje espacial e dissecar imediatamente os macacos. O vrus Ebola 
destrua os rgos internos do animal e as carcaas deterioravam bruscamente logo 
depois da morte. Os tecidos se transformavam em gelia, mesmo quando eram postos na 
geladeira. A dissecao tinha de ser feita rapidamente, antes que comeasse a liquefao 
espontnea, porque no  possvel dissecar uma massa informe e pegajosa.
QUANDO NANCY JAAX se inscreveu na equipe de patologia do instituto, o coronel 
comandante no queria aceit-la. Nancy pensou que fosse por ela ser mulher. Ele disse: 
"No  trabalho para uma mulher casada. Voc vai negligenciar o trabalho ou 
negligenciar sua famlia."
Ento Nancy mostrou a ele seu currculo, esperando faz-lo mudar de idia. O coronel 
disse:
 Posso ter quem eu quiser no meu grupo  insinuando que ela no era competente, e 
continuou, mencionando o grande garanho puro-sangue Secretariat , se eu quiser ter 
Secretariat no meu grupo, posso ter Secretariat.
 Bem, senhor, eu no sou exatamente um cavalo de tiro  ela respondeu, indignada, 
atirando o currculo sobre a mesa dele.
O coronel reconsiderou o caso e permitiu que ela entrasse para o grupo.
No Exrcito, o trabalho com agentes biolgicos comea no nvel 2 de biossegurana, 
depois passa para o nvel 3. S se atinge o nvel 4 quando se adquiriu muita experincia 
e o Exrcito pode nunca permitir que uma pessoa trabalhe nesse nvel. Para trabalhar 
nos nveis inferiores,  obrigatria uma srie de vacinas. Nancy fora vacinada contra 
febre amarela, febre Q, febre do vale Rift, contra os complexos VEE, EEE e WEE e 
contra tularemia, antraz e botulismo. Alm disso, estava vacinada contra raiva, uma vez 
que era veterinria. Seu sistema imunolgico reagiu mal a todas as vacinas. Ela ficava 
nauseada. O Exrcito ento afastou-a do programa de vacinao. Nessa altura, Nancy 
Jaax estava praticamente discriminada: no podia exercer qualquer trabalho no nvel 3, 
porque no tolerava as vacinas. Ento s podia trabalhar com o traje espacial nas reas 
do nvel 4. No havia vacinas contra os agentes quentes do nvel 4. Um agente quente 
do nvel 4  um vrus letal contra o qual no existe vacina nem cura.
VRUS EBOLA  assim chamado por causa do rio Ebola, um tributrio do rio Congo, 
que corre na regio norte do Zaire. O rio Ebola leva para o rio Congo tudo que arrasta 
na sua passagem pela floresta tropical e por aldeias isoladas. O primeiro surto conhecido 
do Ebola Zaire  o tipo mais quente do vrus Ebola  ocorreu em setembro de 1976, 
quando ele se manifestou simultaneamente em 55 aldeias prximas da confluncia dos 
dois rios. Foi como se tivesse vindo de lugar nenhum e nove em cada dez vtimas 
morreram. O Ebola Zaire  o mais quente dos filovrus e o mais temido no instituto. A 
opinio geral no USAMRIID  de que "essa gente que trabalha com o Ebola  louca. 
Manipular o Ebola era desafiar a morte. O melhor era trabalhar com alguma coisa mais 
segura, como o antraz.
Eugene Johnson, o civil especialista em biorrisco, que dirigia o programa de pesquisa 
do Ebola no instituto, tinha fama de ser um tanto ousado demais. Ele  uma lenda para o 
pequeno nmero de pessoas no mundo todo que conhece realmente os agentes quentes e 
sabem como manipul-los.  um dos lderes mundiais da caada ao Ebola. Gene 
Johnson  um homem grande, para no dizer macio, com rosto largo, traos pesados e 
cabelo castanho sempre despenteado, barba castanha espessa, a barriga pendendo sobre 
o cinto e olhos intensos e fundos. Com uma jaqueta de couro negro, Gene Johnson 
passaria facilmente por um membro do grupo Grateful Dead. No parece nem um pouco 
um homem que trabalha para o Exrcito.  conhecido como um dos melhores 
virologistas de campo (que caa vrus em ambientes naturais), mas por algum motivo 
no tem muitos trabalhos publicados. Isso explica de certo modo sua fama lendria. As 
pessoas que conhecem seu trabalho costumam dizer "Gene Johnson fez isto, Gene 
Johnson fez aquilo", e tudo a que se referem  inteligente e imaginativo. Johnson  
bastante tmido, um pouco desconfiado de todo mundo, profundamente desconfiado no 
que se refere a vrus. Acho que no conheo ningum com tanto medo de vrus como 
Gene Johnson e o que impressiona nesse medo e o quanto ele sabe sobre agentes 
quentes. Passou anos viajando pela frica central  procura de reservatrios dos vrus 
Ebola e Marburg. Praticamente esquadrinhou a frica  procura dessas formas de vida, 
mas nunca as encontrou nos seus esconderijos naturais. Ningum sabia de onde vinham 
os filo-vrus, ningum sabia onde era seu habitat natural. A trilha desaparecia nas 
florestas e savanas da frica central. Encontrar o reservatrio secreto do Ebola era uma 
das grandes ambies de Johnson.
Ningum no instituto queria se envolver no seu projeto. Ebola, o flagelo, fazia coisas 
com as pessoas que ningum sequer queria imaginar. O vrus era assustador demais para 
ser manejado, mesmo por aqueles acostumados a trabalhar com os trajes espaciais. No 
queriam trabalhar na pesquisa do Ebola porque no queriam que o Ebola resolvesse 
pesquis-los. No Sabiam o tipo de hospedeiro no qual o vrus vivia  uma mos- a, um 
morcego, um inseto, uma aranha ou algum rptil. Ou italvez vivesse em leopardos ou 
elefantes. E no sabiam exatamente como o vrus se disseminava, como saltava de 
hospedeiro para hospedeiro.
Gene Johnson tinha pesadelos constantes sobre o Ebola, desde que comeou a trabalhar 
com ele. Acordava coberto de suor frio, depois de sonhar que o Ebola havia atacado a 
populao humana. Seus sonhos eram mais ou menos sempre iguais. Ele estava com o 
traje espacial, segurando o Ebola na mo enluvada  um lquido saturado com o Ebola. 
De repente via o lquido escorrendo pela luva que, ele percebia ento, estava toda furada 
e o lquido estava entrando no traje espacial. Ele acordava atordoado, murmurando, 
"Meu Deus, eu fui exposto! Ento via que estava no quarto com a mulher dormindo ao 
seu lado.
Na realidade, o Ebola ainda no havia invadido de modo decisivo e irreversvel a raa 
humana, mas a invaso parecia Iminente. O vrus comeava a aparecer em microssurtos 
aqui e ali, na frica. O temor era de que os microssurtos pudessem se transformar num 
incontrolvel maremoto. Se o vrus mata nove entre dez pessoas infectadas, e no 
existia vacina nem cura para ele, era fcil visualizar as possibilidades. Johnson 
costumava dizer que no sabemos o que o Ebola havia feito no passado e no sabemos o 
que pode fazer no futuro. O Ebola era imprevisvel. Um tipo do Ebola trazido pelo ar 
podia emergir e circular em volta do mundo em seis semanas, como a gripe, matando de 
um tero a nove dcimos da populao humana, ou podia permanecer para sempre como 
um devorador marginal, matando alguns seres humanos de cada vez.
O Ebola  um vrus bastante simples  to simples quanto uma tempestade de fogo. 
Mata os seres humanos com rapidez e eficincia e uma gama devastadora de efeitos.  
parente distante do sarampo, da caxumba e da raiva.  tambm parente de alguns vrus 
da pneumonia, do vrus parainfluenza que provoca resfriados nas crianas e do vrus 
sincicial respiratrio, que pode provocar uma pneumonia fatal nos portadores de AIDS. 
O Ebola parece ter desenvolvido os piores elementos de todos os vrus citados acima. 
Como o sarampo, provoca uma erupo na pele de todo o corpo. Alguns dos seus 
efeitos so parecidos com os da raiva  psicoses, loucura. Outros efeitos se parecem 
sinistramente com os de um resfriado forte.
A partcula do vrus Ebola contm somente sete protenas diferentes  sete molculas 
grandes. Trs dessas protenas so vagamente conhecidas, e quatro, completamente 
desconhecidas  sua estrutura e sua funo so ainda um mistrio. Sejam quais forem 
os seus efeitos, as protenas do Ebola aparentemente tm como alvo do seu ataque 
especial o sistema imunolgico. Nisso assemelha-se ao HIV que tambm destri esse 
sistema, mas ao contrrio do HIV, o ataque do Ebola  rpido e explosivo.  medida 
que o Ebola invade o organismo humano, o sistema imunolgico entra em colapso e a 
vtima parece perder a capacidade de responder ao ataque viral. O corpo transforma-se 
numa cidade cercada, com os portes escancarados e os exrcitos hostis entram aos 
montes, acampando nas praas pblicas e incendiando tudo. E a partir do momento que 
o Ebola entra na corrente sangnea, a guerra est perdida, a cidade est condenada. No 
se pode lutar contra o Ebola como lutamos contra um resfriado. Em dez dias o Ebola faz 
o que a AIDS precisa de um ano para fazer.
No se sabe ainda como o Ebola  transmitido de pessoa para pessoa. Os pesquisadores 
do Exrcito acreditavam que o vrus Ebola era transmitido atravs do contato direto com 
o sangue e os fluidos do sangue (do mesmo modo que  transmitido o vrus da AIDS). 
Mas o Ebola aparentemente tinha tambm outras vias de transmisso. Um grande 
nmero das vtimas do Ebola na frica manipulara cadveres de pessoas mortas pelo 
vrus. Ao que parece, uma das vias de transmisso do Ebola vai dos mortos para os 
vivos, em gotas de sangue no coagulado e substncias viscosas dos cadveres. No 
Zaire, durante o surto de 1976, os parentes enlutados beijavam e abraavam os mortos, 
ou preparavam o corpo para o enterro e ento, de trs a 14 dias depois, mostravam os 
primeiros sinais da infeco pelo Ebola.
A experincia de Gene Johnson com o Ebola era bastante simples. Ele infectava alguns 
macacos com o vrus e ento os tratava com medicamentos, esperando conseguir 
alguma melhora. Desse modo, poderia descobrir um medicamento capaz de lutar contra 
o Ebola e possivelmente curar a vtima.
Os macacos so quase iguais aos seres humanos, biologicamente falando, por isso so 
usados para experincias mdicas. Tanto os humanos quanto os macacos so primatas e 
o Ebola alimenta-se dos primatas como qualquer outro predador escolhe um tipo de 
carne. O Ebola no diferencia o ser humano do macaco. O vrus salta facilmente de um 
para o outro.
NANCY HAVIA SE apresentado como voluntria para o grupo de patologia do projeto 
de Gene Johnson. Era trabalho no nvel 4, para o qual estava qualificada porque no 
precisava tomar vacina. Estava ansiosa para provar sua competncia e para trabalhar 
com vrus letais. Entretanto, algumas pessoas no instituto duvidavam da sua capacidade 
de trabalhar com o traje espacial, no nvel 4. Ela era "mulher e casada"  podia entrar 
em pnico. Observavam suas mos e afirmavam que pareciam nervosas ou desajeitadas. 
Como se no bastasse a afirmativa de que suas mos eram desajeitadas, nada boas para 
trabalhar no nvel 4 com agentes quentes, achavam que ela podia se cortar ou picar com 
uma agulha contaminada  ou picar outra pessoa. Suas mos tornaram-se um problema 
de segurana.
Seu superior imediato era o tenente-coronel Anthony Johnson (no  parente de Gene 
Johnson, o civil que dirigia o projeto Ebola). Tony Johnson  um homem de fala macia 
e muito calmo. Era ele quem tinha de decidir se permitia a entrada dela no nvel 4 de 
biossegurana. Para ter certeza de que estava a par da situao, procurou se informar no 
instituto. Quem conhece Nancy Jaax? Quem pode falar da sua fora e das suas 
fraquezas? O major Jerry Jaax, marido de Nancy, procurou o coronel Johnson. Jerry era 
contra a idia de Nancy usar um traje espacial. Exps com grande convico seus 
motivos. Falou de "discusses familiares" sobre a possibilidade de Nancy trabalhar com 
o vrus Ebola. "Discusses familiares"  em outras palavras, Jerry disse a Nancy, 
"Voc  a nica mulher que eu tenho." Ele no usava o traje espacial no seu trabalho e 
no queria que a mulher usasse. Sua maior preocupao era com o fato de Nancy 
trabalhar com o Ebola. No aceitava a idia da mulher que ele amava, me dos seus 
filhos, ter nas mos uma monstruosa forma de vida letal e incurvel.
O tenente-coronel Tony Johnson ouviu o que o major Jerry Jaax tinha a dizer e tambm 
a opinio de outras pessoas e achou que devia falar pessoalmente com Nancy. Quando 
Nancy entrou no seu escritrio o coronel percebeu que ela estava tensa. Observou as 
mos dela enquanto falava. Pareciam normais, nada desajeitadas, nem rpidas demais. 
Ele decidiu que os rumores sobre as mos de Nancy no tinham fundamento.
Ela disse:
 No quero nenhum favor especial. Muito bem, no ia ter nenhum favor especial.
 Eu vou pr voc no programa Ebola  disse ele.
Observou ento que ia permitir que ela usasse o traje espacial e entrasse na rea do 
Ebola e que a acompanharia nas primeiras vezes, para ensinar como devia agir e 
observar suas mos no trabalho. Ele ia vigi-la como uma guia. Acreditava que Nancy 
estava preparada para imerso total numa zona quente.
Ouvindo isso, Nancy no se conteve e chorou  derramou algumas lgrimas"  
lembrou ele, mais tarde. Lgrimas de felicidade. Naquele momento, trabalhar com o 
Ebola era o que ela mais desejava no mundo.
13 HORAS
NANCY PASSOU a MANH trabalhando no seu escritrio. Depois do almoo, tirou o 
anel de noivado de brilhante e a aliana de ouro e guardou na gaveta da mesa. Passou 
pelo escritrio de Tony Johnson e perguntou se ele estava pronto para entrar. Desceram 
um lance de escada e seguiram por um corredor, na direo da sute Ebola. A sute tinha 
apenas um vestirio. Tony Johnson insistiu para que Nancy entrasse primeiro para vestir 
o traje espacial. Ele iria depois.
O vestirio era pequeno, com alguns armrios numa das paredes, algumas prateleiras e 
um espelho acima da pia. Nancy tirou toda a roupa, inclusive a de baixo e trancou tudo 
num dos armrios. Deixou o Band-Aid na palma da mo. Apanhou na prateleira um 
traje esterilizado  cala e camisa verdes, usados pelos cirurgies na sala de operao. 
Vestiu a cala, amarrou os cordes na cintura e fechou os botes de presso da camisa. 
No era permitido usar coisa alguma debaixo da roupa esterilizada. Ps a touca 
cirrgica na cabea e prendeu o cabelo debaixo dela, na frente do espelho. Embora no 
demonstrasse, comeava a se sentir um pouco nervosa. Essa era a sua segunda incurso 
numa rea quente.
Descala, deu as costas para o espelho e ficou de frente para a porta que levava ao nvel 
2. Uma luz azul-escura passava por uma pequena janela na porta  luz ultravioleta. Os 
vrus se desfazem sob a luz ultravioleta, que destri seu material gentico, impedindo-os 
de se multiplicar.
Quando entrou no nvel 2 sentiu a resistncia da porta devido  diferena de presso e 
uma leve aragem passou pelos seus ombros, entrando na zona quente. Era o efeito da 
presso negativa do ar, destinada a impedir que os agentes quentes deslizassem para 
fora.
A porta se fechou atrs dela e Nancy estava no nvel 2, com o rosto banhado pela luz 
azul. Passou pelo chuveiro iluminado com luz ultravioleta, onde havia uma barra de 
sabo e xampu comum. O chuveiro abria-se para um quarto de banho, onde havia uma 
prateleira com meias brancas limpas. Nancy calou as meias e abriu a porta para o nvel 
3.
Estava agora no que chamavam de rea de estgio. Continha uma mesa, um telefone e 
uma pia. No cho ao lado da mesa havia uma caixa de papelo encerado. Era um 
continer biorrisco conhecido como caixa de chapu ou continer de sorvete. A caixa de 
chapu  enfeitada com smbolos de biorrisco, flores vermelhas com trs ptalas 
pontudas e  usada para guardar e transportar detritos infecciosos. Aquela caixa estava 
vazia. Estava ali servindo de cadeira.
Nancy encontrou uma caixa com luvas cirrgicas de borracha e um saleiro de plstico 
com talco infantil. Pulverizou as mos com talco e calou as luvas. Ento apanhou um 
rolo de fita adesiva, cortou vrios pedaos e os enfileirou, presos pelas pontas, na 
beirada da mesa; apanhando uma de cada vez, fechou com eles os punhos das luvas 
sobre as mangas da camisa esterilizada. Depois, prendeu as meias nas bainhas da cala. 
Agora, estava usando uma camada de proteo entre ela mesma e a sua Outra.
O tenente-coronel Johnson passou pelo nvel 2 com o traje cirrgico. Calou as luvas de 
borracha e comeou a prend-las nas mangas com a fita adesiva. Depois fez o mesmo 
com as meias.
Nancy entrou numa antecmara,  direita, onde estava o traje espacial. Era um traje 
espacial biolgico Chemturion, marcado com o nome JAAX na parte da frente. O 
Chemturion  tambm chamado "traje azul".  um traje espacial pressuri-zado, de 
plstico de alta resistncia, que atende s especificaes do governo para o trabalho com 
agentes quentes que se transmitem atravs do ar.
Ela abriu o traje espacial no cho de concreto e introduziu primeiro os ps. Puxou para 
cima o traje, vestiu as mangas at os dedos entrarem nas luvas. O traje tinha luvas de 
borracha marrom, pregadas aos punhos por fechos especiais. Eram as luvas principais 
do traje, feitas de borracha pesada, a mais importante barreira entre ela e o Ebola. As 
mos constituam o ponto fraco e mais vulnervel do traje porque manipulavam 
agulhas, bisturis e pedaos aguados de ossos. O usurio  responsvel pela manuteno 
do traje espacial como o pra-quedista  responsvel pelo bom estado do pra-quedas. 
Nancy estava um pouco apressada e talvez no tivesse inspecionado devidamente seu 
traje espacial.
O tenente-coronel Johnson deu algumas instrues breves e a ajudou a ajustar o 
capacete, feito de plstico macio e flexvel. Johnson olhou para o rosto dela, visvel 
atravs da placa anterior transparente, para ver como Nancy estava.
Ela fechou o zper Ziploc, amaciado com leo, na frente do traje. O zper estalou 
quando ela o fechou, pop, pop, pop. Assim que o traje espacial foi fechado, a placa 
transparente do capacete ficou embaada. Nancy apanhou um tubo amarelo que estava 
dependurado na parede e o ligou no traje. O fluxo barulhento de ar inflou o traje e um 
jato de ar seco fez desaparecer as gotas de suor acumuladas na placa do capacete.
No instituto costumam dizer que no  possvel prever quem vai entrar em pnico 
dentro de um traje espacial biolgico. Acontece uma vez ou outra, especialmente com 
pessoas inexperientes. No momento em que o capacete se fecha, os olhos brilham de 
medo, a pessoa comea a suar, fica roxa, tenta rasgar o traje para conseguir um pouco 
de ar, perde o equilbrio, cai no cho e pode comear a gritar ou gemer dentro do traje, 
como se estivesse sufocando dentro de um armrio.
Depois de ajudar Nancy a vestir o traje espacial e verificar se havia sinal de pnico nos 
olhos dela, Tony Johnson vestiu seu traje e quando ficou pronto, entregou a ela os 
instrumentos para a dissecao. Ele parecia perfeitamente calmo. Os dois voltaram-se 
para a porta de ao inoxidvel que se abria para uma cmara de compresso e para o 
nvel 4. Na porta estava o smbolo do biorrisco e as advertncias.
PERIGO
BIORRISCO
NO ENTRE SEM TRAJE ESPACIAL
O smbolo internacional para o biorrisco, pregado em todas as portas do USAMRIID 
que abrem para as principais zonas de transio,  um triflio vermelho que me faz 
lembrar uma flor de trs ptalas. Para mim parece um trilium vermelho ou um 
cogumelo.
A cmara de compresso do nvel 4  uma espcie de rea cinzenta, um lugar onde dois 
mundos se encontram  onde a zona quente toca o mundo normal. A rea cinzenta no 
 fria nem quente.  ambgua. Indefinida. Um lugar nem com-provadamente estril, 
nem infeccioso. Nancy respirou fundo e imobilizou seu pensamento, como tinha 
aprendido a fazer nas artes marciais, para controlar a respirao. As pessoas realizavam 
todo tipo de ritual antes de passar por aquela porta de ao. Uns faziam o sinal-da-cruz. 
Outros levavam amuletos e encantamentos dentro dos trajes espaciais, esperando que 
isso os ajudasse a deter os agentes quentes em caso de acidente com o traje espacial.
Ela desligou o tubo de ar, abriu a porta de ao e entrou na cmara de compresso, 
seguida por Tony Johnson. A cmara era toda de ao inoxidvel com bicos de metal 
para borrifar gua e produtos qumicos. Era o chuveiro de "decon", ou seja, 
descontaminao. A porta se fechou atrs deles. Ento Nancy abriu a porta na outra 
extremidade da cmara e eles passaram para o lado quente.
Imerso total
26 DE SETEMBRO DE 1983, 13:30
ELES ESTAVAM num estreito corredor de concreto. Vrias salas se abriam nos dois 
lados. A zona quente era um labirinto. Das paredes pendiam tubos de ar amarelos. 
Havia uma luz es-troboscpica de alarme no teto que era ativada em caso de falha do 
sistema de ventilao. As paredes eram pintadas com tinta epxi grossa e todos as 
tomadas eltricas presas nas bordas com material gelatinoso para evitar a sada do 
agente quente pelos tubos dos condutores eltricos. Nancy apanhou um tubo de ar e o 
ligou no traje. A nica coisa que ouvia era o rugi-do do ar dentro do capacete. O barulho 
era tanto que eles nem tentavam falar.
Ela abriti um armrio de metal iluminado interiormente com luz azul e retirou um par de 
botas de borracha amarelas. Pareciam botas de fazendeiro. Calou as botas sobre as do 
traje
espacial e foi para Johnson. Pronta para ao, chefe.
Desligaram os tubos de ar, seguiram pelo corredor e entraram na sala dos macacos. A 
sala continha duas fileiras de gaiolas, uma de frente para a outra ao longo da parede 
oposta  porta. Jaax e Johnson ligaram novamente seus tubos de ar e examinaram as 
gaiolas. Numa das fileiras havia apenas dois macacos isolados. Eram os chamados 
controles. No haviam sido injetados com o vrus Ebola e estavam bem.
Assim que os dois oficiais do Exrcito apareceram com os trajes espaciais, os macacos 
no injetados enlouqueceram. Arranhavam as grades e saltavam de um lado para o 
outro. Humanos em trajes espaciais deixam os macacos nervosos. Grunhiam e gritavam 
 Oool Oool Aua, uau, uau! E mais um grito agudo e spero, iiiique! Sacudiam as 
portas das gaiolas, saltavam para a frente e para trs, vump, vump, vump, sem tirar os 
olhos de Jaax e Johnson, acompanhando seus movimentos, alertas para tudo. As gaiolas 
tinham fechaduras complexas para evitar que os primatas as abrissem. Aqueles macacos 
eram espertalhes criativos, Nancy pensou, e estavam entediados.
Na outra fileira de gaiolas, o silncio era quase completo. Era a fileira do Ebola. Todos 
os macacos estavam infectados e a maioria em silncio, passiva, intimidada, embora um 
ou dois apresentassem atitudes estranhas. Seus sistemas imuno-lgicos estavam em 
pane ou completamente destrudos. A maior parte no parecia muito doente ainda, mas 
no tinha a atitude alerta, nem a energia comum aos macacos, no saltava nem 
arranhava as grades, como fazem os macacos saudveis e no haviam comido os 
biscoitos matinais. Estavam quase imveis, olhando para os oficiais com rostos 
inexpressivos.
Tinham sido injetados com o tipo mais quente do Ebola que se conhecia, a variedade do 
Ebola Zaire, conhecida como Mayinga. Essa variedade do Ebola fora colhida de uma 
mulher chamada Mayinga N., vitimada pelo vrus em 19 de outubro de 1976. Ela era 
enfermeira num hospital do Zaire e havia tratado de uma freira catlica que morreu 
vtima do Ebola. A freira morreu com hemorragia extensa, salpicando de sangue a 
enfermeira. Alguns dias depois, a enfermeira Mayinga apresentou sinais de infeco 
com o Ebola e morreu. Uma parte do soro do seu sangue foi parar nos Estados Unidos e 
a variedade de vrus que havia vivido no seu sangue vivia agora em pequenos frascos de 
vidro no superfreezer do instituto, mantido a 70 graus centgrados negativos, a 
temperatura do nitrognio lquido. Os freezers eram munidos de fechaduras de 
segurana e alarmes, marcados com as flores smbolos do bior-risco e lacrados com tiras 
de fita adesiva. A primeira linha de defesa contra um agente quente  a fita adesiva 
porque seus selos se partem. Pode-se dizer que sem fita adesiva no haveria aquilo que 
chamamos de bioconteno.
Gene Johnson, o cientista civil, tinha descongelado um pouco a variedade Mayinga para 
injetar nos macacos. Ento, quando os animais adoeceram, ele os tratou com um 
medicamento, esperando ajud-los a combater o vrus. Aparentemente, o medicamento 
no estava fazendo nenhum efeito.
Nancy Jaax e Tony Johnson examinaram os macacos, indo de gaiola em gaiola, at 
encontrar os dois que haviam desmoronado e sangrado at a morte. Eles estavam 
enrodilhados no cho, cada um na sua gaiola. Tinham sangue no nariz, estavam com os 
olhos abertos, vidrados e muito vermelhos, com as pupilas dilatadas. Os rostos estavam 
inexpressivos, no demonstrando dor nem agonia. O tecido conjuntivo do rosto fora 
destrudo pelo vrus, provocando uma leve distoro dos traos. Alm disso, outro 
motivo para aquele rosto estranho era que as partes do crebro que controlam a 
expresso facial tinham sido tambm destrudas. A mscara inexpressiva, os olhos 
vermelhos e o sangue no nariz so os sinais clssicos do Ebola, que aparecem em todos 
os primatas infectados pelo vrus, sejam macacos ou humanos. Sugere uma combinao 
sinistra de leso cerebral e destruio dos tecidos moles sob a pele. O rosto Ebola 
clssico fazia parecer que o macaco tinha visto algo alm da sua compreenso. No era 
uma viso do cu.
Nancy Jaax teve uma leve sensao de mal-estar, lamentando a morte e o sofrimento 
dos macacos. Como veterinria, acreditava ser seu dever curar animais e aliviar seu 
sofrimento. Como cientista, acreditava ser sua obrigao realizar a pesquisa mdica que 
ajudaria a aliviar o sofrimento humano. Embora criada numa fazenda, onde o pai criava 
gado para o corte, nunca conseguiu suportar a morte de um animal. Quando era 
pequena, chorou quando o pai levou para o matadouro seu bezerro premiado pelo clube 
4-H. Ela gostava mais dos animais que de certas pessoas. Quando fez o juramento do 
veterinrio, prometeu a si mesma seguir um cdigo que a obrigava a cuidar de animais, 
mas a obrigava tambm a salvar vidas humanas com a medicina. s vezes, no seu 
trabalho, esses dois ideais conflitavam. Nancy dizia a si mesma que essa pesquisa tinha 
como objetivo encontrar a cura para o Ebola, que era uma pesquisa mdica que ajudaria 
a salvar vidas humanas, e podia evitar uma tragdia para a espcie humana. Isso ajudava 
a minimizar sua sensao de mal-estar, mas no completamente e ela procurou manter 
suas emoes desligadas do trabalho do momento.
Johnson a observou atentamente quando ela iniciou o procedimento de remoo dos 
animais. Manejar um macaco inconsciente no nvel 4  uma operao complicada, 
porque o animal pode acordar e ele tem dentes e uma dentada poderosa, alm de ser 
extremamente forte e gil. Os macacos usados em laboratrio no so macacos de 
realejo. So animais grandes e selvagens da floresta tropical. A mordida de um macaco 
infectado com o Ebola podia quase sempre ser fatal.
Primeiro, Nancy observou o macaco, sem abrir a gaiola. Era um macho grande e parecia 
realmente morto. Viu que tinha ainda os caninos, o que a deixou nervosa. O mais 
comum era terem os dentes limados, por segurana. Por algum motivo, aquele tinha 
dentes enormes e perfeitos. Ela enfiou a mo enluvada entre as grades e beliscou o p 
do animal, para ver se provocava algum movimento ocular. Os olhos continuaram fixos 
e abertos.
Johnson disse:
 V EM FRENTE E ABRA A GAIOLA.
Teve de gritar por causa do rudo dentro dos trajes espaciais.
Nancy abriu a porta e a levantou. Observou outra vez o macaco. Nenhum movimento 
dos msculos. O macaco estava definitivamente morto.
 TUDO BEM, CONTINUE E O TIRE DA  disse Johnson.
Ela segurou o macaco pelos braos e girou o corpo dele, de modo a ficar de costas para 
ela e no poder morder, se por acaso acordasse. Imobilizou os braos do animal nas 
costas e erguendo-o, o retirou da gaiola.
Johnson segurou os ps do macaco e juntos o carregaram para a caixa de chapu, ou 
continer de biorrisco. Ento, carregaram a caixa para a sala de necropsia, arrastando os 
ps com o peso dos trajes. Eram dois primatas humanos carregando outro primata. Um 
era o senhor da Terra, ou pelo menos acreditava ser, o outro um gil morador das 
rvores, um primo do senhor da Terra. Ambas as espcies, a humana e o macaco, 
estavam na presena de outra forma de vida, mais antiga e mais poderosa do que elas, 
que morava no sangue.
Jaax e Johnson saram da sala carregando o macaco, viraram para a esquerda, depois 
esquerda outra vez, entraram na sala de necropsia e puseram o animal na mesa de ao 
inoxidvel. A pele do macaco estava irritada, coberta de manchas vermelhas visveis 
sob o plo ralo.
Johnson disse:
 CALAR LUVAS.
Calaram as luvas de borracha por cima das luvas do traje espacial. Estavam agora com 
trs camadas protetoras nas mos, a primeira, de borracha esterilizada, a do traje 
espacial e esta ltima.
 VAMOS SEGUIR A LISTA DE CHECAGEM  disse Johnson.  TESOURAS. 
HEMOSTATOS.  Disps os instrumentos em fila na ponta da mesa. Cada 
instrumento era numerado e ele dizia os nmeros em voz alta.
Comearam a trabalhar. Com tesouras de pontas rombudas, Johnson abriu o macaco, 
com a ajuda de Jaax. Trabalharam lentamente com extremo cuidado. No usaram 
nenhuma lmina afiada porque qualquer instrumento cortante  um objeto mortal numa 
zona quente. Um bisturi pode furar a luva, cortar um dedo e antes que seja sentida a dor, 
o agente j entrou na corrente sangnea.
Nancy entregava os instrumentos para ele, com os dedos dentro do corpo do macaco 
amarrava os vasos saguneos e com uma compressa absorvia o excesso de sangue. A 
cavidade era um lago de sangue. Era sangue Ebola esparramado por todo o interior do 
corpo do animal. A hemorragia interna fora intensa. O fgado estava aumentado e ela 
notou algum sangue nos intestinos.
Nancy precisava controlar a rapidez dos movimentos das suas mos. Talvez estivessem 
se movendo depressa demais. Durante todo o tempo ela se mantinha alerta e atenta ao 
trabalho. Mantenha o campo limpo, mantenha limpo. Tudo bem, apanhe o hemostato. 
Pince aquela artria porque o sangue est vazando. Pare e lave as luvas. Ela sentia o 
sangue Ebola atravs das luvas, mido e escorregadio, embora suas mos estivessem 
limpas, secas, cobertas de talco.
Retirou as mos da carcaa e as lavou numa cuba com desinfetante, chamado 
EnviroChem, que estava numa pia. Era um lquido verde-plido, da cor do ch japons. 
O EnviroChem destri os vrus. Quando ela mergulhou as luvas, o lquido ficou 
marrom. Tudo que Nancy ouvia era o ar dentro do traje, rugindo como um trem 
subterrneo num tnel.
Um vrus  uma cpsula pequena feita de membranas e protena. A cpsula contm um 
ou mais filamentos de ADN ou ARN, molculas longas com programa de software para 
fazer cpias do vrus. Alguns bilogos classificam os vrus como "formas de vida", 
porque no se tem certeza absoluta de serem vivos. Sua vida  ambgua, isto , no so 
vivos nem mortos. Existem na fronteira entre a vida e a no-vida. Os vrus fora das 
clulas so inativos, nada acontece. Esto mortos. Podem at formar cristais. Partculas 
de vrus no sangue ou no muco parecem mortas mas esto  espera que alguma coisa se 
aproxime. Tm uma superfcie aderente. Se uma clula toca o vrus e a superfcie do 
vrus tem o tipo exato de aderncia, o vrus agarra-se na clula. A clula sente o vrus e 
o leva para dentro. Uma vez no interior da clula, o vrus se transforma num cavalo de 
Tria. Aciona sua atividade e comea a se multiplicar.
O vrus  um parasita. No pode viver sozinho. S  capaz de fazer cpias de si mesmo 
dentro de uma clula, usando o material da clula e seus mecanismos. Todas as coisas 
vivas transportam vrus em suas clulas. At os fungos e bactrias so habitados por 
vrus e ocasionalmente destrudos por eles. Isto , as doenas tambm tm suas doenas. 
Para se multiplicar, o vrus precisa de uma clula, do contrrio ele morre. O vrus cria 
cpias de si mesmo at infestar completamente a clula. Usa a energia e o material da 
clula, at infest-la completamente. Ento a clula explode e os vrus so lanados para 
fora. Os vrus podem tambm brotar nas paredes da clula, como gotas de uma torneira 
 pinga, pinga, pinga  copia, copia, copia   assim que funciona o vrus da AIDS. 
A torneira pinga at a clula ficar exausta, consumida e destruda. Se um nmero 
suficiente de clulas  destrudo, o hospedeiro morre. O vrus no "quer" destruir o 
hospedeiro. No vai ao encontro dos seus interesses porque ele tambm pode morrer, a 
no ser que consiga saltar a tempo para outro hospedeiro.
O cdigo gentico no interior de um Ebola  uma nica cadeia de ARN. Esse tipo de 
molcula  considerado o mais antigo e mais "primitivo" mecanismo codificado para a 
vida. O oceano primordial da Terra, h cerca de quatro bilhes e meio de anos, 
possivelmente continha formas de vida microscpicas baseadas no ARN. Isso sugere 
que o Ebola  um antigo tipo de vida, talvez to antigo quanto a prpria Terra. Outra 
indicao de que o Ebola  extremamente antigo  o modo em que ele pode parecer, 
nem completamente vivo, nem completamente no-vivo.
Os vrus podem parecer vivos quando se multiplicam, mas em outro sentido so 
obviamente mortos, no passam de mquinas, muito sutis, sem dvida, mas estritamente 
mecnicos, to vivos quanto um britador. Vrus so tubares moleculares, um motivo 
sem uma mente. Compacto, resistente, lgico, totalmente egosta, o vrus se dedica a 
fazer cpias de si mesmo  s vezes com extrema rapidez. A primeira diretiva  a de 
multiplicar-se.
Os vrus no podem ser vistos a olho nu. Eis aqui um modelo para imaginar o seu 
tamanho. Consideremos a ilha de Manhattan encolhida at ficar deste tamanho:
ESTA MANHATTAN PODERIA facilmente conter nove milhes de vrus. Se 
pudermos observ-la com uma lente de aumento e se ela estiver cheia de vrus, veremos 
pequenas formas amontoadas, como a multido da hora do almoo, na Quinta Avenida. 
Cem milhes de vrus de plio cristalizados poderiam cobrir o ponto no fim desta frase. 
Poderia haver 250 Wood-stocks de vrus dentro desse ponto  a populao combinada 
da Gr-Bretanha e da Frana  e nunca perceberamos.
MANTENHA LIMPO, pensava Nancy. Sem sangue. Sem sangue. Eu no gosto de 
sangue. Sempre que vejo uma gota de sangue, vejo um bilho de vrus. Pare e lave as 
luvas. Pare e lave as luvas. V mais devagar. Olhe para o traje de Tony. Verifique se 
est em ordem.
Fazia parte do processo verificar o traje do parceiro, para ver se no havia alguma 
abertura. Era mais ou menos como a me cuidando do filho  uma verificao 
constante para ver se tudo estava bem.
Enquanto isso, Johnson a observava, atento a qualquer erro, qualquer movimento 
nervoso com os instrumentos. Imaginava se ia v-la deixar cair alguma coisa.
 RONGEUR  disse ele.
 O QUE?  ela perguntou.
Ele apontou para o tubo amarelo, sugerindo que ela impedisse por um momento a 
entrada do ar, para ouvi-lo melhor. Nancy dobrou o tubo no meio. O ar parou de entrar, 
o traje murchou em volta do corpo dela e o barulho acabou. Aproximando o capacete do 
dela, Johnson repetiu a palavra "rongeur" e Nancy desdobrou o tubo. Entregou uma 
pina chamada rongeur. A palavra  francesa e significa "mastiga-dor".  usada para 
abrir crnios.
Entrar num crnio  sempre um processo complicado no nvel 4. O crnio de um 
primata  duro e resistente e as placas sseas muito unidas umas s outras. Geralmente 
penetra-se no crnio usando uma serra eltrica, mas esse instrumento no pode ser 
usado no nvel 4. Ele espalha partculas sseas e gotas de sangue no ar e no se pode 
criar qualquer tipo de neblina infectada numa rea quente, mesmo quando se usa um 
traje espacial.  perigoso demais.
A pina abriu o crnio com um estalo seco de coisa quebrada. Retiraram o crebro, os 
olhos, a medula espinhal e puseram num vidro com preservativo. O crebro estava 
pontilha-do de pequenas hemorragias, como picadas de insetos.
Johnson estava segurando um tubo contendo uma amostra, quando parou e olhou para 
as mos de Nancy. Apontou para a luva direita.
Nancy olhou. Sua luva. Estava encharcada de sangue, mas ela viu a abertura. Um corte 
na palma da luva externa da sua mo direita.
Nancy tirou a luva. Agora, a luva do traje espacial estava cheia de sangue que corria por 
dentro da manga externa do traje. timo, isso  timo, sangue Ebola no meu traje. 
Lavou a luva e o brao com desinfetante. Estava tudo limpo e intacto. Ento ela notou 
que sua mo dentro das duas luvas parecia pegajosa e fria. Imaginou se aquela luva 
tambm estaria vazando, se estava tambm rasgada. Examinou-a cuidadosamente. Ento 
ela viu. Uma rachadura no pulso. Uma abertura no seu traje espacial. Sentia a mo 
molhada. Imaginou se teria sangue Ebola dentro do traje, perto do corte na palma da 
mo. Apontou para a luva e disse:
 ABERTURA.
Johnson inclinou-se para ela e viu a rachadura no pulso.
Nancy viu a surpresa no rosto dele e ento seus olhos se encontraram. Johnson estava 
com medo.
Isso a apavorou. Apontou o polegar para a porta e disse:
 ESCUTE, VOU SAIR DAQUI. VOC PODE TERMINAR?
Ele respondeu:
 QUERO QUE VOC SAIA IMEDIATAMENTE. Eu cuido da segurana da rea e 
saio logo depois.
Usando s a mo esquerda, a mo boa, ela desligou o traje do tubo de ar e praticamente 
correu para a cmara de compresso, com o brao direito rgido ao lado do corpo. No 
queria mover aquela mo porque cada vez que a movia sentia alguma coisa escorrendo 
por ela, dentro da luva. O medo ameaava domin-la. Como ia tirar as botas sem usar a 
mo direita? Ela chutou um p de cada vez e as botas voaram no corredor. Nancy abriu 
a porta da cmara de compresso, entrou e bateu a porta.
Puxou uma corrente que pendia do teto, abrindo o chuveiro de descontaminao. A 
descontaminao dura sete minutos e a porta de sada fica automaticamente fechada 
durante esse tempo, para evitar que a pessoa saia antes de estar descontaminada. O 
chuveiro precisa de tempo para dominar o vrus. Primeiro so os jatos de gua, para 
lavar todo o sangue do traje espacial. Ento, a gua pra de jorrar e orifcios dispostos 
em toda a altura das paredes comeam a borrifar o En-viroChem, para desontaminar o 
traje espacial.  claro que, se alguma coisa vivia dentro daquela luva, o chuveiro 
qumico no podia alcanar.
O compartimento era quase escuro. Literalmente uma zona cinzenta. Nancy desejou ter 
um relgio. Ento saberia quanto tinha de esperar. Cinco minutos? Quatro? A garoa 
qumica embaava a placa transparente do capacete. Era como dirigir um carro na 
chuva, sem limpador de pra-brisas. No se v nada. Droga, droga, droga, pensou ela.
No instituto h um hospital de isolamento para o nvel 4 chamado Slammer, onde o 
paciente pode ser tratado por mdicos e enfermeiros com trajes espaciais. Quando morre 
algum exposto a um agente quente, o corpo  levado do hospital para o necrotrio de 
isolamento, perto do nvel 4, conhecido como Submarino, porque a porta principal  de 
ao pesado e parece a porta de presso de um submarino.
Filho da me, pensou ela. Que droga, vo me levar para o Slammer. E Tony vai fazer 
relatrios do acidente enquanto eu comeo a apresentar os sintomas do Ebola. E uma 
semana depois, estarei no Submarino. Droga! Jerry est no Texas. E no fui ao banco 
hoje. No h nenhum dinheiro em casa. As crianas esto com a Sra. Trapane, e ela 
precisa ser paga. No fui ao mercado hoje. No tem comida em casa. Como  que as 
crianas vo comer, se eu for para o Slammer? Quem vai ficar com meus filhos esta 
noite? Droga! Droga! Droga!
O chuveiro parou. Nancy abriu a porta e saiu para a rea de estgio. Saltou literalmente 
para fora do traje espacial que caiu no cho todo molhado.
Olhou para seu brao direito. A manga estava escura e a luva interna vermelha.
A luva do traje espacial tinha um vazamento. O sangue Ebola havia atingido a luva 
interna, at o meio, bem em cima do Band-Aid. Atravs da luva fina e transparente ela 
via o Band-Aid bem debaixo do sangue Ebola. Com o corao disparado, Nancy quase 
vomitou  o estmago se contraiu e a nusea chegou  garganta. O fator vmito. Uma 
necessidade urgente de vomitar quando a pessoa sente-se desprotegida na presena de 
um organismo do nvel 4 de biossegurana. Sua mente estava a mil. h, que droga. O 
que eu fao agora? Tenho uma luva no descontaminada, coberta com sangue Ebola. 
Oh, Jesus. Qual  o procedimento indicado? O que eu tenho de fazer agora?
O vulto azul de Tony Johnson entrou no compartimento de descontaminao e ela ouviu 
o zumbido do chuveiro. Ele estava comeando o ciclo. S depois de sete minutos ele 
poderia responder a qualquer pergunta.
A questo principal era se o sangue havia penetrado na ltima luva, atingindo o corte. 
Cinco ou dez partculas de vrus Ebola, em suspenso numa gota de sangue, podem 
passar facilmente por uma picada de alfinete na luva cirrgica e comear uma infeco 
explosiva. Essa coisa podia se multiplicar. Uma picada de alfinete na luva pode no ser 
visvel a olho nu. Onde ela estava no havia nenhuma cuba com EnviroChem. Tinha de 
lavar com gua. Nancy foi at a pia e ficou algum tempo com a mo debaixo da torneira 
aberta. A gua com o sangue desceu pelo ralo de onde seria levada para tanques a fim 
de ser fervida.
Nancy tirou ento a ltima luva, segurando-a com cuidado pelo punho. Sua mo direita 
apareceu ento, coberta de talco, com as unhas cortadas rente, sem esmalte, sem anis, 
as juntas com a cicatriz de uma mordida de bode quando ela era pequena e com o Band-
Aid na palma.
Nancy viu sangue misturado com o talco.
Por favor, por favor, faa com que seja meu sangue.
Sim  era seu sangue nas bordas do Band-Aid. Nancy no viu nenhum sangue de 
macaco na sua mo.
Ps a ltima luva debaixo da torneira e ela se encheu de gua, inflando como um balo. 
Morrendo de medo, ela esperou ver um filete de gua saindo da luva, o indcio de um 
vazamento, o sinal de que sua vida tinha acabado. A luva continuou cheia. Nenhum 
vazamento.
De repente, suas pernas se dobraram. Nancy caiu contra a parede de concreto e deslizou 
para o cho, como se tivesse levado um murro no estmago. Ficou encostada na caixa 
de chapu, a caixa de biorrisco que algum tinha usado como cadeira. Suas pernas se 
agitaram e encostaram molemente na parede. Foi assim que Tony Johnson a encontrou 
quando saiu do compartimento de descontaminao.
O RELATRIO DO ACIDENTE conclua que a major N. Jaax no fora exposta ao 
vrus Ebola. Sua ltima luva estava intacta e uma vez que todos acreditavam que o 
agente era transmitido por contato direto com o sangue e fluidos do corpo, no parecia 
que pudesse ter atingido a corrente sangnea, mesmo tendo penetrado no traje espacial. 
Naquela noite, Nancy foi para casa, tendo escapado do Slammer pela borracha fina da 
sua ltima luva. Quase apanhou o Ebola de um macaco morto, que o havia apanhado de 
uma jovem chamada Mayinga, que o apanhou de uma freira que desmoronou e sangrou 
at a morte nas selvas do Zaire, h muitos anos. Ela telefonou para Jerry no Texas.
 Imagine, eu tive um pequeno problema hoje. Tive uma experincia de quase Ebola. 
 Contou o que tinha acontecido.
Jerry ficou estarrecido.
 Que diabo, Nancy! Eu disse para no se envolver com aquele maldito vrus Ebola! 
Aquele maldito Ebola!  E durante dez minutos fez um sermo sobre os perigos de 
trabalhar com o traje espacial, especialmente com o Ebola.
Nancy ficou calma e no discutiu com ele. Deixou Jerry falar e quando ele desabafou e 
comeava a voltar ao normal, disse que tinha certeza de que tudo ia ficar bem.
Durante todo esse tempo, Jerry estava surpreso com a calma da mulher. Ele teria voado 
de volta para casa naquela noite, se tivesse percebido o menor sinal de apreenso na sua 
voz.
As EXPERINCIAS com o Ebola no foram um sucesso, no sentido de que os 
medicamentos no produziram nenhum efeito sobre o vrus. Todos os macacos 
infectados com o vrus, por Gene Johnson, morreram, no importa com que droga 
tivessem sido tratados. O vrus destruiu completamente os animais. Uma varrida total. 
Os nicos sobreviventes da experincia foram os dois macacos de controle  os 
animais saudveis, no infectados, que viviam nas gaiolas no outro lado da sala. No 
foram infectados com o Ebola e assim, como era de esperar, no adoeceram.
Ento, duas semanas depois do incidente com a luva ensangentada, aconteceu algo 
assustador na sala do Ebola. Os dois macacos no infectados apareceram com os olhos 
vermelhos e sangramento no nariz, desmoronaram e sangraram at morrer. Nunca foram 
deliberadamente infectados com o vrus Ebola, e no chegaram perto dos macacos 
doentes. Estiveram o tempo todo separados deles por toda a largura da sala.
Se uma pessoa saudvel ficar na outra extremidade de uma sala ocupada por um doente 
de AIDS, o vrus da AIDS no pode atravessar a distncia e infectar essa pessoa. Mas o 
Ebola tinha passado de um lado para o outro da sala. Tinha se movimentado rpida e 
decididamente, percorrendo um caminho no conhecido. Provavelmente os macacos de 
controle o inalaram atravs da respirao.
 Ele entrou l de algum modo  Nancy Jaax me disse, quando contou sua histria, 
alguns anos mais tarde.  Os macacos cospem e jogam coisas. E quando o tratador lava 
as gaiolas com mangueiras, pode ser criado um aerossol de gotas de gua. 
Provavelmente o vrus viajou atravs das secrees em forma de aerossol. Foi quando 
eu fiquei sabendo que o vrus Ebola pode se transmitir atravs do ar.
O Rio Ebola
JULHO  OUTUBRO DE 1976
NO DIA 6 DE JULHO DE 1976, 800 quilmetros ao norte do monte Elgon, no sul do 
Sudo, na borda da floresta tropical africana, um homem conhecido pelos caadores de 
Ebola como Yu G. entrou em estado de choque e morreu, expelindo sangue por todos os 
orifcios do seu corpo.  citado somente por suas iniciais. O Sr. Yu G. foi o primeiro 
caso identificado, o caso ndex, no aparecimento de um vrus desconhecido.
O Sr. Yu G. era empregado numa fbrica de algodo na cidade de Nzara, prxima da 
faixa de entrada da floresta tropical africana. A populao de Nzara tinha crescido nos 
ltimos anos  a cidade experimentou a seu modo a exploso da populao humana 
que est ocorrendo em todas as regies equatoriais da Terra. O povo daquela rea, no 
sul do Sudo,  uma grande tribo, chamada Zande. Sua terra  savana entremeada com 
floresta ribeirinha, uma regio muito bela, onde as rvores de accia crescem nas 
margens dos rios peridicos. Pombos africanos, pousados nos galhos, arrulham seu 
chamado. A terra entre os rios  um mar de relva de elefante, que pode atingir trs 
metros de altura. Para o sul, na direo do Zaire, erguem-se colinas baixas e a floresta 
comea a ficar mais espessa, partindo dos rios, formando um palio cerrado, a entrada da 
floresta tropical. A terra em volta da cidade de Nzara tem ricas plantaes de teca, 
rvores frutferas e algodo. O povo era pobre, mas trabalhando com afinco criava 
grandes famlias e conservava suas tradies tribais.
O Sr. Yu G. era um assalariado. Trabalhava sentado a uma mesa na sala cheia de tecido 
de algodo, nos fundos da fbrica. Morcegos faziam seus ninhos no teto, perto da sua 
mesa. Se os morcegos estavam infectados com o Ebola, ningum jamais provou. O 
vrus podia ter entrado na fbrica de tecido de algodo por alguma via desconhecida  
talvez atravs de insetos presos nas fibras do algodo, por exemplo, ou ratos que viviam 
na fbrica. Ou, possivelmente, o vrus nada tinha a ver com a fbrica, e o Sr. Yu G. foi 
infectado em outro lugar. Ele no foi para o hospital e morreu num catre na comunidade 
em que vivia com a famlia. Deram a ele o funeral zande tradicional e deixaram o corpo 
sob uma pilha de pedras, numa clareira, no meio da relva de elefante. Seu tmulo tem 
sido visitado vrias vezes por mdicos da Europa e da Amrica, que querem conhec-lo, 
refletir sobre seu significado e prestar respeito ao caso ndex do que mais tarde foi 
chamado de Ebola Sudo.
Hoje ele  lembrado como um "homem quieto e comum". Nunca foi fotografado e 
aparentemente ningum lembra mais dos seus traos. No era muito conhecido nem 
mesmo na sua cidade. Dizem que seu irmo era alto e magro, portanto, talvez ele 
tambm fosse. O Sr. Yu G. passou pelos portes da vida, notado apenas pela famlia e 
alguns poucos colegas de trabalho. Provavelmente ele no faria nenhuma diferena, a 
no ser pelo fato de ter sido um hospedeiro.
Sua doena comeou a criar as prprias cpias. Alguns dias depois da sua morte, dois 
outros empregados que trabalhavam em mesas ao lado da sua comearam a sangrar, 
entraram em choque e morreram com hemorragias macias em todos os orifcios 
naturais do corpo. Um deles era muito popular, conhecido como P. G. Ao contrrio do 
quieto Sr. Yu G., tinha um vasto crculo de amizades, incluindo vrias amantes. Ele 
espalhou o agente por todos os cantos da cidade. O agente saltou facilmente de pessoa 
para pessoa, aparentemente atravs do contato fsico e do ato sexual. Era um duplicador 
rpido, e podia viver facilmente nas pessoas. Passou por 16 geraes de infeco 
saltando de pessoa em pessoa, no Sudo. Matou a maior parte dos seus hospedeiros. Se 
um vrus pode saltar rapidamente de um hospedeiro para outro, ento, na verdade no 
importa o que acontea ao hospedeiro anterior, porque ele pode se multiplicar durante 
muito tempo  pelo menos at matar a maior parte da populao de hospedeiros. A 
maioria dos casos fatais do que ficou conhecido como o Ebola Sudo pode ser traada, 
atravs de cadeias de infeco, at o quieto Sr. Yu G. Uma variedade quente irradiada 
do homem quieto quase devastou a populao humana do sul do Sudo. O vrus arrasou 
a cidade de Nzara e avanou para o leste at a cidade de Maridi, onde havia um hospital.
Atingiu o hospital como uma bomba, matando enfermeiros e atendentes, dizimando 
pacientes e depois, como um relmpago em cadeia, deslizou para fora do hospital 
atravs das famlias dos pacientes. Aparentemente a equipe mdica estava aplicando 
injees com agulhas sujas. Desse modo o vrus se disseminou rapidamente por todo o 
hospital e depois atingiu a equipe mdica. Uma caracterstica do vrus letal, contagioso 
e incurvel  a rapidez com que ataca as equipes mdicas. Em alguns casos, o sistema 
mdico pode intensificar o surto, como uma lente focalizando o calor do sol numa pilha 
de gravetos.
O vrus transformou o hospital de Maridi num necrotrio.  medida que ele passava de 
leito para leito, matando pacientes a torto e a direito, os mdicos comearam a notar 
sinais de perturbao mental, psicoses, despersonalizao, comportamento de zumbi. 
Alguns agonizantes tiravam toda a roupa e fugiam do hospital, nus e sangrando, e 
corriam pelas ruas da cidade,  procura de suas casas, aparentemente sem saber o que 
tinha acontecido e nem como haviam chegado quele estado. No h dvida de que o 
Ebola lesa o crebro e provoca demncia psictica. Entretanto, no  fcil separar a 
leso cerebral dos efeitos do medo. A pessoa presa num hospital onde os pacientes se 
dissolvem nos leitos pode tentar escapar e se estiver sangrando e assustada, pode tirar a 
roupa e todos pensaro que enlouqueceu.
A variedade Sudo era duas vezes mais letal do que o vrus Marburg  seu ndice de 
mortalidade era de 50 por cento. A metade das vtimas morreu rapidamente. O mesmo 
ndice de mortes provocado pela peste negra na Idade Mdia. Se o vrus Ebola Sudo 
tivesse conseguido sair da frica central, poderia ter entrado em Cartum em poucas 
semanas, invadido o Cairo, algumas semanas depois e da, saltaria para Atenas, Nova 
York, Paris, Londres, Cingapura  teria infectado todo o planeta. Porm, isso no 
aconteceu e a crise no Sudo passou, sem ser notada, pelo resto do mundo. O que 
aconteceu no Sudo pode ser comparado a um lanamento secreto de uma bomba 
atmica. Nunca saberemos se a espcie humana esteve muito prxima da exterminao 
completa.
Por motivos no muito claros, o surto passou e o vrus desapareceu. O hospital em 
Maridi foi o epicentro da emergncia. Quando o vrus comeou a assolar o hospital, a 
equipe mdica entrou em pnico e fugiu para a selva. Provavelmente foi a coisa mais 
sensata que fizeram porque desse modo cessou o uso de agulhas infectadas e ao mesmo 
tempo esvaziou o hospital, o que ajudou a interromper a cadeia da infeco.
O desaparecimento do vrus Ebola Sudo pode ter tido outra causa. Ele era 
extremamente quente. Matava as pessoas com tanta rapidez que elas no tinham tempo 
para infectar outras antes de morrer. Alm disso, o vrus no se transmitia no ar. Viajava 
no sangue e a vtima com hemorragia no tocava muitas pessoas, o que permitiria que o 
vrus saltasse para um novo hospedeiro. Se a tosse dos doentes espalhasse o vrus no 
ar... a histria seria outra. De qualquer modo, o Ebola Sudo destruiu algumas centenas 
de pessoas na frica central como o fogo consome um monte de palha, at a chama se 
extinguir no centro e se transformar numa pilha de cinzas, em vez de se espalhar em 
brasa latente por todo o planeta, como fez a AIDS, como o fogo numa mina de carvo, 
que no pode ser apagado. O vrus Ebola, na sua encarnao Sudo, recuou para o 
corao da selva, onde sem dvida vive at hoje, renovando-se em ciclos no interior de 
um hospedeiro desconhecido, capaz de mutao, transformando-se em outra coisa, com 
potencial para invadir a espcie humana com sua nova forma.
Dois MESES DEPOIS do comeo do surto do Sudo  comeo de setembro de 1976 
 um filovrus mais letal apareceu 800 quilmetros a oeste, numa provncia do Zaire 
chamada Bum-ba Zone, uma rea de floresta tropical povoada com aldeias esparsas e 
irrigada pelo rio Ebola. A variedade Ebola Zaire era quase duas vezes mais letal do que 
o Ebola Sudo. Foi como se surgisse da imobilidade de uma fora implacvel com 
inteno inescrutvel. At hoje no foi identificado o primeiro caso do Ebola Zaire num 
ser humano.
Nos primeiros dias de setembro, uma pessoa desconhecida que provavelmente vivia em 
alguma parte do sul do rio Ebola talvez tenha tocado em alguma coisa sangrenta. Pode 
ter sido carne de macaco  os habitantes da regio caam macacos para comer  ou de 
outro animal qualquer, como um elefante ou um morcego. Ou talvez essa pessoa tenha 
tocado um inseto esmagado, ou ento foi picada por uma aranha. Fosse qual fosse o 
hospedeiro original do vrus, parece que o contato sangue-a-sangue na floresta tropical 
permitiu que ele penetrasse no mundo dos humanos. A porta de entrada para a raa 
humana pode ter sido um corte na mo desse desconhecido.
O vrus surgiu no hospital da misso Yambuku, uma clnica no norte do pas, dirigida 
por freiras belgas. O hospital era um conjunto de telhados de zinco e paredes pintadas 
com cal, ao lado de uma igreja na floresta, onde os sinos tocavam e ouviam-se hinos e 
as palavras de missa na lngua banto. Ao lado da igreja, o povo fazia fila na frente do 
hospital, tremendo com malria, esperando que uma das freiras aplicasse a injeo que 
aliviaria seu mal-estar.
A misso em Yambuku tinha tambm uma escola para crianas. No fim de agosto, um 
professor da escola e alguns amigos fizeram uma viagem de frias ao norte do Zaire. 
Com um Land Rover emprestado pela misso, partiram para o norte, numa viagem lenta 
e exploratria por caminhos acidentados, sem dvida encalhando na lama uma vez ou 
outra, o que sempre acontece quando se viaja de automvel no Zaire. A estrada no era 
mais do que uma trilha sob o dossel das rvores, sempre na sombra, como se estivessem 
atravessando um tnel. Finalmente chegaram ao rio Ebola, que atravessaram numa balsa 
e continuaram para o norte. Perto do rio Obangi, pararam num mercado na beira da 
estrada, onde o professor comprou carne fresca de antlope. Um dos seus amigos 
comprou um macaco morto h poucas horas e o guardou na parte de trs do Land 
Rover. Qualquer um deles podia ter tocado o macaco ou a carne de antlope enquanto 
seguiam sacolejando no Land Rover.
Quando voltaram, a mulher do professor preparou a carne de antlope e toda a famlia 
comeu. Na manh seguinte o professor sentiu-se mal e antes de ir para a escola parou no 
hospital Yambuku, no outro lado da igreja, para uma injeo aplicada pelas freiras.
No comeo de cada dia, as freiras do hospital Yambuku enfileiravam cinco seringas 
hipodrmicas numa mesa, e as usavam o dia todo nos pacientes. Estavam usando cinco 
agulhas por dia para aplicar injees em duzentas pessoas, nas clnicas de pacientes 
externos e na maternidade. As freiras e a equipe do hospital, uma vez ou outra, lavavam 
as agulhas numa vasilha com gua quente, depois de uma injeo, para limpar o sangue, 
porm a maior parte do tempo aplicavam uma injeo depois da outra, passando 
diretamente de brao para brao, misturando sangue com sangue. Uma vez que o vrus 
Ebola  extremamente infeccioso e que um mnimo de cinco ou dez partculas do vrus 
em contato com o sangue pode comear uma amplificao extrema num novo 
hospedeiro, aquela era a oportunidade para o agente se disseminar.
Alguns dias depois da injeo, o professor apresentou sinais de estar infectado com o 
vrus Ebola Zaire. Foi o primeiro caso de infeco com o Ebola Zaire mas ele podia ter 
contrado atravs da agulha suja usada no hospital, o que significa que outra pessoa 
infectada pelo Ebola teria estado no hospital e tomado uma injeo com a agulha que foi 
depois usada no professor. Essa pessoa comeou o surto do Ebola no Zaire. Como no 
Sudo, o aparecimento de uma forma de vida teoricamente capaz de invadir o mundo 
todo comeou com uma pessoa infectada.
O vrus apareceu simultaneamente em 55 aldeias em volta do hospital. Primeiro matou 
as pessoas que haviam tomado injees e depois passou para as suas famlias, matando 
especialmente as mulheres que, na frica, so encarregadas de preparar os corpos para 
os funerais. O vrus continuou a se expandir e varreu a equipe de enfermeiros do 
hospital de Yambuku, matando a maior parte e depois atacando as freiras belgas. A 
primeira religiosa a apresentar sintomas do Ebola foi uma parteira que acabava de fazer 
o parto de uma criana na-timorta. A me estava morrendo de Ebola e tinha passado o 
vrus para o filho. O feto evidentemente morreu de hemorragia no ventre da me. A 
mulher ento teve um aborto espontneo e a freira que ajudou o parto grotesco saiu da 
experincia com as mos ensangentadas. O sangue da me e do feto era extremamente 
quente, e a freira devia ter alguma rachadura ou corte nas mos. Ela desenvolveu uma 
infeco explosiva e morreu em cinco dias.
Havia uma freira no hospital Yambuku, conhecida hoje como irm M.E. Ela ficou 
gravemente doente com 1'epidemie, ou "a epidemia", como comeavam a chamar o 
surto. Um padre no Yambuku resolveu lev-la para a cidade de Kinshasa, capital do 
Zaire, para um tratamento melhor. Ele e outra freira, irm E.R. levaram a irm M.E. 
num Land Rover at a cidade de Bumba, capital regional da Zona Bumba, uma cidade 
de casas de concreto de cinzas e de madeira, nas margens do rio Congo. No pequeno 
aeroporto de Bumba, alugaram um pequeno avio para lev-los a Kinshasa e quando 
chegaram a cidade, levaram a irm M.E. para o hospital Ngaliema, um hospital 
particular dirigido por enfermeiras suecas, e a instalaram num quarto particular. Ali ela 
suportou sua agonia e encomendou a alma a Cristo.
O EBOLA ZAIRE ataca todos os rgos e tecidos do corpo humano, exceto os 
msculos do esqueleto e os ossos.  um perfeito parasita porque transforma 
praticamente todas as partes do corpo num muco digerido de partculas de vrus. De 
algum modo aquelas sete protenas misteriosas do Ebola trabalham juntas como uma 
mquina incansvel, um tubaro molecular, e consomem o corpo.  medida que a 
infeco progride, comeam a aparecer pequenos cogulos na corrente sangnea, o 
sangue fica mais grosso e mais lento e os cogulos comeam a grudar nas paredes dos 
vasos. Isso  conhecido como "pavimentao" porque os cogulos se juntam num 
mosaico, que aos poucos vai crescendo no revestimento dos vasos sangneos. O 
mosaico fica mais espesso e lana mais cogulos que seguem com a corrente sangnea 
para os pequenos capilares, onde ficam presos. Isso impede o suprimento de sangue a 
vrias partes do corpo, fazendo com que apaream pontos mortos no crebro, no fgado, 
nos rins, pulmes, intestinos, testculos, no tecido do peito (tanto nos homens quanto 
nas mulheres) e atravs da pele. Aparecem manchas vermelhas na pele, chamadas 
petquias, que so hemorragias subcutneas. O Ebola ataca o tecido conjuntivo com 
extrema ferocidade. Ele se multiplica no colgeno, o tecido responsvel pela unidade da 
pele e que mantm os rgos juntos. O colgeno do corpo transforma-se numa pasta 
informe e as camadas subjacentes da pele morrem e se dissolvem. Formam-se pequenas 
bolhas brancas e vermelhas na pele como uma erupo macu-lopapular. Essa erupo j 
foi comparada a pudim de tapioca. Rachaduras espontneas aparecem tambm na pele, 
das quais brota o sangue hemorrgico. Os pontos vermelhos crescem e se espalham, 
unindo-se e se transformando em enormes equimoses espontneas; a pele fica lisa e 
polposa e pode se abrir  menor presso. A boca sangra, as gengivas sangram e pode 
haver hemorragias das glndulas salivares  literalmente, todos os orifcios do corpo 
sangram, por menores que sejam. A superfcie da lngua adquire uma cor vermelha 
brilhante e depois se desfaz, sendo engolida ou cuspida. Dizem que  extremamente 
doloroso perder a superfcie da lngua. A pele da lngua pode ser partida durante um 
acesso de vmito. A parte posterior da garganta e o revestimento da traquia podem 
tambm se desfazer e o tecido morto desce pela traquia para os pulmes, ou  expelido 
com a tosse, junto com o catarro. A parte interna do corao sangra, o msculo fica 
flcido, com hemorragias nas suas cmaras, e o sangue jorra a cada batida, enchendo a 
cavidade torcica. O crebro comea a ficar repleto de glbulos vermelhos mortos, uma 
condio conhecida como "enlameamento do crebro". O Ebola ataca o revestimento do 
globo ocular, que pode ficar cheio de sangue e provocar cegueira. Gotculas de sangue 
aparecem nas plpebras. O doente pode chorar sangue. O sangue corre dos olhos, 
descendo pelo rosto sem coagular. Pode ocorrer um derrame hemisfrico, no qual todo 
um lado do corpo fica paralisado,  o que, no caso do Ebola, invariavelmente  fatal. 
Mesmo quando os rgos internos comeam a ficar saturados com sangue coagulado, o 
sangue que sai do corpo no coagula e parece soro extrado de coalhada. Perdeu todos 
os seus fatores de coagulao. Examinando o sangue sado do corpo, num tubo de 
ensaio, verifica-se que foi destrudo. Os glbulos vermelhos esto partidos e mortos. O 
sangue parece passado num liqidificador.
O Ebola mata uma grande quantidade de tecido enquanto o hospedeiro ainda est vivo. 
Ele desencadeia uma necrose insidiosa que se dissemina por todos os rgos internos. O 
fgado incha, fica amarelo, comea a se liqefazer e ento racha. As rachaduras 
profundas aparecem no rgo inteiro, e ento o fgado morre e apodrece. Os rins, cheios 
de cogulos de sangue e clulas mortas, param de funcionar. Com a parada dos rins, a 
urina intoxica o sangue. O bao se transforma num cogulo de sangue, enorme e duro, 
do tamanho de uma bola de beisebol. Os intestinos podem ficar completamente cheios 
de sangue. O revestimento da cavidade abdominal morre, espalha-se no intestino de 
onde  expelido com enormes quantidades de sangue. Nos homens, os testculos ficam 
obstrudos e roxos, o smen fica quente com o Ebola e os mamilos podem sangrar. Nas 
mulheres, os grandes lbios ficam azuis, arroxeados e dilatados e pode haver 
hemorragia vaginal macia. O vrus  uma catstrofe para mulheres grvidas. A criana 
 abortada espontaneamente e geralmente infectada com o Ebola, nascendo com olhos 
vermelhos e sangramento no nariz.
O Ebola destri o crebro com maior ferocidade do que o Marburg e as vtimas 
geralmente tm convulses epilpticas no estgio final da doena. So convulses 
generalizadas, do tipo grand mal  o corpo todo se contorce e treme, braos e pernas se 
agitam e os olhos, s vezes vertendo sangue, giram para dentro. Os tremores e 
convulses do paciente podem espalhar sangue em volta dele. Possivelmente esse 
lanamento de sangue nas crises epilpticas  uma das estratgias do Ebola para 
espalhar o sangue e dar ao vrus a chance de saltar para um novo hospedeiro  uma 
espcie de transmisso por mancha de sangue.
O Ebola e o Marburg se multiplicam com tanta rapidez e fora que as clulas do corpo 
infectado se transformam em blocos que parecem ser de cristal, formados por partculas 
do vrus. Esses cristalides so chocadeiras do vrus preparando-se para sair da clula. 
So chamados de "tijolos". Os tijolos ou cristalides aparecem primeiro perto do centro 
da clula e depois migram para a superfcie. Quando alcanam a parede de uma clula, 
desintegram-se em centenas de partculas individuais de vrus que atravessam a parede 
como fios de cabelo e se lanam na corrente sangnea do hospedeiro. As partculas 
"chocadas" do Ebola aderem a todas as clulas do corpo, entram nelas e continuam a se 
multiplicar, at as reas de tecido do corpo ficarem cheias de cristalides, que "saem da 
casca e mais partculas do Ebola penetram na corrente sangnea. Essa multiplicao 
continua inexorvel at uma gotcula do sangue da vtima poder conter cem milhes de 
partculas individuais do vrus.
Depois da morte, o cadver se deteriora rapidamente. Os rgos internos, completa ou 
parcialmente mortos h dias, j comearam a se dissolver e ocorre uma espcie de 
liquefao relacionada ao choque. Os tecidos conjuntivos do cadver, pele e rgos, j 
cheios de pontos necrosados, aquecidos pela febre e lesados pelo choque, comeam a 
derreter e os fluidos que saem do corpo esto saturados de partculas do vrus Ebola.
Quando tudo terminou, o cho, a cadeira e as paredes no quarto de hospital da Irm 
M.E. estavam manchados de sangue. Uma pessoa que viu o quarto disse-me mais tarde 
que depois que levaram o corpo (enrolado em vrios lenis) ningum no hospital 
queria entrar para fazer a limpeza. As enfermeiras e os mdicos no tocavam no sangue 
nas paredes e no escondiam o temor de respirar o ar do quarto. Desse modo, o quarto 
ficou trancado durante vrios dias. A aparncia do quarto da freira no hospital deve ter 
feito surgir nas mentes de muitas pessoas uma ou duas questes sobre a natureza do ente 
supremo, ou, para aqueles sem inclinao para a teologia, o sangue nas paredes talvez 
tenha servido como uma lembrana da natureza da Natureza.
Ningum sabia a causa da morte da freira, mas estava claro que se tratava de um agente 
capaz de se multiplicar e no era fcil considerar com tranqilidade os sinais e sintomas 
da doena. O que tambm no conduzia a uma calma reflexo eram os rumores vindos 
da selva no sentido de que o agente estava dizimando aldeias inteiras rio acima, no 
Congo. Esses rumores eram falsos. O vrus estava atacando famlias seletivamente, mas 
ningum compreendia isso, porque o fluxo de notcias daquela regio estava sendo 
abafado. Os mdicos do hospital em Kinshasa examinaram o caso da freira e 
comearam a suspeitar que ela teria sido vtima do Marburg ou de um agente igual ao 
Marburg.
Ento a irm E.R., a religiosa que havia viajado com a irm M.E. no avio para 
Kinshasa, caiu vtima de Vpidemie. Eles a puseram num quarto particular no hospital, 
onde ela comeou a morrer com os mesmos sinais e sintomas que tinham vitimado a 
irm M.E.
No hospital Ngaliema havia uma jovem enfermeira chamada Mayinga N. (Seu primeiro 
nome era Mayinga e o sobrenome  dado apenas como N.) A enfermeira Mayinga 
cuidava da primeira freira que morreu no quarto manchado de sangue. Pode ter sido 
atingida pelo sangue ou pelo vmito negro da paciente. Seja como for, a enfermeira 
Mayinga comeou a sentir dor de cabea e cansao. Sabia que estava ficando doente, 
mas no queria admitir a verdadeira causa. Vinha de uma famlia pobre mas ambiciosa e 
havia ganho uma bolsa para estudar na Europa. O que a preocupava era a possibilidade 
de no fazer a viagem. Quando a dor de cabea surgiu, ela abandonou o emprego no 
hospital e desapareceu. Durante dois dias em que no foi vista por ningum, Mayinga 
foi  cidade na esperana de conseguir o visto de viagem, antes da doena se manifestar. 
Passou um dia nas filas do Ministrio do Exterior do Zaire  12 de outubro de 1976, 
para pr em ordem seus papis.
No dia seguinte, 13 de outubro, ela estava pior, mas em vez de ir trabalhar, foi outra vez 
 cidade. Dessa vez tomou um txi para o maior hospital de Kinshasa, o Mama Yemo. 
A essa altura as dores de cabea estavam insuportveis e a dor no estmago mais forte. 
Mayinga deve ter ficado apavorada. Por que no procurou o hospital onde trabalhava, 
onde os mdicos tomariam conta dela? Deve ter sido um caso de negao psicolgica. 
Mayinga no queria admitir, nem para si mesma, que estava infectada. Talvez fosse uma 
crise de malria. Assim, ela procurou o hospital Mama Yemo, o ltimo recurso dos 
pobres da cidade, e passou longo tempo esperando na emergncia, ao lado de adultos e 
crianas pobres.
Posso v-la mentalmente  a enfermeira Mayinga, a fonte do vrus nos congeladores 
do Exrcito dos Estados Unidos. Ela esteve em Kinshasa no dia 12 de outubro de 1976. 
Era uma jovem africana agradvel e bonita, com uns vinte anos, no vigor da vida, com 
um futuro e sonhos, esperando de algum modo que no fosse verdade o que estava 
acontecendo com ela. Dizem que todos os seus pacientes a amavam muito, que ela era a 
menina dos olhos deles. Agora ela est sentada na sala de espera da emergncia do 
hospital Mama Yemo, entre os casos de malria, crianas barrigudas e andrajosas e 
ningum presta ateno nela porque o que Mayinga tem  apenas dor de cabea e olhos 
vermelhos. Talvez o fato de ter chorado explique a cor dos olhos. Um mdico lhe aplica 
uma injeo contra malria e diz que ela deve ficar no isolamento do hospital Mama 
Yemo. Mayinga sai do hospital e toma outro txi. Manda o motorista rumar para outro 
hospital, o hospital Universidade, onde talvez os mdicos possam tratar dela. Porm, no 
hospital Universidade, os mdicos no encontram nada de errado com ela, a no ser 
possivelmente alguns sinais de malria. A dor de cabea est piorando. Quando tento 
imagin-la sentada na sala de espera do hospital, tenho quase certeza de que Mayinga 
est chorando. Finalmente ela faz a nica coisa que restava fazer. Volta para o hospital 
Ngaliema e pede para ser admitida como paciente. Fica num quarto particular e ali cai 
em letargia e seu rosto se imobiliza numa mscara.
As notcias sobre o vrus e o que ele fazia com as pessoas chegavam aos poucos da 
selva, e agora o rumor de que uma enfermeira doente tinha andado pela cidade de 
Kinshasa durante dois dias, tendo tido contato direto com muitas pessoas em salas 
lotadas e lugares pblicos, provocou pnico na cidade. A histria se espalhou primeiro 
na misso e atravs de funcionrios do governo, e nos coquetis dos diplomatas e 
finalmente chegou  Europa. Quando alcanou os escritrios da Organizao Mundial 
de Sade em Genebra, a OMS entrou em pnico total. Pessoas que estavam em Genebra 
na poca contam que o medo era palpvel nos corredores e o diretor estava visivelmente 
abalado. A enfermeira Mayinga aparentemente foi o vetor de uma cadeia explosiva de 
transmisso letal, numa cidade do Terceiro Mundo, com dois milhes de habitantes. 
Funcionrios da OMS comearam a temer que a enfermeira Mayinga se tornasse o vetor 
de uma praga mundial. Os governos europeus pensaram em bloquear os vos de 
Kinshasa. O fato de uma pessoa infectada ter andado na cidade durante dois dias, 
quando devia estar isolada num quarto de hospital, comeava a parecer uma ameaa  
espcie humana.
O presidente Mobutu Sese Seko, o lder mximo do Zaire, mobilizou seu Exrcito. Os 
soldados cercaram o hospital Ngaliema com ordens para no permitir a entrada nem a 
sada de pessoa alguma, exceto dos mdicos. Grande parte da equipe mdica estava de 
quarentena dentro do hospital, mas os soldados estavam ali para garantir a observncia 
desse isolamento. O presidente Mobutu enviou tambm unidades do Exrcito para isolar 
a Zona Bumba com ordens para bloquear as estradas e fuzilar quem tentasse sair. O 
principal elo de ligao de Bumba com o mundo exterior era o rio Congo. Os capites 
dos barcos fluviais a essa altura j haviam ouvido falar no vrus e recusavam parar seus 
barcos ao longo do rio Bumba, ignorando as splicas das pessoas na margem. Ento 
perderam contato de rdio com Bumba. Ningum sabia o que estava acontecendo 
naquela parte do rio, quem estava morrendo, o que o vrus estava fazendo. Bumba havia 
desaparecido da face da terra, mergulhada no corao silencioso das trevas.
QUANDO A PRIMEIRA FREIRA estava morrendo no hospital Ngaliema, os mdicos 
resolveram fazer uma "bipsia agonal". A bipsia agonal consiste na retirada de uma 
amostra de tecido, quase no momento da morte, em vez de uma autpsia completa. Ela 
pertencia a uma ordem religiosa que proibia autpsias, mas os mdicos queriam saber o 
que estava se multiplicando dentro dela. Quando ela entrou em choque terminal e 
comearam as convulses, inseriram uma agulha na parte superior do seu abdome e 
retiraram uma poro do fgado. O fgado estava comeando a liqefazer e a agulha era 
larga. Uma boa quantidade do fgado da freira subiu pela agulha e encheu a seringa da 
bipsia. Possivelmente foi nesse momento que seu sangue espirrou nas paredes. Os 
mdicos retiraram tambm amostras de sangue do brao, e separaram o soro. O sangue 
da freira tinha um valor incalculvel, uma vez que continha o agente quente 
desconhecido.
O sangue foi levado de avio para um laboratrio nacional na Blgica e para o 
laboratrio nacional da Inglaterra, o Estabelecimento de Pesquisas Microbiolgicas, em 
Porton Down, no Wiltshire. Cientistas dos dois laboratrios comearam uma corrida 
para identificar o agente. Enquanto isso, nos Centros de Controle de Doenas, em 
Atlanta, Gergia  Cen-ters of Disease Control, CDC  os cientistas sentiam-se 
excludos do processo e lutavam para pr as mos num pouco do sangue da freira, 
telefonando para a frica e para a Europa, pedindo amostras.
EXISTE UM RAMO dos CDC que estuda vrus desconhecidos.  chamado Ramo 
Especial de Patogenia. Em 1976, na ocasio do surto no Zaire, esse departamento era 
dirigido pelo Dr. Karl M. Johnson, um virologista que fez um trabalho de campo nas 
florestas tropicais, no centro da Amrica do Sul (ele no  parente de Gene Johnson, o 
civil caador de vrus, nem do coronel Tony Johnson, o patologista). Karl Johnson e 
seus colegas dos CDC pouco sabiam sobre as ocorrncias no Zaire  sabiam apenas 
que o povo no Zaire estava morrendo de uma "febre" com "sintomas generalizados"  
nenhum detalhe tinha vindo da selva nem do hospital onde a freira acabava de morrer. 
Parecia muito srio. Johnson telefonou para um amigo no laboratrio ingls em Porton 
Down e, segundo me contaram, disse, "se voc tem algumas gotculas do sangue 
daquela freira, que no faam falta, gostaramos de dar uma espiada nelas". O ingls 
concordou em mandar a amostra e o que ele recebeu foram literalmente algumas 
gotculas.
O soro chegou em tubos de ensaio numa caixa forrada com gelo seco. Uma virologista 
dos CDC, Patrcia Webb  nessa poca casada com Johnson  abriu a caixa. Ela 
notou que o pacote estava sujo de sangue pegajoso, como piche, negro e espesso, como 
caf turco. Patrcia calou as luvas de borracha mas no tomou nenhuma outra 
precauo especial para manejar o soro. Com algumas bolas de algodo, ela conseguiu 
limpar uma parte do material escuro e depois, apertando o algodo entre os dedos, 
coletou algumas gotas, o suficiente para comear o teste para vrus.
Patrcia Webb ps o soro em frascos com clulas de macacos e logo as clulas 
adoeceram comearam a morrer. O agente desconhecido podia infectar clulas de 
macacos, fazendo com que explodissem.
Outro mdico dos CDC que tambm trabalhava com vrus desconhecidos era o Dr. 
Frederick A. Murphy, que havia ajudado a identificar o vrus Marburg. Ele foi um dos 
mais renomados fotgrafos de vrus, usando o microscpio eletrnico (suas fotografias 
de vrus tm sido expostas em museus de arte). Murphy queria examinar as clulas 
agonizantes, na esperana de fotografar os vrus nas mesmas. No dia 13 de outubro  o 
dia em que a enfermeira Mayinga esteve nas salas de espera dos hospitais em Kinshasa 
 ele depositou uma gotcula do fluido das clulas numa pequena tela, deixou secar e 
levou a crosta ao seu microscpio eletrnico.
Murphy mal podia acreditar no que via. O soro estava repleto de partculas de vrus. Ele 
jamais vira coisa igual. O fluido seco estava cheio de corpos minsculos que pareciam 
fios de linha. Com um aperto na garganta, o mdico pensou que estava vendo o vrus 
Marburg.
Murphy levantou-se bruscamente, com uma sensao estranha. O laboratrio onde ele 
havia preparado aquelas amostras estava quente, quente como o inferno. Ele saiu da sala 
do microscpio, fechou a porta e foi rapidamente para o laboratrio onde havia 
trabalhado com o sangue da freira. Apanhou uma garrafa de Clorox e lavou a sala de 
cima a baixo, os balces, as pias, tudo. Fez uma faxina em regra. Quando terminou, 
procurou Patrcia Webb e descreveu o que tinha visto no microscpio. Ela telefonou 
para o marido e disse, "Karl, acho bom voc vir imediatamente ao laboratrio. Fred 
examinou uma amostra e encontrou vermes".
Eles examinaram os vermes, tentando classificar suas formas. Viram serpentes, rabos de 
porco, galhos, dentes, coisas que pareciam um Y e notaram outros como um "g" 
minsculo, outros com a forma de U e laos sobrepostos. Notaram tambm uma forma 
clssica que chamaram de "bordo de pastor".
Outros estudiosos do Ebola chamaram essa forma de "cavilha de olhai", um parafuso 
encontrado nas lojas de ferragens. Podia tambm ser descrito como um tipo de biscoito 
salgado com uma cauda longa.
Uma partcula isolada do vrus Ebola com um destacado "bordo de pastor"  neste 
caso, uma espiral irregular. Esta  uma das primeiras fotografias j feitas do Ebola, 
tirada em 1976 por Frederick A. Murphy nos Centros de Controle de Doenas. As 
salincias em forma de corda na partcula so as misteriosas protenas estruturais. Elas 
circundam uma nica formao de ARN, o cdigo gentico do vrus. Magnificao: 
112.000 vezes.
No dia seguinte, Patrcia Webb fez alguns testes com o vrus e descobriu que ele no 
reagia a nenhum dos testes usados para o Marburg e para outros vrus conhecidos. 
Logo, tratava-se de um agente novo, um novo vrus. A equipe havia isolado a variedade 
e demonstrado que era uma coisa nova, conquistando o direito de dar o nome ao 
organismo. Karl Johnson o chamou de Ebola.
Karl Johnson deixou os CDC e hoje passa grande parte do tempo pescando trutas em 
Montana. D consultas sobre vrios assuntos, incluindo desenhos para zonas quentes 
pressurizadas. Descobri que podia ser contatado por meio de um fax em Big Sky, 
Montana, e lhe enviei uma mensagem. Meu fax foi recebido, mas no tive resposta. 
Esperei um dia e mandei outro fax, que tambm se perdeu no silncio. Ele devia estar 
ocupado demais para responder. Quando eu j havia perdido a esperana, meu fax 
imprimiu esta mensagem:
"Sr. Preston
A no ser que o senhor inclua a sensao de olhar nos olhos de uma cobra pronta para o 
bote, fascnio no  o que eu sinto pelo Ebola. Que tal o medo de borrar as calas?"
DOIS dias depois que sua equipe isolou o vrus Ebola pela primeira vez, Karl Johnson 
viajou para a frica na companhia de dois outros mdicos dos CDC e 17 caixas 
contendo instrumentos, com inteno de organizar um esforo para deter o vrus no 
Zaire e no Sudo (o surto continuava no Sudo). Voaram primeiro para Genebra, para 
entrar em contato com a OMS, e descobriram que a organizao sabia muito pouco 
sobre os surtos. Ento os mdicos organizaram seus equipamentos e encheram mais 
caixas, preparados para partir do aeroporto de Genebra para a frica. Porm, no ltimo 
momento, um dos mdicos dos CDC entrou em pnico. Dizem que ele estava designado 
para o Sudo e revelou estar com medo de prosseguir viagem. No era uma situao 
incomum. Como Karl Johnson me explicou, "eu j vi mdicos jovens fugindo 
literalmente desses vrus hemorrgicos. No conseguem trabalhar durante um surto. 
Recusam-se a sair do avio".
Johnson, um dos descobridores do Ebola, preferia falar sobre esses eventos enquanto 
pescava com isca artificial. ("Temos de manter nossas prioridades", ele explicou.) 
Assim, tomei um avio para Montana e passei alguns dias pescando trutas no rio 
Bighorn. Estvamos em outubro, o tempo estava claro e quente, e as rvores ao longo 
da margem estavam amarelas e estalavam ao vento. Com gua at a cintura num trecho 
mutante do rio, de culos escuros, com um cigarro dependurado nos lbios e a vara de 
pesca na mo, Johnson lanou a linha rio acima. Era um homem magro, usava barba, 
tinha a voz suave e baixa quase abafada pelo vento.  uma grande figura na histria da 
caa aos vrus, tendo descoberto algumas das formas de vida mais perigosas do planeta 
bem como escolhido os nomes para elas.
 Fico feliz por ver que a natureza no  benigna  observou ele. Olhou para a gua, 
deu um passo rio abaixo e jogou outro anzol.  Mas num dia como hoje podemos 
fingir que ela  benigna. Todos os monstros e animais tm seus momentos benignos.
 O que aconteceu no Zaire?  perguntei.
 Quando chegamos a Kinshasa, encontramos um verdadeiro hospcio. No tinham 
nenhuma notcia de Bumba, nenhum contato por rdio. Sabamos que a situao era 
desesperadora e que estvamos tratando com alguma coisa nova. No sabamos se o 
vrus podia se disseminar no ar, por meio de gotculas, como a gripe. Se o Ebola 
pudesse ser transmitido pelo ar, o mundo seria um lugar muito diferente hoje.
 Como assim?  perguntei.
 Seramos em nmero muito menor. Teria sido extremamente difcil conter o vrus se 
ele tivesse um componente respiratrio importante. Imaginei que, se o Ebola era da 
variedade Andrmeda  incrivelmente letal e disseminando-se por meio de gotculas 
infectadas  no haveria nenhum lugar seguro no mundo todo. Seria melhor estar 
trabalhando no epicentro do que apanhar a infeco na pera, em Londres.
 Preocupa-se com a possibilidade de uma ocorrncia que ameace toda a espcie?
Ele olhou para mim.
 De que diabo est falando?
 Estou falando de um vrus que possa dizimar a espcie humana.
 Bem, acho que pode acontecer. Certamente ainda no aconteceu. No estou 
preocupado. O mais provvel  um vrus que reduza em noventa por cento a populao.
 Nove entre dez seres humanos mortos? E isso no o preocupa?
Com uma expresso quase divertida, ele disse:
 Um vrus pode ser til para uma espcie ao diminu-la. Um grito cortou o ar. No 
parecia humano.
Ele olhou em volta.
 Ouviu aquele faiso?  isso que eu gosto no rio Big-horn  disse ele.
 Acha os vrus belos?
 Ah, sim  disse ele, em voz baixa.  No  verdade que, quando olhamos nos 
olhos de uma cobra, o medo adquire outra dimenso? O medo diminui  proporo que 
comeamos a ver a essncia da beleza. Examinar o Ebola no microscpio eletrnico  
como ver um castelo de gelo maravilhosamente construdo. A coisa  to fria. To 
absolutamente pura.
Karl Johnson tornou-se chefe de uma equipe da Organizao Mundial de Sade, reunida 
em Kinshasa.
O OUTRO MDICO DOS CDC, Dr. Joel Breman, que havia viajado com Johnson para 
o Zaire, fez parte de uma equipe de explorao de campo que tomou um avio para o 
interior para ver o que estava acontecendo em Bumba. O avio era um Bfalo C-130 da 
Fora Area do Zaire. Era o avio particular do Presidente Mobutu, equipado com 
poltronas forradas com pele de leopardo, camas de armar e um bar, uma espcie de 
palcio voador residencial. Geralmente conduzia o presidente e sua famlia para suas 
frias na Sua, mas agora transportava a equipe da OMS para a zona quente, 
acompanhando o rio Congo na direo norte, pelo leste. Sentados nas poltronas de pele 
de leopardo, os mdicos viam, l embaixo, extenses infindveis de florestas tropicais e 
o rio marrom, como um lenol imenso, interrompido aqui e ali por um lago formado por 
uma curva do rio ou um conjunto de cabanas redondas como contas enfiadas numa 
estrada quase invisvel ou uma trilha estreita. Olhando para o corao da frica, l 
embaixo, Breman ficou apavorado com a idia de descer naquela terra selvagem. Ali, 
muito acima da floresta, estava a salvo, mas no cho... Breman comeou a sentir que 
estava indo para Bumba para morrer. Recentemente fora nomeado epidemiologista do 
estado de Michigan e de repente foi chamado para a frica. Nunca mais veria a mulher 
e os dois filhos, que o esperavam no Michigan. Levava na valise de mo uma escova de 
dentes e algumas mscaras cirrgicas de papel, jalecos e luvas de borracha. No era o 
equipamento adequado para manejar um agente quente. O Bfalo desceu e viram a 
cidade de Bumba, um porto tropical abandonado, na margem do rio Congo. O Bfalo 
aterrissou numa pista fora da cidade. A tripulao zairense apavorada, com medo de 
respirar o ar de Bumba, sem desligar os motores, praticamente empurrou os mdicos 
para fora do avio, atirando as malas atrs deles. A equipe viu o Bfalo levantar vo e 
desaparecer.
Na cidade, procuraram o governador da Zona Bumba. Era um poltico local e estava 
extremamente abalado. A emergncia era mais do que ele podia suportar.
 Nossa situao  muito ruim  ele disse.  No conseguimos obter sal e nem 
acar.  Com voz trmula, quase chorando, acrescentou.  No conseguimos nem 
cerveja.
Um mdico belga da equipe sabia como manejar a situao. Com um largo gesto teatral, 
ps sobre a mesa uma valise negra que aparentemente continha material mdico. Ento 
ele a abriu, virou de cabea para baixo e maos de notas caram na mesa, formando uma 
pilha impressionante.
 Governador, talvez isto melhore as coisas por aqui  disse ele.
 O que est fazendo?  Breman perguntou para o mdico.
O belga deu de ombros.
 Escute,  assim que fazemos as coisas por aqui.
O governador apanhou o dinheiro e prometeu cooperao irrestrita, alm de todos os 
recursos do governo  sua disposio  e emprestou a eles dois Land Rovers.
Eles seguiram para o norte, na direo do rio Ebola.
Era a estao das chuvas e a "estrada" era uma faixa de buracos cheios de lama, cortada 
por pequenos regatos. Com os motores gemendo, as rodas girando em falso, seguiram 
lentamente atravessando a floresta, sob a chuva contnua e o calor opressivo. 
Ocasionalmente chegavam a uma aldeia e encontravam a passagem impedida por 
troncos de rvores abatidas. Com sua experincia secular com o vrus da varola, os 
mais velhos haviam institudo os prprios mtodos de controle do vrus, de acordo com 
o conhecimento tradicional, que consistia em isolar a aldeia do resto do mundo, para 
proteger seu povo da praga assoladora. Era a quarentena dos sos, uma prtica muito 
antiga na frica, onde as aldeias impedem a entrada de estranhos nos tempos de 
epidemias e expulsam todos que aparecem.  Quem so vocs? O que esto fazendo? 
 eles perguntavam aos passageiros dos Land Rovers, sem sair de trs da barreira de 
troncos.
 Somos mdicos! Viemos ajudar!
Finalmente eles retiravam os troncos e a equipe continuava sua jornada para o interior 
da floresta. Num longo e desesperado dia de viagem, percorreram 80 quilmetros, a 
partir do rio Congo e finalmente, ao cair da noite, chegaram a uma fileira de casas 
africanas com telhados de palha. Alm das casas estava a igreja branca, no meio da 
floresta. De cada lado da igreja havia um campo de futebol e, no meio de um deles, uma 
pilha de colches queimados. Duzentos metros mais adiante, ficava o hospital 
Yambuku, um complexo de construes baixas de concreto, com as paredes caiadas, e 
telhados de metal ondulado.
O hospital, silencioso como um tmulo, parecia deserto. Os leitos eram de ferro ou 
estrados de madeira sem colches  os colches encharcados de sangue tinham sido 
queimados no campo de futebol  o cho, de onde o sangue fora lavado h pouco 
tempo, estava imaculadamente limpo. A equipe descobriu trs religiosas sobreviventes e 
umas poucas dedicadas enfermeiras africanas. Elas haviam lavado tudo depois que o 
vrus levou todos os outros. Os mdicos encontraram as freiras e enfermeiras nas 
enfermarias vazias, vaporizando o ar com inseticida, na esperana de dispersar o vrus. 
Um quarto do hospital no fora limpo. Ningum, nem mesmo as freiras tinha coragem 
de entrar na enfermaria de obstetrcia. Quando Joel Breman e sua equipe entraram na 
sala viram bacias cheias de gua malcheirosa entre seringas manchadas de sangue. A 
sala fora abandonada entre um e outro parto, quando as mes agonizantes abortavam 
espontaneamente bebs com olhos vermelhos. A equipe tinha descoberto a cmara 
vermelha da rainha dos vrus, nos confins da terra, onde a forma de vida havia se 
multiplicado por meio das mes e dos filhos no nascidos. A chuva continuou por todo 
aquele dia e toda a noite. Em volta do hospital e da igreja erguiam-se as rvores, belas e 
selvagens, uma mistura de teca e cnfora. Suas copas entrelaavam-se e se cruzavam, 
murmurando com a chuva, curvan-do-se e balanando quando bandos de macacos 
passavam como correntes de vento, saltando de copa em copa, com seus gritos 
intraduzveis. No dia seguinte, os mdicos penetraram mais fundo na floresta com seus 
Land Rovers e fizeram contato com aldeias infectadas, onde as vtimas morriam nas 
cabanas. Algumas delas estavam isoladas fora do permetro da aldeia  uma antiga 
tcnica africana para combater a varola. Algumas cabanas onde os doentes tinham 
morrido foram queimadas. Aparentemente o surto estava diminuindo de fora e a maior 
parte dos que tinham de morrer estava morta, uma vez que o vrus havia passado to 
rapidamente por Bumba. Emocionado, Joel Breman compreendeu, com a clareza 
perfeita de um mdico que de repente v o corao das coisas, que as vtimas haviam 
sido infectadas no hospital. O vrus havia se instalado nas freiras e dali saltara para 
aqueles que procuravam a ajuda das noivas de Cristo. Numa das aldeias ele examinou 
um homem agonizante infectado pelo Ebola. Sentado numa cadeira, ele segurava a 
barriga, com o corpo curvado de dor, e o sangue corria entre seus dentes.
Tentaram se comunicar com Kinshasa pelo rdio, para dizer a Karl Johnson e aos outros 
que a epidemia estava quase no fim. Uma semana mais tarde, estavam ainda tentando 
contato, mas no conseguiram. Voltaram para a cidade de Bumba e esperaram na 
margem do rio. Certo dia apareceu um avio. Depois de sobrevoar a cidade uma vez, 
pousou e eles correram para ele.
NO HOSPITAL NGALIEMA, em Kinshasa, a enfermeira Mayinga havia ficado num 
quarto particular, cuja nica via de acesso era uma pequena ante-sala, uma espcie de 
zona cinzenta, onde as enfermeiras e o pessoal do hospital deviam vestir roupas 
protetoras, antes de entrar. Mayinga foi tratada por uma mdica sul-africana, Dra. 
Margaretha Isaacson, que usava uma mscara militar, contra gases, extremamente 
desconfortvel no calor intenso. A mdica pensou, "no vou suportar isso. De qualquer 
modo, ficarei surpresa se sair viva disso. Ento pensou nos filhos. "Eles esto 
crescidos", pensou ela, "minha responsabilidade  limitada." Ento, tirou a mscara e 
tratou da jovem agonizante face a face.
A Dra. Isaacson fez todo o possvel para salvar Mayinga, mas sua impotncia contra o 
agente era a mesma dos mdicos medievais contra a peste negra. ("No era como a 
AIDS", lembrava ela, mais tarde. "AIDS  brinquedo de criana comparada a isso.") Ela 
dava cubos de gelo para Mayinga chupar, o que aliviava a dor na garganta, e dava 
Valium para que Mayinga no se preocupasse com o que a esperava.
 Sei que estou morrendo  disse Mayinga.
 Bobagem, voc no vai morrer  garantiu a Dra. Isaacson.
A hemorragia externa de Mayinga comeou na boca e no nariz. No jorrava, apenas 
pingava e corria, sem parar e sem coagular. Era uma hemorragia nasal do tipo que s 
pra quando o corao deixa de bater. A Dra. Isaacson aplicou trs transfuses de 
sangue integral para repor a perda. Mayinga permaneceu consciente e desanimada at o 
fim. No estgio final, seu pulso entrou em ritmo galopante. O Ebola havia penetrado em 
seu corao. Apavorada, ela o sentia desmanchando-se dentro do peito. Naquela noite 
ela morreu de parada cardaca.
Seu quarto estava contaminado com sangue e havia tambm a questo do quarto da 
freira, ainda fechado e sujo de sangue. A Dra. Isaacson disse para o pessoal do hospital, 
"Eu no posso fazer muito por vocs agora", e apanhando um balde e um esfrego lavou 
e esfregou os dois quartos.
Equipes mdicas percorreram a cidade e conseguiram localizar 37 pessoas que haviam 
tido contato direto com Mayinga nos dois dias em que ela as visitara. Instalaram dois 
pavilhes de bioconteno no hospital e isolaram essas pessoas durante duas semanas. 
Envolveram os cadveres das freiras e da enfermeira Mayinga em lenis embebidos 
em anti-spticos, depois em plstico e as puseram em caixes hermeticamente fechados, 
com as tampas pregadas com pregos e os servios fnebres foram realizados no 
hospital, sob a vigilncia dos mdicos. Karl Johnson, sem notcias da equipe que estava 
em Bumba, imaginou se estariam todos mortos e o vrus prestes a assolar toda a cidade. 
Adaptou um barco fluvial para servir de hospital flutuante e o ancorou na margem do 
rio Congo. Era um hospital de isolamento para os mdicos. A cidade seria a zona quente 
e o hospital flutuante serviria como rea cinzenta, o refgio dos mdicos. Cerca de mil 
americanos viviam no Zaire naquela poca. Nos Estados Unidos a 82.a Diviso 
Aerotransportada do Exrcito entrou em regime de alerta, preparada para evacuar os 
americanos por ar, assim que aparecessem os primeiros casos de Ebola na cidade. Mas 
ento, para estranho e maravilhoso alvio do Zaire e do mundo, o vrus jamais atacou a 
cidade. Ele desapareceu na nascente do rio Ebola e voltou para seu esconderijo na 
floresta. O agente Ebola aparentemente no era contagioso em contatos face a face. Ao 
que parecia, no viajava no ar. Ningum apanhou o vrus da enfermeira Mayinga, 
embora ela tivesse estado em contato direto com pelo menos 37 pessoas. Ela havia 
partilhado uma garrafa de refrigerante com algum e nem mesmo essa pessoa ficou 
doente. A crise passou.
Cardinal
SETEMBRO DE 1987
O REFGIO SECRETO DO EBOLA, como o do Marburg, no era conhecido. Depois 
de atacar Charles Monet e o Dr. Shem Mu-soke, o Marburg desapareceu e ningum 
sabia para onde tinha ido. Parecia ter desaparecido da face da terra, mas os vrus nunca 
vo embora, apenas se escondem e o Marburg continuou seu ciclo em algum 
reservatrio de animais ou insetos, na frica.
No dia 2 de setembro de 1987, quase na hora do jantar, Eugene Johnson, o civil 
especialista em biorrisco, que trabalhava no USAMRIID estava na rea de chegada de 
passageiros no aeroporto internacional Dulles, perto de Washington. Esperava o vo da 
KLM de Amsterd, que trazia passageiros do Qunia. Um homem com uma mochila 
passou pela alfndega e trocou uma inclinao de cabea com Johnson. ("No vou citar 
o nome dessa pessoa. Digamos apenas que era algum que eu conhecia e em quem 
confiava", explicou Johnson.) O homem ps a mochila no cho perto de Johnson, abriu 
o zper e tirou alguma coisa envolta em vrias toalhas de banho. Tirou as toalhas e 
apareceu uma caixa de papelo sem nada escrito, fechada por vrias tiras de fita adesiva. 
Entregou a caixa para Johnson. Trocaram umas poucas palavras e Johnson saiu do 
terminal, ps a caixa na mala do seu carro e foi para o instituto. A caixa continha soro 
sangneo de um menino de dez anos, que chamaremos de Peter Cardinal, morto uns 
dois dias antes, no hospital Nairobi com uma combinao de sintomas extremos que 
sugeriam um vrus no identificado do nvel 4. A caminho do instituto, Johnson se 
perguntava o que ia fazer com a caixa. Estava inclinado a esterilizar o contedo num 
forno e depois queimar. Cozinhar, queimar e esquecer. A maior parte das amostras que 
chegavam ao instituto  e amostras de sangue e de tecido chegavam constantemente de 
todos os cantos do mundo  no continha nada fora do comum, nenhum vrus 
interessante. Em outras palavras, a maioria das amostras era alarme falso. No estava 
muito certo se queria perder tempo analisando um soro que, com toda probabilidade, 
podia no revelar nada de novo. Porm, quando passou pelos portes de Fort Detrick 
tinha resolvido fazer a anlise. Sabia que o trabalho ia tomar parte da noite, mas devia 
ser feito imediatamente, antes que o soro deteriorasse.
Johnson vestiu a roupa cirrgica, calou as luvas de borracha e levou a caixa para a rea 
de estgio do nvel 3 da sute Ebola. Ento abriu a caixa cheia de pequenas bolas de 
isopor. Retirou do meio delas um cilindro de metal fechado com fita adesiva e marcado 
com um smbolo de biorrisco. Na rea de estgio havia uma srie de gabinetes de ao 
inoxidvel com luvas de borracha acopladas neles. Eram os gabinetes no nvel 4 de 
biossegurana. Podiam ser completamente isolados do ambiente para o manejo de um 
agente quente no seu interior, com as luvas de borracha. Seu desenho era similar aos dos 
gabinetes de segurana usados para manejar partes da bomba nuclear. Ali seu objetivo 
era evitar o contato direto do ser humano com a natureza. Johnson abriu os fechos de 
metal, abriu a porta, ps o cilindro de metal dentro do gabinete e prendeu os fechos 
outra vez.
Calou as luvas, apanhou o cilindro e, olhando pelo vidro, retirou a fita adesiva, que 
grudou nas luvas de borracha. iDroga, murmurou ele. Eram oito horas da noite e desse 
modo nunca iria para casa. Finalmente conseguiu abrir o cilindro. Dentro havia um 
mao de toalhas de papel embebidas em desinfetante. Abriu o mao de papel e 
encontrou um saco de plstico Zippy com dois tubos tambm de plstico, com tampas 
de atarraxar. Ele as abriu e tirou dois pequenos frascos de plstico contendo um lquido 
dourado, o soro sangneo de Peter Cardinal. Os pais do menino trabalhavam numa 
organizao assistencial no Qunia e moravam na cidade de Kisumu, no lago Vitria. 
Peter estudava num internato na Dinamarca e naquele ms de agosto, algumas semanas 
antes da sua morte, fora  frica para visitar os pais e a irm mais velha que estudava 
numa escola particular em Nairobi.
Os irmos eram muito amigos e durante a visita de Peter passaram a maior parte do 
tempo juntos  irmo e irm, os melhores amigos.
A famlia Cardinal saiu de frias logo depois da chegada de Peter, para uma excurso de 
carro no Qunia  os pais queriam mostrar a ele as belezas e as douras da frica. 
Estavam em Mombaa, num hotel na praia, quando os olhos de Peter ficaram 
vermelhos. Os pais o levaram ao hospital onde os mdicos diagnosticaram malria. A 
me no acreditou que fosse malria, percebeu que o filho estava morrendo e insistiu 
em lev-lo para Nairobi. Peter foi transportado para o hospital Nairobi pelo servio de 
ambulncia Mdicos Voadores e ficou sob os cuidados do Dr. David Silverstein, o 
mesmo que havia tratado o Dr. Musoke, quando foi atingido nos olhos pelo vmito 
negro de Charles Monet.
"PETER CARDINAL era louro, olhos azuis, alto e magro, um menino saudvel de dez 
anos", lembrou o Dr. Silverstein, enquanto tomvamos caf e ch no shopping perto de 
sua casa, em Washington. Uma menina sentada perto da nossa mesa comeou a chorar 
alto e a me a consolou. Era grande o movimento na galeria. Observei atentamente o 
rosto do Dr. Silverstein, enquanto ele contava, com voz calma, a morte estranha do 
menino.
 Quando Peter chegou estava febril, mas muito presente, muito alerta e comunicativo. 
A radiografia mostrou que seus pulmes estavam esponjosos.
Uma espcie de muco comeava a se depositar nos pulmes, dificultando a respirao.
 Era um quadro tpico de SDRA  sndrome de deficincia respiratria aguda  
como o comeo de uma pneumonia  disse o Dr. Silverstein.  Logo em seguida ele 
comeou a ficar azul. As pontas dos dedos ficaram azuis. Apresentava tambm manchas 
vermelhas. Determinei o uso de luvas para todos que tinham contato com ele. No 
tivemos a mesma parania do caso do Dr. Musoke, mas tomamos precaues. Dentro de 
24 horas ele estava no respirador. Notamos que as picadas de injeo sangravam 
facilmente e que o fgado estava comprometido. As pequenas manchas vermelhas 
cresceram, transformando-se em grandes equimoses espontneas. Ele ficou roxo. Ento 
as pupilas dilataram, sinal de hemorragia cerebral. Estava sangrando em volta do 
crebro.
Ele ficou inchado e com bolhas de sangue na pele. Em alguns lugares a pele quase se 
separava do tecido subjacente. Isso aconteceu na ltima fase, enquanto ele estava no 
respirador.  o chamado "terceiro espao". Se o paciente sangra no primeiro espao, 
est com hemorragia nos pulmes. Se sangra no segundo espao, a hemorragia  nos 
intestinos. Se sangra no terceiro espao, a hemorragia  entre a pele e a carne. A pele 
empola e se separa da carne como um saco. Peter Cardinal havia sangrado sob a pele.
QUANTO MAIS SE OBSERVA OS vrus quentes, menos eles se parecem com 
parasitas e mais comeam a parecer predadores.  uma caracterstica do predador ficar 
invisvel para a presa durante a tocaia silenciosa e s vezes longa que precede o ataque 
explosivo. A relva da savana ondula nas plancies e o nico som  o arrulho dos pombos 
africanos nas rvores de accia, pulsando no calor do dia, nunca diminuindo o ritmo, 
nunca cessando. Ao longe, no ar tremeluzente de calor, na distncia imensa, pasta uma 
manada de zebras. De repente, um flash de movimento e um leo aparece, saltando para 
o pescoo de uma delas. A zebra solta um grito agudo e as duas formas, o predador e a 
presa, giram numa dana feroz, at desaparecerem numa nuvem de poeira. No dia 
seguinte os ossos esto cobertos por uma camada de moscas. Alguns predadores que se 
alimentam de carne humana vivem na Terra desde muito antes do aparecimento do 
homem e ao que parece suas origens remontam quase ao comeo do mundo. Quando 
um ser humano  devorado e consumido, especialmente na frica, o evento  
reproduzido telescopicamente contra horizontes de espao e de tempo, adquirindo uma 
qualidade de imensa antigidade.
Os pais e a irm de Peter Cardinal viram, atnitos, o menino ser destrudo pelo predador 
invisvel. No podiam compreender aquele sofrimento. Peter estava numa jornada numa 
terra de horror que eles no podiam alcanar para lhe dar algum conforto. Enquanto o 
sangue jorrava no seu terceiro espao, seus olhos permaneciam abertos e dilatados, 
fixos, cheios de sangue, profundos, escuros e vazios. No sabiam se ele podia v-los, 
no sabiam o que ele via, pensava ou sentia atrs daqueles olhos abertos. As mquinas 
ligadas  sua cabea mostravam linhas planas horizontais. Era pequena a atividade 
eltrica no crebro, mas uma vez ou outra, as linhas estremeciam, como se alguma coisa 
continuasse a lutar dentro do menino, algum fragmento da sua alma destruda.
Chegou o momento de decidir se desligavam ou no o respirador. O Dr. Silverstein 
disse:
 O melhor ser no o deixarmos sobreviver, devido  morte cerebral.
 Se ao menos tivssemos sado antes de Mombaa  disse a me.
 Sinto muito, mas no teria adiantado  respondeu Silverstein.  Ele estava 
condenado desde o comeo.
TRABALHANDO COM AS MOS dentro das luvas presas ao gabinete, Gene Johnson 
juntou um pouco do soro do menino em tubos que continham clulas vivas de macaco. 
Se alguma coisa vivia no sangue de Peter Cardinal, podia comear a se multiplicar nas 
clulas. Ento Johnson foi para casa dormir. Eram trs horas da manh quando terminou 
todo o processo. Nos dias seguintes, Johnson observou os tubos para verificar se havia 
alguma mudana nas clulas de macaco. Viu que as clulas estavam explodindo e 
morrendo. Estavam infectadas com alguma coisa. A variedade de vrus Cardinal era 
definitivamente um agente quente  matava rapidamente um grande nmero de clulas. 
Passou ento para o estgio seguinte de isolamento do vrus. Tirou um pouco de fluido 
dos tubos e o injetou em trs rhesus, para infect-los com o agente Cardinal. Dois dos 
macacos morreram  desmoronaram e sangraram at morrer  e o terceiro, quase 
desmoronou. Entrou em estado de choque marginal, perdeu algum sangue, mas resistiu 
e sobreviveu. Ento, o agente Cardinal era perigosamente
121
quente, capaz de se multiplicar rapidamente e podia matar macacos. "Eu tinha certeza 
de que estava lidando com o Mar-burg", Johnson me disse mais tarde.
Ento, Johnson injetou a variedade Cardinal em algumas cobaias. Elas morreram como 
moscas. No s isso, mas os testculos dos machos ficaram do tamanho de bolas de 
golfe e completamente roxos. A variedade Cardinal era um organismo sofisticado que 
sabia o que queria. Podia se multiplicar em vrias qualidades de carne. Era uma forma 
de vida invasiva, devastadora e promscua, com o tipo de obscenidade que s se v na 
natureza, uma obscenidade to extrema que se dissolve imperceptivelmente em beleza. 
E vivia em algum lugar da frica. O que a tornava especialmente interessante era o fato 
de se multiplicar facilmente em vrias espcies, em macacos, seres humanos e cobaias. 
Era extremamente letal nessas espcies, o que significava que o hospedeiro original 
provavelmente no era o macaco, nem o homem nem as cobaias, mas algum outro 
animal ou inseto, porque o vrus geralmente no mata seu hospedeiro original. O 
Marburg era um vrus viajante, podia saltar de uma espcie para outra, podia cruzar as 
linhas que separam uma espcie da outra e quando saltava para outra espcie podia 
devast-la. No conhecia fronteiras. No sabia o que so os humanos, ou talvez 
possamos dizer que sabia perfeitamente o que so, sabia que os humanos so carne.
Assim que isolou a variedade Cardinal e confirmou que se tratava do Marburg, Johnson 
voltou a ateno para o modo como Peter Cardinal podia ter sido infectado. Onde ele 
havia estado? O que tinha feito para ser infectado pelo vrus? Exatamente por onde 
havia passado em sua viagem? Essas perguntas atormentavam Johnson. H anos ele 
vinha tentando descobrir os reservatrios secretos dos filovrus. Johnson telefonou para 
um amigo e colega no Qunia, o Dr. Peter Tukei, cientista que trabalhava no Instituto de 
Pesquisas Mdicas em Nairobi.
 Sabemos que  o Marburg  disse Gene.  Ser que voc pode conseguir a histria 
do menino? Onde ele esteve e o que fez?
O Dr. Tukei disse que ia procurar os pais e conversar com eles.
Uma semana depois, o telefone de Gene tocou. Era o Dr. Tukei.
 Quer saber onde o menino esteve?  disse ele.  Na caverna Kitum, no monte 
Elgon.
Gene sentiu um arrepio na espinha. Os caminhos de Charles Monet e Peter Cardinal 
cruzavam-se num nico lugar da Terra, no interior da caverna Kitum. O que eles tinham 
feito na caverna? O que haviam encontrado? No que tinham tocado? O que haviam 
respirado? O que vivia na caverna Kitum?
Aprofundando-se EUGENE JOHISISON inclinou-se sobre a mesa de piquenique, em 
Fort Detrick e olhou para mim. Era um dia muito quente, em pleno vero. Ele estava de 
culos escuros. Apoiou os cotovelos na mesa, tirou os culos e esfregou os olhos. 
Johnson era um homem grande, com um metro e noventa de altura e devia pesar uns 
120 quilos. Sob os olhos profundos no rosto barbado, desenhavam-se olheiras escuras. 
Parecia cansado.
 Ento Peter Tukei telefonou para me dizer que o menino tinha estado na caverna 
Kitum  disse Johnson.  Ainda fico arrepiado quando me lembro. Algumas semanas 
depois tomei um avio para Nairobi e conversei com o Dr. Da-vid Silverstein, o mdico 
que tratou o menino. Peter Tukei estava comigo. Ento fomos a todos os lugares do 
Qunia em que o menino havia estado, at a casa dele. Os pais moravam numa bela casa 
em Kisumu, perto do lago Vitria. Era uma casa de tijolos, cercada por um muro e 
tinham uma cozinheira, um caseiro e um motorista. A casa era limpa e bem arrumada, 
arejada e clara. Vimos um hiracide das rochas no telhado da casa. Era um animal de 
estimao e vivia nas calhas. Havia tambm duas cegonhas, coelhos, cabras e todo o 
tipo de pssaros. No vi nenhum morcego.
Ele fez uma pausa, pensativo. No havia ningum por perto. Alguns patos nadavam no 
lago.
 Eu me sentia um pouco nervoso falando com os pais do menino  disse ele.  
Voc compreende, sou um pesquisador de campo. Sou casado mas no tenho filhos. 
No sou o tipo de pessoa capaz de consolar a me que perdeu o filho, alm disso, 
trabalho para o Exrcito dos Estados Unidos. Eu no tinha idia de como falar com eles. 
Tentei me pr no lugar deles e lembrei de como me senti quando meu pai morreu. 
Deixei que falassem sobre o filho. Peter Cardinal e a irm no se separaram desde o 
momento que ele chegou ao Qunia. Passaram o tempo todo juntos, fazendo as mesmas 
coisas. Ento, qual teria sido a diferena no comportamento dos dois  por que Peter 
Cardinal apanhou o vrus e sua irm no foi infectada? Sim, havia uma diferena. Os 
pais me contaram uma histria sobre as pedras na caverna. Disseram que o filho era 
gelogo amador. O que levava  pergunta, Peter teria cortado a mo num cristal da 
caverna? Examinamos essa possibilidade com os pais dele. Peter tinha dito que queria 
apanhar alguns dos cristais da caverna Kitum. Para isso ele bateu nas paredes da 
caverna com um martelo e apanhou algumas rochas com cristais. As rochas foram 
quebradas pelo motorista e lavadas pela cozinheira. Analisamos o sangue deles e 
verificamos que no eram positivos para o Marburg.
Tudo parecia indicar que o ponto de contato foram as mos do menino, que o vrus 
havia penetrado na corrente sangnea atravs de um pequeno corte. Talvez tivesse 
espetado o dedo num dos cristais que cresciam na parede da caverna e o cristal estava 
contaminado com urina de algum animal ou os restos de um inseto amassado. Porm, 
mesmo que tivesse picado o dedo no cristal, isso no indicava onde o vrus vivia in 
natura, no identificava seu hospedeiro natural.
 Fomos examinar a caverna  disse ele.  Entramos bem protegidos. Sabamos que 
o Marburg  transmitido por via area.
Em 1986  um ano antes da morte de Peter Cardinal  Johnson efetuou uma 
experincia demonstrando que o Marburg e o Ebola podem viajar no ar. Infectaram 
macacos com o Marburg e o Ebola fazendo-os respirar o vrus e descobriu que uma 
pequena dose de Marburg ou Ebola aspirada podia dar incio a uma infeco explosiva 
no macaco. A experincia demonstrou que o vrus pode se instalar no pulmo e iniciar 
ali uma infeco fatal. Por isso Johnson queria que os membros da expedio usassem 
mscaras protetoras na caverna.
 Eu tinha comigo algumas daquelas mscaras militares contra gases, com filtros. 
Precisvamos algo para cobrir nossas cabeas tambm, para evitar fezes de morcegos 
nos cabelos. Compramos fronhas numa loja local. Eram brancas com flores grandes. 
Assim, a primeira vez que entrei na caverna com um grupo de quenianos, com as 
mscaras militares contra gases e as fronhas na cabea, os quenianos quase morreram de 
rir. Eles exploraram a caverna e desenharam um mapa.  Depois dessa primeira 
viagem exploratria, Gene Johnson convenceu o Exrcito a patrocinar uma expedio 
melhor equipada  caverna Kitum. Seis meses depois da morte de Peter Cardinal, na 
primavera de 1988, Gene apareceu em Nairobi com vinte caixas de madeira cheias de 
instrumentos de biorrisco e equipamento cientfico. Dessa vez ele sentia que estava 
chegando perto do vrus. Sabia que no ia ser fcil encontr-lo, mas estava perto demais 
para falhar na sua misso. O monstro vivia numa caverna e ele ia entrar l e encontr-lo.
O governo do Qunia concordou em fechar a caverna Kitum ao turismo enquanto a 
expedio Qunia-Estados Unidos procurava os vrus. O chefe da expedio era o Dr. 
Peter Tukei, do Instituto de Pesquisas Mdicas do Qunia. Gene Johnson teve a idia, 
reuniu o equipamento e arranjou dinheiro para patrocin-la. A equipe era formada por 
35 pessoas, a maior parte quenianos, incluindo naturalistas da vida selvagem, cientistas, 
mdicos e trabalhadores. Levaram um grande nmero de cobaias dentro de caixas e 17 
macacos em gaiolas, incluindo babunos. Os macacos e as cobaias eram os animais 
sentinelas, como canrios numa mina de carvo. Suas gaiolas ficariam dentro e perto da 
caverna Kitum, na esperana de que fossem infectados pelo Marburg. No existem 
instrumentos para detectar um vrus. O nico modo de encontr-lo em estado natural, 
atualmente,  deixar uma sentinela animal no local suspeito e esperar que seja infectada. 
Johnson imaginava que, se um dos macacos ou uma das cobaias adoecesse, ele poderia 
isolar o vrus e talvez descobrir como os animais foram infectados.
PRIMAVERA DE 1988
A EXPEDIO  CAVERNA KITUM instalou seu quartel-general na hospedaria 
Monte Elgon, um hotel em decadncia, dos anos vinte, quando os ingleses dominavam a 
frica oriental. Fora construdo para esportistas e pescadores de truta. Ficava num 
promontrio acima da estrada de terra que subindo pela montanha leva  caverna Kitum. 
Antes era cercado por jardins ingleses, agora praticamente reduzidos a argila e mato. O 
assoalho de madeira era lavado e encerado todos os dias. A estalagem tinha pequenas 
torres com quartos redondos e portas medievais de oliveira africana, entalhada  mo e 
na sala de estar havia uma lareira enorme com moldura de madeira entalhada. Os 
empregados da estalagem falavam pouco ingls, mas faziam questo de receber com a 
hospitalidade inglesa os raros hspedes que apareciam. A hospedaria Monte Elgon era 
um monumento aos resqucios do imprio britnico, que continuou automaticamente, 
como um tique incontrolvel, nas cidades provincianas e atrasadas da frica, muito 
tempo depois de ter realmente acabado. No fim do dia, quando chegava a noite tingida 
de geada, o pessoal da estalagem acendia nas lareiras os troncos de oliveira do Elgon e a 
comida na sala de jantar era horrvel, na melhor tradio inglesa. Havia, porm, um bar 
esplndido. Era um cantinho elegante numa sala redonda, com fileiras brilhantes de 
garrafas de cerveja Tusker, aperitivos franceses e obscuras aguardentes africanas. Os 
homens podiam sentar no bar e tomar cerveja, ou, na frente da lareira, contar histrias 
depois de um dia de trabalho rduo na caverna com os trajes espaciais. Um aviso na 
parede ao lado da mesa do gerente mencionava a questo delicada do dinheiro. 
Informava que, uma vez que os fornecedores haviam cortado todo o crdito da 
hospedaria Monte Elgon, a hospedaria, infelizmente, no podia conceder crdito aos 
seus hspedes.
Os animais foram levados para a montanha em etapas, para que se acostumassem com o 
clima. Quando chegaram ao vale que leva  caverna, cortaram o mato e ergueram 
barracas de lona azul. A caverna foi considerada como zona quente nvel 4, mas a 
localizao e a origem dos agentes, no seu interior, eram desconhecidas. A tenda mais 
prxima da caverna cobria a rea cinzenta, um lugar onde dois mundos se encontravam. 
Os homens tomavam os banhos de produtos qumicos nessa rea, para descontaminar 
seus trajes. Outra tenda era a rea de necropsia do nvel 4, onde, usando os trajes 
espaciais, eles dissecavam qualquer animal apanhado, procurando sinais do vrus 
Marburg.
 Estvamos indo aonde ningum fora antes  disse Johnson.  Levamos a filosofia 
do nvel 4 de biossegurana para a selva.
Dentro da caverna eles usavam trajes espaciais cor de laranja do tipo Racal. O traje 
Racal  um espao porttil, com presso positiva e um suprimento de ar alimentado por 
bateria.  para ser usado em trabalho de campo com extremo bior-risco, para formas de 
vida supostamente transmissveis por via area. O Racal  tambm conhecido como 
"traje laranja", devido  sua cor laranja brilhante.  mais leve do que o Chem-turion e 
ao contrrio deste  completamente porttil, com um dispositivo para respirar, 
embutido. O corpo principal do traje (exceto o capacete e os respiradouros)  
descartvel e pode ser queimado depois de usado uma ou duas vezes. Com seus trajes 
espaciais Racal, abriram uma trilha que ia dar na caverna Kitum, marcada com bastes 
de avalanche, para que ningum se perdesse. Ao longo da trilha ficaram as gaiolas 
protegidas por uma cerca eletrificada, com os macacos e as cobaias. Cercaram as 
gaiolas com fios eltricos, ligados a uma bateria para evitar a aproximao dos 
leopardos que devoram macacos. Alguns macacos ficaram diretamente debaixo das 
colnias de morcegos no teto da caverna, esperando que alguma coisa casse l de cima 
infectando os animais com o Marburg.
Colheram de trinta a setenta mil insetos que picam, dentro da caverna  a caverna  
cheia de insetos.
 Estendemos tiras de papel pega-mosca nas rachaduras da caverna  disse Johnson 
 para apanhar insetos rastejantes. Instalamos lmpadas no teto para servir de 
armadilha para insetos voadores, alimentadas por baterias. Voc sabe como se apanham 
carrapatos? Eles saem do solo quando sentem o cheiro do xido de carbono da nossa 
respirao. Sentem o cheiro e vm picar nosso traseiro. Por isso levamos tanques 
grandes com xido de carbono para atra-los. Apanhamos todos os roedores que 
entravam na caverna, com armadilhas Havahart. No fundo da caverna, ao lado de uma 
poa d'gua, encontramos mosquitos-plvora. Havia pegadas de leopardo por toda parte, 
e de bfalos do Cabo. No tiramos nenhuma amostra de sangue de animais de grande 
porte, como leopardos ou bfalos. Nem dos antlopes.
 O Marburg poderia viver nos grandes felinos da frica?  perguntei.  Poderia ser 
um vrus de leopardo?
- Talvez. Acontece que no tnhamos permisso para apanhar leopardos. Tiramos 
amostras de felinos do gnero gene-ta e ele no estava l.
 Poderia viver em elefantes?
 Alguma vez tentou tirar sangue de um elefante? Ns no tentamos.
Os naturalistas do Qunia apanharam e prenderam centenas de pssaros, roedores, 
hiracides e morcegos. Na zona da necropsia, sob a lona azul, sacrificaram os animais e 
os dissecaram usando os trajes Racal, tiraram amostras de sangue e de tecido e as 
congelaram em vidros com nitrognio lquido. Alguns habitantes do local  eram 
masai do Elgon  haviam vivido em cavernas no monte Elgon e abrigavam seu gado 
tambm em cavernas. Os mdicos do Qunia retiraram amostras de sangue desses 
nativos, anotaram suas histrias mdicas e tiraram amostras de sangue do seu gado. 
Nenhum deles apresentou soro positivo para anticorpos do Mar-burg  um resultado 
positivo indicaria que tinham sido expostos ao Marburg. Apesar de ningum apresentar 
sinais de infeco pelo Marburg, os masai Elgon contavam histrias de membros da 
famlia, uma criana ou uma jovem mulher que morreram sangrando nos braos de 
algum. Tinham visto pessoas das suas famlias desmoronar e sangrar at a morte, mas 
como saber se essas mortes foram causadas pelo Marburg ou por qualquer outro vrus? 
Talvez os masai da regio conhecessem o agente Marburg, a seu modo. Nesse caso, 
jamais teriam dado um nome ao vrus.
Nenhum dos macacos sentinelas adoeceu. Continuaram saudveis e entediados, dentro 
das gaiolas, durante semanas. A experincia requeria que fossem sacrificados no fim, 
para que os mdicos pudessem retirar amostras de tecido do interior dos seus corpos e 
verificar qualquer sinal de infeco. Gene Johnson no suportava a idia de matar os 
macacos e se recusou a entrar na caverna para terminar o trabalho. Esperou no lado de 
fora, na floresta, enquanto outro membro da equipe, vestido com o traje espacial, entrou 
na caverna e aplicou doses macias de sedativo, que os fez dormir para sempre.
 No gosto de matar animais  ele me disse.  Isso era realmente um problema para 
mim. Depois de dar comida e gua para os macacos durante trinta dias eles se tornam 
nossos amigos. Eu dava bananas para eles. Aquilo foi terrvel. Arrasador.
Johnson vestiu o traje Racal laranja e abriu os macacos na tenda da necropsia, frustrado 
e triste, especialmente quando verificou que todos estavam em perfeita sade.
A expedio foi como um poo seco. Todos os animais sentinelas continuaram 
saudveis e as amostras de sangue e tecido dos outros animais, insetos, pssaros, dos 
masai e do seu gado no apresentaram nenhum sinal do vrus Marburg. Deve ter sido 
um amargo desapontamento para Gene Johnson, to desanimador, que ele jamais 
publicou um relatrio sobre a expedio e seus resultados. Para ele no tinha utilidade 
alguma publicar o fato de no terem encontrado nada de novo na caverna Kitum. Tudo 
que ele podia dizer com certeza era que o Marburg vive  sombra do monte Elgon.
O que Johnson no sabia naquela poca, mas deduziu quase instintivamente, depois do 
fracasso da expedio  caverna Kitum, era que o conhecimento e a experincia que 
adquirira dentro de uma caverna da frica e os trajes espaciais e o equipamento de 
biorrisco que ele levou de volta para o instituto seriam de grande utilidade em outro 
tempo e outro lugar. Johnson escondeu seu equipamento de biorrisco no instituto, 
empilhado em malas, nos quartos de depsito do Exrcito e em reboques de trator, 
estacionados atrs do prdio e fechados com cadeados, porque no queria que ningum 
o usasse, ou que o tirassem dele. Queria estar pronto para carregar tudo num avio sem 
nenhuma demora se o Marburg ou o Ebola aparecesse outra vez na frica. E s vezes 
ele lembrava da frase de Louis Pasteur, "O acaso favorece a mente preparada". Pasteur 
descobriu as vacinas para o antraz e a raiva.
VERO DE 1989
O EXRCITO sempre encontrou dificuldade para decidir o que fazer com Nancy e 
Jerry Jaax. Eram casados, oficiais da mesma patente e trabalhavam numa pequena 
unidade, o Corpo de Veterinria. O que se faz com um casal de mdicos teimosos que 
precisam ser promovidos? E se um deles (a mulher) for especialista no uso de trajes 
espaciais, para onde devem ser enviados? O Exrcito designou os Jaax para o Instituto 
de Defesa Qumica, perto de Aberdeen, Maryland. Eles venderam a casa vitoriana e 
foram para Maryland, com seus pssaros e seus animais. Nancy no sentiu pena de 
deixar a casa em Thurmont. Mudaram para uma casa num bairro residencial, mais ao 
gosto dela e comearam a criar peixes em tanques, como passatempo. Nancy foi 
trabalhar no programa do Exrcito que estuda os efeitos do gs asfixiante no crebro de 
ratos. Sua tarefa consistia em abrir as cabeas dos ratos e descobrir o que o gs havia 
feito. Era mais seguro e mais agradvel do que trabalhar com o Ebola, mas tambm um 
pouco montono. Finalmente, ela e Jerry foram promovidos a tenente-coronel e 
passaram a usar folhas prateadas nos ombros. Jaime e Jason estavam crescendo. Jaime 
tornou-se uma ginasta perfeita, pequena e forte como a me e Nancy e Jerry esperavam 
que tomasse parte nos campeonatos nacionais, talvez at nas Olimpadas. Jason era um 
jovem alto e quieto. Herky, o papagaio, no mudou. Papagaios vivem muito. Ele 
continuou gritando "Mame! Mame!" e assobiando a marcha da Ponte do rio Kwai.
O coronel Tony Johnson, o oficial comandante de Nancy quando ela trabalhava no 
instituto, lembrava a sua competncia com o traje espacial e queria que ela voltasse. Na 
sua opinio, o lugar dela era no instituto. Finalmente, ele foi designado para chefiar o 
departamento de patologia do centro mdico Walter Reed do Exrcito e seu antigo posto 
de chefe de patologia no instituto ficou vago. Ele insistiu com o Exrcito para designar 
Nancy Jaax para o posto e o Exrcito concordou, achando tambm que ela devia fazer 
trabalho de biologia. Assim Nancy foi designada para a chefia da patologia, no vero de 
1989. Ao mesmo tempo, o Exrcito designou Jerry Jaax para a chefia da diviso 
veterinria do instituto. Assim, os Jaax tornaram-se figuras importantes e bastante 
poderosas. Nancy voltou a trabalhar com os trajes espaciais. Jerry continuou no 
gostando, mas tinha aprendido a conviver com isso. Com essas promoes, os Jaax 
venderam a casa em Aberdeen e voltaram para Thurmont em agosto de 1989. Dessa vez 
Nancy insistiu em tomar parte na compra da casa e disse a Jerry que no ia ser uma casa 
vitoriana. Compraram uma casa moderna com grandes janelas abauladas, no meio de 
um grande terreno, com campina e floresta, onde os ces podiam correr e os seus filhos 
brincar. A casa ficava na encosta do monte Ca-toctin, com vista para a cidade, acima de 
um mar de plantaes de mas. Da janela da cozinha eles viam ao longe as extensas 
fazendas onde os Exrcitos haviam marchado durante a Guerra Civil. A regio central 
de Maryland estendia-se at o horizonte com colinas e depresses, grupos de rvores e 
campos ondulantes, pontuados com silos que marcavam a presena de fazendas 
particulares. L no alto, muito acima da bela paisagem, os jatos de passageiros 
atravessavam o cu, deixando uma esteira de fumaa branca.
SEGUNDA PARTE
A CASA DOS MACACOS
Reston
4 DE OUTUBRO DE 1989, QUARTA-FEIRA
A CIDADE DE RESTON, na Virgnia,  uma prspera comunidade situada cerca de 16 
quilmetros a oeste de Washington, D.C., logo depois do Beltway. Num dia de outono, 
com o vento de oeste limpando o ar, dos andares superiores dos prdios de escritrios 
de Reston avista-se a coluna branca do monumento a Washington, no meio do Mall. A 
populao de Reston cresceu nos ltimos anos, e as firmas de alta tecnologia e de 
consultoria de blue-chips instalaram-se em parques na cidade, onde os prdios de vidro 
cresceram como cristais durante os anos 80. Antes do aparecimento dos cristais, Reston 
era quase toda uma regio de fazendas e ainda muitos prados verdes. Na primavera, eles 
explodem em galxias de flores amarelas de mostarda, e tordos e sabis cantam nas 
rvores de tulipas e freixos brancos. A cidade tem belos bairros residenciais, boas 
escolas, parques, campos de golfe, excelentes creches. H lagos em Reston, com nomes 
de naturalistas americanos (lago Thoreau, lago Audubon) circundados por casas 
luxuosas. Reston situa-se a uma distncia cmoda para quem trabalha em Washington. 
Ao longo da Leesburg Pike, que canaliza o trfego para a cidade, h vrios bairros 
residenciais para executivos com Mercedes Benz estacionados na frente. Reston parece 
lutar ainda para conservar seu passado agrcola, como um prego que recusa ser 
martelado completamente. Entre as casas luxuosas vemos ainda um ou outro bangal 
com pedaos de papelo substituindo os vidros quebrados das janelas e uma pic-kup 
estacionada ao lado. No outono, barracas de vegetais na Leesburg Pike vendem 
abboras e abobrinhas. No muito longe de Leesburg Pike h um pequeno parque 
comercial. Foi construdo nos anos 60 e no tem prdios de vidro com linhas modernas 
como os novos centros comerciais, mas  limpo, bem cuidado e os liquidmbares e 
pltanos j tiveram tempo suficiente para crescer e lanar sua sombra sobre os 
gramados. No outro lado da rua h um McDonalds, que fica repleto de empregados de 
escritrio, na hora do almoo. At pouco tempo atrs a companhia Hazleton de Pesquisa 
de Produtos usava um prdio de utn andar, no parque comercial, como casa de nacacos. 
A Haileton  uma diviso da unidade Corning Inc. & unidade Hazl eton da Corning 
importa e vende animais para laboratrios. A casa dos macacos da Hazleton era 
conhecida como Unidade de Quarentena de Primatas de Reston. Cerca de mil macacos 
selvagens so importados anualmente pelos Estados Unidos, das regies tropicais da 
Terra. Os macacos importados devem ficar de quarentena durante um ms, antes de 
serem enviados para qualquer outra parte dos Estados Unidos, a fim de evitar a 
disseminao de doenas infecciosas que podem matar outros primatas, incluindo o 
homem.
No outono de 1989, o Dr. Dan Dalgard era o consultor veterinrio da Unidade de 
Quarentena de Primatas de Reston. Era chamado para tratar dos macacos que adoeciam 
ou que ?precisavam de algum tipo de cuidados mdicos. O Dr. Dan Dalgard era, na 
realidade, o cientista principal de outra companhia da Corning, chamada Hazleton 
Washington, cuja sede ficava na Leesburg Pike, no muito distante da casa dos 
macacos, o que facilitava sua ida de carro at Reston para atender os macacos. Dalgard 
era um homem alto, de cinqenta e poucos anos, usava culos com aros de metal, tinha 
olhos azul-claros e o sotaque arrastado adquirido na escola de veterinria do Texas. No 
escritrio geralmente usava ternos cinzentos no laboratrio, jaleco branco, quando 
tratava dos animais, era mundialmente famoso por seus conhecimentos e realizaes na 
especialidade de criao e tratamento de primatas. Era um homem calmo, pouco 
emotivo, ou pelo menos assim parecia, para a maior parte das pessoas.  noite depois 
do trabalho e nos fins de semana, dedicava-se ao seu passatempo predileto, consertar 
relgios antigos. Trabalhar com as mos concertando coisas, dava a ele uma sensao 
de calma e de paz enriquecia sua pacincia. s vezes tinha vontade de deixar a 
veterinria para se dedicar aos relgios em tempo integral.
Na quarta-feira, 4 de outubro de 1989, a Hazleton de Pesquisa de Produtos recebeu uma 
remessa de cem macacos selvagens das Filipinas. Os macacos foram embarcados na 
Ferli-te Farms, que vendia macacos para o atacado, no muito longe de Manila. Os 
animais eram originrios das florestas tropicais da ilha de Mindanao. Foram 
transportados por mar at Ferlite Farms, onde foram mantidos em grupos dentro das 
jaulas. Dentro de caixas de madeira, foram enviados para Amsterd num avio da KLM, 
especialmente adaptado para esse fim e da seguiram para Nova York. Chegaram ao 
aeroporto internacional  JFK e foram transportados em caminhes pela estrada costeira 
do leste dos Estados Unidos, at a casa dos macacos em Reston.
Eram macacos que se alimentavam de caranguejos, uma espcie que habita as margens 
dos rios e os pntanos do sudoeste da sia. So usados como animais de laboratrio 
porque so comuns, baratos e de fcil aquisio. Sua cauda  longa, fina e curva, o plo 
do peito  esbranquiado e de cor creme nas costas.  do tipo macaco, muitas vezes 
chamado macaco de cauda longa. Tem focinho longo, como um co, narinas largas e 
dentes caninos aguados. Sua pele  cinza-rosada, quase da cor de uma pessoa branca. 
As mos so quase humanas, com polegar e dedos delicados, com unhas. Os seios das 
fmeas, na parte superior do peito, com mamilos claros, so espantosamente parecidos 
com seios humanos.
Os comedores de caranguejo no gostam do homem. Seu relacionamento com os povos 
que vivem na floresta tropical  competitivo. Gostam de vegetais, especialmente de 
berinjelas e costumam fazer incurses nas plantaes dos fazendeiros. Eles andam em 
bandos, saltando de rvore em rvore e gritando "Cra! Cra!". Sabem perfeitamente que, 
depois de um ataque a uma plantao de berinjelas, tero a visita de um fazendeiro 
armado de espingarda e por isso precisam estar preparados para fugir para a floresta a 
qualquer momento. Assim que avistam a arma, lanam seu grito de alarme, "Cra! Cra!". 
Em algumas partes do mundo so chamados de eras e so considerados verdadeiras 
pestes por alguns habitantes das florestas tropicais da sia. Ao cair da noite, o bando 
instala-se numa rvore morta, de onde possa vigiar a aproximao de humanos ou 
outros predadores. A rvore geralmente ficana margem de um rio, para que os macacos 
possam fazer suas necessidades sem sujar o solo.
Ao nascer do dia eles acordam e sadam o sol com gritos. As mes apanham os filhos e 
acompanham o bando, saltando de rvore em rvore,  procura de frutos. Alm de frutas 
e vegetais, comem insetos, relva, razes e pequenos pedaos de argila, que mastigam e 
engolem, talvez por sua reserva de sais e minerais. So loucos por caranguejos. Quando 
o desejo por caranguejos aperta, o bando vai para os pntanos, para um banquete. 
Descem das rvores e tomam posio na gua, perto das tocas dos caranguejos. Quando 
um deles sai da toca, o macaco o tira da gua. Os macacos tm um modo especial para 
evitar as pinas dos caranguejos. Eles os apanham pela parte de trs, assim que 
aparecem, arrancam as pinas, jjjogam fora e comem o caranguejo. s vezes o macaco 
no  bastante rpido, o caranguejo prende com a pina um dos seus dedos e o animal 
comea a gritar, sacudindo a mo e pulando dentro d'gua, para se livrar do atacante.  
fcil saber quando os macacos esto se banqueteando com caranguejos por causa dos 
gritos vindos do pntano.
O grupo tem uma hierarquia muito rigorosa.  comandado por um macho dominador, o 
maior e mais agressivo. Ele controla seu bando com o olhar. Olha longa e severamente 
os que o desafiam, at o desafiante abaixar os olhos. Se um homem olhar fixamente 
para um desses comandantes enjaulados, o macaco corre para a frente da jaula, 
enfrentando o olhar do humano, e batendo furioso nas grades tenta atacar o desafiante. 
Sua vontade  matar o humano que ousou olhar para ele, no pode demonstrar medo 
quando sua autoridade  desafiada por outro primata. Se dois machos dominantes forem 
postos na mesma jaula, s um deles sair vivo.
Os macacos comedores de caranguejos, na casa dos macacos em Reston, foram 
instalados cada um numa jaula, sob luz artificial e alimentados com biscoitos e frutas. 
Havia  12 salas na casa dos macacos, designadas pelas letras do alfabeto, de A a L. Dois 
macacos chegaram mortos nos engradados. No era incomum os macacos morrerem 
durante o transporte. Porm, nas trs semanas seguintes foi excepcionalmente elevado o 
nmero de mortes na casa dos macacos de Reston.
EM 4 DE OUTUBRO, o dia em que o carregamento de macacos chegou  casa dos 
macacos em Reston, aconteceu uma coisa que ia mudar para sempre a vida do coronel 
Jerry Jaax. Jerry tinha um irmo mais novo chamado John, que morava em Kansas City 
com a mulher e os dois filhos pequenos. John Jaax era um importante homem de 
negcios, banqueiro e scio de uma companhia de Kansas City que manufaturava 
plstico para cartes de crdito. Era dois anos mais moo do que Jerry e os dois eram 
muito amigos. Tinham crescido juntos numa fazenda em Kansas e estudado na 
universidade estadual de Kansas. Eram muito parecidos, altos, precocemente grisalhos, 
nariz aquilino, olhos vivos, modos calmos e tinham o mesmo tom de voz. A nica 
diferena era que John usava bigode e Jerry no usava.
John Jaax e sua mulher pretendiam comparecer a um encontro de pais e professores na 
escola dos filhos, no dia 4 de outubro. Quase no fim do dia, John telefonou do escritrio 
da fbrica para avisar a mulher que ia trabalhar at mais tarde. Como sua mulher no 
estava em casa John deixou o recado na secretria eletrnica, explicando que iria 
diretamente do escritrio para a reunio, e se encontrariam na escola. Quando John no 
apareceu, ela ficou preocupada e foi de carro at a fbrica.
O lugar estava deserto, as mquinas silenciosas. Ela foi at a escada que levava ao 
escritrio, de onde se avistava toda a fbrica. A porta estava entreaberta e ela entrou. 
John estava no cho, atingido por vrios tiros e o escritrio cheio de sangue.
O policial da seo de Homicdios de Kansas City encarregado do caso chamava-se 
Reed Buente. Havia trabalhado como segurana no Banco de Kansas City em que John 
era presidente, conhecia-o pessoalmente e o admirava. O policial Buente estava 
decidido a resolver o caso e levar o assassino ou os assassinos a julgamento. O tempo 
passou, no entanto, nenhuma pista apareceu e a polcia comeou a ficar desanimada. 
John Jaax estava tendo dificuldades com John Weaver, seu scio na fbrica de plstico e 
a seo de Homicdios de Kansas City o considerava o principal suspeito. 
(Recentemente falei com o policial Buente por telefone e ele confirmou isso. Weaver 
morreu de infarto e o caso continua aberto, uma vez que casos no resolvidos nunca so 
fechados.) As provas fsicas eram poucas e Weaver tinha um libi. As dificuldades 
cresciam. Em certo momento, o detetive disse para Jerry, "Qualquer um pode mandar 
matar algum.  fcil e barato. Pode custar o preo de uma mesa de trabalho."
O assassinato de John Jaax envolveu Jerry numa dor paralisante. O tempo supostamente 
cura tudo, mas no caso do marido de Nancy s contribuiu para aumentar o ferimento, 
provocando uma verdadeira gangrena emocional. Nancy comeou a achar que o marido 
estava entrando em depresso clnica.
"Sinto como se minha vida tivesse acabado", Jerry disse para Nancy. "Nada  o mesmo. 
Minha vida jamais ser a mesma. No posso acreditar que John tivesse um inimigo." No 
enterro, em Kansas City, os filhos de Nancy e Jerry, Jaime e Jason, olharam para o tio 
no caixo e disseram: "Nossa, papai, parece voc no caixo."
Durante os meses de outubro e novembro, Jerry telefonou todos os dias para a seo de 
Homicdios em Kansas City. O detetive no conseguia resolver o caso. Jerry comeou a 
pensar em comprar uma arma e matar o scio de John. Pensou, se fizer isso, vou para a 
cadeia e o que vai ser dos meus filhos? E se o scio de John no tiver nada a ver com o 
crime? Ento, terei assassinado um homem inocente.
1 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA
O encarregado da colnia da casa de macacos em Reston, Bill Volt era um homem 
grande e corpulento. Comeou a ficar preocupado com o grande nmero de mortes entre 
os macacos. No primeiro dia de novembro, pouco mais de um ms depois da chegada 
dos macacos, ele telefonou para Dan Dalgard, dizendo que os macacos chegados das 
Filipinas estavam morrendo em nmero muito maior do que o comum. Vinte e nove 
mortes num carregamento de cem macacos. Ou seja, quase um tero. Alm disso 
estavam com um problema nos sistemas de aquecimento e ventilao do prdio. O 
termostato estava enguiado e o ar quente no era expelido. Os aquecedores 
bombeavam um excesso de ar quente e o sistema de ar-condicionado no dava conta. O 
calor era quase insuportvel dentro do prdio. Volt imaginava se isso podia afetar a 
sade dos macacos. Notou que a maior parte das mortes ocorreu na sala F, situada num 
corredor longo, nos fundos do prdio.
Dalgard concordou em ir  casa dos macacos para examinar a situao, mas outros 
assuntos o prenderam e s conseguiu fazer a viagem na semana seguinte. Bill Volt o 
levou  sala F, onde havia ocorrido o maior nmero de mortes. Com jalecos brancos e 
mscaras, os dois homens entraram no corredor de concreto, ladeado por portas de ao 
que levavam s salas dos macacos. O corredor estava muito quente e eles comearam a 
suar. Atravs de pequenas janelas nas portas viam os olhos de centenas de macacos 
atentos  sua passagem. Os macacos eram extremamente sensveis  presena dos 
humanos.
Na sala F estavam somente macacos comedores de caranguejos, do carregamento de 
outubro, vindo de Ferlite Farms, nas Filipinas. Cada macaco numa jaula. Pareciam 
abatidos. Duas semanas atrs estavam saltando de rvore em rvore e no gostavam do 
que estava acontecendo agora. Dalgard foi de jaula em jaula, olhando para os animais. 
Ele podia dizer muita coisa sobre um macaco apenas olhando nos seus olhos. Sabia 
tambm ler sua linguagem corporal. Procurava macacos passivos ou com sinais de dor.
O olhar fixo e demorado de Dalgard enfurecia os macacos. Quando olhou 
desafiadoramente nos olhos de um macho dominante, o animal avanou para ele. 
Encontrou um macaco com olhos abatidos, no brilhantes, mas vtreos e de certa forma 
inativos. As plpebras, normalmente muito abertas, deixando ver toda a ris, estavam 
cadas, quase fechadas. Os olhos de um macaco saudvel eram como dois crculos 
brilhantes no rosto. Aquele animal estava com as plpebras flcidas, semi-cerradas e a 
ris era uma oval ligeiramente desviada para o lado.
Dalgard calou luvas de couro de cano longo, abriu a porta da jaula, e fez o macaco 
deitar, segurando-o. Tirou a luva da outra mo e apalpou a barriga do animal. Sim, o 
macaco estava quente. Estava com febre e com corrimento do nariz. Dalgard soltou o 
macaco e fechou a porta. No achava que fosse pneumonia ou um resfriado. Talvez 
efeito do excesso de calor.
A sala estava quente demais. Aconselhou Bill Volt a insistir com o proprietrio para 
consertar o sistema de aquecimento. Encontrou um segundo animal com as plpebras 
cadas e a ris ligeiramente oblqua. Tambm estava febril. Havia dois macacos doentes 
na sala F.
Os DOIS MACACOS MORRERAM durante a noite. De manh, Bill Volt os encontrou 
encolhidos nas jaulas com os olhos vtreos semi-abertos. Muito preocupado, Volt 
resolveu dissecar os animais, para ver se descobria a causa da morte. Levou os dois 
macacos mortos para uma sala de exames e fechou a porta, para que os outros animais 
no vissem o que ia fazer. (No se pode abrir um macaco morto na frente de outros 
macacos  o resultado  uma revolta violenta.) Volt abriu os macacos com um bisturi e 
comeou o exame. No gostou do que viu e no compreendeu. Telefonou para Dal-gard 
e disse, "Ser que voc podia vir at aqui e dar uma olhada nesses macacos?"
Dalgard foi imediatamente para a casa dos macacos. Suas mos, to habilidosas e 
seguras para desmontar e consertar relgios, examinaram os animais. O que ele viu o 
deixou intrigado. Aparentemente tinham morrido por causa do excesso de calor, 
motivado pelos problemas com o sistema de aquecimento do prdio  mas os baos 
estavam muito aumentados. O excesso de calor no podia provocar o aumento do bao, 
podia? Dalgard notou outra coisa que o fez pensar. Os dois animais tinham sangue nos 
intestinos. No era pneumonia. O que poderia ter feito aquilo?
Mais tarde, nesse mesmo dia chegou outro grande carregamento de comedores de 
caranguejos de Ferlite Farms, nas Filipinas. Bill Volt ps os recm-chegados na sala H, 
duas portas depois da sala F.
Dan Dalgard ficou muito preocupado com os macacos da sala F. Imaginou se haveria 
algum tipo de agente infeccioso na sala. Alguma doena de macacos. O sangue nos 
intestinos sugeria os efeitos de um vrus de macacos chamado febre hemorrgica dos 
smios, ou FHS.  um vrus fatal para macacos, mas inofensivo para os humanos. (No 
pode viver no homem.) A febre dos smios pode se espalhar rapidamente numa colnia 
de macacos, geralmente dizimando-a por completo. Na sexta-feira, 10 de novembro, 
Dalgard foi para casa. Pretendia passar o fim de semana consertando seus relgios na 
sala de estar. Mas, enquanto arrumava suas ferramentas, no podia deixar de pensar nos 
macacos. Dalgard estava preocupado. Finalmente, disse para a mulher que precisava 
tratar de alguns negcios da companhia, vestiu o palet, entrou no carro e foi para a casa 
dos macacos. Estacionou na frente do prdio e entrou pela porta de vidro, da frente. 
Assim que a abriu foi envolto pela onda de calor e ouviu os gritos habituais dos 
macacos. Entrou na sala F. "Cra! Cra!" gritaram os macacos, alarmados. Havia mais trs 
macacos mortos, encolhidos nas jaulas, com os olhos abertos, inexpressivos. Isso no 
era bom. Dalgard levou os macacos mortos para a sala de exame, abriu e examinou os 
trs.
LOGO DEPOIS, Dalgard comeou a escrever um dirio que gravou no seu computador 
pessoal. Escrevia algumas palavras todos os dias. Trabalhando rapidamente e sem dar 
muita ateno, intitulou seu dirio de Cronologia de eventos. Novembro estava quase no 
fim e enquanto o sol descia para o horizonte no fim da tarde, e comeava o 
engarrafamento na Leesburg Pike, perto do seu escritrio, Dalgard trabalhava no seu 
dirio. Enquanto digitava, reconstitua mentalmente o que tinha visto no interior dos 
corpos dos macacos:
As leses apresentavam um padro de acentuada esple-nomegalia crescimento do bao 
 secura extrema na superfcie cortada, rins aumentados e hemorragias espordicas em 
vrios rgos... Clinicamente, os animais apresentavam anorexia perda de apetite e 
letargia. Quando um animal comeava a apresentar sinais de anorexia, sua condio 
deteriorava rapidamente. As temperaturas retais dos macacos sacrificados no eram 
altas. No havia corrimento nasal, epistaxe hemorragia nasal nem fezes sangneas... 
Muitos dos animais estavam em boa forma fsica e com mais tecido adiposo do que 
costumam ter os macacos que chegam da selva."
No havia muita coisa errada com os animais mortos, nada que ele pudesse identificar 
com segurana. Eles simplesmente deixavam de comer e morriam. Morriam com os 
olhos abertos, como se tivessem sofrido um derrame e com o rosto completamente 
inexpressivo. Fosse qual fosse a doena, a causa da morte no era evidente. Seria ataque 
cardaco? Uma febre? O qu?
A aparncia do bao era estranha e inexplicvel. O bao  uma espcie de saco que filtra 
o sangue e desempenha um papel no sistema imunolgico. O bao normal  um saco 
macio, mido e vermelho no centro, que lembrava a Dalgard uma rosquinha com gelia. 
Quando cortado com o bisturi o bao normal apresenta tanta resistncia  lmina quanto 
uma rosquinha e sangra abundantemente. Mas os baos daqueles macacos estavam 
aumentados e duros como pedra. O bao normal de um macaco tem o tamanho de uma 
noz. Os dos macacos mortos tinham o tamanho de uma tangerina e consistncia de 
couro. Fazia lembrar um pedao de salame  carnudo, duro, seco. Praticamente 
repeliram seu bisturi. Podia forar a lmina na superfcie que ela quase no entrava. O 
que ele no percebeu  o que no podia ver, porque era quase inconcebvel  era que 
todo o bao tinha se tornado um slido cogulo. Ele estava forando o bisturi num 
cogulo do tamanho de uma tangerina.
No dia seguinte, domingo, 12 de novembro, Dalgard passou a manh fazendo pequenos 
servios em casa. Depois do almoo voltou  casa dos macacos. Alguma coisa 
misteriosa estava acontecendo na Unidade de Quarentena dos Primatas, em Reston. Ele 
encontrou mais trs macacos mortos na sala F. Estavam morrendo regularmente, todas 
as noites.
Um dos animais mortos era chamado de 053. Dalgard levou o macaco 053 para a sala 
de exames, abriu e examinou a cavidade. Com o bisturi removeu um pedao do bao do 
053, enorme, duro e seco, como os dos outros. Tirou uma amostra de muco da garganta 
do animal, uma raspagem de garganta. Ento passou o material para um tubo. Qualquer 
coisa viva no muco seria preservada por algum tempo.
No nvel 3
13 DE NOVEMBRO DE 1989, SEGUNDA-FEIRA
NA SEGUNDA-FEIRA DE MANH  o dia seguinte  dissecao do macaco 053  
Dan Dalgard resolveu levar o problema dos seus macacos ao USAMRIID, em Fort 
Detrick. Ouvira dizer que tinham especialistas capazes de identificar doenas de 
macacos e ele queria uma identificao positiva da doena que estava matando seus 
animais. Fort Detrick ficava mais ou menos a uma hora de carro a noroeste de Reston, 
no outro lado do rio Potomac.
Dalgard telefonou primeiro e falou com um virologista civil, chamado Peter Jahrling.
 Acho que temos alguns casos de FHS  febre hemorrgica de smios. O bao parece 
um pedao de salame quando  cortado.  Dalgard perguntou se Jahrling podia 
examinar algumas amostras e Jahrling concordou. O problema despertou a curiosidade 
do virologista.
Jahrling havia trabalhado no instituto durante a maior parte de sua carreira, depois de 
viver algum tempo na Amrica Central e tinha caado vrus na floresta tropical (tinha 
descoberto diversas variedades desconhecidas). Seu cabelo era louro com alguns fios 
brancos e usava culos com aros de metal, o rosto era agradvel e cheio de vida e tinha 
um senso de humor seco. Era cauteloso por natureza. Passava muito tempo dentro de 
um traje espacial biolgico Chemturion. Trabalhava na pesquisa de defesas contra vrus 
quentes  vacinas, medicamentos  e fazia pesquisa mdica bsica sobre vrus da 
floresta tropical. Os matadores e os desconhecidos eram sua especialidade. Peter 
Jahrling deliberadamente procurava no pensar nos efeitos dos agentes quentes. Sua 
idia era que, se comeasse a pensar no assunto, ia procurar ganhar a vida de outro 
modo.
Jahrling, a mulher e trs filhos moravam em Thurmont, no muito distante de Nancy e 
Jerry Jaax, numa casa trrea de tijolos com uma cerca de madeira pintada de branco na 
frente. A cerca circundava um ptio sem rvores e na garagem tinham um carro grande 
e marrom. Embora morassem perto, os Jahrling no socializavam com os Jaax, devido 
s diferenas nas idades dos seus filhos e nos seus estilos de vida.
Peter Jahrling aparava a grama do seu jardim regularmente para que os vizinhos no 
pensassem que era descuidado. Aparentemente levava uma vida comum entre vizinhos 
do seu bairro residencial e poucos deles sabiam que quando ele entrava no seu carro cor 
de lama estava a caminho da zona quente, embora tivesse placa especial, LASSA. Lassa 
 um vrus do nvel
4, da frica ocidental e uma das formas de vida favoritas de Jahrling  ele a achava 
fascinante e bela, exceto nas coisas que fazia com as pessoas. J havia segurado na mo 
enluvada praticamente todos os agentes quentes conhecidos, exceto o Ebola e o 
Marburg. Quando perguntavam por que no trabalhava com eles, respondia, "No tenho 
nenhuma vontade especial de morrer."
Depois da conversa no telefone com Dan Dalgard, Peter Jahrling ficou 
desagradavelmente surpreendido quando, no dia seguinte, chegaram ao instituto alguns 
pedaos de carne congelada do macaco 053 entregues por mensageiro. O que o 
aborreceu foi o fato dos pedaos de carne estarem envoltos em papel de alumnio, como 
restos de um cachorro-quente. A carne que parecia cachorro-quente era bao de macaco 
e o gelo em volta, manchado de sangue, estava semiderretido, pingando. As amostras 
incluam tambm um tubo de ensaio com material da garganta e soro sangneo do 
macaco. Jahrling levou tudo para um laboratrio do nvel 3, onde a presso do ar  
negativa, para evitar vazamentos, mas no  preciso usar traje espacial. As pessoas que 
trabalham no nvel 3 vestem-se como cirurgies na sala de operao, com mscara, 
jaleco e cala esterilizados e luvas de borracha. Tirou o papel de alumnio das amostras, 
ajudado por um patologista. O pedao de bao rolou sobre o papel quando eles o 
empurraram  um pedao de carne rosado e duro, exatamente como Dal-gard 
descrevera. Jahrling pensou: como a carne misteriosa que servem na lanchonete de uma 
escola. Voltou-se para o patologista e disse, "Ainda bem que no  o Marburg", e os 
dois riram.
Mais tarde, no mesmo dia ele telefonou para Dalgard e disse mais ou menos isto: 
"Deixe-me dizer como  que se manda uma amostra para o instituto. O pessoal por aqui 
pode ser um pouco paranico, mas fica levemente irritado quando mandam uma 
amostra que pinga no tapete."
UM DOS MODOS DE IDENTIFICAR um vrus consiste em faz-lo crescer no interior 
de clulas vivas num recipiente com gua. Basta uma amostra do vrus no recipiente 
para que ele se espalhe por todas as clulas e comece a se multiplicar. Se o vrus gostar 
das clulas, ele se multiplica. Um ou dois vrus podem se transformar em bilhes de 
vrus em poucos dias  uma China de vrus num vidro do tamanho de um polegar.
Uma tcnica civil, Joan Rhoderick, preparou a cultura do agente desconhecido do 
macaco 053. Ela amassou num pequeno pilo de laboratrio um pedao do fgado do 
macaco, formando uma espcie de pasta sangrenta. Ento, apanhou um pouco do muco 
da garganta do macaco 053, ps num frasco e apanhou um pouco do soro sangneo do 
macaco e ps em outro frasco. No fim, tinha uma fileira de frascos. Levou todos para 
um aquecedor  uma incubadora onde  mantida a temperatura do corpo  e esperou 
que alguma coisa crescesse nos frascos. Fazer vrus crescer numa cultura  muito 
parecido com a fabricao de cerveja. Basta seguir a receita e manter a mistura quente 
at acontecer alguma coisa.
DAN DALGARD no visitou a casa dos macacos no dia seguinte, mas telefonou para 
Bill Volt, para saber como iam as coisas. Volt informou que os animais pareciam bem. 
Nenhum tinha morrido naquela noite. A doena parecia estar desaparecendo 
normalmente. Tudo parecia calmo em Reston e Dalgard sentiu-se aliviado por sua 
companhia ter conseguido se desviar a tempo daquela bomba.
Mas o que aquela gente do Exrcito estaria fazendo com as amostras do macaco? 
Telefonou para Jahrling e foi informado que era muito cedo para saber alguma coisa. 
So necessrios alguns dias para criar um vrus.
No dia seguinte, Bill Volt telefonou para Dalgard com ms notcias. Oito macacos da 
sala F tinham parado de comer. Oito macacos estavam se preparando para morrer. A 
coisa tinha voltado.
Dalgard foi imediatamente  casa dos macacos e verificou que a situao se deteriorara 
rapidamente. Muitos outros animais estavam com as plpebras cadas, os olhos 
vidrados, a ris ovalada. Fosse o que fosse, estava seguindo seu caminho com segurana 
na sala F. Metade dos animais estava morta. A coisa ia matar todos os macacos da sala 
F, se no fizessem alguma coisa para det-la. Dalgard ficou extremamente ansioso por 
alguma notcia de Peter Jahrling.
Chegou o dia 16 de novembro, quinta-feira, e com ele a notcia de que macacos haviam 
morrido nas salas que ficavam no outro lado do corredor, de frente para a sala F. No fim 
da manh, Peter Jahrling telefonou. Um patologista do instituto havia examinado as 
amostras cuidadosamente e deu um diagnstico experimental de febre hemorrgica 
simiana  inofensiva para humanos, letal para macacos.
Dalgard sabia agora que devia agir rapidamente para conter o surto de vrus na casa dos 
macacos. A febre hemorrgica de smios  extremamente contagiosa em macacos. 
Naquela tarde ele seguiu pela Leesburg Pike, a caminho do centro comercial de Reston. 
s cinco horas de uma noite cinzenta e chuvosa, quase no comeo do inverno, enquanto 
as pessoas que trabalhavam em Washington voltavam para casa, ele e outro veterinrio 
da Hazleton injetaram doses letais de anestsicos em todos os macacos da sala F. Tudo 
foi feito rapidamente, os macacos morreram em poucos minutos.
Dalgard abriu oito corpos com aparncia saudvel,  procura de sinais da febre 
hemorrgica. Com surpresa verificou que no havia nada de errado com aqueles 
macacos. Dalgard ficou preocupado. Sacrificar os macacos fora uma tarefa difcil, 
desagradvel e dolorosa. Ele estava certo de que havia uma doena naquela sala, porm 
os macacos que acabava de sacrificar eram animais belos e saudveis. A doena estava 
entrincheirada na casa dos macacos desde o comeo de outubro e estavam agora em 
meados de novembro. O diagnstico experimental do Exrcito era provavelmente o 
melhor que podia obter e coube a ele a tarefa desagradvel de tentar salvar as vidas dos 
outros animais. Naquela noite foi para casa com a sensao de ter tido um pssimo dia. 
Mais tarde escreveu no seu dirio:
"Encontrei uma notvel ausncia de componente hemorrgico. Em geral, os animais 
estavam bem nutridos (como perus cevados), eram jovens (menos de 5 anos) e em 
perfeitas condies fsicas."
Antes de sair da casa dos macacos ele e o outro veterinrio puseram os macacos mortos 
em sacos de plstico e os levaram para um freezer. Um freezer pode ser quente como o 
inferno. Quando um local  biologicamente quente, nenhum sensor, nenhum alarme, 
nenhum instrumento pode contar a histria. Todos os instrumentos so silenciosos e no 
registram coisa alguma. Os corpos dos macacos eram visveis nos sacos transparentes. 
Congelaram em formas estranhas, com as cavidades torcicas abertas e os intestinos 
dependurados, de onde pendiam estalactites vermelhas. As mos estavam fechadas ou 
abertas, como se procurassem agarrar alguma coisa, e os rostos eram mscaras 
inexpressivas, os olhos vitrificados com gelo, olhando para o nada.
Exposio
17 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA
Thomas GEisbert era interno no instituto, uma espcie de estagirio. Tom tinha 27 anos, 
era alto, olhos azul-escuros e cabelo castanho longo, repartido no meio e cobrindo parte 
da testa e as orelhas. Era um pescador hbil e timo atirador com rifle e passava seu 
tempo livre nos bosques. Usava cala jeans, botas de caubi e desafiava toda autoridade. 
Tom tinha crescido perto de Fort Detrick. Seu pai era o engenheiro chefe de construes 
no instituto, o homem que consertava as zonas quentes e operava nelas. Quando Tom 
era menino, o pai o levou para visitar o instituto. Tom viu, atravs dos vidros pesados, 
as pessoas com os trajes espaciais e ficou encantado.
O instituto o empregou para operar o microscpio eletrnico, que usa um raio de 
eltrons para fazer imagens de pequenos objetos, tais como vrus.  um instrumento 
essencial num laboratrio de vrus, porque pode ser usado para fotografar um minsculo 
pedao de carne e encontrar os vrus que vivem nele. Para Tom, identificar variedades 
quentes e classificar as tribos de vrus era como catalogar borboletas ou colecionar 
flores. Ele gostava da solido do espao interno, a sensao de estar esquecido para o 
mundo. Sentia-se tranqilo e em paz quando caminhava, arrastando os ps, numa zona 
quente, carregando um suporte com tubos de ensaio que continham um agente 
desconhecido. Preferia entrar nas sutes do nvel 4 sozinho, especialmente no meio da 
noite. Essa tendncia para passar grande parte do tempo trabalhando comeava a afetar 
sua vida pessoal e seu casamento entrou em crise. Ele e a mulher tinham se separado em 
setembro. Esses problemas S serviam para reforar a tendncia de se isolar no nvel 4.
Uma das maiores felicidades para Tom, alm do trabalho, era passar o tempo ao ar livre, 
pescando perca-parda e caando gamos. Ele caava para comer  dava a carne de 
veado para pessoas da sua famlia  e ento, quando j estavam saturados de carne, 
caava para colecionar trofus. Todos os anos, nos feriados de Ao de Graas ia pescar 
em West Virgnia, onde, com alguns amigos, alugava uma casa, na abertura da estao 
de caa. Seus companheiros de caada no sabiam muito bem como Tom ganhava a 
vida e ele no fazia nenhum esforo para contar.
Tom Geisbert procurava examinar o maior nmero possvel de amostras de vrus, para 
aperfeioar seu trabalho com o microscpio eletrnico. Estava aprendendo a identificar 
agentes quentes a olho nu, estudando fotografias das partculas. Quando as amostras do 
menino Cardinal chegaram da frica, Tom passou dias olhando para elas. Elas o 
atraam. A variedade Cardinal era uma massa desordenada de figuras como 6, UU, gg, 
YY, cobras e biscoitos de lao, misturados com carne humana, parcialmente liqefeita. 
Tom passou tanto tempo olhando para os vrus que as formas se gravaram em sua 
mente.
TOM OUVIU FALAR dos macacos doentes na Virgnia e queria tirar fotografias das 
amostras a fim de identificar partculas do vrus da febre hemorrgica simiana. Na 
manh de sexta-feira, 17 de novembro  um dia depois de Dalgard matar todos os 
animais da sala F  Tom resolveu dar uma olhada nos frascos com clulas de macacos 
que estavam amadurecendo. Queria examinar num microscpio com luz, antes de sair 
para sua caada de Ao de Graas, a fim de ver se havia alguma mudana. Um 
microscpio com luz  um microscpio padro, que usa lentes para focalizar a luz.
s nove horas da manh de sexta-feira, Tom vestiu o conjunto cirrgico, a mscara de 
papel e entrou no laboratrio do nvel 3, onde os frascos eram mantidos aquecidos. 
Encontrou Joan Rhoderick, a tcnica que havia iniciado a cultura Reston. Ela estava 
examinando um pequeno frasco no microscpio binocular. O frasco continha clulas 
infectadas com o vrus da febre simiana, da amostra do macaco 053, um animal que 
havia morrido de morte natural na sala F  um dos macacos dissecados por Dalgard.
Joan disse para Geisbert:
 Tem alguma coisa esquisita neste frasco.
Era um frasco de vrus tpico. Tinha o tamanho de um polegar e era feito de plstico 
transparente que podia ser examinado no microscpio sem ser aberto, com uma tampa 
negra, de atarraxar.
Geisbert examinou o frasco no microscpio binocular. Viu um mundo complicado. 
Como sempre, em biologia, o problema era saber o que estavam vendo. Os padres da 
natureza so profundos, complexos e em constante mutao. Ele viu uma poro de 
clulas, pequenos sacos, cada um com um ncleo, uma bolha negra no centro. As 
clulas pareciam ovos fritos, com a gema para cima. A gema era o ncleo.
Clulas vivas geralmente se depositam no fundo do frasco, formando um tapete vivo  
as clulas preferem aderir a alguma coisa, enquanto esto crescendo. Aquele tapete fora 
comido por traas. As clulas estavam mortas e saram do fundo, deixando buracos no 
tapete.
Ele verificou todos os frascos e viu a mesma coisa na maior parte deles, um tapete 
comido por traas. As clulas pareciam muito mal, muito doentes. Alguma coisa estava 
matando as clulas. Estavam inchadas, balofas, gordas, como se estivessem grvidas. 
Tom viu que continham grnulos, ou pequenos pontos, como gros de pimenta. Como 
se algum tivesse posto pimenta nos ovos fritos. Teve a impresso de ver reflexos na 
pimenta, como raios de luz atravessando cristais. Cristais? Aquelas clulas estavam 
doentes e irreconhecveis. Muito doentes, porque o fluido estava leitoso, enevoado por 
clulas mortas, clulas que tinham explodido.
Eles acharam que seu chefe, Peter Jahrling, devia ver aquilo. Geisbert foi procurar 
Jahrling. Saiu do nvel 3  tirou a roupa cirrgica, tomou um banho de chuveiro, 
vestiu-se e foi para o escritrio de Jahrling. Os dois foram ento para o laboratrio do 
nvel 3. Em poucos minutos vestiram a roupa cirrgica. Quando ficaram prontos  
vestidos como cirurgies  entraram e sentaram na frente do microscpio binocular. 
Geisbert disse:
 Alguma coisa muito estranha est acontecendo nesse frasco, mas no sei ao certo o 
que . Isto no  FHS.
Jahrling olhou. Viu que o frasco estava leitoso, como se a cultura tivesse apodrecido.
 Isto est contaminado  disse ele.  Estas clulas explodiram. Esto crud  
Tinham explodido e estavam mortas.  Esto fora do plstico  observou ele.
Fora do plstico queria dizer que as clulas mortas haviam se soltado da superfcie do 
plstico e flutuado dentro do lquido. Jahrling pensou que algum tipo de bactria tinha 
invadido a cultura.  uma ocorrncia comum e inconveniente numa cultura de vrus, 
que inutiliza o frasco. A bactria consome a cultura de clulas, devora-a e exala um 
cheiro desagradvel enquanto est crescendo, ao passo que os vrus matam as clulas 
sem desprender nenhum cheiro. Jahrling sups que o frasco havia sido invadido por 
uma bactria comum, do solo, chamada pseudomonas, que vive na terra. Vive em todas 
as hortas e debaixo das unhas de quem mexe na terra.  uma das formas mais comuns 
de vida no planeta e muitas vezes invade culturas de clulas e as destri.
Jahrling abriu a tampa do pequeno frasco e abanou o ar com a mo na boca do frasco e 
cheirou. Hum... Estranho. Nenhum cheiro.
Ele disse para Tom Geisbert:
 J sentiu o cheiro de pseudomonas?
 No  respondeu Tom.
 Fede como suco de uvas Welch's.  Ofereceu o frasco para Tom.
Tom cheirou. No sentiu cheiro algum.
Jahrling apanhou o frasco e cheirou outra vez. Seu nariz no registrou nada. Mas o 
frasco estava leitoso e as clulas explodidas. Ficou intrigado. Devolveu o frasco para 
Tom e disse:
 Ponha no "raio" e vamos dar uma olhada.
Com "ponha no raio" ele queria dizer, use o microscpio eletrnico, que  muito mais 
potente do que o microscpio com luz e permite exame mais profundo do universo 
interior.
GEISBERT PASSOU um pouco do fluido leitoso para um tubo de ensaio e o fez girar 
numa centrfuga. Um "boto" de lquido acinzentado se depositou no fundo do tubo  
uma pequena plula de clulas mortas e agonizantes. A plula tinha o tamanho de uma 
cabea de alfinete e cor marrom-clara. Tom achou que parecia batata amassada. Retirou 
o boto com uma vareta de madeira, e o mergulhou em resina plstica, para conserv-lo. 
Mas naquele momento ele estava pensando na estao de caa. Mais tarde  sexta-feira 
 ele foi para casa para se preparar para a caada. Seu Ford Bronco estava en-guiado, 
por isso um dos companheiros de viagem o apanhou com uma pickup. Com a mochila e 
a caixa da espingarda no carro, Tom saiu com o amigo para West Virgnia. Quando um 
filovrus comea a se amplificar num ser humano, o perodo de incubao  de trs a 
oito dias, enquanto um grande nmero de partculas do vrus sobe pela corrente 
sangnea. Ento vem a dor de cabea.
Ao de Graas
20 A 25 DE NOVEMBRO
PARA NANCY E Jerry Jaax foi o pior dia de Ao de Graas de suas vidas. Na quarta-
feira, 22 de novembro, entraram com os filhos na caminhonete da famlia e rumaram 
noite adentro, diretamente para Kansas. Jaime estava com 12 anos e Jason com 13. 
Estavam acostumados com a longa viagem de automvel at o Kansas e dormiram 
tranqilamente. Jerry quase perdera a capacidade de dormir desde o assassinato do 
irmo e Nancy ficou acordada, revezando com ele na direo. Chegaram a Wichita no 
dia de Ao de Graas e comeram o peru com o pai de Nancy, Curtis Dunn, que morava 
com o irmo dela.
Para tornar as coisas mais dolorosas, o pai de Nancy estava morrendo de cncer. 
Durante toda a vida ele fora um hipocondraco, especializando-se em alarmes falsos de 
cncer  certa vez ele ficou de cama oito meses, afirmando que estava com cncer, 
quando no tinha nada  e agora estava com cncer de verdade. Tinha perdido muito 
peso naquele outono. Parecia um esqueleto, com menos de 50 quilos, mas era ainda 
relativamente jovem, com o cabelo negro e crespo, penteado com gel. Sua aparncia era 
to m que as crianas ficaram com medo dele. Curtis Dunn fez o possvel para 
demonstrar o quanto sentia a morte do irmo de Terry.
 Foi uma coisa terrvel que aconteceu com vocs, os Jaax  ele disse.
Jerry no queria falar no assunto.
O pai de Nancy passava a maior parte do dia dormindo numa poltrona.  noite a dor o 
impedia de dormir e s trs horas da manh ele levantava e andava pela casa, como se 
procurasse alguma coisa. Fumava continuamente e se queixava de no sentir o gosto da 
comida e ter perdido o apetite. Nancy tinha pena dele, mas no conseguia vencer a 
distncia que os separava. Curtis Dunn sempre fora um homem de opinies fortes e, 
pelo que ele resmungava quando vagava  noite pela casa, parecia disposto a vender a 
fazenda da famlia, em Kansas, para pagar, no Mxico, um tratamento que envolvia o 
uso de caroos de pssegos. Essa idia irritava Nancy que ao mesmo tempo sentia pena 
dele.
Depois do almoo com o pai de Nancy, eles foram para Andale, Kansas, uma cidade a 
noroeste de Wichita e jantaram com a famlia Jaax, na casa da me dele, Ada, na 
periferia da cidade, perto do elevador de cereais. Ada era viva e morava sozinha numa 
casa trrea, com vista para belos campos de trigo. Os campos estavam vazios, plantados 
com trigo de inverno e Ada, sentada na sua poltrona, na sala de estar, olhava para fora. 
Ela no podia assistir televiso porque temia ver uma arma. Reunidos na sala de estar, 
eles tentaram manter a conversao. Contavam histrias dos velhos tempos, na fazenda 
de Ada, rindo e brincando, tentando parecer alegres e de repente algum mencionava o 
nome de John. A conversa morria e todos abaixavam os olhos, sem saber o que dizer e 
ento algum comeava a chorar e eles viam as lgrimas descendo pelo rosto de Ada. 
Ela sempre fora uma mulher forte e nenhum dos filhos jamais a vira chorar. Quando 
sentia que no podia mais se controlar, levantava, ia para o quarto e fechava a porta.
Arrumaram as mesas na cozinha e serviram rosbife  os Jaax no gostavam de peru. 
Depois de algum tempo todos foram para a sala de estar, com os pratos nas mos, para 
assistir ao futebol americano na televiso. As mulheres arrumaram a cozinha e cuidaram 
das crianas. Depois, Jerry e Nancy passaram alguns dias em Wichita para ajudar o pai 
dela a comear o tratamento no hospital. Ento, voltaram para Maryland na 
caminhonete, com seus filhos.
Dan Dalgard passou a semana de Ao de Graas extremamente preocupado. Na 
segunda-feira telefonou para Peter Jahrling, para saber se haviam descoberto alguma 
coisa sobre a causa da morte dos macacos de Reston. Jahrling tinha agora um 
diagnstico experimental. Ao que parecia tratava-se realmente da febre hemorrgica 
simiana. Letal para macacos, mas inofensiva para humanos. Disse para Dalgard que 
tinha quase certeza de que era a febre, mas no queria dizer nada definitivo ainda. 
Preferia esperar o resultado final dos testes para dar um diagnstico mais seguro.
Dalgard desligou, convencido de que sua deciso de matar os macacos fora acertada. 
Aqueles animais estavam infectados com a febre hemorrgica e iam morrer de qualquer 
modo. A doena teria se disseminado por todo o prdio, matando todos os macacos. O 
que o preocupava agora era a possibilidade de o vrus ter escapado da sala F. Podia estar 
invadindo insidiosamente o prdio e nesse caso os macacos das outras salas iam morrer 
tambm e ento seria muito difcil controlar o vrus.
Bem cedo, na manh do dia de Ao de Graas, Dan e a mulher foram de carro a 
Pittsburgh, onde moravam os pais dela. Voltaram para Virgnia na sexta-feira e Dan foi 
 casa dos macacos, para ver se tinha havido alguma mudana. Ficou chocado com o 
que viu. Durante os feriados de Ao de Graas cinco macacos tinham morrido na sala 
H, a duas portas da sala F. Ento o vrus estava se movendo e, o que era pior, saltando 
algumas salas na sua caminhada. Como podia fazer isso? Cinco macacos mortos na 
mesma sala numa noite... Dalgard ficou muito preocupado.
Medusa
27 DE NOVEMBRO, 7 HORAS DA MANH
NA MANH DE SEGUNDA-FEIRA, depois da semana de Ao de Graas, Tom 
Geisbert foi para o instituto com cala jeans, camisa de flanela e botas de caubi, como 
uma espcie de recordao de sua caada nos bosques. Estava ansioso para verificar o 
boto de clulas mortas do macaco, que havia retirado do frasco na sexta-feira, antes de 
viajar. Queria examinar as clulas no microscpio eletrnico para certificar-se da 
presena do vrus da febre hemorrgica.
O boto tinha o tamanho de uma migalha de torrada, em-bebido numa pequena placa de 
plstico amarelo. Tom tirou do armrio seu bisturi de diamante, um objeto de metal do 
tamanho de um apontador de lpis de bolso  mais ou menos dois centmetros e meio. 
Custava quatro mil dlares. Tinha uma lmina de diamante  um diamante grande, 
perfeito, verdadeiro, uma pedra preciosa de primeira qualidade.
Levou o bisturi e a lmina de plstico com o boto de clulas para a sala onde ficava a 
mquina cortadora de amostras. Sentou a uma mesa, na frente da mquina e inseriu o 
bisturi de diamante, tomando extremo cuidado para no tocar na lmina. Qualquer 
contato podia destru-la. Alm disso, podia sofrer um corte profundo na ponta do dedo. 
A lmina de diamante  extremamente afiada. O instrumento mais aguado do mundo, 
capaz de cortar um vrus ao meio como uma navalha cortando um amendoim. Se 
considerarmos a idia de que um milho de vrus podem existir no pingo deste i, ento 
podemos avaliar o poder de corte do bisturi diamante. Um corte acidental num dedo 
atravessa a pele como se ela fosse feita de ar  e corta ao meio os glbulos vermelhos, 
no seu caminho. Ento, o leo da pele e os glbulos vermelhos cobrem a lmina, 
inutilizando-a definitivamente.
Tom Geisbert encostou os olhos no microscpio binocular acoplado  mquina de corte. 
Agora podia ver claramente a pequena migalha. Apertou um boto, a mquina zumbiu e 
a amostra comeou a se mover de um lado para o outro, deslizando pela lmina do 
bisturi diamante. A mquina de corte funcionava como um cortador de frios, cortando 
fatias finas do pequeno boto. Cada fatia tinha este tamanho:
As fatias caram numa gotcula de gua, permanecendo na superfcie. Cada uma 
continha cerca de dez mil clulas cortadas pelo bisturi. A lmina continuou cortando 
fatia aps fatia, que se espalhavam como folhas de nenfar na superfcie da gua.
Tom ergueu os olhos e procurou na mesa uma esptula de madeira com um clio 
humano pregado com uma gota de esmalte de unhas. Era um instrumento para manejar 
as fatias. O clio era de uma das tcnicas do laboratrio  a crena geral era de que os 
clios dela eram os melhores para esse tipo de trabalho, no muito espessos, nem muito 
finos, afilados, terminando em pontas perfeitas. Ele agitou a gota d'gua com o clio, 
separando as clulas. Com a ponta do clio tirou da gota algumas fatias mal cortadas e 
as passou para um leno de papel.
Em seguida, apanhou com uma pina uma pequena grade de cobre deste tamanho 
, mergulhou a grade na gota, sob uma fatia da amostra e a ergueu lentamente, como um 
pescador levantando a rede. A fatia ficou pregada na grade. Sempre segurando-a com a 
pina, Tom ps a grade numa caixinha. Saiu para o corredor e levou a caixa para um 
quarto escuro. No centro do quarto estava uma torre de metal mais alta do que um 
homem. Era o seu microscpio eletrnico. "Meu microscpio", pensou ele. Tom 
gostava muito do aparelho. Abriu a caixinha, tirou a grade com a pina e a depositou 
numa barra de ao do tamanho de uma alavanca para pneus  o suporte da amostra, 
como  chamado. Inseriu a barra no microscpio at ouvir o estalo indicando que estava 
encaixada. Agora a fatia, sobre a grade, segura pela barra de ao, estava posicionada no 
microscpio, centralizada no raio de um eltron.
Ele apagou as luzes da sala e sentou na frente do console, com o mostrador e leitura 
digital. No meio do console havia um monitor. A sala era agora a torre de comando de 
uma nave estelar, e a tela a janela por onde se via o infinito.
Tom apertou um boto e aproximou os olhos da tela. Seu rosto iluminado pela luz verde 
refletia-se no vidro do monitor, cabelos longos, expresso sria, olhos atentos 
examinando o terreno. Estava olhando para a extremidade de uma clula. Era como ver 
uma paisagem de uma grande altitude. Era um "celulorama". Uma paisagem enorme, 
complexa, com mais detalhes do que a mente podia absorver. Podem-se passar dias 
examinando clulas,  procura de um vrus. Numa fatia pode haver dez mil clulas que 
devem ser pesquisadas  e mesmo assim,  possvel no encontrar o que se procura. A 
coisa mais incrvel sobre os sistemas vivos  que, por menor que seja a paisagem 
mostrada,  sempre extremamente complicada. Ele via coisas que pareciam rios e 
regatos e lagos formados pelas curvas dos rios e via pontos que podiam ser cidades e 
faixas de florestas. Era uma vista area da floresta tropical. A clula era um mundo ali 
dentro e em algum lugar daquele mundo escondia-se um vrus.
Ele girou um boto, a paisagem deslizou pelo seu campo de viso e ele passeou pela 
clula. Ento, Tom ampliou com uma zoom o foco e a cena pareceu crescer na sua 
direo.
Tom conteve a respirao. Espere um pouco  h alguma coisa errada com esta clula. 
A clula estava completamente alterada. No somente morta, mas destruda. 
Despedaada. E cheia de vermes. A clula estava infestada de vermes, de parede a 
parede. Algumas partes estavam to cheias de vrus que pareciam molhos de cordas. S 
um tipo de vrus tinha a aparncia de corda. O filovrus.
Tom pensou, Marburg. Isso parece Marburg. Inclinou-se mais para a tela, olhando para 
o mundo l embaixo. Sentiu um n no estmago e uma sensao desagradvel. O fator 
vmito. Tom quase entrou em pnico, quase correu para fora da sala, gritando, 
"Marburg! Marburg! Temos um Marburg!" Pensou, ser que isso est mesmo 
acontecendo? Respirou fundo. No sabia se aquela coisa era o Marburg, mas, com todos 
os diabos, parecia um filovrus, o vrus filamentoso. Ento viu mentalmente as clulas 
do fgado de Peter Cardinal destrudas e repletas de cobras. Comparou essa imagem 
com o que via na tela. Sabia exatamente como era a variedade Cardinal, porque havia 
memorizado todas as suas formas de laos entrecruzados. O que o vrus fez com aquele 
menino... o efeito devastador em todos os tecidos... "Minha nossa!  Minha nossa!  
Pete e eu cheiramos esta coisa. Pete e eu manejamos esta coisa e  o agente Marburg do 
nvel 4 de biossegurana... Minha nossa, minha nossa, ohhh..." Uma sensao louca o 
envolveu, a impresso de glndulas reprodutoras masculinas pendendo no exterior do 
corpo entre as pernas... testculos do tamanho de limes, negros e podres, a pele se 
soltando deles.
Tom comeou a fotografar com seu microscpio. Em poucos minutos, vrios negativos 
saram da mquina. Ele os levou para a cmara escura e comeou a revelar. Ali, no 
escuro, teve tempo para pensar. Contou os dias da sua primeira exposio ao vrus. 
Vejamos, cheirou o frasco na sexta-feira, antes de sair para caar. Ento... h dez dias. 
Qual  o perodo de incubao do Marburg? No sabia ao certo. Vejamos  macacos 
que respiraram o vrus Marburg levaram um longo tempo para desenvolver a doena, de 
seis a dezoito dias. Ele estava no dcimo dia.
"Estou na bica para ficar doente. Na hora exata de desmoronar! Ser que tive dor de 
cabea ontem? Estou com dor de cabea agora? Estou com febre?" Ps a mo na testa. 
"Parece normal. S porque no tenho dor de cabea no dcimo dia, no quer dizer que 
no vou ter no dcimo segundo dia. Com que fora eu respirei quando cheirei aquele 
frasco? Eu tirei a tampa sem cuidado? Isso teria espalhado a coisa por toda parte. Ser 
que esfreguei os olhos com os dedos, depois? No me lembro. Toquei minha boca com 
os dedos? Posso ter tocado, eu no sei."
Imaginou se teria cometido um erro. Talvez no fosse o Marburg. Ele era apenas um 
estudante, estava ainda aprendendo. Encontrar agentes no nvel 4 na periferia de 
Washington, D.C. no  o tipo de coisa que estudantes de graduao fazem todos os 
dias. "Talvez no seja um filovrus. Como posso ter certeza? Se digo ao meu chefe que 
encontrei um Marburg e estou errado, minha carreira entra pelo cano. Neste campo, no 
h margem para erro. Se eu der um alarme falso, para comear, vou provocar pnico. 
Alm disso, vou me tornar alvo de ridculo."
Acendeu a luz, tirou os negativos do banho e os ergueu contra a luz.
Viu partculas de vrus com a forma de serpentes, ainda em negativo. Eram cobras 
brancas enroladas umas nas outras, como o cabelo da Medusa. Eram o prprio rosto da 
natureza, a deusa obscena, em toda a sua nudez. Uma beleza de tirar o flego. Olhando 
para aquela imagem, Tom sentiu que era levado deste mundo para outro, onde as 
fronteiras da moral eram obscuras e finalmente se dissolviam por completo. Dominado 
pela admirao, maravilhado e reverente, Tom quase esqueceu que ele era a presa. Uma 
pena que no podia derrub-lo com um tiro de espingarda.
Tom notou mais alguma coisa nas fotos, algo que o assustou mais ainda. O vrus havia 
alterado a estrutura da clula, tornando-a quase irreconhecvel. Havia transformado as 
clulas em algo que parecia biscoito de flocos de chocolate, com muito chocolate. Os 
objetos eram como blocos de cristais de vrus puro. Sabia que eram chamados "corpos 
de incluso".
Eram ninhadas de vrus preparando-se para sair da casca.  medida que o vrus crescia 
dentro da clula, no centro apareciam cristalides, ou tijolos, que depois de algum 
tempo se moviam na direo da superfcie. Quando tocavam a parte interna da 
superfcie da clula, dividiam-se em centenas de vrus individuais. Os vrus com a 
forma de fios saem para fora da clula como relva crescendo no solo adubado.  medida 
que aparecem e se movem para fora, eles deformam a clula, fazendo-a inchar e mudar 
de forma e finalmente explodir  e morrer. Os fios afastam-se da clula e nadam na 
corrente sangnea do hospedeiro, multiplicando-se, invadindo mais clulas, formando 
tijolos e as destruindo.
Olhando para os tijolos, Tom percebeu que o que dias atrs pareceram ser gros de 
pimenta no frasco  aqueles pontos escuros nas clulas  eram na verdade corpos de 
incluso. Por isso as clulas pareciam inchadas e gordas. Porque estavam grvidas e 
repletas de tijolos de vrus. Porque estavam prontas para explodir.
O primeiro anjo
27 DE NOVEMBRO, 10 HORAS DA MANH
TOM GEISBERT revelou os negativos em papel brilhante 20x24 e foi para o escritrio 
de Peter Jahrling. Passou por um longo corredor, desceu um lance de escadas, chegou  
porta de segurana, inseriu seu carto de identidade no sensor e entrou num labirinto de 
salas. Cumprimentou com um movimento de cabea um soldado  havia soldados por 
toda parte, todos muito ocupados  subiu uma escada e passou pela sala de 
conferncias que tinha um mapa do mundo na parede. Naquela sala, os militares 
estudavam os surtos de vrus. Uma reunio estava em progresso no momento. Tom 
chegou ento a um conjunto de escritrios. Um deles estava em incrvel desordem, com 
papis por toda parte. Era a sala de Gene Johnson, o especialista em biorrisco, o homem 
que havia organizado a expedio  caverna Kitum. No outro lado do corredor ficava o 
escritrio de Peter Jahrling. Era pequeno, em perfeita ordem e tinha uma janela. A mesa 
estava perto da janela para aproveitar a claridade. Nas paredes estavam desenhos dos 
filhos de Jahrling. Um deles, da filha, mostrava um coelho ao lado da sua toca, sob um 
sol brilhante e amarelo. Numa estante havia uma escultura africana, apenas a mo, 
segurando um ovo nas pontas dos dedos, como se o ovo estivesse prestes a se partir e 
revelar alguma coisa interessante.
 O que h, Tom?  perguntou Jahrling.
 Temos um grande problema.
Tom enfileirou as fotos sobre a mesa de Jahrling. Era um dia cinzento de novembro e a 
luz da janela iluminou suavemente as imagens da Medusa.
 Isto veio dos macacos de Reston  disse Tom.  Eu acho que  um filovrus e  
possvel que seja o Marburg.
Jahrhng lembrou de ter cheirado o frasco e disse:
 Voc est brincando. No tem graa. V embora.
 No  brincadeira, Pete.
 Tem certeza?  perguntou Jahrling. Geisbert disse que tinha.
Jahrling examinou atentamente as fotos. Sim, podia ver os vermes. Sim, ele e Geisbert 
podiam ter aspirado aquilo para dentro dos seus pulmes. Bem, no tinham ainda 
sentido dor de cabea. Lembrou o que tinha dito para o patologista quando ele cortara o 
pequeno pedao de carne misteriosa no papel alumnio, "Ainda bem que no  o 
Marburg." Pois sim!
 Isto est no tamanho certo?  perguntou Jahrling. Mediu as partculas com uma 
rgua.
 Parece um pouco longo para ser Marburg  disse Geisbert. As partculas de 
Marburg formavam laos entrecruzados. O vrus da foto mais parecia espaguete. 
Compararam as fotos com as de um livro sobre vrus.
 Para mim parece bom  disse Jahrling.  Vou mostrar a C.J. Peters.
JAHRLING, UM CIVIL, resolveu notificar a cadeia militar de comando que comeava 
com o coronel Clarence James Peters, mdico. Era o chefe da diviso de avaliao de 
doenas, no instituto, o mdico militar encarregado dos perigosos desconhecidos. ("A 
coisa interessante", como ele chamava.) Peter havia organizado aquela diviso 
praticamente sozinho e a dirigia sozinho. Era um estranho tipo de militar, de trato 
agradvel e descontraidamente brilhante. Usava culos com aros de metal, tinha o rosto 
redondo e corado, usava bigode e falava com um leve sotaque arrastado do Texas. No 
era um homem grande, mas gostava de comer e achava que tinha excesso de peso. 
Falava espanhol fluentemente, aprendido nos anos que passou nas selvas da Amrica 
Central e da Amrica do Sul, caando agentes quentes. De acordo com o regulamento 
do Exrcito, ele devia chegar ao trabalho s oito horas da manh, mas quase sempre 
aparecia mais ou menos s dez. No gostava de usar uniforme. Geralmente vestia cala 
jeans desbotada, camisa havaiana de cores vivas, sandlias e meias brancas, dando a 
impresso de ter passado a noite num hotel mexicano. Sua desculpa para no usar 
uniforme era que sofria de p-de-atleta, uma variedade incurvel, apanhada na Amrica 
Central e precisava de meias e sandlias para manter o ar circulando em volta dos dedos 
e a cala jeans e a camisa havaiana faziam parte do conjunto. Peter trabalhava doze 
horas por dia e saa do instituto  noite, geralmente quando todos j tinham sado.
C. J. Peters nadava na burocracia como um tubaro. Inspirava grande lealdade na sua 
equipe e fazia inimigos com facilidade e deliberadamente, quando lhe convinha. Tinha 
um Toyota vermelho com algumas batidas no consertadas, o tipo de carro que podia 
ser parado pela polcia por falta do plstico da vistoria de segurana. Nas suas viagens 
s florestas tropicais ele comia com gosto tudo que os nativos comiam. Tinha comido 
rs, cobras, carne de zebra, gua-viva, lagartos e sapos cozidos com a pele, mas achava 
que nunca havia comido salamandras, pelo menos no de modo que pudessem ser 
identificadas, talvez numa sopa. Peters comeu perna de macaco cozida e bebeu cerveja 
de banana fermentada com saliva humana. Na frica central, quando comandou uma 
expedio ao vrus Ebola, estava num campo de cupins, na poca da revoada e esperou 
ao lado dos ninhos para colher os cupins, que comia crus. Tinham um gosto estranho de 
nozes. Peters gostava tanto de cupins que os guardava na geladeira durante o dia, junto 
com suas amostras de sangue e os comia como amendoins,  noite, enquanto o sol 
descia na plancie africana, acompanhando seu gim. Gostava de cobaias sufocadas, 
cozidas no prprio sangue, com as vsceras. A cobaia abria-se como um livro, 
oferecendo tesouros e Peters gostava de comer os pulmes, as glndulas supra-renais e o 
crebro. Inevitavelmente ele pagava o preo desse gosto. "Sempre fico enjoado, mas 
vale a pena", ele disse, certa vez. Peters acreditava muito em mapas e sempre havia 
mais de um nas paredes do seu escritrio, mostrando os locais dos surtos de vrus. 
"Onde quer que voc v, leve um mapa e uma garrafa de gim, que vai estar bem", 
explicava ele.
Jahrling ps as fotos de Geisbert numa pasta (no queria que ningum visse) e 
encontrou Peters na sala de conferncias com o mapa do mundo. Jahrling bateu no 
ombro dele.
 C.J., no sei o que voc est fazendo agora, mas tenho aqui uma coisa muito 
importante.
 O que ?
Jahrling ergueu a pasta fechada.
  um pouco delicado. Na verdade no quero mostrar aqui.
 O que  to delicado?
Jahrling abriu um pouco a pasta, o suficiente para C.J. ver o espaguete e fechou logo em 
seguida.
Surpreso, o coronel levantou-se e sem dirigir palavra aos membros da reunio, sem 
pedir licena, saiu da sala com Jahrling. Foram para o escritrio de Jahrling, entraram e 
fecharam a porta. Tom estava  espera deles.
Jahrling ps as fotografias na mesa.
 D uma olhada nisso, C.J.
O coronel examinou rapidamente as fotos.
 De onde veio isto afinal?  perguntou.
 Daqueles macacos de Reston. No me parece coisa boa, C.J. Tom acha que  
Marburg.
 J nos enganamos antes  disse C.J.  Tem muita coisa que se parecia com vermes 
 disse C.J., olhando para as fotografias.
Os vermes eram indiscutveis  e havia cristalides  os tijolos. Parecia real. Sentiu o 
que mais tarde definiu como um enorme fator vmito. Pensou: "isto vai ser um 
problema e tanto para aquela cidade da Virgnia e para seu pessoal."
 A primeira questo  disse ele   quais so as chances de contaminao de 
laboratrio?
Podia ser a amostra Cardinal, do Exrcito  podia ter vazado de algum modo de um 
freezer e entrado naqueles frascos. Mas parecia impossvel. E quanto mais pensavam no 
assunto, mais impossvel parecia. A variedade Cardinal estava em outra rea do prdio, 
atrs de vrias paredes de bioconteno, muito distante dos frascos com as amostras dos 
macacos. Havia vrios procedimentos de segurana para evitar o vazamento acidental 
de vrus como o Marburg Cardinal. Simplesmente no era possvel. No podia ser 
contaminao. Mas talvez fosse outra coisa que no o vrus. Um alarme falso.
 O pessoal aqui  disse C.J.  v uma coisa comprida e fina e pensa logo que  
filovrus. Estou ainda ctico. H uma poro de coisas parecidas com o Marburg.
 Concordo  disse Jahrling.  Pode no ser nada. Talvez outro monstro de Loch 
Ness.
 O que vai fazer para confirmar o Marburg?  quis saber o coronel.
Jahrling explicou que pretendia testar as clulas com compostos que as fariam brilhar, 
se estivessem infectadas com o Marburg.
 Muito bem, voc vai testar para Marburg  disse C.J.  Pensou em incluir testes 
para o Ebola?
 Claro. J pensei nisso.
 Quando acha que vai terminar? Porque se esses macacos estiverem com o Marburg, 
precisamos resolver o que vamos fazer.
Dan Dalgard, por exemplo, era o primeiro candidato ao desmoronamento, porque havia 
dissecado aquele macaco.
 Amanh terei a resposta definitiva  disse Jahrling. C. J. voltou-se para Tom 
Geisbert e disse que queria mais provas  queria fotos do agente crescendo no fgado 
de um macaco que tivesse morrido na casa dos macacos. Isso provaria que o vrus vivia 
nos macacos.
C. J. previa uma crise militar e poltica. Se o povo descobrisse o que o Marburg pode 
fazer, haveria pnico. C. J. Peters levantou-se com a fotografia das cobras na mo e 
disse:
 Se vamos anunciar que o Marburg est ativo perto de Washington,  melhor termos 
absoluta certeza do que estamos dizendo.  E deixou a foto na mesa de Jahrling, 
voltando para a reunio.
DEPOIS QUE C.J. SAIU do escritrio, Peter Jahrling e Tom Geisbert tiveram uma 
conversa muito especial. Fecharam a porta e falaram sobre o incidente de cheirar os 
frascos. Era uma coisa que precisavam acertar entre eles. Nenhum dos dois havia 
mencionado o fato ao coronel C.J. Peters.
Contaram os dias a partir da provvel exposio ao vrus. Dez dias desde que abriram o 
frasco e cheiraram o que podia ser eau de Marburg. O relgio no parava e amanh seria 
o dcimo primeiro dia. Estavam no perodo de incubao. O que iam fazer? E suas 
famlias?
Sabiam o que o coronel Peters faria se descobrisse que tinham cheirado o frasco de 
Marburg. Ele os mandaria para o Slammer  o hospital de bioconteno do nvel 4. Era 
sua obrigao. Eles iam acabar no Slammer, atrs de cmaras de descontaminao e 
portas duplas de ao, atendidos por enfermeiras e mdicos vestidos com trajes espaciais. 
Um ms no Slammer, enquanto os mdicos pairavam sobre eles, com trajes espaciais, 
tirando amostras do seu sangue, esperando o desmoronamento.
As portas do Slammer estavam sempre trancadas, o ar era mantido em presso negativa 
e os telefonemas eram monitorados  porque os pacientes tinham colapsos emocionais 
no Slammer e tentavam escapar. Comeavam a decair na segunda semana. Ficavam 
clinicamente deprimidos. Ausentes. Olhavam para as paredes, calados, passivos, nem 
assistiam  televiso. Alguns ficavam agitados e apavorados. Muitos precisavam de 
endovenosa contnua de Valium para no comear a dar socos na paredes, nos vidros 
das janelas e destruir o equipamento mdico. Ficavam no corredor da morte isolados, 
esperando pelas febres, pela dor horrvel nos rgos internos, derrames e ento o jogo 
final, com sbitos e incontrolveis jorros de sangue. A maioria afirmava que no fora 
exposta a coisa alguma. Negavam que podia acontecer alguma coisa errada com eles e 
geralmente nada acontecia de errado com eles, fisicamente, no Slammer, e saam de l 
perfeitamente sos. Quanto  mente, era outra histria. No Slammer ficavam 
paranicos, convencidos de que a burocracia do Exrcito os tinha esquecido, e que iam 
apodrecer ali. Saam do Slammer desorientados. Emergiam da cmara de 
descontaminao plidos, abalados, hesitantes, tremendo, zangados com o Exrcito, 
zangados com eles mesmos. Para anim-los, as enfermeiras ofereciam um bolo de 
aniversrio com o nmero de velinhas igual aos dias passados no Slammer. Eles 
piscavam confusos para aquela poro de velas acesas no bolo Slammer, talvez mais 
velas do que jamais tinham visto num bolo de aniversrio. Um homem passou quarenta 
e dois dias trancado no Slammer. Quarenta e duas velas no seu bolo Slammer.
Muitas das pessoas que passavam algum tempo no Slammer comeavam a evitar o 
trabalho no nvel 4, inventando todo tipo de desculpas para no vestir o traje espacial 
hoje, amanh ou depois de amanh. Muitos acabavam deixando de trabalhar no 
instituto.
Peter Jahrling achou que nem ele nem Tom corriam grande risco de contaminao com 
o vrus. Se tivesse contrado, logo saberia. Seu sangue seria positivo, ou teria uma dor 
de cabea insistente. De qualquer modo, ele acreditava que no era to fcil apanhar o 
Marburg e acreditava que no havia perigo para sua famlia ou para qualquer outra 
pessoa na cidade.
Mas pense em Dan Dalgard, cortando aqueles macacos. Inclinado sobre o corpo e 
respirando macaco enquanto abria seus abdomens. Ele estava inclinado sobre os 
intestinos, um lago de sangue Marburg. Ento, por que Dalgard no est morto? Bem, 
se nada aconteceu com ele, talvez nada nos acontea.
De onde tinha vindo? Seria uma nova variedade? O que podia fazer aos seres humanos? 
Qualquer nova variedade de vrus toma o nome do seu descobridor. Jahrling pensou 
nisso tambm. Se ele e Tom fossem para o Slammer, no poderiam continuar a pesquisa 
do vrus e a glria iria para outra pessoa qualquer. Estavam  beira de uma descoberta. 
Encontrar um filovrus perto de Washington era a descoberta de uma vida.
Por tudo isso, eles resolveram ficar de boca fechada.
Decidiram analisar seu sangue para ver se tinha o vrus. Jahrling disse mais ou menos 
isto.
 Vamos tirar amostras do nosso sangue, agora mesmo.
Se o sangue fosse positivo, podiam se apresentar imediatamente no Slammer. Se fosse 
negativo, havia pouco perigo de infectar suas famlias ou qualquer outra pessoa.
Evidentemente eles no queriam ir a uma clnica do Exrcito e pedir a uma enfermeira 
para retirar amostras do seu sangue. Procuraram ento um tcnico civil que sabia retirar 
sangue. Ele passou a borracha nos braos deles e os dois observaram enquanto o sangue 
subia para os tubos de ensaio. O tcnico compreendeu o que estava acontecendo e 
prometeu no dizer nada. Ento Jahrling vestiu o traje espacial e levou o prprio sangue 
e o de Tom para o laboratrio quente do nvel 4, junto com os frascos com o lquido 
leitoso, que os dois tinham cheirado. Era estranho carregar o prprio sangue, vestido 
com o traje espacial. Porm, seria arriscado deix-lo onde qualquer pessoa pudesse 
acidentalmente se expor a ele. Seu sangue tinha de ser biocontido numa zona quente. Se 
estivesse infectado com Marburg, ele no queria ser responsvel pela morte de outra 
pessoa. Jahrling pensou que em se tratando de um pedao de carne misteriosa tirada do 
cadver de um macaco, eu devia ter sido mais cuidadoso...
Tom Geisbert foi apanhar um pouco de fgado de macaco para fotografar, esperando 
provar que um agente parecido com o Marburg vivia nos macacos. Encontrou um 
recipiente de plstico com pedaos cortados e esterilizados do fgado do macaco 053. 
Tirou alguns pedaos do vidro, e fixou em lminas de plstico. Levou vrias horas nesse 
trabalho. Deixou o plstico para curar durante a noite e foi para casa dormir um pouco.
O segundo anjo
28 DE NOVEMBRO, TERA-FEIRA
TOM GEISBERT MORAVA numa cidadezinha em West Virgnia, no outro lado do rio 
Potomac. Depois da separao, os dois filhos tinham ficado com sua mulher durante 
algum tempo, e agora estavam com ele, ou melhor, com os pais dele, que moravam na 
mesma rua. Seus dois filhos eram pequenos.
Tom levantou s quatro horas da manh e tomou s uma xcara de caf. No seu carro, 
noite ainda, atravessou a ponte sobre o Potomac, depois o Antietam Battlefield, uma 
faixa larga de milharais e outras plantaes, com monumentos de pedra em memria 
dos mortos. Entrou pelo porto principal de Fort Detrick, estacionou, passou pela mesa 
do segurana e foi para a rea do seu microscpio.
O dia nasceu cinzento, tempestuoso e quente. Enquanto a luz cor de alumnio antigo 
entrava pelas janelas do instituto, Tom cortou fatias do fgado do macaco com sua 
lmina de diamante e as levou ao microscpio. Alguns minutos depois, tirou fotografias 
das partculas do vrus crescendo nas clulas do fgado do macaco 053. O fgado do 
animal estava cheio de cobras. Aquelas fotos eram a prova de que o vrus estava se 
multiplicando nos macacos de Reston  que no se tratava de contaminao de 
laboratrio. Encontrou tambm corpos de incluso no interior das clulas. O fgado 
estava sendo transformado em tijolos de cristais.
Tom levou as novas fotografias ao escritrio de Peter Jahrling. Ento, eles procuraram o 
coronel C.J. Peters. O coronel olhou para as fotografias. Tudo bem  estava 
convencido. O agente Marburg estava crescendo naqueles macacos. Agora, precisavam 
esperar o resultado dos testes de Jahrling para a confirmao final de que era realmente 
o Marburg.
Jahrling queria isolar aquele Marburg o mais depressa possvel. Passou grande parte do 
dia com o traje espacial, trabalhando no laboratrio quente, caprichando em seus testes. 
No meio do dia resolveu telefonar para Dan Dalgard. No podia esperar mais, mesmo 
sem os resultados dos testes. Queria avisar Dalgard do perigo, mas com todo o cuidado 
para no provocar pnico na casa dos macacos.
 Voc definitivamente tem a FHS na casa dos macacos
 ele disse.  Ns confirmamos isso. Entretanto, h tambm a possibilidade de um 
segundo agente pelo menos em alguns animais.
 Qual agente? Pode me dizer qual  o agente?  perguntou Dalgard.
 No quero identificar o agente no momento  disse Jahrling  para no provocar 
pnico. Mas h um potencial de riscos srios  sade pblica associados a ele. Na 
verdade, estamos estudando esse agente especial.
O fato de Jahrling usar as palavras "pnico" e "especial" fez Dalgard pensar em 
Marburg. Era um vrus capaz de provocar facilmente o pnico.
  o Marburg ou algum agente similar?  perguntou Dalgard.
 Sim, alguma coisa desse gnero  respondeu Jahrling.
 Teremos a confirmao mais tarde, hoje. Estou trabalhando nos testes agora. 
Acredito que  pouco provvel que os testes sejam positivos para este segundo agente. 
Mas voc deve tomar precaues e no fazer nenhuma autpsia nos animais, antes de 
sabermos o resultado. No quero disparar nenhum alarme, mas tambm no quero que 
voc e seus empregados entrem naquela sala desnecessariamente.
 Quando pode me dar um sim ou no definitivo sobre esse segundo agente? 
Precisamos saber o mais depressa possvel.
 Telefono hoje mesmo, mais tarde, eu prometo. Dalgard desligou o telefone, 
extremamente perturbado,
mas manteve sua calma habitual. Um segundo agente e estava parecendo Marburg. As 
pessoas que tinham morrido na Alemanha, ele sabia, tinham manejado carne sangrenta 
de macaco. A carne estava cheia de vrus e, alm de sujar as mos de sangue, eles 
tinham passado os dedos nos olhos. Ele e outras
172
pessoas da companhia estavam autopsiando macacos doentes desde outubro  e 
ningum tinha ficado doente. Todos usavam luvas de borracha. Dalgard no temia por 
ele mesmo  sentia-se muito bem  mas comeou a se preocupar com os outros. 
Pensou, mesmo que seja o Marburg, a situao continua a mesma. Estamos ainda numa 
enrascada. A questo  como sair dela. Telefonou para Bill Volt e deu ordem para no 
autopsiar mais nenhum macaco. Ento esperou no seu escritrio, ficando mais 
preocupado  medida que as horas passavam e Jahrling no telefonava. Considerou a 
possibilidade de alguns dos seus homens terem cortado a mo com o bisturi quando 
dissecavam um dos macacos doentes. O mais provvel era que no informassem 
qualquer incidente desse tipo. Dalgard sabia que no tinha se cortado. Mas havia 
realizado um sacrifcio em massa de aproximadamente cinqenta animais. H quanto 
tempo foi isso? A essa altura deveria apresentar alguns sintomas. Sangramento nasal, 
febre, alguma coisa no gnero.
s cinco e meia ele telefonou para o escritrio de Jahrling e um soldado atendeu.
 Posso ajudar, senhor ou senhora? Desculpe, senhor, o Dr. Jahrling no est no 
escritrio. No, senhor, no sei onde ele est. No, ele no saiu do instituto. Quer deixar 
algum recado, senhor?
Dalgard pediu para Jahrling telefonar para sua casa. Estava ficando cada vez mais 
preocupado.
15 HORAS
JAHRLING ESTAVA no seu traje espacial. Trabalhou a tarde toda no laboratrio, na 
zona quente AA-4, no centro do prdio, com diversos frascos de culturas de vrus da 
casa dos macacos. Era um trabalho lento e irritante. Seus testes consistiam em tentar 
fazer as amostras brilharem sob a luz ultravioleta. Se conseguisse, ento tratava-se 
realmente do vrus.
Para isso, precisava usar soro sangneo de vtimas humanas. O soro reage aos vrus. 
Apanhou no freezer tubos de soros sangneos de trs pessoas. Duas delas tinham 
morrido, a terceira sobreviveu.
"1. Musoke. Um teste para Marburg. Do Dr. Shem Mu-soke, sobrevivente. 
(Provavelmente reativo contra a variedade caverna Kitum que comeou com Charles 
Monet e saltou para o olho do Dr. Musoke atravs do vmito negro.)
2. Boniface. Um teste para o Ebola Sudo. De um homem chamado Boniface que 
morreu no Sudo.
3. Mayinga. Um teste para Ebola Zaire. Da enfermeira Mayinga."
O teste era delicado e levou horas para ser feito, enquanto ele se movia pesadamente no 
seu traje espacial. Primeiro ps gotculas de clulas da cultura do macaco em lminas de 
vidro, deixou secar e as tratou com substncias qumicas. Depois, pingou algumas gotas 
do composto nas lminas. Deviam brilhar na presena do vrus alvo.
Estava na hora de examinar. O exame tinha de ser feito no escuro porque o brilho era 
muito fraco. Jahrling foi at um closet, entrou e fechou a porta. Havia uma mesa com 
um microscpio e um tubo de ar pendia da parede. Ele ligou o tubo no traje espacial e 
ps as lminas do microscpio. Ento apagou a luz. No escuro, procurou a cadeira e 
sentou. Aquele no era um lugar para quem tivesse um mnimo de claustrofobia  um 
closet completamente escuro, no nvel 4, dentro de um traje espacial. Peter Jahrling 
havia feito as pazes com asfixia e escuro h muito tempo. Esperou um minuto at que 
seus olhos se adaptassem, at no ver mais as pequenas centelhas de luz da sua viso, 
enquanto o ar frio rugia em volta do seu rosto, erguendo seu cabelo no alto da testa. 
Ento encostou os olhos no binculo do microscpio. Ele usava culos dentro do 
capacete, o que dificultava bastante a viso. Apertou a placa transparente contra o nariz 
e entrecerrou os olhos, movendo o rosto de um lado para o outro. O nariz deixou uma 
mancha de leo na placa transparente. Jahrling girou o capacete at ficar quase 
completamente de lado. Finalmente conseguiu enxergar direito.
Focalizou os olhos, juntando os crculos que se moviam no seu campo de viso. Viu 
clulas circundadas por uma luminosidade muito fraca. Era como voar  noite, sobre 
regies pouco populosas. A luminosidade fraca era normal. Ele estava procurando um 
brilho mais forte. Procurava uma cidade. Examinou a lente de um lado ao outro vrias 
vezes, movendo-se no mundo do microscpio, em busca de um brilho esverdeado 
revelador.
O Musoke no brilhou.
O Boniface brilhou fracamente.
Para seu horror, o Mayinga brilhou intensamente.
Jahrling afastou a cabea do microscpio com um gesto brusco. Endireitou o capacete e 
olhou outra vez. O Mayinga continuava a brilhar. O sangue da mulher morta estava 
reagindo ao vrus da casa dos macacos. Sentiu uma coisa estranha na boca do estmago. 
Aqueles macacos no tinham o Mar-burg. Tinham o Ebola. Aqueles animais estavam 
morrendo com o Ebola Zaire. Seu estmago se apertou e deu um salto e Jahrling ficou 
imvel no closet escuro, ouvindo s o som do ar e do corao disparado.
A cadeia de comando
16 HORAS, TERA-FEIRA
NO PODIA SER. No podia ser o Ebola Zaire. Algum havia trocado as amostras, por 
acidente, pensou Jahrling. Olhou outra vez. Sim, o Mayinga definitivamente estava 
brilhando. Isso significava que ele e Tom podiam estar infectados com o Ebola Zaire, 
que mata nove entre dez das suas vtimas. Resolveu que havia cometido um erro nas 
suas experincias. Devia ter trocado alguma coisa, misturado alguma coisa.
Decidiu repetir o teste. Acendeu as luzes do closet e voltou para o laboratrio, dessa vez 
prestando muita ateno nos frascos e tubos, garrafas e lminas, para ter certeza de fazer 
a coisa certa. Levou as novas amostras para o closet, apagou a luz e olhou no 
microscpio.
Mais uma vez a amostra do Mayinga brilhou.
Ento, talvez fosse mesmo o Ebola Zaire, ou alguma coisa muito parecida com ele  o 
sangue da mulher morta "reconhecia esse vrus e reagia a ele. Ainda bem que no  o 
Marburg  ora, veja s, no  o Marburg. Isto  a fera do Zaire, ou talvez seu irmo 
gmeo. O Ebola nunca havia sado da frica. O que estava fazendo perto de 
Washington? Como, diabo, veio parar aqui? O que ele ia fazer? Jahrling pensou, estou 
em alguma coisa realmente quente.
Estava com o traje espacial, mas no queria perder tempo passando pela 
descontaminao. Havia um telefone de emergncia na parede do laboratrio. Desligou 
o tubo de ar, para fazer parar o barulho e ligou para o escritrio de C.J.
 C.J.  gritou dentro do capacete.   PETE JAHRLING.  REAL E  EBOLA.
 No!  exclamou C.J.
 ISSO MESMO.
 Ebola! Tem de ser uma contaminao.
 NO, NO  CONTAMINAO.
  possvel que voc tenha confundido as amostras?
 MEU PRIMEIRO PENSAMENTO FOI QUE ALGUM TIVESSE TROCADO AS 
AMOSTRAS. MAS NO ACONTECEU NADA DISSO, C.J., PORQUE Eu fiz o teste 
duas vezes.
 Duas vezes?
 EBOLA ZAIRE NAS DUAS VEZES, TENHO OS RESULTADOS AQUI 
COMIGO. POSSO PASSAR PARA VOC. VEJA VOC MESMO.
 Estou indo  disse C.J. Desligou o telefone e desceu correndo a escada para o 
laboratrio quente de Jahrling.
Enquanto isso, Jahrling apanhou uma folha de papel  prova d'gua onde tinha escrito os 
resultados dos seus testes e mergulhou num tanque cheio de EnviroChem. O tanque 
atravessava a parede passando para um corredor nvel zero, fora da zona quente e 
funcionava com o mesmo princpio de uma gaveta corredia no guich de um caixa de 
banco. Era possvel passar objetos da zona quente atravs do tanque, para o mundo 
normal. O objeto era desinfectado no caminho.
C. J., no outro lado da janela de vidro espesso, olhou para Jahrling. Esperaram vrios 
minutos, para que os desinfetantes penetrassem no papel esterilizando-o e ento C.J. 
abriu o tanque e tirou o papel pingando com o composto qumico. Com um gesto disse 
para Jahrling, volte para o telefone.
Jahrling voltou com seu andar pesado para o telefone de emergncia e esperou. Quando 
tocou ele atendeu e C.J. disse:
 Saia da e vamos ver o comandante!
Estava na hora de levar as coisas para o alto da cadeia de comando.
Jahrling fez a descontaminao, vestiu-se, correu para o escritrio de C.J. Peters e os 
dois foram para o escritrio do comandante do USAMRIID, o coronel David Huxsoll. 
Passaram rapidamente pela secretria  dizendo que era uma emergncia  e os trs 
se sentaram  mesa de conferncia do coronel.
 Oua isto  disse C.J.  Parece que encontramos um filovrus num bando de 
macacos perto de Washington. Temos uma amostra que parece ser o Ebola.
O coronel David Huxsoll era perito em biorrisco e achava que o instituto estava 
preparado para esse tipo de situao. Telefonou imediatamente para o major-general 
Philip K. Rus-sell, mdico, comandante         do Comando de Pesquisa Mdica e 
Desenvolvimento do Exrcito dos Estados Unidos, com autoridade sobre o USAMRIID 
e marcou encontro no escritrio do general.
Huxsoll e C.J. conversaram por alguns momentos para resolver quem deviam informar. 
Escolheram a tenente-coronel Nancy Jaax, chefe de patologia do instituto. Ela podia 
identificar os indcios de Ebola num macaco. Huxsoll apanhou o telefone.
 Nancy, aqui  Dave Huxsoll. Pode vir imediatamente ao escritrio de Phil Russell?  
muito importante.
A base comeava a silenciar na noite escura de novembro. Era um ocaso sem sol e o dia 
apenas morria atrs das nuvens que vinham das montanhas Catoctin. O pr-do-sol  a 
hora de arriar a bandeira. Jaax encontrou Jahrling e os outros dois coronis a caminho 
do campo de manobras, ao lado do instituto. Os soldados marcharam at o mastro da 
bandeira hasteada. O grupo do pessoal do instituto parou tambm. Do alto-falante veio o 
rugido de um canho e depois a corneta, estalando e vibrando estridente no ar, tocou 
"Recolher". Os soldados arriaram a bandeira, enquanto os oficiais em posio de sentido 
faziam continncia. C.J. Peters sentiu um misto de embarao e estranha comoo. 
Terminou a msica, os soldados dobraram a bandeira e o pessoal do instituto continuou 
seu caminho.
O escritrio do general Russell ocupava um canto de um alojamento longo do tempo da 
Segunda Guerra Mundial, recentemente caiado de branco para parecer novo. Da janela 
avistavam-se os suportes inferiores da torre de gua do Fort Detrick. 
Conseqentemente, o general nunca abria as cortinas. Sentaram-se no sof e nas 
cadeiras e o general atrs da sua mesa. Ele era mdico e havia caado vrus no sudoeste 
da sia. Estava com quase sessenta anos e era um homem alto, com o cabelo rareando 
no alto da cabea e grisalho nas tmporas, rugas no rosto, queixo longo, olhos azul-
claros intensos e uma voz sonora e profunda.
C.J. entregou ao general a pasta com as fotografias da forma de vida da casa dos 
macacos.
O general Russell arregalou os olhos.
 Minha nossa  disse ele. Respirou fundo.  Homem, isto  um filovrus. Quem, 
diabos, tirou esta foto?  Passou para a seguinte.
 Foram tiradas por meu microscopista, Tom Geisbert
 disse Jahrling.  Pode ser o Ebola. Os testes deram positivos para o Ebola Zaire.
C. J. fez um resumo da situao, falando sobre os macacos em Reston e terminando 
com estas palavras:
 Eu diria que temos um fator muito srio nos vrus desses macacos.
 Muito bem, at que ponto pode garantir que  o Ebola?  perguntou o general 
Russell.  Estou achando que pode ser o Marburg.
Jahrling explicou por que no achava que era Marburg. Fez o teste duas vezes, disse, e 
nas duas a amostra provou ser positiva para o Ebola Zaire. Cautelosamente fez questo 
de dizer que o teste puro e simples no provava que o vrus era o Ebola Zaire. Mostrava 
apenas que era relacionado muito de perto com o Ebola Zaire. Podia ser o Ebola ou 
outra coisa  algo novo e diferente.
 Se for do mesmo tipo do Ebola  disse C. J.  temos motivo para grande 
preocupao e alarme.
Russell concordou que deviam ficar preocupados.  Temos uma emergncia nacional 
nas mos  disse ele.
  uma ameaa infecciosa de enormes conseqncias.  Observou que esse tipo de 
vrus jamais fora visto nos Estados Unidos e agora estava bem ali, perto de Washington. 
 Que diabo vamos fazer?  Ento perguntou se havia provas de que o vrus podia se 
disseminar atravs do ar. Era uma questo crucial.
Havia evidncia, terrvel, mas incompleta, de que o Ebola podia ser transmitido pelo ar. 
Nancy Jaax descreveu o incidente em que seus dois macacos saudveis morreram, 
supostamente vitimados pelo Ebola transmitido atravs do ar, nas semanas que se 
seguiram ao seu incidente com a luva, em 1983. Havia outras provas que ela descreveu 
tambm. Em 1986, ela e Gene Johnson haviam infectado macacos com o Ebola e o 
Marburg, fazendo-os respirar os vrus. Todos os macacos expostos aos vrus por via 
area morreram, exceto um que conseguiu sobreviver ao Marburg. Portanto, o vrus 
podia infectar os pulmes por contato direto. Alm disso, a dose letal era extremamente 
pequena, uma mdia de quinhentas partculas infecciosas de vrus. Uma pequena 
quantidade de Ebola areo podia arrasar um prdio cheio de gente se penetrasse no 
sistema de ar condicionado. Era como o plutnio. Ou melhor, podia ser pior do que 
plutnio porque podia se multiplicar.
 Sabemos que  transmitido atravs do ar  disse C. J.  Mas no sabemos como  
infeccioso.
Russell perguntou a Jaax:
 J foi publicado? Voc publicou?
 No, senhor  disse ela.
O coronel olhou severamente para ela e Nancy podia ler o pensamento dele.
 Muito bem, Jaax, por que diabos no foi publicado? Havia vrias razes, mas Nancy 
no estava disposta a
explic-las naquele momento. Acreditava que Gene Johnson, seu colaborador, tinha 
dificuldade para escrever artigos cientficos. Ora, muito bem, que no tinham ainda 
pensado em publicar, isso era tudo. Acontece. As pessoas s vezes no chegam a 
publicar trabalhos cientficos.
Ouvindo a discusso, Peter Jahrling achou melhor no dizer ao coronel que ele podia ter 
respirado um pouco do vrus. Na verdade, ele no tinha respirado mas apenas cheirado. 
Abanou a mo sobre o frasco para levar o cheiro ao nariz. No havia inalado. No tinha 
enfiado o frasco no nariz e respirado fundo, nada disso. Mas tinha a sensao de saber o 
que o general faria se soubesse  o general ia detonar uma reao em cadeia de 
profanidades que o ergueria do cho e o trancaria no Slammer.
Havia tambm a possibilidade assustadora de o vrus prximo de Washington no ser o 
Ebola Zaire. Isto , outra coisa qualquer. Outra variedade quente da floresta tropical. 
Um recm-chegado desconhecido. Quem podia saber como ele se movia ou o que podia 
fazer com os humanos? O general Russell comeou a pensar em voz alta.
 Podemos estar  beira de um evento infernal  disse ele.  Dado o fato de termos 
um agente com potencial para provocar uma doena grave nos seres humanos e dado o 
fato de estar aparentemente descontrolado na casa dos macacos, o que devemos fazer? 
Precisamos fazer a coisa certa e precisamos fazer depressa. Qual a periculosidade deste 
monstro? As pessoas vo morrer?  Voltou-se para o coronel C.J. Peters.  Ento, 
quais so as nossas opes?
C.J. j havia pensado no assunto. Existem trs modos de eliminar um vrus  vacinas, 
medicamentos ou bioconteno. Mas havia s um meio para conter o Ebola. No existia 
vacina. No existia nenhum medicamento. Sobrava apenas o isolamento.
Mas como conseguir esse isolamento biolgico? Era complicado. At onde C.J. podia 
ver, tinham s duas opes. A primeira, lacrar a colnia de macacos e ver os animais 
morrerem  e vigiar de perto as pessoas que tiveram contato com eles, e possivelmente 
isol-las tambm. A segunda opo era esterilizar o prdio todo. Matar os macacos  
com injees letais  queimar os corpos e encher o prdio todo com desinfetantes 
qumicos, lquidos e gasosos  uma vasta operao de biorrisco.
O general Russell ouviu e depois disse:
 Ento, a primeira opo  isolar os macacos do resto do mundo e deixar que o vrus 
siga seu curso neles. E a segunda  acabar com eles. No h nenhuma outra.
Todos concordaram.
Nancy Jaax pensava. O vrus pode estar na casa dos macacos agora, mas no vai ficar l 
por muito tempo. Nunca vi um macaco sobreviver ao Ebola. E o Ebola era uma espcie 
saltadora. Todos os macacos iam morrer e de modo quase inimaginvel. Poucas pessoas 
no mundo tinham visto o que o Ebola faz num primata, mas ela sabia exatamente o que 
ele podia fazer. No tinha idia de como o vrus poderia ser contido, a no ser que a 
casa dos macacos fosse preparada para a quarentena com um suprimento independente 
de ar filtrado. Ela disse:
 Seria contra a tica deixar os animais vivos por um longo tempo, at morrerem com 
o vrus. E durante esse tempo, como garantir a segurana das pessoas? Eu vi animais 
morrerem com o Ebola e no  nada engraado  so animais muito, muito doentes.
Disse que queria ver os animais na casa dos macacos.
 As leses podem no ser constatadas quando no se sabe exatamente o que procurar 
 disse ela , mas para quem sabe, so evidentes como o nariz no meio do rosto.
Ela queria tambm examinar pedaos de tecidos no microscpio. Queria verificar a 
existncia de cristalides, ou "corpos de incluso". Tijolos. Ela sabia como eram. Se 
pudesse encontrar tijolos na carne do macaco, seria a confirmao definitiva de que os 
animais estavam quentes.
Havia tambm o importante aspecto poltico. O Exrcito devia envolver-se? O Exrcito 
tinha uma misso que consistia em defender o pas contra ameaas militares. Esses vrus 
eram uma ameaa militar? O consenso dos presentes era o seguinte: Ameaa militar ou 
no, se vamos deter esse agente, temos de usar contra ele tudo que temos.
Isso ia criar um pequeno problema poltico. Na verdade, criaria um grande problema 
poltico, relacionado aos Centers of Disease Control em Atlanta, Gergia. Os CDC so 
a agncia federal encarregada de doenas emergentes. Tm um mandato do Congresso 
para controlar as doenas humanas. O Exrcito no tem exatamente um mandato para 
lutar contra vrus no solo americano. Contudo tem a capacidade e o conhecimento para 
fazer isso. Todos na sala sabiam que haveria um confronto com os CDC se o Exrcito 
resolvesse interferir na casa dos macacos. Muita gente nos CDC ficaria furiosa, 
ciumenta do seu territrio.
 O Exrcito no tem responsabilidade legal para se encarregar desta situao  
observou o general Russell.  Mas tem a capacidade. Os CDC no tm capacidade. 
Temos o msculo mas no a autoridade. Os CDC tm autoridade, mas no o msculo. E 
vai ser uma competio infernal.
Na opinio do general Russell, era um trabalho para soldados operando sob uma cadeia 
de comando. Iam precisar de pessoas treinadas no trabalho de biorrisco. Deviam ser 
jovens, sem famlia, decididos a arriscar suas vidas. Precisavam conhecer uns aos outros 
e trabalhar em equipes. Precisavam estar prontas para morrer.
Na verdade, o Exrcito jamais havia desfechado uma operao de campo contra um 
vrus quente. Tudo precisaria ser organizado.
Evidentemente, havia questes legais. Advogados teriam de ser consultados. Seria 
legal? O Exrcito podia simplesmente organizar uma SWAT de biorrisco e entrar na 
casa dos macacos? O general Russell temia que os advogados do Exrcito dissessem 
que no podia e que no devia ser feito, por isso respondeu s dvidas legais com estas 
palavras:
 Uma poltica de agir e pedir perdo depois  muito melhor do que pedir permisso 
que pode ser negada. Nunca se pede permisso para coisa alguma a um advogado. 
Vamos fazer o que  preciso e os advogados vo nos dizer por que  legal.
A essa altura estavam todos gritando e interrompendo uns aos outros. O general Russell, 
sempre pensando alto, trovejou:
 Portanto a questo seguinte  quem, diabo, vai pagar?  Antes que algum tivesse 
tempo de responder, ele disse:  Eu arranjo o dinheiro. Vou arrancar de algum.
Mais gritaria na sala.
A voz do general ergueu-se acima do vozerio.
 Estamos nos metendo num negcio muito grande, portanto, no vamos estragar tudo, 
pessoal  disse ele.  Vamos escrever o plano certo e depois executar.  No Exrcito 
um trabalho importante  chamado misso, uma misso  sempre executada por uma 
equipe e cada equipe tem um lder.  Temos de resolver quem vai chefiar esta 
operao  continuou o general.  C.J. Peters  o lder aqui. Ele ser o encarregado da 
operao.  o lder da equipe. Certo? Todo mundo concorda? C.J., precisamos  de uma 
reunio  disse o general.  Amanh teremos uma reunio. Precisamos convocar 
todos.
Olhou para o relgio na parede. Eram 17:30, a hora do rush. As pessoas estavam indo 
para casa e macacos estavam morrendo em Reston e o vrus estava em movimento. 
Podia estar se disseminando enquanto eles falavam.
 Temos de mobilizar a cadeia de comando  disse o general.  Informar a todos 
simultaneamente, o mais depressa possvel. Quero comear com Fred Murphy dos 
CDC. No quero que ele seja prejudicado por isso.
Fred Murphy era um dos descobridores originais do vrus Ebola, o mgico com um 
microscpio eletrnico que havia fotografado pela primeira vez o vrus e cujo trabalho 
fora exposto em museus de arte. Era funcionrio dos CDC e um velho amigo do general 
Russell, diretor do Centro Nacional para Molstias Infecciosas.
Russell ps a mo sobre o telefone na sua mesa e olhou em volta.
 Pela ltima vez, vocs tm o que pensam que tm? Porque vou dar este telefonema. 
Se vocs no tiverem um filovrus, vamos parecer uns cretinos.
Um a um, todos disseram que estavam convencidos de que era um vrus filamentoso.
 Tudo bem. Ento estou certo que  o que temos. Ligou para Murphy, em Atlanta.
 Desculpe, o Dr. Murphy j foi para casa.
O coronel apanhou seu livro negro, encontrou o telefone da casa de Murphy e ligou. 
Murphy estava na cozinha, conversando com a mulher.
 Fred, Phil Russell. Muito bem, e voc? Fred, isolamos um agente parecido com o 
Ebola perto de Washington. Isso mesmo. Perto de Washington.
Com um largo sorriso, Russell afastou o telefone do ouvido e olhou em volta. 
Evidentemente Murphy estava reagindo ruidosamente. O general Russell disse:
 No, Fred, no estamos fumando nenhuma droga. Temos um vrus igual ao Ebola. 
Ns o vimos. Sim, sim, temos fotografias.  Uma pausa, ele cobriu o bocal com a mo 
e disse para a sala.  Ele disse que acha que temos um crud no nosso microscpio.
Murphy queria saber quem tirara as fotos.
 Um garoto daqui. Um menino chamado  como  o nome dele?  Geisbert.
Murphy disse que ia tomar um avio para Fort Detrick na manh seguinte para ver as 
fotos e estudar a evidncia. Levou o caso muito a srio.
18:30 HORAS, TERA-FEIRA
DAN DALGARD TINHA de ser avisado e precisavam notificar tambm as autoridades 
do departamento de sade da Virgnia.  Eu nem sei ao certo quem so essas 
autoridades  disse Russell.  E temos de falar com essas pessoas agora mesmo, pelo 
telefone  Era hora de todos deixarem o trabalho.  Temos de telefonar para as casas 
deles. Vai ser um bocado de telefonemas.
A que administrao pertencia aquela casa dos macacos? Fairfax, Virgnia  lindo 
lugar, lagos, campos de golfe, belas casas, boas escolas e Ebola.
 Temos de telefonar para o departamento de sade do lugar  disse o general.
Alm disso precisavam falar com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, 
que tinha controle sobre macacos importados. A Agncia de Proteo do Meio 
Ambiente, que tinha jurisdio em casos de contaminao ambiental por um biorrisco 
extremo. O general Russell resolveu telefonar tambm para um assistente do secretrio 
da Defesa, s para notificar o Pentgono.
Todos saram da sala e se separaram nos corredores, dirigindo-se a seus escritrios, para 
dar os telefonemas. C.J. Peters, agora lder da equipe, entrou em outro escritrio, no fim 
do corredor e telefonou para Dan Dalgard, com Peter Jahr-ling ouvindo na extenso. 
Dalgard j fora para casa. Telefonaram para a casa dele e a mulher atendeu, dizendo que 
Dan ainda no tinha chegado. Mais ou menos s seis e meia tornaram a ligar e dessa vez 
ele atendeu.
 Aqui  o coronel C.J. Peters do USAMRIID. Eu sou o chefe da diviso de avaliao 
de doenas. Como vai?... Bem, estou telefonando para informar que o segundo agente 
aparentemente no  o Marburg. O segundo agente  um vrus Ebola.
 O que  um Ebola?  perguntou Dalgard. Nunca ouvira falar em Ebola. A palavra 
no significava nada para ele.
Com sua mais suave voz texana, C.J. disse:
  uma doena viral bastante rara, responsvel por mortes de vrias pessoas em surtos 
no Zaire e no Sudo nos ltimos dez ou doze anos.
Dalgard comeava a ficar aliviado  ainda bem que no  o Marburg.
 Qual  a natureza do vrus Ebola?  perguntou. C.J. descreveu o vrus com termos 
vagos.
  parente do Marburg. Transmite-se do mesmo modo, atravs do contato com tecido 
infectado e do sangue, e os sinais e sintomas so muito parecidos.
 Qual a gravidade?
 O ndice de casos fatais  de 50 a 90 por cento.
Dalgard compreendeu exatamente o que ele queria dizer. O vrus era pior do que o 
Marburg. C.J. continuou:
 Com a informao que temos, vamos notificar os departamentos de sade do estado 
e do pas.
Dalgard disse, cautelosamente:
 Ser que podiam, bem, por favor, esperar at as sete horas para que eu informe a 
sede da companhia sobre os acontecimentos?
C.J. concordou em esperar antes de puxar o gatilho, embora, na verdade, o general 
Russell j tivesse telefonado para os CDC. Agora, C.J. queria pedir um favor a Dalgard. 
Ser que ele poderia enviar algum a Reston, no dia seguinte, para examinar algumas 
amostras dos macacos mortos?
Dalgard resistiu, prevendo o que podia acontecer. Ele tinha mandado um pouco de 
sangue e tecido para o Exrcito, pedindo um diagnstico  e vejam o que estava 
acontecendo. A coisa podia ficar fora de controle. Percebeu que C.J. no estava dizendo 
tudo que sabia sobre o vrus chamado Ebola. Temia perder o controle da situao 
completamente, se deixasse o Exrcito pr os ps por sua porta adentro.
 Por que no resolvemos isso por telefone amanh cedo?  perguntou.
Terminado o telefonema, C.J. Peters procurou Nancy Jaax e perguntou se ela podia ir 
com ele para conhecerem Dalgard e examinarem algum tecido dos macacos. Estava 
certo de que Dalgard ia dar permisso. Nancy concordou em acompanh-lo.
NANCY JAAX ATRAVESSOU O campo de manobras, de volta para o instituto e 
encontrou Jerry no seu escritrio. Jerry ergueu para ela os olhos tristonhos. Estava 
olhando pela janela e pensando no irmo. Estava escuro, no se via nada l fora a no 
ser uma das paredes brancas do instituto. Jerry estava destruindo com os dentes um 
elstico redondo.
Ela fechou a porta.
 Tenho uma coisa para voc.  confidencial. Muito secreto. Uma informao muito 
importante. Voc no vai acreiditar. H vrus Ebola numa colnia de macacos na 
Virgnia.
Voltaram para casa no Honda falando sobre o vrus, seguindo para o norte, na estrada 
que ia para Thurmont, acompanhando o sop da montanha Catoctin.
 Isso est me matando. Nunca vou me livrar deste vrus  ela disse.
Parecia claro que os dois estariam envolvidos no plano do Exrcito. No sabiam ainda 
qual seria a ao, mas certamente aqueles macacos estavam morrendo com um agente 
quente igual ao Ebola e o vrus podia saltar para a populao humana, se nada fosse 
feito para det-lo. Ela disse a Jerry que no dia seguinte provavelmente iria at a casa dos 
macacos com C.J. para examinar tecidos  procura de vestgios do Ebola.
Jerry ficou surpreso. Vejam onde ela chegou no trabalho com o Ebola no seu traje 
espacial. Estava impressionado com a importncia da mulher e atnito com a situao. 
Se ficou preocupado com ela, no demonstrou.
Depois de uma leve subida, entraram na estrada ao lado da montanha, passaram por 
plantaes de ma e chegaram a casa. Eram oito horas e Jason j tinha chegado, Jaime 
estava na aula de ginstica. Agora, com 13 e 12 anos, os filhos tinham a chave da casa.
Jason estava fazendo o dever, depois de preparar no microondas s Deus sabia o qu. 
Seu filho era o tipo de "partida automtica", um pouco solitrio e muito auto-suficiente. 
Tudo que precisava era de comida e dinheiro, e ele funcionava.
Os dois coronis trocaram os uniformes por trainings e Nancy ps um pouco de sopa no 
microondas para descongelar. Quando estava quente, ps numa garrafa trmica. Com o 
cachorro e a garrafa no carro, foi para a aula de ginstica de Jaime. A academia ficava a 
meia hora de carro de Thurmont. Nancy apanhou Jaime e a menina tomou a sopa quente 
no carro. Jaime era uma menina de porte atltico, pequena, cabelos escuros, s vezes 
inclinada a se preocupar muito com as coisas  e estava tensa e exausta depois do 
treino. Tomou a sopa e adormeceu no banco traseiro, de volta para casa.
Os coronis Jaax tinham uma cama d'gua onde passavam grande parte do tempo. Jaime 
vestiu o pijama, enrodilhou-se na cama d'gua ao lado de Nancy e voltou a dormir.
Nancy e Jerry leram por algum tempo. As paredes do quarto eram forradas com papel 
vermelho e havia um terrao de onde se avistava a cidade. Falaram sobre a casa dos 
macacos e depois Nancy levou Jaime para a cama dela. Mais ou menos  meia-noite 
Nancy adormeceu.
Jerry continuou a ler. Gostava de ler histria militar. Alguns dos combates mais brutais 
da histria tinham ocorrido no campo ondulante em volta da montanha Catoctin, no 
milharal em Antietam, onde cada p de milho fora destrudo pelas balas e os corpos 
eram tantos que uma pessoa podia andar sobre eles de uma extremidade  outra sem pr 
os ps no cho. Jerry podia olhar pela janela do quarto e imaginar os exrcitos azul e 
cinzento arrastando-se no campo. Naquela noite (como ele lembrou mais tarde) estava 
lendo Os anjos assassinos, um romance de Michael Shaara sobre a batalha de 
Gettysburgh.
"Ento, Lee disse em voz lenta: A profisso de soldado tem uma grande armadilha. 
Longstreet virou a cabea para ver o rosto dele. Lee cavalgava devagar na frente, com o 
rosto inexpressivo. Disse com aquela mesma voz lenta: Para ser um bom soldado  
preciso amar o Exrcito. Mas para ser um bom oficial  preciso estar disposto a ordenar 
a morte daquilo que se ama. Isto ... uma coisa muito difcil. Nenhuma outra profisso 
exige isso. Essa  uma das razes pelas quais so to poucos os bons oficiais. Embora 
haja muitos bons soldados."
Jerry apagou a luz, mas no conseguiu dormir. Rolou para o lado e a cama d'gua 
gorgolejou. Cada vez que fechava os olhos, pensava em John, seu irmo. s duas horas 
da manh estava ainda acordado, pensando, "estou deitado aqui no escuro e nada est 
acontecendo".
Sacos de lixo
29 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA
NAQUELA NOITE DAN DALGARD dormiu tranqilamente como sempre. Nunca 
ouvira falar no vrus Ebola, mas a breve conversa com o coronel C. J. Peters havia dado 
a ele uma idia geral. H muito tempo ele lidava com macacos e suas doenas e no 
estava especialmente assustado. Muitos dias j haviam passado desde que fora exposto 
ao sangue infectado e no tinha nenhum sinal de doena.
O telefone tocou bem cedo na manh seguinte. Era o coronel C. J. Peters, perguntando 
outra vez se podia mandar algum da sua equipe para examinar algumas amostras de 
tecido dos macacos. Dalgard disse que estava bem. Peters ento repetiu o pedido para 
ver a casa dos macacos. Dalgard desconversou e no respondeu. No conhecia Peters e 
no ia abrir a porta para ele antes de v-lo pessoalmente e formar sua opinio.
Seguiu pela Leesburg Pike, a caminho do trabalho, passou pelo porto, estacionou o 
carro e entrou no prdio principal da Hazleton Washington. Seu escritrio era um 
cubculo com uma parede de vidro que dava para o jardim. A porta dava para a sala das 
secretrias, onde no se podia andar sem colidir com algum. Dalgard no tinha 
privacidade em seu escritrio e geralmente passava muito tempo olhando pela janela. 
Nessa manh agiu com calma deliberada. Ningum no escritrio percebeu qualquer 
emoo incomum, qualquer sinal de medo.
Telefonou para Bill Volt, o encarregado da casa dos macacos. Volt tinha uma notcia 
alarmante. Um dos tratadores dos animais estava muito doente, podia estar morrendo, 
tivera um infarto durante a noite e fora para o hospital Loudon, no muito distante de 
Reston.
 No temos mais nenhuma informao  disse Volt  e ainda estamos tentando 
descobrir o que aconteceu. Ele est na UTI cardaca e ningum pode falar com ele.
Chamaremos esse homem de Jarvis Purdy. Era um dos quatro homens que trabalhavam 
na casa dos macacos.
Dalgard ficou extremamente preocupado e no podia descartar a possibilidade de o 
homem estar infectado com o Ebola. O infarto geralmente  provocado por um cogulo 
de sangue no msculo cardaco. Teria um cogulo se alojado no corao do homem? O 
Ebola podia provocar a formao de um cogulo? O sangue todo de Jarvis Purdy estaria 
coagulando? De repente Dalgard sentiu que estava perdendo o controle da situao.
Mandou Bill Volt suspender todas as atividades secundrias nas salas dos macacos. 
Mais tarde escreveu no seu dirio:
"Todas as operaes, exceto alimentao, observao e limpeza, deviam ser suspensas. 
Quem quer que entrasse nas salas devia usar proteo completa  traje Tyvek, 
respirador e luvas. Os animais mortos deviam ser postos em sacos duplos e levados para 
a geladeira."
Disse tambm a Volt que a mdia certamente ia saber da histria. Avisou que no queria 
que nenhum empregado sasse da casa dos macacos usando o traje protetor contra 
biorrisco. Se aparecessem nos jornais fotografias dos empregados de Hazleton com 
mscaras e trajes brancos protetores, o povo podia entrar em pnico.
Dalgard telefonou para o hospital e falou com o mdico de Purdy. O mdico disse que a 
condio dele era ainda perigosa mas estvel. Dalgard disse que, se houvesse qualquer 
aspecto atpico no infarto de Purdy, por favor entrasse em contato com o coronel C. J. 
Peters no Fort Detrick. Teve o cuidado de no mencionar a palavra Ebola.
MAIS TARDE, NAQUELA MANH, C. J. Peters, Nancy Jaax e Gene Thompson 
saram do Fort Detrick para Virgnia. Os oficiais estavam uniformizados, mas usaram 
dois carros civis para no atrair muita ateno. O trfego estava lento. Era um dia claro, 
frio e com vento. A relva nos lados da estrada estava molhada e verde, crescendo ainda, 
no tocada pela geada. Saram da Leesburg Pike e chegaram ao prdio dos escritrios da 
Hazleton. Dalgard os esperava no vestbulo e os conduziu a outro prdio, onde ficava o 
laboratrio. Um patologista havia preparado uma srie de lminas para Nancy examinar. 
As lminas continham fatias de fgado dos animais que tinham morrido na casa dos 
macacos.
Nancy sentou na frente do microscpio, ajustou as lentes e comeou a explorar o 
terreno. Passou com a lente de um lado para o outro e parou. O terreno era uma 
baguna. Alguma coisa tinha devastado aquelas clulas. Estavam destrudas e 
manchadas, como se o fgado tivesse sido alvo de um bombardeio arrasador. Ento ela 
viu bolhas escuras  as sombras que no deviam estar ali. Eram cristalides. E eram 
enormes.
Uma amplificao extrema.
 Oh, droga  disse ela, em voz baixa.
Os tijolos no pareciam cristais. Os tijolos do Ebola apresentam vrias formas diferentes 
 ferraduras, bolhas, salincias, at anis. Algumas das clulas consistiam em um 
nico tijolo  um tijolo enorme, um tijolo to gordo que a clula inteira estava inchada. 
Ela viu grupos de clulas repletas de tijolos. Viu bolses apodrecidos onde as clulas 
tinham explodido e morrido, formando um ponto liqefeito, cheio, de uma parede a 
outra, de tijolos.
Enquanto ela examinava as lminas, G.J. Peters e Gene Johnson levaram Dalgard para 
um canto e o interrogaram sobre o uso de agulhas na casa dos macacos. O vrus Ebola 
havia se disseminado no Zaire atravs de agulhas sujas. A companhia tinha aplicado 
injees nos macacos com agulhas sujas?
Dalgard no tinha certeza.
 A ordem  mudar de agulha depois de cada injeo  disse ele.  Se eles obedecem 
religiosamente eu no posso assegurar.
Nancy apanhou alguns pedaos de fgado e bao esterilizados, embebidos em blocos de 
cera e guardou num copo de isopor, a fim de lev-los para Fort Detrick. Eram amostras 
extremamente valiosas para ela e para o Exrcito. Porm, mais valiosa ainda seria uma 
amostra contendo o vrus vivo.
Peter perguntou outra vez a Dalgard se no podiam visitar a casa dos macacos.
 Bem, no vamos entrar l agora  respondeu Dalgard, deixando bem claro que 
aquela era uma propriedade privada.
 Ento, que tal algumas amostras dos macacos? Pode nos conseguir?
 Certamente  disse Dalgard.
Disse que deviam seguir pela Leesburg Pike na direo da casa dos macacos, parar num 
posto de gasolina Amoco e esperar.
 Uma pessoa vai levar algumas amostras. E pode responder a suas perguntas  
acrescentou.
 As amostras devem ser embrulhadas em plstico e postas em caixas, por medida de 
segurana  C. J. disse para Dalgard.  Quero que voc faa isso.
Dalgard concordou em envolver as amostras em plstico.
Ento C.J., Nancy e Gene foram para o posto de gasolina onde estacionaram numa rua 
sem sada ao lado da estrada, perto de algumas cabines de telefones. Era tarde e estavam 
com fome  ainda no tinham almoado. Nancy foi at o posto e comprou Diet Cokes 
para os trs, um pacote de biscoitos de queijo para ela e bolachas de creme de 
amendoim para C.J. Os militares sentados nos dois carros, comendo comida pouco 
saudvel, com frio, esperaram que algum aparecesse com as amostras de macaco.
C.J. Peters observava o movimento do posto. Dava uma sensao de passagem da vida e 
do tempo e ele apreciava a normalidade agradvel da cena. Caminhoneiros paravam 
para uma Coca-Cola e leo diesel e homens e mulheres de negcios paravam para 
comprar cigarros. Ele notou uma mulher atraente que estacionou o carro e dirigiu-se 
para um dos telefones, onde falou longamente. Para matar o tempo, C.J. Peters 
imaginou que ela era uma dona-de-casa conversando com o namorado. O que aquela 
gente ia pensar se soubesse o que tinha invadido sua cidade? Ele comeava a pensar que 
o Exrcito precisava agir com deciso para apagar aquele fogo. C.J. estava na Bolvia 
quando houve o surto de um agente quente chamado Machupo e ele viu uma jovem 
enfermeira morrer coberta de sangue. A Amrica no vira ainda a emergncia de um 
agente que transformasse as pessoas em fontes de sangue.
A Amrica no estava preparada para isso, ainda no. Mas, pensando bem, as 
possibilidades de um surto enorme de Ebola em volta de Washington eram 
impressionantes.
Ele pensou na AIDS. O que teria acontecido se algum tivesse notado a AIDS quando 
ela comeou a se alastrar? Ela apareceu sem aviso, secretamente e quando finalmente 
foi notada era tarde demais. Se ao menos tivssemos uma estao apropriada para 
pesquisa, na frica central, nos anos 70... poderamos ter visto o vrus saindo da 
floresta. Se pelo menos ns o tivssemos visto... poderamos det-lo, ou ao menos 
diminuir sua marcha... podamos ter salvo pelo menos cem milhes de vidas. No 
mnimo. Porque a penetrao do vrus da AIDS na espcie humana estava ainda nos 
primeiros estgios e procedendo inexoravelmente. As pessoas no compreendiam que a 
AIDS estava apenas comeando. Ningum podia predizer quantas pessoas iam morrer 
de AIDS, mas ele acreditava que, no fim, o nmero de mortes poderia atingir centenas 
de milhes  e essa possibilidade no era ainda compreendida pelo pblico em geral. 
Por outro lado, suponhamos que a AIDS tivesse sido notada no comeo? Qualquer 
reviso "realista" do vrus da AIDS, quando comeou a aparecer na frica, 
provavelmente teria levado os especialistas e os funcionrios do governo a concluir que 
o vrus no tinha grande significado para a sade humana e que os fundos irrisrios 
destinados  doena eram excessivos  afinal, era s um vrus que havia infectado um 
punhado de gente no Zaire e tudo que fez foi suprimir o sistema imunolgico. E da? 
Ento o agente comeou uma amplificao tremenda por todo o planeta e estava ainda 
se expandindo para incendiar, sem nenhum sinal de que ia terminar algum dia.
Na verdade no sabemos ainda o que o Ebola pode fazer. No sabemos se o agente da 
casa dos macacos era de fato o Ebola Zaire ou outra coisa, alguma nova variedade do 
Ebola. Um agente capaz de ser transmitido por uma tosse? Provavelmente no, mas 
quem podia dizer? Quanto mais ele pensava no assunto mais perguntas se formavam em 
sua mente. Quem ia tirar aqueles macacos do prdio? Porque algum teria de entrar l e 
retir-los. No se pode simplesmente ir embora e deixar um prdio para se destruir 
sozinho. Este  um vrus humano letal. Quem vai pr os macacos dentro dos sacos? Os 
homens que trabalham para a companhia?
C.J. Peters comeava a se perguntar se o Exrcito devia ou no entrar com uma equipe 
militar, uma SWAT de biorrisco. O termo de gria que ele usava para isso era nuke. To 
nuke um lugar significava esterilizar, matar todas as formas de vida. Se os moradores 
so seres humanos, so retirados e levados para o Slammer. Se so animais, so mortos 
e cremados. Ento, inunda-se o local com compostos qumicos lquidos e em aerossol. 
Imaginava se o Exrcito teria de nuke a casa dos macacos.
No banco do passageiro, ao lado de C.J. Peters, Gene Johnson pensava na frica. 
Pensava na caverna Kitum.
Gene estava muito preocupado com a situao, para no dizer apavorado. Pensou, eu 
no sei como vamos sair desta sem que morra muita gente. Sua preocupao crescia a 
cada minuto. Os militares dos Estados Unidos, pensou ele, esto se metendo numa crise 
que j est em pleno auge e se alguma coisa sair errada e as pessoas morrerem, os 
militares levaro a culpa.
De repente, voltou-se para C.J. e disse:
 Parece inevitvel tirar todos os macacos do prdio. Um surto de nvel 4 no  
nenhum brinquedo. Quero avisar que vai ser um esforo enorme e detalhado. Vai ser 
muito complexo, demorado e temos de tomar todo cuidado para fazer tudo direito. Se 
vamos fazer direito, o resumo do que estou dizendo, C.J.,  que no podemos ter 
amadores em posies-chave. Precisamos de pessoal experiente que saiba o que est 
fazendo. Voc sabe o que vai acontecer se alguma coisa sair errada?  E ele estava 
pensando, Peters  Peters  ele nunca esteve num surto to complicado  nenhum de 
ns j esteve  a nica coisa parecida foi a caverna Kitum. E Peters no estava l.
C.J. Peters ouviu em silncio e no respondeu. Era irritante ouvir esse tipo de conselho 
de Gene  porque ele estava dizendo o bvio e, dizendo o que ele j sabia.
C.J. Peters e Gene Johnson tinham um relacionamento tenso e complicado. Haviam 
viajado juntos, de caminho, numa expedio  frica, procurando o vrus Ebola e no 
fim da viagem era grande a tenso entre os dois. Foi uma expedio brutal, to dura 
quanto poderia ser  no havia estradas, as pontes tinham desaparecido, os mapas 
deviam ter sido desenhados por um monge cego, o povo falava lnguas que nem os 
intrpretes nativos entendiam e a expedio no encontrou comida e gua suficiente. O 
pior foi que tiveram muita dificuldade para encontrar casos humanos de Ebola  no 
conseguiram descobrir o vrus num hospedeiro natural nem em pessoas.
Foi nessa viagem, talvez resultado da falta crnica de alimento, que C.J. comeou a 
comer cupins. Os que saam dos ninhos. Que tinham asas. Gene, mais seletivo, a 
princpio no se animou a experimentar. Pondo os cupins na boca, C.J. dizia coisas 
como esta, "Eles tm aquele extra... humm..." e estalava os lbios, estala, estala com a 
boca cheia de cupins que amassava com os dentes, cuspindo as asas, p, pt. Os 
africanos da expedio, que gostavam de cupins, insistiram com Gene para 
experimentar e finalmente ele cedeu. Ps um punhado na boca e com surpresa sentiu 
gosto de nozes. C.J. falava esperanoso em encontrar a rainha africana dos cupins, o 
saco branco brilhante com quinze centmetros de comprimento e grosso como uma 
salsicha, cheio de ovos e gordura de insetos, a rainha que se come viva e inteira, e que, 
segundo dizem, se contorce e pulsa quando desce pela garganta. Embora eles se 
divertissem comendo cupins, discutiam sobre como fazer cincia, como procurar vrus. 
C.J. era chefe de Gene  ele era o coronel, enquanto Gene era o civil  e C.J. tinha 
comandado a expedio na frica, irritando Gene at no poder mais.
DE REPENTE, UM FURGO AZUL e sem janelas saiu da estrada, atravessou o posto 
e parou ao lado deles. Estacionou de modo que ningum da estrada ou do posto pudesse 
ver o que estava acontecendo entre os dois veculos. Um homem corpulento desceu 
pesadamente do furgo. Era Bill Volt. Caminhou para os militares e eles saram dos 
carros.
 Eles esto bem aqui  disse ele, abrindo a porta lateral do furgo.
Havia sete sacos de lixo de plstico no cho do furgo, em que se viam perfeitamente 
delineados membros e cabeas.
C.J. pensou, o que  isso?
Nancy rilhou os dentes em silncio e respirou fundo. Via as salincias nos sacos, como 
se estivessem cheios de lquido. Esperava que no fosse sangue.
 Que diabo  essa coisa toda?  ela exclamou, finalmente.
 Eles morreram a noite passada  disse Volt.  Esto em sacos duplos.
Nancy estava sentindo uma coisa estranha na boca do estmago.
 Algum se cortou quando estava mexendo com esses macacos?  ela perguntou.
 No  disse Volt.
Ento Nancy viu C.J. olhando para ela de soslaio. Era um olhar significativo, com a 
seguinte mensagem: "Ento, quem vai levar os macacos mortos para Fort Detrick?"
Nancy olhou para ele. C.J. praticamente a estava pressionando. Os dois eram chefes de 
diviso no instituto. Ele tinha patente mais alta mas no era seu chefe. Ele pode me 
empurrar at certo ponto, e eu posso empurr-lo tambm.
 No vou pr essa porcaria na mala do meu carro, C.J.  ela disse.  Como 
veterinria tenho certas responsabilidades no que se refere ao transporte de animais 
mortos, senhor. No posso, com pleno conhecimento, passar com um animal morto de 
molstia infecciosa, pela divisa do estado.
Silncio de morte. Um largo sorriso apareceu no rosto de C.J.
 Concordo que isso tem de ser feito  disse Nancy.  Voc  mdico. Pode sair 
dessa  com a cabea indicou as divisas dele.  Por isso est usando essas guias 
enormes.
Os trs explodiram em risadas nervosas.
O tempo estava passando enquanto o vrus se multiplicava dentro da casa dos macacos. 
C.J. compreendeu que, no interesse da populao em geral, devia esquecer ou no 
compreender qualquer lei sobre sade que pudesse evitar o transporte imediato daqueles 
animais para Fort Detrick. Certamente alguns advogados espertos do Exrcito podiam 
descobrir um modo de explicar por que o transporte de macacos mortos com o Ebola, 
atravs das divisas do estado na mala de um automvel particular, era to 
completamente legal que nunca poderia haver dvida.
Seu velho Toyota vermelho no estava nas melhores condies e ele no tinha interesse 
em conservar seu valor de revenda. Abriu a mala, forrada com tapete e no viu uma 
ponta aguda que pudesse furar os sacos de plstico.
Eles no tinham luvas de borracha. Teriam de carregar os sacos com as mos nuas. 
Nancy, com o rosto virado para evitar o ar do interior do furgo, inspecionou 
visualmente a parte externa dos sacos para verificar se no tinham gotas de sangue.
 O exterior dos sacos foi desinfetado?  ela perguntou para Volt.
Volt disse que ele mesmo lavou com desinfetante Clorox.
Contendo a respirao, lutando contra o fator vmito, Nancy apanhou um saco. O 
macaco deslizou dentro do saco. Eles empilharam os sacos um a um, cuidadosamente, 
na mala do Toyota. Cada macaco pesava entre 5 e 15 quilos. O peso total era de mais ou 
menos cinqenta quilos de primata de bior-risco classe 4 em processo de liquefao. A 
traseira do Toyota ficou mais baixa e C.J. fechou a porta da mala.
Nancy estava ansiosa para dissecar os macacos imediatamente. Se um macaco Ebola 
ficar dentro de um saco de plstico durante um dia todo, pode acabar virando um saco 
de sopa.
 Venha atrs de mim e avise se vir alguma coisa pingando  C.J. disse para ela.
Passeio no espao
14 HORAS, QUARTA-FEIRA
CHEGARAM AO INSTITUTO no meio da tarde. C.J. estacionou na zona de descarga, 
na lateral do prdio e chamou dois soldados para ajud-lo a carregar os sacos de lixo at 
uma cmara de descontaminao que dava para a sute Ebola. Nancy subiu para o 
escritrio de um membro da sua equipe, o tenente-coronel Ron Trotter, e disse a ele 
para vestir o traje espacial e entrar, que ela iria logo em seguida. Iam trabalhar juntos na 
zona quente.
Como sempre fazia antes de entrar no nvel 4, Nancy tirou o anel de noivado e a aliana 
e trancou na gaveta da sua mesa. Ela e o major seguiram juntos pelo corredor, ele entrou 
primeiro no pequeno vestirio que levava ao AA-5, e Nancy esperou no corredor. Uma 
luz acendeu, avisando que ele tinha passado para o nvel seguinte. Ela inseriu o carto 
de segurana no sensor que abria a porta do vestirio. Tirou toda a roupa e vestiu um 
conjunto cirrgico com mangas compridas. Prendeu o cabelo dentro da touca cirrgica. 
Trancou a roupa e o carto de segurana num armrio. Ficou de frente para a porta que 
se abria para o interior e a luz azul que passava pela janela na porta iluminou seu rosto. 
Ao lado da porta havia outro sensor de segurana, com um painel numerado. No se 
podia levar o carto de segurana para os nveis mais altos. O carto de segurana 
derreteria ou seria inutilizado pelos produtos qumicos no processo de descontaminao. 
Sendo assim, cada um devia memorizar seu cdigo de segurana. Ela digitou os 
nmeros no painel, e o computador central do prdio anotou que JAAX, NANCY estava 
querendo entrar. Verificando que ela TINHA PERMISSO PARA ENTRAR NO AA-
5, o computador destravou a fechadura da porta e apitou, para avis-la que podia entrar 
sem ligar os alarmes. Nancy passou pelos chuveiros, entrou no banheiro, calou as 
meias brancas e continuou, abrindo a porta que dava para a rea de estgio do nvel 3.
Ali Nancy encontrou o tenente-coronel Trotter, um homem atarracado, de cabelos 
escuros que trabalhava h muitos anos com ela. Calaram as luvas internas e prenderam 
os punhos com fita adesiva. Nancy ps protetores nos ouvidos. Ela os usava h algum 
tempo, desde que comearam a suspeitar que o barulho do ar dentro do capacete podia 
prejudicar a audio. Vestiram os trajes espaciais e fecharam os zperes Ziploc, girando 
um em volta do outro enquanto se vestiam. As pessoas que usam trajes espaciais tendem 
a fazer isso, como dois lutadores de luta-livre no comeo na luta, observando cada 
movimento do outro, especialmente as mos, para ter certeza de que no esto 
segurando um objeto cortante. Esse movimento torna-se instintivo.
Com os trajes fechados, atravessaram com passos arrastados a rea de estgio at a 
porta da cmara de presso. Era uma cmara de suprimento de ar. No ia dar na zona 
quente, mas sim no mundo exterior. Eles a abriram. No cho estavam os sete sacos de 
lixo.
 LEVE TODOS OS QUE PUDER CARREGAR  ela disse para o major.
Ele apanhou alguns e ela fez o mesmo. Voltaram, atravessaram a rea de estgio e 
chegaram  porta da cmara de presso que dava para o nvel 4. Nancy apanhou uma 
bandeja com instrumentos. Ela comeava a sentir calor e a placa transparente do 
capacete ficou embaada. Abriram a porta e entraram juntos e fecharam a porta. Nancy 
respirou fundo e imobilizou seus pensamentos. Imaginou que entrar no nvel 4 era como 
passear no espao, s que em vez de sair para o espao exterior, entramos num espao 
interior, cheio de presso da vida que tenta entrar no seu traje. Muita gente estava 
sempre entrando nas reas do nvel 4, no instituto, especialmente os civis, tratadores de 
animais. Mas era um pouco diferente entrar numa zona de conteno para fazer a 
necropsia em animais mortos por um agente desconhecido amplificado. Era trabalho de 
alto risco.
Nancy se concentrou e controlou a respirao. Abriu a porta e passou para o lado 
quente. Ento, estendeu a mo para trs e puxou o cordo do chuveiro qumico, na 
cmara por onde acabavam de passar. Isso iniciava o ciclo de descontaminao que 
destrua qualquer forma de vida ou impureza que tivesse vazado quando eles passaram.
Calaram as botas e seguiram pelo corredor de concreto, carregando os macacos. O ar 
comeava a ficar viciado dentro dos capacetes e precisavam ligar os tubos 
imediatamente.
Chegaram a uma sala refrigerada e puseram os sacos no refrigerador, menos um, que 
levaram para a sala de necropsia. Girando um em volta do outro, cuidadosamente, 
ligaram os tubos de ar e as placas transparentes ficaram limpas. O ar trovejava distante, 
nos protetores de ouvido de Nancy. Calaram luvas cirrgicas sobre as luvas do traje 
espacial. Nancy arrumou os instrumentos e os recipientes para as amostras na ponta da 
mesa, contando um por um.
Trotter desamarrou os cordes do saco de lixo e o abriu e a zona quente dentro do saco 
se uniu  zona quente da sala. Os dois tiraram o macaco e o estenderam na mesa. Nancy 
ligou a lmpada cirrgica.
Os olhos limpos e castanhos pareciam normais. No estavam vermelhos. A parte branca 
estava branca e as pupilas limpas e negras, escuras como a noite. A luz da lmpada 
refletia nelas. Dentro dos olhos, atrs deles, no havia nada. No havia mente, nem 
existncia. As clulas tinham deixado de funcionar.
Uma vez parada a mquina biolgica, nada a faz funcionar novamente. Despenca numa 
cascata de deteriorao, caindo a esmo na desordem. Exceto no caso dos vrus. Podem 
desligar e morrer. Ento, se entram em contato com um sistema vivo, tornam a ligar e se 
multiplicam. A nica coisa que "vivia" dentro daquele macaco era o agente 
desconhecido, e ele estava morto, por enquanto. No estava se multiplicando ou fazendo 
qualquer outra coisa, uma vez que as clulas do macaco estavam mortas. Mas se o 
agente tocasse em clulas vivas, as clulas de Nancy, por exemplo, voltaria  vida e 
comearia a se amplificar. Teoricamente, ele podia se multiplicar ao redor do mundo, na 
espcie humana.
Nancy abriu o abdome do macaco com o bisturi, num movimento lento e delicado, 
mantendo a lmina bem afastada dos dedos enluvados. O bao estava inchado e duro, 
com consistncia de couro, como uma bola de salame defumado. No encontrou 
nenhuma leso sangrenta dentro do macaco. Esperava ver um lago de sangue, mas no, 
aquele macaco parecia bem, no tinha hemorragia interna. Se tinha morrido de Ebola, 
no era um caso tpico. Ela abriu o intestino. Nenhum sangue. Um macaco morto pelo 
Ebola teria perdido o revestimento do intestino. Isso no tinha acontecido com aquele 
macaco. O intestino parecia em ordem. Ento ela examinou o estmago. Encontrou uma 
fileira de pontos hemorrgicos na juno do estmago com o intestino delgado. Isso 
podia ser sinal do Ebola, mas no um sinal claro. Podia ser tambm sinal de febre 
simiana, no de Ebola. Portanto, ela no podia confirmar a presena do vrus Ebola 
naquele animal, baseada no exame visual dos rgos internos, durante a necropsia.
Com uma tesoura rombuda, Nancy tirou pedaos do fgado e os fixou em lminas de 
vidro. As lminas e os tubos de ensaio eram os nicos objetos de vidro permitidos na 
zona quente, devido ao perigo de cacos de vidro nas luvas e no traje. Todos os bqueres 
do laboratrio eram de plstico.
Nancy trabalhava lentamente, mantendo as mos afastadas da cavidade do corpo, o mais 
longe possvel do sangue, lavando as mos uma vez ou outra na bacia com 
EnviroChem. Trocava as luvas freqentemente.
Trotter olhava para ela uma vez ou outra. Ele segurava o corpo aberto para ela, pinava 
os vasos sangneos e passava os instrumentos quando ela pedia. Eles liam os lbios um 
do outro.
"F--R-C-E-P-S", ela disse silenciosamente, apontando para o instrumento.
Acenando afirmativamente, ele passou o instrumento. Eles no falavam. Nancy estava 
sozinha com o som do seu ar.
Comeava a pensar que aquele macaco no tinha o vrus Ebola. Em biologia, nada  
claro, tudo  complicado, tudo  uma desordem e quando voc pensa que compreendeu 
alguma coisa, tira uma camada e encontra um mundo de complicaes debaixo dela. A 
natureza pode ser qualquer coisa, menos simples. Esse vrus emergente era como um 
morcego cruzando o cu ao cair da noite. Quando pensamos ter visto seu vulto no nosso 
campo de viso, ele j desapareceu.
As negociaes
14 HORAS, QUARTA-FEIRA
ENQUANTO NANCY JAAX trabalhava nos macacos, C.J. Pe-ters estava na sala de 
conferncias no prdio do quartel-general de Fort Detrick. Carreiras estavam em jogo 
naquela sala. Quase todas as pessoas do mundo que sabiam o significado do vrus Ebola 
estavam sentadas em volta da longa mesa. O general Russell estava na cabeceira da 
mesa, alto e severo com seu uniforme, presidindo a reunio. No queria que aquela 
reunio se transformasse numa luta de poder entre os Centros de Controle de Doenas e 
o Exrcito. No queria deixar que Atlanta tomasse o controle da operao.
Dan Dalgard estava presente, com um terno escuro, aparentemente reservado e calmo, 
mas na verdade, ardendo de nervosismo. Gene Johnson olhava para todos, carrancudo, 
barbudo e silencioso. Havia funcionrios do Departamento de Sade da Virgnia e do 
condado de Fairfax. Fred Murphy  o co-descobridor do vrus Ebola, o funcionrio dos 
CDC para quem o general Russell tinha telefonado, estava ao lado de outro funcionrio 
dos CDC, o Dr. Joseph McCormick.
Joe McCormick era chefe da diviso especial de patognese dos CDC, o departamento 
criado por Karl Johnson, o principal descobridor do vrus Ebola. Joe McCormick era o 
sucessor de Karl Johnson  designado para o cargo quando Johnson se aposentou. 
Tinha vivido e viajado muito na frica. Era mdico, bonito e sofisticado, com cabelo 
crespo escuro e culos Fiorucci redondos, um homem brilhante e ambicioso, encantador 
e persuasivo, com gnio forte e explosivo e um ar de suprema confiana. Havia 
publicado resultados de pesquisas importantes sobre o Ebola. Ao contrrio de todos na 
sala, McCormick tinha visto e tratado casos humanos do vrus Ebola.
Joe McCormick e CJ. Peters tambm no se suportavam. A hostilidade entre os dois 
homens era muito antiga. Ambos haviam pesquisado os cantos mais escuros da frica  
procura do Ebola, sem encontrar o esconderijo natural do vrus. Como Peters, 
McCormick sentia que agora estava chegando muito perto do vrus e se preparava para 
uma vitria espetacular.
A REUNIO COMEOU com Peter Jahrling, o descobridor da variedade que dizimava 
os macacos. Jahrling levantou-se e falou, usando grficos e fotografias.
Chegou a vez de Dalgard. Pigarreou e comeou a descrever os sinais clnicos da doena 
na casa dos macacos. E no fim ficou certo de que ningum havia notado o quanto estava 
nervoso.
Ento, McCormick levantou-se e falou. O que ele disse ainda  motivo de controvrsia. 
Segundo os militares, ele se voltou para Peter Jahrling e disse mais ou menos isto: 
Muito obrigado, Peter. Obrigado por nos alertar. Os grandes homens esto aqui agora. 
Vocs podem deixar as coisas por nossa conta, antes de sarem machucados. Temos 
excelentes meios de conteno em Atlanta. Levaremos todo o seu material e suas 
amostras do vrus. Temos os meios para deter esse vrus. Daqui em diante fica por nossa 
conta.
Uma pessoa presente na reunio lembra-se de McCormick ter dito: "Est 
completamente sob minha autoridade." Em outras palavras, todos acharam que 
McCormick tentara se apresentar como o nico especialista em Ebola. A idia geral foi 
que ele tentou monopolizar a ao para deter o surto e apanhar todas as amostras de 
vrus do Exrcito.
C.J. Peters fervia de raiva. Ouviu o discurso com fria crescente, ofendido, achando 
"muito arrogante e insultuoso".
McCormick lembra de coisa muito diferente. Tenho certeza de que ofereci alguma ajuda 
ou assistncia para resolver a situao dos animais em Reston, ele me disse ao telefone. 
No me lembro de qualquer conflito. Se houve animosidade foi do lado deles, no do 
nosso, por motivos que eles conhecem melhor do que ns. Nossa atitude foi de "Ei, 
homens, bom trabalho".
No passado, McCormick havia criticado publicamente Gene Johnson, o especialista do 
Exrcito em Ebola, por gastar muito dinheiro na explorao da caverna Kitum e no 
publicar depois o resultado. Para mim ele disse:
 Eles querem contar para voc suas experincias, mas o melhor modo de informar o 
povo  public-las. Isto no  uma crtica vazia. Eles esto gastando o dinheiro dos 
contribuintes. Nenhum deles passou tanto tempo no trabalho de campo quanto eu 
passei. Eu fui um dos que trataram casos humanos de Ebola. Nenhum deles naquela 
reunio havia feito isso.
O que McCormick fez foi o seguinte. Em 1979, os CDC foram informados que o Ebola 
tinha sado do seu esconderijo e estava outra vez assolando o sul do Sudo, nos mesmos 
lugares onde havia aparecido em 1976. A situao era de perigo, no s por causa do 
vrus, mas porque naquela poca havia uma guerra civil no Sudo  a rea invadida 
pelo vrus era tambm uma zona de guerra. McCormick ofereceu-se para tentar 
conseguir amostras de sangue humano e levar o Ebola vivo para Atlanta. Ningum quis 
acompanh-lo e ele foi sozinho. Chegou ao sul do Sudo num avio leve dirigido por 
dois pilotos da regio, muito assustados. Ao pr-do-sol aterrissaram numa pista de 
pouso perto de uma aldeia zande. Os pilotos nem saram do avio. Estava escurecendo e 
eles resolveram passar a noite no avio, na pista de pouso. Avisaram McCormick que 
partiriam ao nascer do sol na manh seguinte. McCormick tinha uma noite para 
encontrar o vrus.
Com a mochila nas costas, McCormick dirigiu-se para a aldeia. Viu uma cabana de 
barro rodeada de gente que se recusava a entrar nela. De fora no dava para ver nada na 
cabana escura. McCormick sabia que o Ebola estava l dentro. Tirou a lanterna da 
mochila, mas tinha esquecido as pilhas. Perguntou se algum tinha uma luz e lhe deram 
um lampio. Segurando o lampio na frente do corpo, ele entrou na cabana.
McCormick jamais esquecer o que viu. A primeira coisa foi uma poro de olhos 
vermelhos olhando para ele. O ar dentro da cabana cheirava a sangue. Os doentes 
estavam deitados em esteiras, alguns com convulses  a fase final, a chegada da 
morte  os corpos rgidos se contorcendo, os olhos girando para dentro, o sangue 
correndo do nariz e jorrando do reto. Outros estavam em coma, imveis e sangrando. A 
cabana era uma zona quente.
McCormick tirou da mochila as luvas de borracha, o traje cirrgico, a mscara de papel 
e galochas tambm de papel, para proteger suas botas. Vestido com a roupa cirrgica, 
enfileirou os tubos de ensaio e as seringas numa esteira. Ento comeou a colher sangue 
dos doentes. Trabalhou a noite inteira na cabana, ajoelhado, colhendo amostras de 
sangue e cuidando dos pacientes do melhor modo possvel.
No meio da noite ele estava retirando sangue de uma mulher quando ela comeou a se 
debater numa convulso. A agulha escapou do brao da mulher e picou o polegar de 
McCormick. Oh, oh, pensou ele. Era o bastante para infect-lo. O agente tinha entrado 
na sua corrente sangnea.
De madrugada ele apanhou os tubos com o soro, correu at o avio e entregou as 
amostras para os pilotos. O caso agora era o que devia fazer a respeito daquela picada 
com a agulha ensangentada. Representava uma exposio macia ao vrus Ebola. 
Provavelmente dentro de dois ou trs dias apresentaria os primeiros sintomas do Ebola. 
Devia sair do Sudo e procurar um hospital? Precisava tomar uma deciso  ir com os 
pilotos ou ficar com o vrus. Tudo indicava que os pilotos no voltariam para apanh-lo. 
Se quisesse ir embora e procurar ajuda mdica, tinha de ser agora. Havia um fator 
adicional. Ele era mdico e aquela gente na cabana eram seus pacientes.
McCormick voltou para a aldeia. Sabia que estava infectado pelo vrus Ebola, mas 
queria mais amostras e se comeasse a sentir dor de cabea podia pedir socorro pelo 
rdio e talvez mandassem um avio apanh-lo. Naquele dia descansou numa cabana e 
aplicou nele mesmo uma transfuso de soro que supostamente continha anticorpos 
contra o vrus Ebola  o soro estava em dois sacos de plstico, dentro do gelo, e agora 
talvez salvasse sua vida. Naquela noite ele no dormiu, pensando no agente processando 
uma multiplicao macia no seu sangue. Tomou meia garrafa de scotch para dormir.
Ele trabalhou com os doentes de Ebola quatro dias seguidos, dentro da cabana, sem 
sentir dor de cabea. Enquanto isso, observava atentamente a velha mulher. No quarto 
dia, para sua surpresa, ela comeou a melhorar. Seu caso no era o Ebola, mas 
provavelmente malria. No fora uma convulso final do Ebola, mas efeito da febre 
alta. McCormick acabava de sair vivo da frente de um peloto de fuzilamento.
Agora, na reunio em Fort Detrick, Joe McCormick, dos CDC, sabia que era a nica 
pessoa presente que tinha visto e tratado casos humanos de Ebola. E no tinha ficado 
doente, nem mesmo depois de respirar, durante vrios dias e vrias noites, o ar do 
interior da cabana. A experincia o convenceu de que o vrus Ebola no se transmite 
facilmente, especialmente atravs do ar. Tinha certeza de que no era uma doena de 
fcil contgio. Sendo assim, na sua opinio, no era to perigoso quanto o Exrcito 
imaginava.
Dan Dalgard fez uma pergunta aos especialistas.
 De quanto tempo precisam para nos dizer se as amostras que demos contm vrus?
C.J. Peters respondeu:
 Pode levar uma semana.  tudo que sabemos. Joe McCormick disse:
 Espere um pouco.
Acontece que ele tinha um teste novo e rpido que podia verificar a presena do Ebola 
em poucas horas. Deviam entregar aos CDC o vrus e as amostras.
C.J. Peters olhou furioso para McCormick. Ele no acreditava que McCormick tivesse 
teste algum. Achou que era uma cortina de fumaa para conseguir as amostras do vrus. 
Um blefe num jogo de pquer com apostas altas, para ganhar o controle do vrus. A 
situao era delicada. No podia dizer, na frente de todos aqueles funcionrios do 
departamento de sade do estado, "Joe, no acredito em voc." Erguendo a voz, disse:
 Uma epidemia no  o momento para experimentar uma nova tcnica de testes.
Argumentou que Fort Detrick estava mais perto do local do surto do que os CDC, em 
Atlanta, e por isso o mais certo era as amostras ficarem com o Exrcito para tentarem 
isolar o vrus. O que ele no disse  no havia motivo para acirrar os nimos  foi que 
sete macacos mortos estavam sendo examinados naquele exato momento por Nancy 
Jaax. Enquanto eles discutiam, ela explorava os corpos dos macacos. A posse  nove 
dcimos da lei e o Exrcito tinha a carne e o agente.
Fred Murphy, o outro homem dos CDC, estava sentado ao lado de McCormick. 
Percebeu que os CDC no estavam em boa posio para discutir o assunto. Inclinou-se 
para o lado e murmurou:
 Joe, diminua seus motores. Desligue, Joe. Somos a minoria aqui.
O general Philip Russell, que at aquele momento apenas observava, calado, resolveu 
falar. Com voz calma, mas tonitruante, sugeriu que chegassem a um acordo. Sua idia 
era que deviam dividir a direo do ataque ao vrus.
Um acordo parecia ser a soluo. O general e Fred Murphy delinearam rapidamente os 
detalhes, enquanto McCormick e Peters entreolhavam-se furiosos, sem ter mais nada 
para dizer. Ficou acertado que os CDC se encarregariam dos aspectos do caso 
relacionados com a sade humana, ficando com a responsabilidade do tratamento de 
qualquer paciente humano. O Exrcito se encarregaria dos macacos e da casa dos 
macacos, o epicentro do surto.
A misso
16:30 HORAS, QUARTA-FEIRA
O CORONEL C.J. Peters tinha agora permisso para pr as coisas em movimento e 
iniciar a ao. Joe McCormick recuou, ou foi obrigado a ceder. Assim que terminou a 
reunio, C.J. comeou a alinhar suas foras. A primeira coisa de que precisava era um 
funcionrio de campo para conduzir uma equipe de soldados e civis no ataque  casa 
dos macacos. Tinha de formar uma unidade de ao militar.
J decidira quem ia liderar a misso: o coronel Jerry Jaax, marido de Nancy. Jerry nunca 
havia usado um traje espacial, mas era chefe da diviso veterinria do instituto e 
compreendia os macacos. Sem dvida iam precisar da ajuda dos membros da sua 
equipe, tanto militares quanto civis. Ningum mais tinha treinamento para lidar com 
macacos.
Encontrou Jerry no escritrio, olhando pela janela e mastigando um elstico. C.J. disse:
 Jerry, acho que temos uma situao em Reston.  Uma situao, o cdigo para 
agente quente.  Acho que temos uma situao em Reston que envolve um possvel 
surto de Ebola, e parece que vamos desempenhar um papel para deter o surto. Parece 
que teremos de ir at l, apanhar aqueles macacos e temos de fazer isso em condies de 
biossegurana nvel 4.  Pediu a Jerry para formar equipes de soldados e civis, 
preparados para agir com trajes espaciais dentro de 24 horas.
Jerry foi ao escritrio de Gene Johnson e disse que fora encarregado da misso. O 
escritrio era um caos. Jerry se perguntava como Gene, um homem grande, conseguia 
se movimentar no meio daquelas pilhas de papel.
Comearam imediatamente a planejar a operao de biorrisco. A deciso geral era 
comear com uma operao limitada. A unidade do Exrcito tomaria uma sala da casa 
dos macacos, para ver como funcionavam as coisas  verificar se o vrus estava se 
disseminando. Determinaram as prioridades.
"Prioridade nmero um. Segurana da populao.
Prioridade nmero dois. Eutansia dos animais com um mnimo de sofrimento.
Prioridade nmero trs. Recolhimento de amostras cientficas. Objetivo: identificar a 
variedade do vrus e determinar como  transmitido."
Gene tinha certeza de que se a equipe fizesse um bom trabalho, a populao humana de 
Washington estaria a salvo. Ps os culos e inclinou-se para a mesa, procurando 
documentos no meio dos seus papis, com a barba encostada no peito. Sabia que no ia 
entrar no prdio. De jeito nenhum. Tinha assistido muitas vezes  "eliminao" de 
macacos e, ele me disse, mais tarde, que no ia agentar novamente a cena. De qualquer 
modo, sua tarefa consistia em providenciar a entrada do equipamento e do pessoal no 
prdio, depois retirar o pessoal, o equipamento e os animais mortos, com completa 
segurana.
Em algum lugar, no meio das pilhas de papel, havia listas longas de todo o material 
usado na caverna Kitum. Gene as procurou praguejando em voz baixa. Ele havia 
guardado praticamente todo o material que trouxe da frica. Estava tudo escondido em 
diversos lugares do instituto, onde ningum pudesse encontrar nem avariar.
Gene estava extremamente excitado e tambm com muito medo. Seus pesadelos com o 
vrus Ebola, os sonhos terrveis com o lquido escorrendo dentro do seu traje espacial, 
que o acordavam no meio da noite, nunca o abandonaram realmente. Muitas vezes 
acordava pensando, "Meu Deus, houve uma exposio". Tinha passado quase dez anos 
caando o Ebola e o Marburg na frica, sem sucesso e de repente o filho da me erguia 
a cabea em Washington. Lembrou do seu ditado favorito: "A oportunidade favorece a 
mente preparada", palavras de Louis Pasteur. A mente de Gene estava preparada para 
isto.
Tinha guardado seu equipamento da expedio  caverna Kitum. Muito bem, a 
oportunidade estava ali. Se um item do equipamento fora til na caverna Kitum, ia 
servir para a casa dos macacos. Pensando bem, o prdio no era muito diferente da 
caverna Kitum. Era um espao de ar fechado. Ar morto. O sistema de ventilao 
enguiado. Fezes secas de animais por toda parte. Poas de urina de macaco. 
Provavelmente sangue nas paredes. Uma caverna quente perto de Washington. E havia 
pessoas que tinham entrado na caverna e podiam estar infectadas com o vrus. Como 
movimentar suas equipes para entrar e sair? Era preciso montar uma rea de estgio. 
Uma rea cinzenta  uma cmara de presso com um chuveiro de compostos qumicos. 
Em algum lugar no interior daquele prdio vivia uma forma de vida que podia ser do 
nvel 4 e estava crescendo, multiplicando-se, cozinhando dentro dos hospedeiros. Os 
hospedeiros eram macacos e talvez seres humanos.
20 HORAS, QUARTA-FEIRA
Dan Dalgard saiu do USAMRIID e voltou pela Leesburg Pike para seu escritrio. 
Quando chegou no encontrou ningum, todos j tinham ido para casa. Dalgard 
arrumou sua mesa, desligou o computador e retirou o disquete onde estava gravado seu 
dirio, sua Cronologia de eventos. Guardou o disquete na pasta. Deu boa-noite ao 
guarda de segurana no hall de entrada e foi para casa. No caminho, lembrou que no 
tinha telefonado para a mulher para avisar que ia chegar mais tarde. Parou num 
supermercado e comprou um ramo de flores, cravos e crisntemos. Quando chegou em 
casa, esquentou o jantar no microondas, levou para a sala onde sua mulher assistia  
televiso e comeu sentado numa poltrona reclinvel. Estava exausto. Ento ps mais 
lenha no aquecedor e sentou na frente do seu computador pessoal, perto da mesa onde 
ele consertava relgios. Inseriu o disquete e comeou a digitar. Estava atualizando seu 
dirio.
Tanta coisa tinha acontecido que era difcil lembrar de tudo na ordem exata. Naquela 
manh fora informado que o tratador de macacos, Jarvis Purdy, estava no hospital, 
vitimado por um infarto. Jarvis descansava tranqilamente e no havia notcias de 
qualquer piora no seu estado. Eu devia ter notificado o hospital sobre a possibilidade de 
Jarvis Purdy estar com o Ebola? Se ele estiver infectado e o vrus se disseminar por todo 
o hospital, a culpa ser minha? Jesus! Acho melhor pedir para algum ir ao hospital 
amanh cedo e contar a Jarvis o que estava acontecendo. Se ele souber pelo noticirio, 
pode ter outro infarto!
Dalgard havia providenciado respiradores para todos os outros tratadores dos macacos e 
os informou sobre tudo que se sabia a respeito da transmisso do Ebola e do Marburg 
em seres humanos. Suspendeu todas as operaes dirias do prdio, exceto alimentao 
uma vez por dia, observao e limpeza das salas. Informou o pessoal do laboratrio na 
Leesburg Pike  que havia manipulado amostras de sangue e de tecido dos macacos  
sobre a necessidade de manipular esses espcimes como se estivessem infectados com o 
vrus da AIDS.
"Preciso lembrar de avisar os laboratrios que receberam animais nossos para 
notificarem os CDC se algum deles morrer. E a exposio das pessoas que trabalharam 
no sistema de ventilao? E o servio de lavanderia? Um homem no tinha estado 
recentemente consertando os telefones? Na semana passada, talvez  no lembro 
exatamente quando. Santo Cristo! Ser que esqueci de alguma coisa?"
Enquanto ele procurava pr em dia seu dirio no computador, o telefone tocou. Era 
Nancy Jaax. Ela parecia cansada. Disse que tinha acabado a necropsia dos sete animais. 
Os resultados eram consistentes com FHS (febre hemorrgica simiana) ou Ebola. Disse 
que podia ser um deles ou ambos. Os resultados eram ambguos.
Reconhecimento
30 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA
QUANDO ACORDOU, na manh seguinte  era quinta-feira, exatamente uma semana 
depois do dia de Ao de Graas  Dalgard resolveu convidar o Exrcito para limpar a 
sala H, o centro do surto. Telefonou para C.J. Peters e deu permisso para entrar na casa 
dos macacos. A notcia de que tinham permisso para a operao de biorrisco correu 
rapidamente por todo o USAMRIID.
O coronel Jerry Jaax convocou uma reunio da sua equipe. Eram o major Nathaniel 
("Nate") Powell, capito Mark Haines, capito Steven Denny, sargento Curtis Klages e 
sargento Thomas Amen. Convidou tambm o tratador civil dos animais, Merhl Gibson. 
Essas pessoas eram o centro da sua equipe. Jerry Jaax perguntou casualmente:
 Vocs querem ir a Reston?  Alguns no tinham ouvido falar em Reston e ele 
explicou o que estava acontecendo.  Precisamos fazer eutansia em alguns macacos. 
Gostaramos que vocs entrassem no jogo. O que dizem? Querem ir?
Todos disseram que queriam entrar no jogo. Jerry imaginou que Nancy tambm ia. Isso 
significava que ele e Nancy estariam dentro do prdio ao mesmo tempo. No dia seguinte 
as crianas iam ficar sozinhas.
Eles iam entrar numa sala da casa dos macacos, matar os animais e colher amostras de 
tecido e lev-las para o instituto a fim de serem examinadas. Iam trabalhar com trajes 
espaciais e nas condies de bioconteno do nvel 4. A equipe devia sair s 5 horas da 
manh do dia seguinte. Tinham menos de 24 horas para se preparar. Gene Johnson 
estava recolhendo seu equipamento de biorrisco naquele momento.
GENE FOI DE CARRO para Virgnia e chegou  casa dos macacos no meio da manh, 
para um reconhecimento, para ter idia da disposio do prdio e escolher os lugares 
para a cmara de descontaminao e a zona cinzenta, alm de estudar o melhor meio de 
fazer sua equipe entrar no prdio. Estava acompanhado do sargento Curtis Klages com 
uniforme de servio. Quando entraram no estacionamento, viram um furgo da televiso 
estacionado na frente da casa dos macacos, com o apresentador e sua equipe tomando 
caf e esperando os acontecimentos. Gene ficou nervoso. A mdia comeou a circular 
logo cedo, mas ao que parecia no tinha idia do que estava acontecendo e o 
USAMRIID queria manter as coisas desse modo.
Estacionaram perto de uma rvore ao lado do prdio baixo de tijolos e entraram pela 
porta da frente. Quando abriram a porta o cheiro de macaco quase os derrubou. "Nossa", 
pensou o sargento Klages, "nossa  no devamos entrar nem aqui sem os trajes 
espaciais." Havia muito cheiro de macaco no ar. O prdio fedia a macaco. Alguma coisa 
muito feia estava acontecendo ali dentro. Todo o maldito lugar podia estar quente, cada 
superfcie podia estar quente. Os tratadores tinham parado de limpar as gaiolas porque 
no queriam entrar nas salas dos macacos.
Encontraram Bill Volt e disseram que queriam examinar o prdio a fim de determinar o 
melhor mtodo de entrada para as equipes, no dia seguinte. Volt os convidou a sentar no 
seu escritrio. Eles no queriam sentar, no queriam tocar em nenhuma superfcie 
naquele escritrio, com as mos nuas. Notaram que Volt, um homem grande, gostava de 
balas. Ele ofereceu uma caixa cheia de Life Saver's, Bit-O-Honeys e Snickers.
 Sirvam-se  convidou ele.
O sargento Klages olhou horrorizado para as balas e murmurou:
 No, obrigado.
Estava com medo de tocar em qualquer coisa.
Gene queria entrar na rea dos macacos e ver a sala H, o lugar quente. Ficava nos 
fundos do prdio. Ele no queria atravessar o prdio para chegar l. No queria respirar 
muito daquele ar. Depois de procurar, descobriu outro caminho para os fundos do 
prdio  notou que as salas ao lado do escritrio de Bill Volt estavam vazias h algum 
tempo, com a luz cortada e os painis do teto despencando. Apanhou uma lanterna e 
examinou as salas.  como uma rea bombardeada, pensou.
Encontrou uma porta que dava para os fundos da casa. Entrou num quarto de depsito e 
saiu para um corredor, no interior da casa dos macacos. Agora ele podia ver exatamente 
o que fariam. O corredor fechado podia ser a cmara de descontaminao. O quarto de 
depsito seria a rea de estgio. A equipe podia vestir os trajes espaciais no quarto de 
depsito, longe do alcance das cmeras de televiso. Gene desenhou um mapa numa 
folha de papel.
Uma vez verificada a planta do prdio, foi para a frente e disse aos empregados que 
queria as reas dos fundos completamente lacradas  hermeticamente fechadas. No 
queria que nenhum agente da sala H passasse para a frente do prdio e invadisse os 
escritrios. Seu objetivo era diminuir a quantidade de ar contaminado que entrava nos 
escritrios.
Havia uma porta que dava para as salas dos macacos no fundo do prdio. Eles a 
lacraram com fita adesiva militar marrom, a primeira linha de defesa contra um agente 
quente. A partir daquele momento, Gene explicou aos empregados, ningum deveria 
partir a fita isolante, ou entrar naquelas salas dos fundos, exceto o pessoal do Exrcito, 
at que a sala H estivesse limpa. O que Gene no viu foi que havia outro caminho para 
as salas dos fundos. Era possvel chegar at l sem partir as fitas isolantes da porta.
S ONZE E MEIA da manh, a tenente-coronel Nancy Jaax e o coronel C.J. Peters 
chegaram aos escritrios da companhia Hazleton Washington, na Leesburg Pike, para se 
encontrar com Dan Dalgard e falar a um grupo de tcnicos do laboratrio Hazleton, que 
havia sido exposto a tecidos e sangue dos macacos doentes. Uma vez que os CDC 
estavam agora encarregados dos aspectos humanos do surto do Ebola, Joe McCor-mick 
tambm chegou aos escritrios da Hazleton  mesma hora.
Os funcionrios do laboratrio haviam manipulado tecido e sangue dos macacos, 
analisando o material. A maior parte era de mulheres e algumas estavam muito 
assustadas, quase em pnico. Naquela manh, na hora do rush, quando elas iam para o 
trabalho, ouviram no rdio que centenas de milhares de pessoas haviam morrido com o 
Ebola, na frica. Era um exagero. Mas os locutores de rdio no sabiam o que estava 
acontecendo e agora as mulheres pensavam que iam morrer. "Ouvimos falar sobre isso 
no rdio", uma delas disse para Jaax e McCormick.
Nancy Jaax afirma que McCormick falou bastante e tentou acalmar as mulheres, mas 
quando comeou a contar suas experincias com o Ebola, na frica, elas ficaram ainda 
mais assustadas.
Uma mulher levantou-se e disse:
 No nos importa que ele tenha estado na frica, queremos saber se vamos ficar 
doentes!
McCormick no lembra de ter falado com as mulheres. Ele me disse, "No falei com 
elas. Nancy Jaax falou com elas sobre o Ebola."
Na opinio de Nancy, elas comearam a se acalmar quando viram uma mulher coronel 
do Exrcito de uniforme. Ela perguntou:
 Alguma de vocs quebrou um tubo de ensaio? Tem algum aqui que se picou com 
uma agulha ou se cortou?
Ningum levantou a mo.
 Ento todas vo ficar bem  disse Nancy. Alguns minutos depois, Dan Dalgard 
voltou-se para C. J.
Peters e disse mais ou menos isto: Por que voc no vem comigo ao prdio dos primatas 
para dar uma olhada nos macacos?
Agora eles iam ter finalmente a oportunidade de ver o prdio por dentro.
Foram de carro para a casa dos macacos. A essa altura, Gene Johnson j havia lacrado 
as salas dos fundos e a porta principal do prdio com fita isolante. Nancy, C.J. e 
Dalgard foram para o fundo do prdio, calaram luvas de borracha, puseram as 
mscaras cirrgicas e entraram na sala H para ver os macacos doentes. Nancy e C.J. 
notaram, com alguma preocupao, que os tratadores no estavam usando respiradores, 
a despeito das ordens de Dalgard. Ningum ofereceu um respirador para Nancy ou para 
C.J. Isso os deixou nervosos, mas no disseram nada. Na casa dos macacos, faa como 
fazem os que trabalham na casa dos macacos. No queriam ofender pedindo 
equipamento de respirao, no naquele momento to delicado, quando finalmente 
conseguiam a primeira oportunidade de ver o prdio.
Na sala H, Dalgard mostrou os animais doentes, apontando para eles. "Este est doente, 
este parece doente, este tambm parece doente", ia dizendo ele. Os macacos estavam 
quietos e abatidos, mas sacudiam as grades das gaiolas uma vez ou outra. Nancy ficou 
bem longe das gaiolas, respirando de leve para evitar que o cheiro dos macacos 
penetrasse profundamente nos seus pulmes. Um grande nmero de animais j havia 
morrido  muitas gaiolas estavam vazias  e muitos outros estavam obviamente 
doentes, sentados no fundo da gaiola, passivos e sem expresso. No estavam comendo 
os biscoitos de macaco. Ela notou que alguns tinham corrimento do nariz. Nancy 
desviava os olhos e agia respeitosamente perto dos macacos, porque no queria que 
algum deles se irritasse e cuspisse nela. Os macacos tm boa pontaria quando cospem e 
sempre apontam para o rosto. Nancy se preocupava mais com os olhos do que com 
outra coisa qualquer. O Ebola tem uma preferncia especial pelos olhos. Quatro ou 
cinco partculas na plpebra provavelmente so suficientes para provocar uma infeco. 
Nancy notou outra coisa que a atemorizou. Aqueles macacos tinham ainda os dentes 
caninos. A companhia no havia limado as presas perigosas. Os caninos dos macacos 
so do tamanho dos caninos de um co de guarda, e naquele caso podiam ser uma arma 
mortal. Os macacos so extremamente velozes, saltam longas distncias e usam a cauda 
para pegar a presa ou como um gancho de segurana. Alm disso, tm uma mente que 
funciona. Nancy pensou, um macaco zangado  como um co Pit Buli Terrier voador 
com cinco membros preensveis  essas criaturas podem fazer o diabo com a gente. O 
macaco dirige o ataque ao rosto e  cabea. Agarra a cabea do alvo com os quatro 
membros e enrola a cauda no pescoo da vtima, para se firmar, atacando o rosto com os 
caninos, visando especialmente aos olhos. No  uma situao agradvel, especialmente 
se o macaco estiver infectado com o vrus Ebola. Um macaco com cinco quilos pode 
lutar de igual para igual com um homem com um metro e oitenta de altura. O macaco 
praticamente envolve o homem no seu ataque. No fim da luta, o homem provavelmente 
vai levar centenas de pontos e pode estar cego. Jerry e sua equipe precisavam ser 
extremamente cautelosos com aqueles macacos.
NAQUELA NOITE, Jerry voltou para casa sozinho. Nancy tinha voltado para o 
laboratrio com seu traje espacial para continuar o exame das amostras dos macacos e 
ele no tinha idia de quando ela ia terminar. Quando Jerry terminou de trocar o 
uniforme, o telefone tocou. Era o irmo de Nancy, em Kansas, dizendo que o pai deles 
havia piorado muito e que a morte parecia iminente. A qualquer momento Nancy seria 
chamada para o funeral. Jerry disse que avisaria Nancy e explicou que ela estava 
trabalhando at mais tarde.
Ento ele e Jason saram de carro, seguiram por uma hora na direo de Washington e 
apanharam Jaime na aula de ginstica. Resolveram jantar num McDonald's. Os trs Jaax 
sentaram a uma mesa e enquanto comiam Jerry explicou para os filhos por que a me 
estava trabalhando at aquela hora. Ele disse:
 Amanh de manh vamos entrar numa empresa civil usando nossos trajes espaciais. 
Uma coisa importante est acontecendo l. Alguns macacos esto doentes. Tudo indica 
que  uma situao de emergncia. Vamos sair muito cedo e possivelmente voltaremos 
tarde. Vocs vo ficar sozinhos.
As crianas no pareceram muito impressionadas.
 Os seres humanos podem apanhar a doena dos macacos  disse Jerry.
 Bem, na verdade no h nenhum perigo  disse Jaime, mastigando seus nuggets de 
galinha.
 Bem, no, no  realmente perigoso  disse Jerry.   mais interessante do que 
perigoso. E de qualquer modo,  exatamente o que sua me e eu estamos fazendo agora.
Jason disse que tinha visto alguma coisa na televiso sobre o assunto, no noticirio 
daquela noite.
 Eu acho que o que sua me est fazendo  bastante fora do comum  Jerry disse 
para o filho. E pensou, nunca vou convenc-lo disso.
Voltaram para casa mais ou menos s nove e meia e Jerry teve alguma dificuldade em 
fazer com que fossem para a cama. Talvez estivessem com medo e no sabiam como 
express-lo, pensou. Porm, o mais provvel era que quisessem se aproveitar da 
ausncia da me. Disseram que queriam esperar por ela. Jerry resolveu esperar tambm. 
Os meninos vestiram os pijamas e Jerry os levou para sua cama, onde eles deitaram no 
lado de Nancy. Jerry assistiu  televiso no quarto at o noticirio das 11 horas. O 
apresentador estava na frente da casa dos macacos, falando sobre as pessoas que 
morriam na frica. A essa altura, as crianas j estavam dormindo. Ele pensou em John 
por algum tempo, depois apanhou um livro e tentou ler.
Jerry ainda estava acordado quando Nancy chegou  uma hora da manh, descansada, 
com o cabelo ainda molhado do banho de chuveiro quando saiu do nvel 4.
Verificando se precisava fazer alguma coisa antes de deitar, Nancy viu que Jerry no 
tinha tratado dos animais. Ps comida e gua nas vasilhas dos gatos e dos cachorros. O 
papagaio Herky comeou a fazer barulho quando viu que ela estava dando comida para 
os gatos. Queria alguma ateno tambm.
"Mame! Mame!" Dependurado de cabea para baixo, Herky ria como um louco e 
gritou, "Pssaro malvado! Pssaro malvado!" Nancy o tirou da gaiola e afagou a cabea 
dele. Herky subiu no ombro dela e Nancy alisou suas penas.
Subiu para o quarto e encontrou os filhos dormindo ao lado de Jerry. Ela carregou Jaime 
e Jerry carregou Jason para os quartos deles  o menino estava ficando muito grande 
para Nancy carregar.
Ao lado dele, na cama, Nancy disse:
 Tenho o pressentimento de que no vamos conseguir conter o vrus naquela nica 
sala.
Nancy acreditava que o vrus podia ter passado para as outras salas, atravs do ar. Era 
to infeccioso que duvidava que ficasse numa sala s. Lembrou das palavras de Gene 
Johnson, "Voc no sabe o que o Ebola fez no passado e voc no sabe o que ele vai 
fazer no futuro."
Ento Jerry falou sobre o pai dela. Nancy comeava a se sentir culpada por no estar ao 
lado do pai nos seus ltimos momentos. Era a sua ltima obrigao para com ele. 
Pensou se no seria melhor desistir da coisa toda e tomar um avio para Kansas. Mas 
achava que era seu dever ir at o fim. Resolveu arriscar a chance do seu pai viver um 
pouco mais.
TERCEIRA PARTE
A DESTRUIO
Insero
1 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA
O DESPERTADOR TOCOU s quatro e meia. Jerry Jaax levantou, fez a barba, 
escovou os dentes, vestiu-se rapidamente e saiu de casa. As equipes iam usar trajes civis 
para no atrair a ateno da mdia. Homens uniformizados e camuflados, vestindo trajes 
espaciais... podiam criar pnico.
Chegou no instituto s cinco e meia. Nem havia sinal do nascer do dia. Um grande 
grupo de pessoas j estava na frente da zona de carga ao lado do prdio sob a luz dos 
holofotes. Havia geado durante a noite e a respirao de toda aquela gente era como 
fumaa no ar. Gene Johnson, o Ajax daquela guerra biolgica, andava de um lado para o 
outro, no meio de uma pilha de caixotes militares camuflados  seu equipamento da 
caverna Kitum. Os caixotes continham trajes espaciais de campo, baterias, luvas de 
borracha, roupas cirrgicas, seringas, agulhas, medicamentos, instrumentos de 
dissecao, um ou dois conjuntos para cirurgia humana, sacos de biorrisco marcados 
com as flores vermelhas e vaporizadores manuais de jardim, para desinfetar os trajes 
espaciais e outros objetos. Com a xcara de caf na mo, Gene rosnava para os soldados: 
"No toquem nas minhas caixas."
Um caminho branco de equipamentos, sem identificao, parou na frente da porta. 
Gene levou pessoalmente as caixas para o caminho e partiu para Reston. Ele fazia 
parte da primeira onda de ataque.
Nesse momento o Washington Post estava sendo entregue em toda a regio. A 
manchete na primeira pgina dizia:
"Vrus mortal Ebola encontrado em macacos de laboratrio na Virgnia.
Um dos mais letais vrus humanos conhecidos apareceu pela primeira vez nos Estados 
Unidos num carregamento de macacos importados das Filipinas por um laboratrio de 
pesquisas de Reston.
Uma fora-tarefa de alto nvel formada por especialistas em doenas contagiosas, 
estaduais e federais, passou grande parte do dia de ontem planejando os detalhes de um 
programa para seguir as pegadas do raro vrus Ebola e identificar as pessoas que foram 
expostas a ele. Isso incluiu entrevistas com os quatro ou cinco funcionrios do 
laboratrio que tomam conta dos animais, que foram eliminados, por precauo, bem 
como com outras pessoas que estiveram perto deles.
Funcionrios dos departamentos de sade federal e estadual afirmam haver pouca 
possibilidade de algum ter contrado o vrus, que tem um ndice de mortalidade entre 
50 e 90 por cento e com alto nvel de contgio por contato direto. No existe vacina 
conhecida.
Sempre h um certo nvel de preocupao, mas acho que ningum entrou em pnico, 
disse o coronel C.J. Peters, mdico e especialista no vrus.
C.J. sabia que se o pblico soubesse o que o vrus podia fazer, haveria um verdadeiro 
xodo de carros saindo de Reston, com as mes gritando na frente da televiso: "Onde 
esto meus filhos?" Quando ele falou com os reprteres do Washington Post, teve o 
cuidado de no descrever os aspectos mais dramticos da operao. ("Achei que no 
seria uma boa idia falar de trajes espaciais", ele me explicou, muito mais tarde.) Teve o 
cuidado, tambm, de no usar termos militares assustadores, como "amplificao", 
"cadeia letal de transmisso", desmorona e sangra", ou "fator principal de contrao". 
Uma pperao militar de biorrisco estava em andamento num subrbio de Washington e 
ele no queria que o Post soubesse isso.
Metade do xito da operao de bioconteno dependia a conteno de informao. Os 
comentrios de C.J. Peters para o Washington Post tinham como objetivo dar a 
impresso de que a situao estava sob controle, segura e que no era muito 
interessante. Na realidade, a situao no era nada disso. Mas Peters sabia ser muito 
persuasivo quando queria e falou com os reprteres no tom mais amistoso possvel, 
garantindo, por telefone, que no havia nenhum problema, era apenas uma situao 
tcnica de rotina. Os reprteres concluram, de algum modo, que os macacos "haviam 
sido destrudos, como precauo", quando na verdade o pesadelo e o motivo da 
presena do Exrcito era o fato de estarem ainda vivos.
Quanto  segurana da operao, o nico meio de saber era execut-la. Para Peters, o 
maior perigo consistia em ficar parado vendo o vrus dizimar os macacos. Havia 
quinhentos macacos dentro daquele prdio. Cerca de trs toneladas de carne de macaco 
 um reator nuclear biolgico, com o centro derretido.  medida que o centro dos 
macacos era destrudo, aumentava a amplificao do vrus.
C.J. CHEGOU  zona de carga do instituto s cinco horas da manh. Ia acompanhar o 
grupo at a casa dos macacos para ver a equipe de Jerry entrar no prdio e depois 
voltaria ao instituto, para se encarregar da mdia e das agncias do governo. s seis e 
meia, ele deu a ordem de partida e a coluna de veculos passou pelo porto principal de 
Fort Detrick e seguiu para o sul, na direo do rio Potomac. A fila de automveis 
comuns, os carros particulares dos funcionrios  todos com trajes civis, como se 
estivessem indo para o trabalho  seguiu atrs de dois veculos militares, sem 
identificao. Um era uma ambulncia completamente branca e o outro, um furgo de 
suprimentos. Era uma ambulncia de bioconteno do nvel 4. Dentro ia uma equipe 
mdica do Exrcito, especialista em evacuao de locais e um cilindro de 
descontaminao chamado maca-bolha. Era uma maca mdica de combate, de ao, 
envolta numa bolha de bioconteno de plstico transparente. A maca-bolha estava 
vazia. Se algum fosse mordido por um macaco, seria posto dentro da bolha e 
transferido para o Slammer, e talvez depois passasse para o submarino (o necrotrio do 
nvel 4). O furgo de suprimentos era refrigerado, para transporte dos macacos mortos e 
das amostras de sangue.
No havia nenhum uniforme no grupo, embora alguns membros da equipe da 
ambulncia estivessem com roupa de trabalho do Exrcito. A caravana atravessou o rio 
Potomac em Point of Rocks e entrou na Leesburg Pike exatamente quando comeava a 
hora do rush. No trfego "pra-choque contra pra-choque", a equipe comeou a se 
impacientar. Levaram duas horas para chegar  casa dos macacos, discutindo no 
caminho todo com os motoristas mal-humorados. Finalmente a coluna entrou no parque 
da firma, que quela hora comeava a se encher de trabalhadores. Os veculos seguiram 
para o lado da casa dos macacos, entraram num jardim e estacionaram atrs do prdio, 
onde no seriam vistos da estrada. O fundo do prdio era uma parede de tijolos com 
algumas janelas estreitas e uma porta de vidro. A porta era o ponto de insero. O 
caminho de suprimentos parou de marcha  r perto da porta.
No fim do gramado havia uma descida coberta de arbustos e rvores. Alm dela ficava 
umplayground ao lado da creche. Ouviam as vozes das crianas e atravs dos arbustos 
eles as viam nos balanos e correndo em volta de uma casa de brinquedo. A operao ia 
ser executada perto de crianas.
Jerry Jaax estudou o mapa do prdio. Ele e Gene Johnson tinham decidido que a equipe 
devia vestir os trajes espaciais dentro do prdio, para evitar que fossem surpreendidos 
por alguma cmera de televiso. Os homens passaram pela porta de insero e entraram 
no quarto de depsito vazio. Era a sala de estgio. Ouviam os gritos distantes dos 
macacos no outro lado da parede de concreto. No havia nem sinal de seres humanos na 
casa dos macacos.
Jerry Jaax ia ser o primeiro a entrar, o homem de ponta. Resolveu levar com ele um dos 
seus oficiais, o boina-verde capito Mark Haines. Haines era baixo, vigoroso e havia 
treinado na escola de mergulho dos boinas-verdes com garrafa de oxignio. Tinha 
saltado de avies  noite no mar aberto, com o equipamento de mergulho. ("Vou dizer 
uma coisa", Haines me disse, certa vez, "no fao mergulho de profundidade como 
civil. A maior parte dos meus mergulhos foi no Oriente Mdio.") O capito Haines no 
era homem para sentir claustrofobia num traje espacial. Alm disso, ele era veterinrio. 
Entendia de macacos.
Jaax e Haines entraram no caminho e estenderam uma cortina de plstico para garantir 
sua privacidade. Tiraram toda a roupa, tremendo de frio. Vestiram o traje cirrgico, 
atravessaram o gramado, abriram a porta de vidro e entraram na sala de estgio, onde a 
equipe de apoio do Exrcito  a equipe da ambulncia, comandada pela capit 
Elizabeth Hill  os ajudou a vestir os trajes espaciais. Jerry no sabia coisa alguma 
sobre trajes biolgicos de campo, tampouco o capito Haines.
Os trajes eram do tipo Racal, cor de laranja, para uso de campo contra agentes 
biolgicos, do mesmo tipo que fora usado na caverna Kitum  na verdade, alguns deles 
tinham voltado da frica na bagagem de Gene Johnson. O capacete do traje era de 
plstico leve, transparente e macio. O traje era pressurizado. A presso era fornecida por 
um motor eltrico que aspirava o ar externo que, depois de passar por vrios filtros 
contra vrus, era injetado no traje. Isso mantinha o traje sob presso positiva, de modo 
que era muito difcil a penetrao de qualquer partcula de vrus que estivesse no ar. O 
traje Racal funcionava exatamente como um traje espacial pesado Chem-turion. 
Protegia o corpo todo contra um agente quente, envolvendo o corpo do usurio com ar 
superfiltrado. Os militares, de modo geral, no se referiam ao Racal como traje espacial. 
Eles os chamavam de Racal ou traje biolgico, mas na verdade eram trajes espaciais 
biolgicos.
Jaax e Haines calaram luvas de borracha e estenderam os braos para que a equipe de 
apoio as prendessem nas mangas do traje. Calavam tnis e sobre eles botas amarelas de 
borracha. A equipe de apoio prendeu os canos das botas nas calas dos trajes Racal 
acima dos tornozelos.
Jerry estava extremamente tenso. H anos advertia Nancy sobre os perigos de trabalhar 
com o Ebola num traje espacial e agora estava liderando uma equipe para o inferno do 
Ebola. Naquele momento, Jerry no se importava com o que pudesse lhe acontecer, 
pessoalmente. Era descartvel, e sabia disso. Talvez pudesse esquecer um pouco de 
John enquanto estivesse l dentro. Ligou o ventilador eltrico e o traje inflou em volta 
dele. No se sentiu muito mal, mas comeou a suar profusamente. A porta estava na sua 
frente. Com o mapa da casa dos macacos na mo, fez um sinal para o capito Haines. 
Haines estava pronto. Jerry abriu a porta e eles entraram. O som dos macacos era agora 
mais forte. Estavam num corredor de concreto sem janelas, sem luz, com portas nas 
duas extremidades. Era a sala de compresso provisria, a zona cinzenta. A regra no 
interior da cmara era nunca abrir as duas portas ao mesmo tempo, para evitar a volta do 
fluxo de ar contaminado para a sala de estgio. A porta fechou atrs deles e o corredor 
ficou completamente escuro. Ora, que droga, esquecemos de trazer lanternas. Tarde 
demais. Aquele lugar esquecido de Deus era escuro como uma caverna. Seguiram em 
frente, com as mos na parede, at a porta na outra extremidade do corredor.
NANCY JAAX acordou os filhos s sete e meia. Como sempre, teve de sacudir Jason 
para tir-lo da cama. Nessa manh no adiantou e ela soltou em cima dele um dos 
cachorros, que saltou, aterrissando pesadamente em cima de Jason.
Nancy vestiu cala de training, camiseta de malha, desceu para a cozinha, ligou o rdio 
numa estao de rock'n'roll e abriu uma Diet Coke. A msica acordou o papagaio. 
Herky comeou a berrar, acompanhando John Cougar Mellencamp. Os papagaios 
geralmente respondem  guitarra eltrica, Nancy pensou.
As crianas sentaram  mesa da cozinha para comer a aveia instantnea. Nancy disse 
que ia trabalhar at mais tarde, de modo que teriam de preparar o jantar sozinhos. Abriu 
o freezer e viu que ainda tinha um cozido. Seria timo para as crianas. Eles podiam 
descongelar no microondas. Pela janela da cozinha viu os dois descendo a colina para 
esperar o nibus da escola... "Isto no  trabalho para uma mulher casada. Voc vai 
negligenciar o trabalho ou a famlia", foram as palavras de um oficial superior, muito 
tempo atrs.
Cortou um pedao de po doce, apanhou uma ma e comeu no carro, a caminho de 
Reston. Quando chegou na casa dos macacos, Jerry j estava l dentro.
A sala de estgio estava lotada, quente, barulhenta, confusa. Os entendidos no uso dos 
trajes espaciais aconselhavam os membros da equipe enquanto se vestiam. Nancy nunca 
havia usado um traje Racal de campo, mas os princpios eram os mesmos usados para o 
Chemturion. O primeiro e mais importante era que o interior do traje espacial era um 
casulo carregando o mundo normal, que eles levavam para uma zona quente. Se 
houvesse qualquer abertura no traje, o mundo normal desaparecia, confundindo-se com 
o mundo quente e a pessoa ficava exposta. Ela comeou a explicar, enquanto eles 
vestiam os trajes.
 Seu traje est sob presso  disse Nancy.  Se por acaso for rasgado, deve ser 
fechado imediatamente para no perder presso, o que contaminaria o ar que entra no 
traje.  Ergueu um rolo de fita isolante adesiva marrom.  Antes de entrar, passo um 
pedao extra de fita no meu tornozelo, assim.  Demonstrou como deviam fazer, 
girando o rolo vrias vezes em volta do tornozelo, como quem enfaixa um msculo 
distendido.  Podem tirar um pedao de fita isolante do tornozelo para consertar 
qualquer abertura no traje  disse ela.  Uma centena de imprevistos pode ocorrer e 
rasgar seu traje.
Falou ento sobre macacos com Ebola.
 Se esses macacos estiverem infectados com Ebola, esto cheios de vrus e uma 
mordida deles representa uma exposio devastadora  disse ela.  Os animais 
clinicamente doentes com Ebola expelem uma poro de vrus. Os macacos so muito 
rpidos. Uma mordida significaria a condenao  morte. Sejam exageradamente 
cautelosos. Saibam sempre onde esto suas mos e seu corpo. Se o traje se sujar de 
sangue, parem o que esto fazendo e limpem imediatamente. No deixem que as luvas 
fiquem sujas de sangue. Lavem imediatamente. Com luvas ensangentadas no podem 
ver se esto furadas ou no. Outra coisa. No devem tomar muito caf ou outro qualquer 
lquido antes de entrar. Vo ficar no seu traje espacial durante muito tempo.
As baterias que pressurizavam os trajes tinham autonomia para seis horas. Todos teriam 
de sair da rea quente para a descontaminao antes das baterias deixarem de funcionar, 
do contrrio, teriam um srio problema.
JERRY JAAX e o capito Mark Haines seguiram no escuro para a porta, na outra 
extremidade do corredor que dava para a zona quente. Eles a abriram e entraram na 
juno de dois corredores, numa cacofonia de gritos de macacos. O sistema de ar 
condicionado no estava funcionando e a temperatura parecia acima de 32 graus. O 
capacete de Jerry, em forma de bolha, ficou embaado e ele o empurrou de encontro ao 
rosto para tirar a umidade da placa transparente. Agora podia ver. As paredes eram de 
cimento cinzento e o cho de concreto pintado.
Notou um movimento  sua esquerda, voltou-se e viu dois empregados da Hazleton 
caminhando para ele. No deviam estar ali! A rea devia estar lacrada, mas os homens 
tinham chegado por outro caminho que passava por outro quarto de depsito. Estavam 
usando respiradores, mas nada protegia seus olhos. Quando viram os dois homens com 
trajes espaciais, pararam, atnitos. Jerry no podia ver os lbios deles, mas via os olhos 
arregalados de espanto. Era como se eles tivessem de repente descoberto que estavam 
andando na lua.
Jerry hesitou, mas finalmente perguntou:
 QUAL O CAMINHO PARA A SALA H?  gritou para ser ouvido entre o ronco do 
seu equipamento de ar.
Eles o levaram pelo corredor at a sala infectada. Ficava na outra extremidade do 
corredor. Ento os homens voltaram para a frente do prdio e encontraram Dan Dalgard 
no escritrio, esperando a entrada do Exrcito. Logo depois ele apareceu na sala H, com 
um respirador, para ver o que estava acontecendo. Jerry olhou para ele como se Dalgard 
fosse louco. Era como se combinasse um encontro e a pessoa aparecesse nua.
Dalgard no gostou daidia dos trajes espaciais. Aparentemente no sabia que 
equipamento o Exrcito ia usar. Percorreu com eles a sala H, muito nervoso.
 Parece que temos macacos doentes aqui  disse ele.
Quando viram os trajes espaciais, alguns macacos enlouqueceram. Comearam a girar 
nas gaiolas ou se encolhiam nos cantos. Outros olhavam para os humanos com rostos 
inexpressivos.
 Vejam os sinais clnicos  disse Dalgard, apontando para um macaco.  Tenho 
certeza de que sei quando um macaco est doente. Fica um pouco deprimido, no come 
e dentro de um ou dois dias est morto.
Jerry queria ver todos os macacos da casa dos macacos. Ele e o capito Haines voltaram 
pelo corredor e foram de sala em sala, percorrendo todo o prdio. Viram outros macacos 
que pareciam deprimidos, com o rosto inexpressivo. Jaax e Haines, que sabiam um 
bocado sobre macacos, no gostaram do que sentiam naquele prdio. Alguma coisa 
vivia ali, alm de macacos e gente.
NANCY JAAX COMEOU a se preparar para entrar. Vestiu a roupa cirrgica no 
caminho, atravessou correndo o gramado e entrou na rea de estgio. A equipe de 
apoio a ajudou a vestir o traje espacial. Ela apanhou vrias caixas com seringas e entrou 
com o capito Steven Denny. Passaram pela cmara de compresso e caminharam para 
a porta na outra extremidade. Ela abriu a porta, entrou no corredor comprido, vazio. 
Todos estavam na sala H.
Jerry achou que Nancy parecia o Michelin do anncio. O traje era grande demais para 
ela e ondulava em volta do seu corpo quando ela andava.
Nancy notou muco e corrimento no nariz de alguns macacos. Dalgard escolheu quatro 
macacos doentes para o sacrifcio, aqueles que pareciam em pior estado. Ele mesmo 
aplicou as injees. Quando eles dormiram, aplicou a segunda rodada de injees, e 
seus coraes pararam.
A sala estava cheia de gente com trajes espaciais. Eles chegavam aos pares e se 
amontoavam, sem ter o que fazer. Um deles era o sargento Curtis Klages. Ele disse para 
algum ao seu lado: "ORA, ISTO  UM GRANDE CHARLIE FOX-TROT", o cdigo 
para CE que significa clusterfuck. Um clus-terfuck  uma operao militar que acaba 
em confuso, com as pessoas colidindo umas com as outras, e perguntando o que est 
acontecendo.
Nancy olhou para o sargento, instintivamente verificando o traje dele e viu um corte na 
altura do quadril. Tocou no brao dele e apontou para a abertura. Tirou um pedao da 
fita isolante extra do seu tornozelo e fechou o corte.
Nancy tirou os quatro macacos mortos das gaiolas, segurando-os pelos braos, de costas 
para ela e ps dentro dos sacos de plstico de biorrisco. Levou os sacos para a porta, 
onde algum tinha deixado um vaporizador manual de jardim com Clorox, ao lado de 
outros sacos de plstico. Ela ps os macacos nos segundos sacos e vaporizou um a um, 
depois os levou para os contineres de biorrisco, as caixas de chapu, que vaporizou 
tambm para descontaminar. Finalmente ps cada caixa dentro de um terceiro saco 
plstico e vaporizou. Bateu na porta. " NANCY JAAX. ESTOU SAINDO." A porta 
foi aberta do outro lado por um sargento da equipe de descontaminao. Ele vestia um 
traje Racal e tinha um vaporizador com desinfetante. Nancy entrou na cmara de 
compresso, empurrando com o p as caixas de chapu.
No escuro, com o zumbido do aparelho de ar, ele gritou para ela: ABRA OS BRAOS 
E GIRE O CORPO DEVAGAR." O sargento vaporizou o traje dela durante cinco 
minutos, at a cmara ficar saturada de desinfetante. Era boa a sensao de frio, mas o 
cheiro passava pelos filtros e fazia arder a garganta. Ele vaporizou tambm os sacos de 
plstico. Ento abriu a porta para a rea de estgio e, piscando na luz, Nancy saiu, 
empurrando os sacos na sua frente.
A equipe de apoio tirou o traje espacial de Nancy. Ela estava encharcada de suor. A 
roupa cirrgica estava completamente molhada. Agora tremia de frio. Atravessou o 
gramado correndo e vestiu suas roupas civis dentro do caminho.
Enquanto isso, os sacos eram acondicionados em caixas e carregados para o caminho 
refrigerado. Nancy voltou para Fort Detrick sentada ao lado do chofer do caminho. Ela 
queria levar os macacos para o nvel 4 e examin-los o mais depressa possvel.
JERRY JAAX CONTOU 65 animais na sala, depois de Nancy ter removido os quatro 
doentes. Gene Johnson tinha levado um injetor especial, usado na frica. Jerry usou o 
aparelho para dar as injees nos macacos. Era uma vara com um prende-dor na ponta. 
A seringa era encaixada no prendedor e a vara era inserida na gaiola. Precisava tambm 
de alguma coisa para segurar o animal porque os macacos no gostam de ver uma 
seringa indo em sua direo. Usaram um cabo de esfrego com uma almofada macia, 
em forma de U, na ponta. O capito Haines imobilizava o macaco com a pequena 
almofada, Jerry inseria a vareta na gaiola e injetava no macaco uma dose dupla de 
cetamina, um anestsico geral. Foram de gaiola em gaiola, injetando todos os macacos. 
Logo os animais estavam anestesiados. Ento, Jerry aplicava uma injeo do sedativo 
Rom-pun, que os fazia dormir profundamente.
Quando todos os macacos estavam desacordados, eles armaram duas mesas de ao 
inoxidvel, colheram amostras de sangue, uma de cada vez e aplicaram a terceira 
injeo, agora uma droga letal chamada T-61, que  um agente de eutansia. Quando o 
macaco estava clinicamente morto, era aberto pelo capito Steve Denny, que, com 
tesouras especiais, tirava amostras do fgado e do bao, que eram guardadas em jarras 
de plstico. Os macacos mortos eram postos nos sacos e depois nas caixas de chapu 
que eram deixadas no corredor. Enquanto isso, Dan Dalgard, saiu da sala e ficou no 
escritrio na frente do prdio, durante todo o resto do dia.
No fim da tarde, todos os macacos da sala H estavam mortos. Atrs do prdio, alm das 
rvores, no p da colina as crianas brincavam de roda em volta de uma casa de 
brinquedo. Suas vozes eram levadas at muito longe pelo ar frio de dezembro. Os 
automveis com pais e mes chegaram para apanh-las. A equipe saiu aos pares da zona 
quente e ficaram todos com suas roupas civis, parados na grama, plidos, fracos e 
pensativos. Ao longe, as luzes se acendiam nos monumentos e nos prdios de 
Washington. Era a noite de sexta-feira, uma semana depois do dia de Ao de Graas, 
um tranqilo fim de semana que precede os feriados do Natal. O vento, mais forte, fazia 
redemoinhos de copos de papel e maos vazios de cigarros nos estacionamentos do 
parque industrial. Num hospital, no longe dali, Jarvis Purdy, o tratador de macacos 
infartado, descansava confortavelmente, sua condio estvel.
De volta ao Instituto, Nancy Jaax trabalhou outra vez at uma hora da manh, 
dissecando macacos ao lado do seu companheiro de zona quente, Ron Trotter. Quando 
vestiram os trajes e entraram, cinco macacos mortos esperavam por eles na cmara de 
compresso.
Dessa vez os sinais do Ebola eram bvios. Nancy encontrou o que ela descreveu como 
"horrendas leses nos intestinos", em alguns dos animais, provocadas pelo 
desprendimento do revestimento dos intestinos. Esse desprendimento era um sinal 
clssico. O intestino estava arrasado, completamente cheio de sangue no coagulado e 
ao mesmo tempo havia coagulao macia do sangue nos msculos intestinais. Os 
cogulos interrompiam toda a circulao, provocando a morte das clulas  isto , os 
intestinos estavam mortos  e enchendo de sangue a cavidade abdominal. Intestino 
morto  era o tipo de coisa que se encontra num corpo em decomposio. Nas palavras 
de Nancy: "Era como se os animais estivessem mortos h trs ou quatro dias". Contudo 
tinham morrido h poucas horas. Alguns estavam to liqefeitos que ela e Trotter nem 
se deram ao trabalho de fazer a necropsia, limitando-se a recolher amostras do fgado e 
do bao. Os macacos que estavam morrendo na sala H tinham se transformado 
essencialmente num monte de massa informe e ossos dentro da pele, misturado com 
enormes quantidades de vrus amplificados.
4 DE DEZEMBRO, 7:30, SEGUNDA-FEIRA
NASCER DO SOL. O fim de semana chegou e se foi. A segunda-feira amanheceu fria e 
agressiva, com um vento que trazia o cheiro de neve do cu cor de ao. As luzes de 
Natal enfeitavam as galerias comerciais de Washington. Os estacionamentos estavam 
vazios, porm mais tarde ficariam repletos de carros e as galerias repletas de pais e 
filhos e as crianas fariam fila para ver os homens vestidos de Papai Noel, sentados nas 
suas cadeiras. Dan Dalgard foi para o prdio dos primatas, mais um automvel no mar 
do trfego matinal.
Entrou no estacionamento. Quando se aproximou do prdio viu um homem de p ao 
lado da porta da frente, perto da rvore, com um traje protetor. Era um dos tratadores 
dos macacos. Dalgard ficou furioso. Dera ordem para ningum sair do prdio usando 
mscara ou a roupa protetora. Ele saltou do carro, bateu a porta, atravessou correndo o 
estacionamento e aproximou-se do prdio. Quando chegou perto, reconheceu o homem 
que chamaremos de Milton Frantig. Frantig estava inclinado para a frente, com as mos 
nos joelhos. Aparentemente no viu Dalgard, e continuou a olhar para a grama. De 
repente teve uma convulso e um jorro de lquido saiu da sua boca. Comeou a vomitar 
sem parar e o som dos espasmos chegava at o estacionamento.
Um homem desmoronado. VENDO O HOMEM despejar o estmago no gramado, 
Dalgard, segundo suas palavras, ficou "borrado de medo". Pela primeira vez, 
compreendeu o horror absoluto da crise no prdio dos primatas. Milton Frantig estava 
com o corpo dobrado para a frente, respirando com dificuldade e quase sufocando. 
Quando passou o acesso de vmito, Dalgard o ajudou a entrar no prdio e deitar num 
sof. Dois empregados estavam doentes agora  Jarvis Purdy continuava no hospital, 
recobrando-se do infarto. Milton Frantig tinha 50 anos. Sofria de tosse crnica, rascante, 
mas no fumava. Trabalhava com os macacos e com Dalgard, em Hazleton, h mais de 
25 anos. Dalgard, que o conhecia bem e gostava dele, ficou abalado, com medo e com 
sentimento de culpa. Talvez devesse ter evacuado o prdio na semana anterior. Teria 
posto o interesse dos macacos acima dos seres humanos?
Milton Frantig estava plido, trmulo e quase desmaiando. Comeou a vomitar em seco. 
Dalgard levou um balde de plstico para ele. Entre os espasmos de vmito, 
interrompidos por crises de tosse, Frantig pediu desculpas por sair do prdio com a 
roupa protetora. Disse que estava vestindo a roupa e o respirador para entrar na sala dos 
macacos quando comeou a sentir nuseas. Talvez o cheiro do prdio tivesse provocado 
o enjo, porque as salas dos macacos no estavam sendo limpas como de costume. Ele 
sentiu que ia vomitar e no encontrou nenhum balde. A nusea era to incontrolvel que 
no conseguiu chegar ao banheiro e por isso correu para fora.
Dalgard queria tirar a temperatura de Frantig, mas ningum encontrou um termmetro 
que no tivesse sido usado para tirar a temperatura retal dos macacos. Mandou Bill Volt 
comprar um na farmcia. Quando Bill voltou verificaram que Frantig estava com 38 
graus de febre. Bill Volt vagava pela sala, quase tremendo de medo. Volt estava 
descontrolado  "quase em espasmo de terror", lembrou Dalgard mais tarde, mas no 
era diferente do que o prprio Dalgard sentia.
Milton Frantig era a pessoa mais calma na sala. Ao contrrio de Dalgard e de Volt, no 
parecia ter medo. Era cristo devoto, sempre dizendo que fora salvo. Se o Senhor tinha 
resolvido lev-lo com a doena dos macacos, ele estava pronto. Rezou um pouco, 
lembrando suas passagens favoritas da Bblia e os acessos de nusea cessaram. Logo ele 
estava descansando muito quieto no sof e disse que se sentia um pouco melhor.
 Quero que voc fique onde est  disse Dalgard.  No saia do prdio.
Dalgard entrou no seu carro e foi o mais depressa possvel para os escritrios da 
Hazleton Washington, na Leesburg Pike. Foi uma viagem rpida e quando chegou, 
estava resolvido. A casa dos macacos tinha de ser evacuada. Imediatamente.
Trs homens trabalhavam no prdio e dois estavam doentes, um com infarto, o outro 
com febre e vmito. Do que Dalgard sabia sobre o Ebola, qualquer uma dessas duas 
doenas podia ser sinal de infeco. Esses homens tinham feito compras, visitado 
amigos e comido em restaurantes. Provavelmente tiveram relaes sexuais com suas 
mulheres. Dalgard nem queria pensar nas conseqncias.
Na Hazleton Washington, Dalgard foi direto ao escritrio do gerente-geral. Pretendia 
inform-lo da situao e conseguir sua aprovao para evacuar a casa dos macacos.
 Temos dois homens no hospital  disse Dalgard.
Descreveu o que tinha acontecido com Frantig e, pensando no tempo que o conhecia, 
comeou a chorar. No conseguiu se controlar e chorou. Tentando se acalmar, 
continuou com a voz embargada:
 Eu recomendo que toda a operao da casa dos macacos seja terminada o mais 
depressa possvel. Minha recomendao  fechar tudo e entregar para o Exrcito. Temos 
essa maldita doena desde outubro, nada aconteceu, e de repente, dois homens esto no 
hospital. Eu achava que, se houvesse realmente risco humano, j teramos constatado a 
esta altura. Brincamos com fogo durante muito tempo.
O gerente-geral concordou com Dalgard em evacuar e acabar com a casa dos macacos. 
Ento, controlando as lgrimas, Dalgard voltou para seu escritrio onde encontrou um 
grupo de funcionrios dos CDC  sua espera. Sentiu que a presso jamais ia ser aliviada. 
Os funcionrios dos CDC acabavam de chegar a Hazleton para comear a examinar 
todos os empregados que tinham sido expostos ao vrus. Dalgard contou o que acabara 
de acontecer na casa dos macacos, que um homem estava vomitando e com febre. Ele 
disse:
 Eu recomendei que a casa dos macacos seja evacuada. Acho que o prdio e os 
macacos devem ser entregues ao USAMRIID, que tem equipamento e pessoal para 
operar com segurana.
Os funcionrios dos CDC ouviram e no contestaram.
Ento, precisavam decidir o que fazer com Milton Frantig, que estava ainda deitado no 
sof, obedecendo  ordem de Dalgard. Uma vez que os CDC estavam encarregados do 
aspecto humano do caso, os CDC estavam encarregados de Frantig  e os CDC 
queriam que ele fosse levado para o hospital pairfax, no muito distante da casa dos 
macacos.
Eram 9:20 da manh. No seu escritrio, Dalgard enfrentou a situao, manejando a crise 
por telefone. Telefonou para C.J. Peters, em Fort Detrick, e disse que um tratador dos 
macacos estava doente. Com sua voz seca, calma, sem nenhum sinal de que tinha 
chorado, ele disse para Peters:
 Voc tem permisso para considerar o prdio e todos os animais como 
responsabilidade total do USAMRIID.
Peters desconfiou da frase "responsabilidade total do USAMRIID". Sugeria que, se 
alguma coisa desse errado e algum morresse, o Exrcito seria responsvel e poderia ser 
processado. Peter queria controlar o prdio e destru-lo, mas no queria litgios legais. 
Disse a Dalgard que a segurana do seu pessoal e a segurana do pblico em geral eram 
as coisas mais Importantes para ele, mas que precisava de permisso do seu comando. 
Disse que telefonaria para Dalgard logo que fosse possvel, com a permisso oficial.
Ento quis saber do homem doente e Dalgard disse que ele ia ser levado para o hospital 
Fairfax. Isso preocupou Peters. Achava que deviam supor que o homem era um caso de 
Ebola e perguntou se Dalgard achava que devia ser levado para um hospital da 
comunidade. Veja o que o Ebola fez nos hospitais da frica. Peters disse que o homem 
devia ir para o Slammer do instituto.
Assim que terminou sua conversa com Dalgard, Peters telefonou para Joe McCormick, 
que estava chefiando a operao dos CDC. Peters disse mais ou menos isto:
 Eu sei da sua idia de que uma mscara cirrgica e um avental so suficientes para 
tratar um paciente com Ebola, mas eu acho que deve usar um tipo de conteno de nvel 
mais alto  e disse que mandaria uma ambulncia do Exrcito apanhar o doente, pr o 
homem no cilindro de bioconteno e levar o cilindro para a rea de bioconteno do 
Exrcito, no instituto. Isto , o Slammer.
Peters lembra que McCormick disse mais ou menos isto:
 Eu quero o cara no hospital Fairfax. C.J. respondeu:
 Tudo bem. Eu acredito nisto, Joe, e voc acredita naquilo e no concordamos. 
Mesmo assim, o que vai acontecer  equipe mdica do Fairfax ou a voc, Joe, se o vrus 
Ebola pegar aquele hospital?
McCormick no se deixou convencer. Tinha estado face a face com o Ebola na frica e 
no apanhou o vrus. Tinha trabalhado durante dias dentro de uma cabana de barro cheia 
de sangue Ebola, ajoelhado perto de pessoas que estavam desmoronando e sangrando 
at a morte. No precisamos de um traje espacial para tratar um paciente com Ebola. 
Pode ser tratado por enfermeiras qualificadas num bom hospital. O homem ia para o 
hospital Fairfax. Apesar de no gostar dele, C! J. Peters admirou McCormick por tomar 
uma deciso importante naquela situao difcil.
UM FURGO do noticirio do canal 4 de televiso, de Washington, chegou  casa dos 
macacos. Os empregados espiaram entre as cortinas e quando o reprter chegou  porta 
e tocou a campainha, ningum atendeu. Dalgard deixara bem claro que ningum devia 
falar com a mdia. Nesse momento, uma ambulncia do hospital Fairfax chegou para 
levar Frantig. O canal 4 no podia ter escolhido um momento melhor. A equipe 
jornalstica acendeu suas luzes e comeou a filmar a ao. A porta
da casa dos macacos se abriu e Milton Frantig cambaleou para fora, ainda com sua 
roupa protetora Tyvek, bastante constrangido. Caminhou para a ambulncia, a equipe 
mdica abriu as portas do veculo, Frantig subiu e deitou na maca. Eles fecharam as 
portas e partiram com a equipe do canal 4 atrs. Alguns minutos depois, a ambulncia e 
o furgo entraram no
hospital Fairfax. Frantig foi levado para um quarto do isolamento, com acesso restrito a 
mdicos e enfermeiros com luvas, aventais e mscaras cirrgicas. Ele disse que estava 
melhor. Rezou ao Senhor e assistiu a um pouco de televiso. Na casa dos macacos a 
situao tornou-se insustentvel para os outros empregados. Eles tinham visto gente 
com trajes espaciais, tinham visto Frantig vomitando na grama, tinham visto o canal 4 
perseguindo a ambulncia. Saram do prdio apressadamente e trancaram todas as 
portas.
Havia 450 macacos vivos no prdio e seus gritos ecoavam nos corredores vazios. Eram 
11 horas da manh. A neve caa intermitentemente. O frio aumentava. Na casa dos 
macacos o sistema de controle do ar pifou por completo. A temperatura do ar no prdio 
estava acima de 32 graus e o lugar estava mido, malcheiroso, vibrando com os gritos 
dos macacos. Os animais agora estavam furiosos porque no tinham recebido seus 
biscoitos matinais. Aqui e ali, em todas as salas do prdio, alguns macacos estavam com 
olhos parados no rosto inexpressivo e alguns com sangue escorrendo dos orifcios do 
corpo. O sangue caa nas bandejas de metal debaixo das gaiolas... ping, ping, ping.
91 - Tangos
10:30 HORAS, SEGUNDA-FEIRA
A CRISE SE agravava em Reston. Dan Dalgard percebia que estava perdendo o 
controle de tudo. Convocou uma reunio com todos os principais gerentes da sua 
companhia e os informou da situao  dois empregados estavam doentes e o segundo 
podia estar com Ebola  e disse que tinha proposto a entrega da casa dos macacos ao 
Exrcito. Eles aprovaram, mas disseram que queriam por escrito o acordo com o 
Exrcito. Alm disso, queriam que o Exrcito concordasse em assumir responsabilidade 
total pelo prdio.
Dalgard telefonou para C.J. Peters e perguntou se o Exrcito assumia a responsabilidade 
por qualquer coisa que acontecesse depois que eles tomassem conta. C.J. recusou 
terminantemente a proposta. Ele queria clareza, rapidez e nada de advogados. Na sua 
opinio, o caso chegara a um ponto que exigia uma deciso imediata. Dalgard props 
enviar por fax uma carta concordando em entregar a casa dos macacos ao Exrcito. 
Juntos escolheram os termos e C.J. levou a carta ao escritrio do general Philip Russell. 
Ele e o general estudaram atentamente a carta e resolveram no mostr-la aos 
advogados do Exrcito. Russell disse:
 Temos de convencer os advogados de que este  o caminho da justia.
Assinaram a carta, devolveram a Dalgard por fax e a casa dos macacos estava nas mos 
do Exrcito.
Jerry Jaax teria de liderar uma equipe muito mais numerosa para a operao na casa dos 
macacos. O nmero de animais era espantoso. Tanto para ele, quanto para seus homens, 
era a primeira vez que faziam aquele trabalho. Sendo assim, no era possvel prever 
como iam agir, como oficiais e soldados, numa situao catica que envolvia medo 
intenso da possibilidade de uma morte terrvel. Jerry era um bom oficial, um lder 
natural e uma das qualidades que contribuam para isso era um certo distanciamento da 
dor bsica da vida. Um trabalho tinha de ser feito e voc lidera seus homens para 
realiz-lo, acontea o que acontecer.
Jerry era o oficial comandante da unidade 91-Tangos, no instituto. Os tcnicos que 
tratam de animais no Exrcito so classificados como 91-T, que na gria militar se torna 
91-Tangos. Os membros mais jovens do 91-Tangos tm dezoito anos e so soldados 
rasos. Enquanto a ambulncia levava Milton Frantig para o hospital, Jerry reuniu seus 
91-Tangos e sua equipe civil na sala de conferncias do instituto. Enquanto a maioria 
dos soldados era muito jovem e tinha pouca ou nenhuma experincia no uso de trajes 
espaciais, os civis eram mais velhos e alguns deles especialistas do nvel 4 que usavam 
Chemturions quase diariamente. A sala estava lotada, e alguns sentaram no cho.
 O vrus  o Ebola ou um agente igual ao Ebola  disse Jerry.  Ns vamos lidar 
com grandes quantidades de sangue. E vamos manejar instrumentos cortantes. 
Usaremos trajes de bioconteno descartveis.
Todos ouviam em silncio. Jerry no mencionou o fato de que havia um homem doente, 
porque no sabia ainda  C. J. Peters no o havia informado. Por enquanto, Peters 
queria manter em segredo a doena de Milton Frantig.
Jerry disse para seu pessoal:
 Queremos voluntrios. Algum nesta sala no quer ir? No podemos obrig-los.
Ningum desistiu. Jerry comeou a escolher.
 Sim, ele vai. Ela vai e, sim, voc vai. Jerry resolveu que a sargento Swiderski no 
podia ir por
estar grvida. Os efeitos do Ebola em mulheres grvidas eram extremamente graves.
Nenhuma unidade de combate do Exrcito poderia executar aquele trabalho. No ia 
haver pagamento extra de risco, como na zona de combate. O Exrcito tinha uma teoria 
a respeito dos trajes espaciais biolgicos, segundo a qual, o trabalho com traje espacial 
no era arriscado, porque o indivduo estava dentro de um traje espacial. Que diabo, 
perigoso seria manipular agentes quentes sem o traje espacial. Os soldados receberiam o 
soldo comum. Sete dlares por hora. Jerry disse que no deviam comentar a situao 
com pessoa alguma, nem mesmo com a famlia.
 Quem tiver tendncia para claustrofobia, pense nisso agora  aconselhou ele.
Disse que deviam usar trajes civis e estar na zona de carga e descarga do instituto s 5 
horas, na manh seguinte.
4 - 5 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA A TERA-FEIRA
Os SOLDADOS no dormiram muito naquela noite, tampouco Gene Johnson. Ele 
estava morrendo de medo pelos "garotos", como os chamava. J tivera sua cota mais do 
que alta de sustos com os agentes quentes. Certa vez no Zaire ele se picou com uma 
agulha de injeo quando colhia sangue de um camundongo. Havia motivos para pensar 
que o camundongo estava quente, por isso levaram Gene de avio para o instituto e o 
isolaram no Slammer durante trinta dias. "No foi uma viagem divertida", disse ele. 
"Eles me trataram como se eu fosse morrer. No me davam tesoura para aparar a barba 
porque pensavam que eu ia cometer suicdio. E  noite me trancavam." Na caverna 
Kitum, dissecando animais, vestido com o traje espacial, ele se cortou trs vezes com 
instrumentos sujos de sangue. Trs vezes seu traje espacial foi furado, a pele cortada e o 
corte sujo com sangue de animal. S por muita sorte no tinha pegado o Marburg ou 
qualquer outra coisa na caverna Kitum. Gene Johnson tinha muito medo da coisa que 
vivia na casa dos macacos.
Johnson morava numa velha casa vitoriana no lado da montanha Catoctin. Passou 
grande parte da noite no seu estdio, pensando na operao da casa dos macacos. Cada 
movimento do corpo numa zona quente devia ser controlado e planejado. Gene pensava, 
onde esse vrus vai nos pegar? Nas mos. As mos so o ponto fraco. Acima de tudo, as 
mos devem estar sob controle.
Sentado na poltrona, ele ergueu as mos e as examinou. Quatro dedos e o polegar 
separado. Exatamente como as mos dos macacos. Com a diferena de estar ligada a 
uma mente humana. E estaria protegida e isolada pela tecnologia. O que separava a mo 
humana da natureza era o traje espacial.
Levantou da poltrona e comeou a mover as mos no ar. Agora, aplicando uma injeo 
no macaco. Agora estava carregando o macaco para uma mesa. Estava pondo o macaco 
na mesa. Estava numa zona quente. Estava abrindo o corpo do macaco e mergulhando 
as mos num lago de sangue, cheio de agentes quentes amplificados. Por fora das trs 
camadas de borracha que as cobriam, suas mos estavam cheias de sangue e de um 
agente quente.
Tomou vrias notas. Depois voltou para sua zona quente imaginria. Inseriu uma 
tesoura no corpo do macaco e cortou uma parte do bao, que entregou para algum ao 
seu lado. Onde essa pessoa devia estar? Atrs dele? Agora tinha uma agulha na mo. 
Tudo bem, tenho uma agulha na mo.  um objeto letal. Se eu for destro, estou com a 
agulha na mo direita. Sendo assim, meu companheiro deve estar  minha esquerda, 
longe da agulha. Agora as mos do meu companheiro. O que suas mos estaro 
fazendo? O que estaro fazendo as mos de todos? No comeo do dia Gene havia 
escrito muitas pginas de anotaes. Era o roteiro para uma operao de biorrisco.
JERRY JAAX SAIU de casa s 4 horas da manh, quando Nancy ainda dormia. 
Encontrou-se com Gene Johnson na zona de carga e os dois estudaram o roteiro feito 
por Gene. Jerry memorizou o procedimento, enquanto comeavam a chegar os membros 
da sua equipe, os soldados da sua unidade. Muitos chegavam a p, vindos dos 
alojamentos. Ficaram reunidos, esperando as ordens. Estava muito escuro ainda e s os 
holofotes iluminavam a cena. Jerry tinha resolvido usar um sistema de pares dentro do 
prdio e comeou a determinar quem entrava com quem. Anotou os pares numa folha 
de papel e a ordem de entrada, a seqncia em que seriam inseridos no prdio. Depois 
leu em voz alta e eles entraram nos veculos  um caminho branco refrigerado, dois 
transportes de passageiros sem identificao, uma pickup tambm sem identificao, a 
ambulncia branca sem identificao com a maca-bolha e um grande nmero de carros 
civis  e seguiram para Reston. Outra vez entraram na estrada na hora do rush, 
seguindo lentamente, no meio deyuppies sonolentos que tomavam caf em copos de 
papel, ouviam informaes sobre o trfego ou rock'n'roll.
Quando todos os veculos chegaram  casa dos macacos, as equipes se reuniram no 
gramado e Gene Johnson pediu ateno de todos. Seus olhos fundos com olheiras 
sugeriam que no dormia h dias.
 No estamos aqui para brincar  ele disse.  Isto  real. Um ataque biolgico de 
nvel 4 no  um treinamento. Aconteceu uma coisa que quero que todos saibam. H 
possibilidade de o vrus j se ter transmitido para seres humanos. Dois homens doentes 
esto hospitalizados, ambos tratadores dos animais deste prdio. Estamos preocupados 
especialmente com um deles. Ele ficou doente ontem de manh. Vomitou e teve febre 
alta. Est no hospital. No sabemos se est infectado com o Ebola. O que eu quero que 
compreendam  que ele no foi mordido por nenhum animal, no se cortou nem se 
picou com uma agulha. Portanto, se ele estiver com o Ebola  possvel que tenha sido 
infectado por transmisso area.
Jerry Jaax ouvia com horror crescente. No sabia da doena do homem! Ningum o 
havia informado! Agora, tinha a sensao de que teriam fatalidades.
O dia estava gelado e cinzento. As folhas cadas das rvores atrs da casa dos macacos 
voavam sobre o gramado. Os pais j haviam deixado os filhos na creche, no sop da 
colina e as crianas brincavam nos balanos. Gene Johnson continuou:
 Todos devem proceder partindo do pressuposto de que o vrus Ebola  
potencialmente transmissvel atravs do ar  disse ele.  Vocs conhecem os riscos e 
so experientes.  Olhou para o soldado de primeira classe, Nicole Berke. Nicole era 
muito bonita, tinha cabelos louros e longos, 18 anos  e pensou, quem  ela? Nunca a 
vi antes. Deve ser da equipe de Jerry. No passam de crianas, no sabem o que vo 
enfrentar.  Devem seguir os procedimentos certos com exatido  continuou ele.  
Se tiverem perguntas, faam agora.
Jerry Jaax disse ento:
 Nenhuma pergunta  absurda. Perguntem o que quiserem.
O soldado Nicole Berke estava imaginando se teria uma chance de entrar no prdio.
 Durante quanto tempo vamos fazer isso, senhor?
 At todos os macacos estarem mortos  ele respondeu.  H 450 macacos l 
dentro.
Oh, Deus, ela pensou, quatrocentos e cinqenta macacos, isto vai levar a vida toda.
As perguntas foram poucas. Todos estavam tensos, silenciosos, ensimesmados. Jerry 
Jaax entrou na rea de estgio e a equipe de apoio o ajudou a vestir o traje Racal. 
Puseram o capacete-bolha na sua cabea e o ar comeou a roncar. Disse para a equipe 
que os veria l dentro e entrou na cmara de compresso com seu companheiro, o 
sargento Thomas Amen. A porta se fechou atrs deles e ficaram no escuro. Seguiram 
pelo corredor escuro, abriram a outra porta e passaram para o lado quente.
Encontraram um monte de lixo. A rea no era limpa h muitos dias. Os empregados 
tinham abandonado tudo com pressa. Havia biscoitos de macacos e papis espalhados 
por toda parte, e nos escritrios as cadeiras estavam viradas. Jerry e o sargento 
comearam a explorar o prdio. Moviam-se lenta e cautelosamente com seus trajes, 
como mergulhadores operando no fundo do mar, no meio de destroos de navios. Jerry 
chegou a um corredor que ia dar em outras salas de macacos. Viu uma sala cheia de 
macacos, todos olhando para ele. Setenta pares de olhos de macacos fixaram-se num par 
de olhos dentro do traje espacial  e os animais enlouqueceram. Estavam com fome e 
esperavam a comida. A sala estava na mais completa desordem. Mesmo dentro das 
gaiolas os macacos podiam criar a maior confuso. Tinham jogado biscoitos para todo 
lado e passado fezes nas paredes. Todas as paredes estavam rabiscadas de alto a baixo 
com a escrita dos macacos. Era uma mensagem para a raa humana, diretamente da 
alma do primata.
Jerry e o sargento encontraram alguns sacos de biscoitos e foram de sala em sala 
distribuindo alimento para todos. Os macacos iam ser sacrificados, mas Jerry no queria 
que sofressem mais do que era necessrio. Enquanto os alimentava, procurava os sinais 
do Ebola. Em muitas salas encontrou animais com olhos sem brilho e apticos. Alguns 
tinham corrimento do nariz, ou crostas que pareciam de sangue seco em volta das 
narinas. Ele viu poas de sangue em algumas das bandejas sob as gaiolas. Sangue 
expelido pelo reto. Isso o perturbou profundamente, porque indicava que o agente tinha 
invadido o prdio. Alguns macacos tossiam e espirravam, como se estivessem com 
gripe. Jerry imaginou se estaria vendo uma forma mutante do Ebola  uma espcie de 
gripe Ebola transmitida atravs do ar. Procurou afastar a idia pois era terrvel demais 
para ser contemplada. No era possvel imaginar aquilo, como no  possvel imaginar 
uma guerra nuclear. Uma camada de suor cobriu a superfcie interna do capacete de 
plstico, prejudicando sua viso. Mas ele podia ouvir os gritos estridentes superando o 
ronco do seu aparelho de ar. At ento Jerry no tinha sentido claustrofobia nem pnico. 
No ia sentir agora.
VRIOS MEMBROS da equipe passaram a meia hora seguinte na rea de estgio. 
Estavam preparando as seringas, tirando-as dos envoltrios esterilizados e acoplando as 
agulhas. Agora estavam todas prontas para receber os medicamentos. A pouca distncia 
dos soldados, o capito Mark Haines comeou a se vestir. Queria que os soldados no se 
esquecessem de certas coisas quando entrassem com ele.
 Vocs vo praticar a eutansia num prdio inteiro cheio de macacos. Esta operao 
no  brincadeira. No se apeguem aos animais. Eles vo morrer de qualquer modo. 
Todos devem ser mortos, todos, sem exceo. No sintam como se estivessem matando 
alguma coisa. Pensem que esto detendo um vrus, para evitar que ele v para qualquer 
outro lugar. No brinquem com os macacos. No quero ouvir risadas nem brincadeiras 
perto dos animais. Eu posso ser muito duro. Lembrem do credo do veterinrio: vocs 
tm responsabilidades para com os animais e tm responsabilidades para com a cincia. 
Esses animais vo dar suas vidas  cincia. Foram apanhados nesta coisa. No  culpa 
deles. No tiveram nada a ver com isso. Prestem ateno nos seus companheiros. Nunca 
entreguem uma agulha usada para pessoa alguma. A agulha s deve sair da capa 
protetora para injetar um animal. Ponham as seringas usadas num recipiente fechado. Se 
ficarem cansados, notifiquem seu supervisor que ns providenciaremos sua 
descontaminao e sada.
Deu as costas aos homens, abriu a porta e entrou com seu companheiro.
 Quem  o seguinte?  perguntou Gene Johnson, lendo a lista.  Godwin, voc 
agora.
Um soldado primeira classe, Charlotte Godwin, correu para o caminho, subiu e puxou 
a cortina de plstico. Tirou toda a roupa e vestiu a roupa cirrgica, meias, tnis e uma 
touca prendendo o cabelo. O frio dentro do caminho era brutal. Ela se sentiu 
embaraada e vulnervel.
Na sala de estgio comearam a ajud-la a vestir o traje. Algum disse: "Voc  muito 
pequena. Temos um traje especial para voc." No era especial. Era um traje de 
tamanho grande e Charlotte tinha um metro e cinqenta e dois de altura. O traje parecia 
um saco cheio de ar em volta dela. A equipe de apoio comeou a prender o traje nos 
pulsos e nos tornozelos com fita isolante e ligou o aparelho de ar.
Um fotgrafo do Exrcito estava fotografando a parte externa da ao e ela pensou: 
"Meu Deus, vou sair na foto com aquela touca de ar.  um chapu de palhao. Um 
chapu de Bozo. No vo ver meu cabelo e meu traje espacial  grande demais para 
mim. Me faz parecer enorme de gorda. Azar meu ser apanhada como um palhao pelos 
fotgrafos do Exrcito."
Ela caminhou pesadamente para a zona cinzenta e quando entrou, carregando caixas de 
suprimentos, sentiu uma tpica descarga de adrenalina. Ento sentiu o cheiro. Um cheiro 
horrvel estava passando pelos filtros do seu capacete. Seu companheiro bateu na porta e 
eles entraram. Ondulaes na placa transparente do capacete distorciam sua viso, como 
se estivesse numa casa de espelhos. O cheiro de macaco era insuportvel dentro do seu 
traje espacial. Tudo estava quieto e casas de macacos no so lugares silenciosos. O 
silncio a preocupava mais do que o cheiro e o calor.
Uma porta se abriu e o coronel Jaax apareceu. Ele disse:
 COMECEM A CARREGAR AS SERINGAS. DOSES DUPLAS DE CETAMINA.
 SIM, SENHOR  ela respondeu.
 O Sargento e eu vamos comear a matar os macacos l dentro  disse ele.
Charlotte comeou a encher as seringas com cetamina, o anestsico. Jerry Jaax levou 
uma seringa carregada para a sala dos macacos e a prendeu na ponta da vara longa. O 
sargento imobilizou o macaco com a almofada em forma de U, na ponta de um cabo de 
esfrego. Ento Jerry abriu a porta da gaiola. Observando atentamente o macaco, para se 
prevenir de um ataque, Jerry aplicou a injeo atravs da porta aberta, retirou a vareta e 
fechou a porta. Era a parte mais perigosa do trabalho, por causa da porta aberta. O 
animal podia atacar, tentando fugir. Um a um, ele e o sargento abriram as gaiolas, 
aplicaram a injeo e os macacos adormeceram, profundamente anestesiados.
A sala continha duas fileiras de gaiolas de cada lado. A fileira de baixo ficava muito 
perto do cho e Jerry tinha de ajoelhar para ver o animal. Ele mal conseguia ver alguma 
coisa com a bolha de ar na cabea. Seus joelhos estavam doloridos. Ele abria a porta da 
gaiola e o sargento tentava segurar o macaco com a almofada na ponta da vara. O 
macaco corria de um lado para o outro, tentando escapar e ento o sargento dizia: 
"TUDO BEM, PEGUEI. ELE EST PRESO". Jerry apontava a seringa na ponta da 
vareta, para a parte superior da perna do animal. No meio da tentativa para escapar e dos 
gritos  "Cra! Cra!"  Jerry aplicava a injeo. Aquilo estava se tornando a tarefa 
mais difcil de toda a sua carreira de veterinrio.
Os outros membros da equipe entraram no prdio. Jerry os reuniu no hall e disse:
 PAREM A CADA CINCO ou DEZ MINUTOS E VERIFIQUEM O TRAJE DO 
SEU VIZINHO PARA VER SE TEM ALGUMA ABERTURA. TENHAM MUITO 
CUIDADO. NO DEIXEM DE DESCANSAR. eu QUERO QUE DESCANSEM DEZ 
MINUTOS DE HORA EM HORA. QUANDO ESTAMOS CANSADOS FICAMOS 
DESCUIDADOS.
Cada vez que entrava numa sala, uma poro de olhos se voltavam para ele. Alguns 
macacos sacudiam as grades e o som subia e descia na sala.
Jerry resolveu instalar uma rea de necropsia, perto da frente do prdio, ao lado dos 
escritrios. A rea tinha chuveiro e um ralo no centro. Iam precisar do ralo para escoar o 
sangue e para lavar os objetos com desinfetante. Cada vez que o o sangue descia pelo 
ralo. eles derramariam desinfetante  no queriam que aquela coisa entrasse no sistema 
de esgotos de Reston. Encontraram uma mesa de exame com rodas e a levaram para a 
rea de necropsia. Jerry dividiu seu pessoal em sub-equipes (para recolher o sangue), 
uma equipe de eutansia (para sacrificar os macacos) e uma equipe de necropsia (para 
abrir os corpos, colher as amostras e pr as carcaas em sacos de biorrisco.) 
Organizaram uma linha de montagem. De cinco em cinco minutos, mais ou menos, 
Jerry Jaax carregava um macaco inconsciente pelo corredor at a rea de necropsia, 
segurando o animal pelos braos, de costas para ele. Deitava o macaco na mesa e ento 
o capito Mark Haines, o boina-verde, retirava com uma seringa uma boa quantidade de 
sangue do animal que era acondicionado em vrios tubos. Ento passava o animal 
inconsciente para o major Nate Powell, que aplicava uma  injeo de T-61, o agente de 
eutansia. A agulha era inserida diretamente no corao. Era chamada agulha cardaca. 
Quando tinha certeza de que o animal estava morto, ele o entregava para o capito Steve 
Denny, que fazia a necropsia. O capito W Denny abria o corpo com a tesoura e 
cortava partes do fgado e do bao. Os fgados dos animais estavam cinzentos, 
desgastados por eroso e com aparncia horrvel. O soldado Charlotte Godwin 
instrumentava para o capito Denny. Ela notou que ele parecia nervoso e inquieto 
dentro do traje espacial. O capito tirou o bao de um macaco. Estava cheio de pintas 
brancas, duro como pedra, uma bomba biolgica, infestada de agente quente. Depois de 
algum tempo, ele entregou a tesoura para ela e deixou que Charlotte abrisse um macaco. 
Ela ficou nervosa e excitada. Estava fazendo uma necropsia quente de nvel 4. talvez o 
trabalho mais perigoso num traje espacial. Era excitante como um passeio de foguete. 
Apenas a membrana das luvas separava suas mos de uma morte pior do que a morte 
em combate. Charlotte comeou a trabalhar depressa, para acabar logo com aquilo. 
Notou que os olhos do macaco estavam abertos. Era como se ele a observasse enquanto 
trabalhava. Charlotte teve vontade de estender a mo e fechar aqueles olhos e pensou, 
ser o meu rosto a ltima coisa que eles esto vendo?
Dentro
FIM DE TARDE DE TERA-FEIRA
As HORAS PASSAVAM e as baterias comeavam a chegar ao fim. A noite chegou 
cedo. Eles percebiam que o dia terminava porque as janelas nas extremidades dos 
corredores estavam ficando escuras. Jerry Jaax os fazia descansar regularmente. Eles 
sentavam no cho, exaustos, ou enchiam seringas com os medicamentos. Enquanto isso, 
Jerry ia de um em um, tentando avaliar o nvel de cansao da equipe.
 COMO VAI INDO? EST MUITO CANSADO? QUER SAIR?
Ningum disse que queria sair.
A equipe mantinha contato de rdio com Gene Johnson, fora do prdio. Ele havia 
fornecido rdios manuais de ondas curtas, operados numa faixa militar. No deu a eles 
walkie tal-kies comuns porque no queria que ningum escutasse o que diziam, 
especialmente a mdia, que podia gravar as conversas. Era menos provvel que algum 
ouvisse aqueles rdios.
Alguma coisa estava errada com o traje da especialista Rhonda Williams. O aparelho de 
ar desligou e o traje comeou a murchar, at ficar grudado na roupa cirrgica molhada 
de suor e ela sentiu a entrada do ar contaminado.
 MEU AR EST ACABANDO  ela gritou.
Continuou com o trabalho. No podia abandonar o posto. Sua bateria estava falhando. 
Descobriu que no tinha uma bateria extra no cinto. Todos j estavam usando as 
baterias extras.
Quando Rhonda avisou que seu ar estava acabando, a comoo foi geral. Jerry queria 
tir-la imediatamente do prdio. Ele correu at a sala de compresso, onde estava um 
soldado com um rdio de ondas curtas. Jerry apanhou o rdio, chamou Gene Johnson e 
gritou dentro do seu capacete:
 TEMOS UMA SENHORA QUE EST PERDENDO SUA BATERIA.
Gene respondeu:
 Precisamos arranjar algum para levar outra bateria. Voc pode esperar?
 NO. ELA VAI SAIR. EST PERDENDO O AR  disse Jerry.
Ento o soldado perto da porta disse que tinha uma bateria extra. Jerry disse no rdio:
 ESPERE, TEMOS UMA BATERIA EXTRA.
O soldado correu at onde Rhonda estava, sorriu para ela e disse:
 SUA BATERIA EST AQUI.
Todos riram e ele prendeu a bateria no cinto de Rhonda. Ela pensou, oh, meu Deus, eles 
vo retirar minha bateria e o ar vai acabar no capacete. Disse:
 ESPERE UM POUCO! MEU AR VAI ACABAR!
 NO SE PREOCUPE,  S POR UM SEGUNDO, ENQUANTO LIGAMOS 
VOC OUTRA VEZ.
Rhonda estava abalada e pronta para sair. Imaginava se havia pegado o vrus quando o 
ar perdeu a presso. Jerry resolveu mand-la para fora do prdio com Charlotte Godwin, 
que parecia cansada. Ele disse no rdio, para Gene:
 DUAS VO SAIR.
L fora a situao era quase de pnico  um furgo da televiso acabava de aparecer. 
Gene ficou consternado. No queria que as cmeras comeassem a rodar no momento 
em que duas mulheres com trajes espaciais eram retiradas do prdio. Disse para Jerry:
 Estamos com problemas. No podemos tir-las agora. As cmeras de TV esto aqui.
 Eu AS ESTOU MANDANDO PARA FORA  disse Jerry.
 Tudo bem, pode mandar  respondeu Gene.  Vamos oferecer um show para as 
cmeras.
Jerry bateu na porta da rea cinzenta e o sargento encarregado da descontaminao, 
vestido com traje espacial, abriu. Tinha na mo uma lanterna e um pulverizador com 
desinfetante. Rhonda e Charlotte entraram na rea cinzenta e o sargento as mandou 
manter os braos ao lado do corpo. Examinou os trajes espaciais  luz da lanterna, 
procurando avarias ou vazamentos.
Rhonda notou uma expresso estranha no rosto dele.
 VOC TEM UM BURACO NO SEU TRAJE  o sargento disse.
Eu sabia que isso ia acontecer, pensou ela.
 ONDE FOI QUE ACONTECEU?  ele perguntou.
 Eu NO SEI!
O sargento aplicou um pedao de fita isolante na abertura. Ento lavou os dois soldados 
com desinfetante e bateu na porta da sala de estgio. Imediatamente a equipe de apoio 
abriu os capacetes-bolhas e retirou os trajes das duas. As roupas cirrgicas estavam 
molhadas de suor. As duas comearam a tremer de frio.
 Tem um furgo da televiso a na frente  Gene disse.
 Meu traje estava furado  disse Rhonda.  Ser que apanhei o vrus?
 No. Voc tinha presso suficiente o tempo todo para impedir a entrada do vrus.  
Ele as levou apressadamente para a porta.  Entrem no caminho e deitem  disse.  
Se perguntarem alguma coisa, fiquem de boca fechada.
Elas no conseguiram encontrar suas roupas no caminho. Apanharam dois casacos e 
deitaram nos bancos, onde no podiam ser vistas.
A equipe de televiso estacionou o furgo perto da porta da frente da casa dos macacos 
e o reprter comeou a andar de um lado para o outro, acompanhado pelo cameraman. 
Ele bateu na porta da frente e tocou a campainha  ningum atendeu. Espiou pelas 
janelas da frente  as cortinas estavam fechadas e no dava para ver nada. Muito bem, 
no estava acontecendo nada l dentro. O prdio estava deserto. No notaram os 
veculos brancos estacionados atrs do prdio, ou, se notaram, no deram importncia. 
No estava acontecendo nada ali.
A equipe de televiso voltou para o furgo e durante algum tempo eles esperaram que 
alguma coisa acontecesse ou que algum aparecesse, para conseguir filmar e gravar 
alguma coisa, mas logo ficaram entediados e alm disso fazia muito frio. O dia estava 
acabando e a luz enfraquecendo. No lhes ocorreu ir para um dos lados do prdio e 
assestar a cmera para uma das janelas. Se tivessem feito isso, teriam conseguido um 
filme para todo o tempo do noticirio das seis, com sobra para os 60 Minutos da CBS. 
Teriam filmado soldados com trajes espaciais sujos com sangue Ebola, realizando a 
primeira misso importante de biorrisco que o mundo j havia visto, e teriam filmado os 
pares de biorrisco saindo para a rea de estgio e sendo despidos dos seus trajes pela 
equipe de apoio. Mas o pessoal da televiso no foi at o lado do prdio e at onde eu 
sei, no existe nenhum filme de vdeo da operao Reston.
Enquanto isso as duas mulheres ficaram deitadas nos bancos do caminho durante 
muitos minutos. De repente o furgo da televiso foi embora. Gene Johnson espiou para 
a frente do prdio e avisou que a costa estava livre. As duas mulheres se vestiram, e 
correram para trs de um pinheiro, na rea arborizada atrs do prdio. Foi a que 
encontraram as agulhas  duas seringas hipodrmicas usadas, ainda com as agulhas. 
Era impossvel dizer h quanto tempo estavam ali na grama. Homens da segurana 
calaram luvas e apanharam as seringas. Vasculharam a rea e encontraram mais 
agulhas na grama.
A ltima pessoa a sair do prdio foi Jerry Jaax. Apareceu mais ou menos s seis horas, 
tendo perdido de dois e meio a cinco quilos de peso, devido  desidratao, e muito 
plido. Seu cabelo no parecia prateado, mas branco.
No havia comida para os soldados e estavam todos com fome e com sede. Perto dali 
havia um McDonald's e um Taco Bell. Os soldados fizeram uma votao e o Taco Bell 
ganhou. Gene Johnson disse:
 No digam para ningum por que esto aqui. No respondam a nenhuma pergunta.
A caravana se preparou para partir, os motores roncaram no ar frio, os veculos 
deixaram a casa dos macacos e entraram no estacionamento do Taco Bell. Os soldados 
entraram e pediram tacos macios, com muitas, muitas cocas gigantes para recuperar o 
suor perdido dentro dos trajes espaciais. Pediram tambm uma poro de enroladinhos 
de canela  tudo para viagem  sim, sim, tudo nas caixas e depressa, por favor. Era 
uma enorme quantidade de comida. Os empregados do Taco Bell olhavam admirados 
para eles. Os soldados pareciam soldados, mesmo com calas jeans e camisetas  os 
homens eram fortes e tinham ar decidido, com cabelo curto e culos militares com aros 
de metal, alguns um tanto plidos, certamente por causa da comida do Exrcito, e as 
mulheres pareciam capazes de fazer cinqenta flexes e usar uma arma. Um homem se 
aproximou do sargento Klages e perguntou, "O que vocs estavam fazendo l? Eu vi 
todos aqueles caminhes." O sargento Klages deu as costas para o homem e no disse 
nada.
PASSAVA DA MEIA-NOITE. Na cama d'gua do quarto de casal dos Jaax, na encosta 
da montanha Catoctin, Nancy e Jerry Jaax puseram em dia as novidades, com a filha 
Jaime dormindo ao lado deles.
Jerry contou que a operao tinha corrido razoavelmente bem e que ningum se picara 
com uma agulha. Disse tambm que s agora tinha idia da sensao de solido dentro 
de um traje de biorrisco.
Nancy o abraou e encostou a cabea no ombro dele, como costumavam fazer desde os 
tempos de colgio. Jerry estava abatido e visivelmente mais magro. H muitos anos ela 
no o via to fisicamente exausto. Nancy levou Jaime para a cama dela, voltou e 
abraou o marido outra vez. Adormeceram abraados, com o cabelo dela sobre o rosto 
dele.
Um mau dia
? 6 DE DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA
H VRIOS DIAS E NOITES, um cientista do Exrcito, Thomas Kziasek, trabalhava 
com um traje espacial num laboratrio do nvel 4 tentando desenvolver um teste rpido 
para o vrus Ebola no sangue e nos tecidos. Conseguiu finalmente. Foi chamado um 
teste rpido Elisa e era sensvel e fcil de fazer. Ele testou amostras de urina e de sangue 
de Milton Frantig, o empregado da Hazleton, que tinha vomitado no jardim e que estava 
agora num quarto do isolamento do hospital. O resultado foi negativo. Sua urina e seu 
sangue no reagiram ao teste Ebola. Ao que parecia, ele estava com gripe. Isso era um 
mistrio. Por que aqueles homens no estavam infectados com o Ebola? O tempo 
esquentou, o sol apareceu e o vento comeou a virar at soprar do sul. No segundo dia 
do extermnio dos macacos  quarta-feira  a caravana do Exrcito seguiu outra vez o 
rush at Reston e tomou posio atrs da casa dos macacos. Tudo correu com facilidade. 
s oito horas da manh, as equipes comearam a insero. Gene Johnson levou um 
holofote que foi instalado no corredor cinzento.
Jerry Jaax entrou primeiro e deu comida aos macacos.
Fez sua ronda com o sargento Amen, verificando cada sala e
II aqui e ali encontravam macacos doentes, com sangue escorrendo do nariz. Encontrou 
algumas cadeiras numa saleta de espera e ele e o sargento as levaram para o hall, 
dispondo-as em crculo, Para Que os soldados pudessem sentar enquanto eles 
descansavam e carregavam as seringas. A medida que o dia adiantava, viam-se soldados 
e civis exaustos com os trajes
espaciais cor de laranja, homens e mulheres, as cabeas cobertas pelas bolhas 
embaadas de umidade, sentados nas cadeiras, carregando seringas com T-61 e 
separando caixas cheias de tubos com sangue. Alguns conversavam aos gritos, e outros 
apenas olhavam para as paredes.
No meio da manh, Jerry Jaax estava trabalhando na sala C. Resolveu descansar um 
pouco e ver como ia sua equipe. Deixou a sala a cargo dos sargentos Amen e Klages e 
foi at o hall. De repente ouviram uma comoo na sala C e os macacos comearam a 
gritar como loucos. Jerry voltou correndo para a sala e encontrou os sargentos no lado 
de fora da porta, apavorados.
 O QUE ACONTECEU?
 UM MACACO ESCAPOU, SENHOR.
 ORA, QUE MERDA!  rugiu Jerry.
O animal tinha saltado sobre o sargento Amen quando ele abriu a gaiola e os dois 
homens imediatamente saram da sala e fecharam a porta.
Um macaco solto  era o que Jerry mais temia. Eles podem saltar distncias enormes. 
Jerry j fora mordido por macacos e sabia o que era. Aqueles dentes cravavam 
profundamente na carne.
Olharam para dentro, pela janela na porta. A sala toda era uma exploso de atividade, os 
macacos girando dentro das gaiolas e sacudindo-as violentamente, com gritos 
estridentes e furiosos. Eram cerca de cem macacos gritando naquela sala. Mas, onde 
estava o macaco fugitivo? No podiam v-lo.
Encontraram uma rede de apanhar macacos, uma vara com uma rede em forma de saco 
na ponta. Abriram um pouco a porta e entraram na sala.
O que aconteceu depois tem uma qualidade de sonho e as lembranas so contraditrias. 
A especialista Rhonda Williams lembra perfeitamente que o macaco escapou da sala. 
Diz que estava descansando, ouviu o barulho e de repente, l estava ele, correndo 
diretamente para seus ps. Rhonda ficou paralisada de terror, depois comeou a rir, com 
um riso quase histrico. Era um macaco pequeno, decidido a no permitir que aquela 
gente o apanhasse numa rede.
Jerry Jaax insiste em afirmar que o macaco no saiu da sala.  possvel que tenha 
passado pelos ps da especialista Williams e foi para a sala dos macacos outra vez.
O macaco estava muito assustado e os soldados tambm. O animal ficou algum tempo 
na sala, correndo de um lado para o outro, saltando por cima das gaiolas. 
Aparentemente isso irritou os outros macacos que comearam a morder os ps dele, 
tirando sangue que se espalhou pela sala toda. Jerry avisou pelo rdio que um macaco 
tinha escapado. Gene Johnson disse a ele para fazer o que fosse preciso. Que tal dar um 
tiro no macaco? Com um revlver, um .45 do Exrcito. Jerry no gostou da idia. Olhou 
para dentro da sala e viu que o macaco fujo agora ficava a maior parte do tempo 
escondido atrs das gaiolas. Se tentasse atirar nele, uma bala podia atingir uma gaiola ou 
a parede e ricochetear dentro da sala. Um ferimento a bala  srio em qualquer 
circunstncia, mas naquele prdio at um arranho podia ser fatal. Jerry decidiu que o 
melhor era entrar na sala e capturar o macaco com a rede. Levou com ele o sargento 
Amen.
Quando entraram na sala no viram o macaco. Jerry se adiantou vagarosamente, com a 
rede levantada, pronto para desc-la sobre o animal. Mas onde ele estava? Seu capacete 
estava coberto de suor e a luz da sala era fraca. Era como nadar debaixo d'gua. 
Continuou a avanar, mantendo-se afastado das gaiolas dos dois lados, cheias de 
macacos histricos, que gritavam, pulavam e sacudiam as grades. A gritaria era 
ensurdecedora. Jerry temia ser mordido se chegasse perto de uma gaiola. Continuou 
andando no centro da sala, com o sargento Amen atrs segurando a seringa de injeo 
na ponta da vara.
 TOME CUIDADO, SARGENTO  Jerry disse.  CUIDADO COM AS 
MORDIDAS. FIQUE LONGE DAS GAIOLAS.
Jerry continuou, olhando em cada gaiola, tentando ver algum movimento atrs delas, na 
parede escura. De repente, com o canto do olho percebeu um movimento rpido, virou 
com a rede e o macaco voou por cima dele, num salto de trs metros e meio, de uma 
extremidade da sala para a outra.
 PEGUE ELE! ELE EST AQUI!  gritou Jerry. Ergueu a rede e a abaixou sobre as 
gaiolas, mas o macaco j no estava l.
Jerry recomeou a andar devagar pela sala. O macaco deu outro salto enorme e alto. O 
animal estava voando de um lado para o outro. Jerry abaixou a rede e errou. "FILHO 
DA ME!" ele gritou. O macaco era rpido demais para ele. Durante mais 10 ou 15 
minutos ele continuou a procurar o macaco, olhando para o fundo das jaulas. Quando o 
encontrava, o macaco saltava para o outro lado da sala. Era um macaco pequeno e sem 
dvida sabia saltar. Jerry pensou, este ambiente favorece o macaco e ns ficamos em 
desvantagem. No temos os instrumentos necessrios para resolver a situao. No 
estamos no controle aqui  estamos levando a pior.
O CORONEL C.J. Peters passou naquele momento para ver como ia a operao. Estava 
com cala Levis e um suter, com meias e sandlias, apesar do frio. Com seu bigode e 
sua barriga parecia um aposentado, uma espcie de empregado de baixa categoria, 
talvez um zelador. Viu um estranho parado na frente do prdio. Quem podia ser? Ento 
o homem foi para o lado do prdio. Evidentemente procurava alguma coisa e estava 
chegando muito perto. C.J. correu para o homem e perguntou o que ele estava fazendo.
Era um reprter do Washington Post.
 O que est acontecendo por aqui?  ele perguntou.
 Bem, ora, no muita coisa  respondeu C.J. satisfeito por no estar usando seu 
uniforme de coronel. Pelo menos uma vez seus hbitos lhe traziam vantagens.
Ele no encorajou o reprter a olhar por uma das janelas laterais do prdio. Logo depois 
o homem foi embora, sem ter visto nem ouvido nada interessante. O Washington Post 
suspeitava que alguma coisa estranha estava acontecendo na casa dos macacos, mas os 
reprteres e editores encarregados da histria no conseguiam descobrir o que era.
 ESTE MACACO CONHECE REDES  disse Jerry para o sargento. No iria 
deixar-se apanhar por um humano idiota vestido com um saco de plstico e sacudindo 
uma rede. Resolveram deixar o macaco na sala naquela noite e tentar outra vez no dia 
seguinte.
Enquanto isso, os macacos sobreviventes ficavam cada vez mais agitados. As equipes 
sacrificaram a maior parte deles naquele dia, trabalhando sem parar at o anoitecer. 
Alguns soldados comearam a reclamar que no lhes davam bastante responsabilidade e 
Jerry permitiu que substitussem os oficiais no trabalho mais perigoso. A especialista 
Rhonda Williams fora designada para a sala de eutansia, com o capito Nate Powell. O 
capito deitava um macaco anestesiado na mesa, segurando o animal pelos braos 
tranados nas costas, enquanto Rhonda tirava o protetor da agulha e aplicava a injeo 
no peito do macaco, entre as costelas, diretamente sobre o corao. Ela empurrava o 
mbolo injetando uma quantidade da droga que matava o animal imediatamente. Ento 
tirava a agulha e o sangue jorrava da picada. Era um bom sinal. Queria dizer que a 
agulha tinha atingido o corao. Se suas luvas ficavam sujas de sangue, ela as lavava 
numa vasilha com desinfetante e se sujava de sangue o traje espacial, limpava com uma 
esponja embebida em desinfetante.
Era horrvel quando a agulha no atingia o corao. Quando ela empurrava o mbolo, a 
droga mortal inundava o peito em volta do corao e o macaco saltava, dobrava o corpo, 
os olhos se moviam e ele parecia lutar contra a morte. Era apenas um reflexo de morte, 
mas o corao de Rhonda disparava.
O coronel Jaax mandou que ela trabalhasse na mesa de necropsia com o capito Haines, 
o boina-verde, colhendo sangue dos macacos inconscientes. Ela inseria a agulha na veia 
da perna do animal e retirava o sangue. Os macacos estavam todos com os olhos abertos 
e ela no gostava disso. Parecia que estavam olhando para ela.
Rhonda estava retirando sangue de um macaco quando de repente os olhos do animal se 
moveram e o animal parecia estar tentando sentar na mesa. Olhou para Rhonda 
atordoado, estendeu o brao e segurou a mo dela, justamente a que segurava a seringa. 
O macaco era muito forte. A agulha saiu da sua perna e o sangue jorrou. Ento o animal 
comeou a puxar a mo dela para a boca! Estava tentando morder! Rhonda gritou:
 SEGUREM ELE! ALGUM, POR FAVOR! ELE EST LEVANTANDO!
O capito Haines segurou os braos do macaco e o prendeu sobre a mesa, gritando:
 TEMOS UM ACORDADO! PRECISO DE CETAMINA!
A agulha arrancada da perna do macaco cortou a veia. Imediatamente uma bola de 
sangue, do tamanho de uma bola de beisebol se formou na perna do animal. Comeou a 
crescer, com o sangue se espalhando sob a pele e Rhonda quase teve uma crise de 
choro. Apertou com as mos a bola de sangue para deter a hemorragia interna. Ela 
sentia o sangue atravs das luvas. Uma bola de sangue Ebola.
Um soldado entrou correndo, aplicou uma dose dupla de cetamina e o macaco ficou 
imvel.
DURANTE TODA A CRISE, Peter Jahrling passou os dias num traje espacial, no 
laboratrio, fazendo testes nas amostras de macacos, tentando determinar onde e como o 
vrus estava se disseminando e procurando tambm uma amostra do vrus puro, isolado. 
Enquanto isso Tom Geisbert varava as noites no laboratrio, examinando clulas no seu 
microscpio.
Ocasionalmente eles se encontravam num escritrio e fechavam a porta.
 Como se sente?
 Cansado, mas fora isso, estou bem.
 Nada de dor de cabea?
 Nada. E voc?
 Muito bem.
Eles eram os descobridores da nova variedade e talvez tivessem a chance de escolher o 
nome, desde que pudessem isol-la e desde que o vrus no os apanhasse antes.
Jahrling jantava em casa, com a famlia, mas depois de ler histrias para os filhos e 
lev-los para a cama, voltou para o instituto e trabalhou at tarde. Era grande a atividade 
no instituto, os laboratrios quentes cheios de gente trabalhando dia e noite. Jahrling 
pegou a roupa no vestirio, vestiu a roupa cirrgica, depois o traje espacial, sentindo-se 
sonolento, quente, com um bom jantar no estmago e parou na frente da porta de ao 
com a flor vermelha, relutando em dar outro passo. Abriu a porta e entrou na zona 
quente.
Imaginava se ia isolar o vrus no seu sangue ou do sangue de Tom Geisbert. No parecia 
muito provvel. "No chegou a entrar no meu nariz, eu s abanei a mo sobre o vidro.
Eles faziam isso o tempo todo nos laboratrios de hospital com tubos de bactrias. Fazia 
parte do procedimento padro cheirar as culturas  assim aprendiam a diferenciar o 
cheiro das diversas bactrias, ficavam sabendo que algumas delas tm o mesmo cheiro 
que o suco de uvas Welch's. A questo de ele, Peter Jahr-ling, estar infectado com o 
Ebola tornou-se mais premente desde que o tratador dos macacos vomitara no jardim. 
Aquele cara no se cortou nem se picou com uma agulha. Logo, se o homem estava com 
Ebola, devia ter apanhado no ar que respirou.
Jahrling levou algumas lminas com gotas do soro do seu sangue, para o seu closet, 
fechou a porta e apagou a luz. Esperou que os olhos estivessem ajustados ao escuro e 
depois da dificuldade de sempre para enxergar no microscpio atravs da placa 
transparente do capacete, a paisagem escura da clula apareceu no seu campo de viso. 
Era a sua clula, o mundo do seu sangue e se estendia em todas as direes, granulosa e 
misteriosa, com uma leve luminosidade verde. Era uma luminosidade normal, nada para 
assustar, aquela luz verde muito fraca. Quando o verde adquiria um brilho quente  que 
era preciso se preocupar. E se o seu sangue brilhasse? Como ele ia julgar se seu sangue 
estava realmente brilhando? Quo verde pode ser o verde? Quanto posso confiar nos 
meus instrumentos e na minha percepo? E se estiver convencido de que meu sangue 
est brilhando, como vou relatar os resultados? Vou ter de contar a C.J. Talvez no 
precise ir para o Slammer. Posso ficar isolado aqui mesmo no meu laboratrio. Estou no 
nvel de biossegurana 4 neste momento. J estou isolado. Quem posso infectar aqui, no 
meu laboratrio? Ningum. Posso ficar aqui se meu sangue comear a brilhar. Posso 
viver e trabalhar aqui se o resultado for positivo para o Ebola.
Nada brilhou. Nada reagiu ao seu sangue. Seu sangue estava normal. O mesmo 
aconteceu com o sangue de Geisbert. Quanto  possibilidade de o sangue brilhar 
amanh, no dia seguinte, ou no outro dia s o tempo podia dizer, mas ele e Geisbert 
estavam quase saindo do perodo de incubao.
s 11 horas da noite ele entrou na cmara de compresso e puxou a corda para comear 
o ciclo de descontaminao. Estava sob a luz cinzenta da zona cinzenta, sozinho com 
seus pensamentos. No enxergava muita coisa naquela nvoa de produtos qumicos. 
Devia esperar sete minutos para completar o ciclo. Suas pernas o estavam matando. 
Estava to cansado que mal podia ficar de p. Ergueu os braos e segurou nos canos do 
chuveiro, para impedir que as pernas cedessem sob o peso do corpo. O lquido morno 
caindo sobre o traje espacial o aqueceu. Sentia-se bem e seguro ali, no meio do zumbido 
dos lquidos que matavam vrus, do ar sibilando dentro do traje e a sensao de 
massagem nas costas enquanto o lquido descia sobre seu traje espacial. Jahrling 
dormiu.
Acordou sobressaltado quando os ltimos jatos de gua atingiram o traje e viu que 
estava encostado na parede, segurando ainda os canos. Se no fosse por aquele ltimo 
jato de gua, ele continuaria dormindo. Teria escorregado pela parede at o cho e 
passado a noite ali, num sono profundo, enquanto o ar esterilizado e frio circulava no 
seu traje e banhava seu corpo nu dentro daquele casulo, no corao do instituto.
MUITO CEDO, na manh seguinte, a especialista Rhonda Williams voltou  casa dos 
macacos, morrendo de medo de acabar indo para o Slammer. O nico som era o rugido 
do ar no seu capacete. O corredor estendia-se nas duas direes at o infinito, cheio de 
caixas de papelo, lixo e biscoitos de macaco. Onde estavam os oficiais? Onde estava o 
coronel Jaax? Onde estava todo mundo? Ela viu as portas que davam para as salas dos 
macacos. Talvez estivessem todos l dentro.
Alguma coisa caminhava no corredor. Era o macaco fu-jo. Corria para ela. Olhava para 
ela fixamente. Alguma coisa brilhava na mo dele  o macaco segurava uma seringa. 
Ele acenou para ela, com um gesto selvagem de vingana. Queria aplicar uma injeo 
nela. A seringa estava quente com um agente desconhecido. Ela comeou a correr. O 
traje espacial impedia seus movimentos. Continuou a correr, mas o corredor nunca 
acabava e ela jamais chegaria ao fim. Onde ficava a porta de sada? No havia porta! 
No podia sair! O macaco correu para ela, com aquele olhar terrvel fixo no seu rosto  
a agulha brilhou e penetrou seu traje... Rhonda acordou no seu quarto, no alojamento.
Descontaminao
7 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA
S QUATRO HORAS DA MANH, o telefone acordou Nancy Jaax. Era seu irmo, 
falando de um telefone pblico no hospital, em Wichita. Disse que seu pai estava 
morrendo.
 Ele est muito, muito mal, no vai sobreviver  disse ele.
O pai estava com uma grave insuficincia cardaca e os mdicos perguntaram  famlia 
se deviam recorrer aos aparelhos para manter os sinais vitais. Nancy pensou 
rapidamente e disse ao irmo para no autorizar. Seu pai estava pesando 45 quilos, era 
s pele e ossos e estava sofrendo terrivelmente.
Nancy acordou Jerry e disse que seu pai estava  morte no hospital. Ela teria de ir para o 
Kansas, mas devia ir hoje mesmo? Podia chegar em Wichita  tarde e talvez ele ainda 
estivesse vivo para um ltimo adeus. Nancy resolveu no ir. No devia deixar o trabalho 
enquanto durasse a crise Reston, seria desero de posto.
O telefone tocou outra vez. Era o pai de Nancy, no hospital.
 Voc vem para casa, Nancy?  ele perguntou com voz sibilante e fraca.
 Papai, no posso agora.  o meu trabalho. Estou num grave surto de doena.
 Compreendo  disse ele.
 Eu o vejo no Natal, papai.
 Acho que no chego at l, mas, tudo bem, nunca se sabe.
 Tenho certeza que vai conseguir.
 Eu te amo, Nancy.
 Eu tambm te amo.
Na noite escura, antes do amanhecer, ela e Jerry se vestiram, ela em uniforme, ele em 
trajes civis. Jerry foi para a casa dos macacos. Nancy ficou em casa, acordou os filhos, 
preparou o caf para eles e quando eles saram para esperar o nibus da escola, foi para 
o trabalho. Procurou o coronel C.J. Peters e disse que provavelmente seu pai ia morrer 
nesse dia.
 V para casa, Nancy  ele disse.
 No vou fazer isso  Nancy respondeu.
Os macacos mortos comearam a chegar depois do almoo. Um furgo os levava duas 
vezes por dia de Reston para o instituto e a primeira remessa chegava na cmara de 
compresso de Nancy quando ela estava vestindo o traje espacial. Geralmente eram dez 
ou doze macacos nas caixas de chapu.
O resto dos animais que saam da casa dos macacos  a vasta maioria, duas ou trs 
toneladas  eram postos em sacos de biorrisco triplos, eram descontaminados, levados 
para fora do prdio e postos em latas de lixo de ao. Os empregados da Hazleton as 
levavam ento para o incinerador da companhia, onde os macacos eram cremados a alta 
temperatura, o suficiente para garantir a destruio dos organismos Ebola.
Porm, alguns deles precisavam ser examinados, para verificar se o vrus estava se 
alastrando no prdio e onde. Nancy carregava as caixas para a sute AA-5 e trabalhava 
nos macacos at depois da meia-noite, com seu companheiro e um assistente civil. 
Quase no falavam, exceto para pedir um instrumento ou para apontar um sinal da 
doena num macaco.
Nesse dia, Nancy pensava no pai e lembrava sua infncia. Anos atrs, quando era ainda 
menina, ela o ajudava na poca de arar a terra, dirigindo o trator desde o meio da tarde 
at tarde da noite. Num passo pouco mais rpido que o de uma mula, o trator arava uma 
faixa de terra de 800 metros de comprimento por dia. Ela usava short e sandlia. O 
trator era barulhento e o ar quente e no imenso vazio do Kansas, Nancy no pensava em 
nada, vendo o sol descer no horizonte, a terra ficar escura e a lua subir no cu. s dez 
horas o pai a substitua e arava pelo resto da noite. Ao nascer do sol ele a acordava e ela 
voltava para o trator.
 ESPONJA  ela disse s com o movimento dos lbios.
Ele enxugou o sangue do macaco e Nancy lavou as luvas na bacia com EnviroChem 
verde.
Seu pai morreu naquele dia, enquanto Nancy trabalhava na sute AA-5. Ela tomou um 
avio e sbado de manh chegou de txi quando comeava o funeral no cemitrio em 
Wichita. Era um dia frio e chuvoso, e um pequeno grupo de pessoas com guarda-chuvas 
amontoava-se em volta do padre, ao lado de um muro de pedra e uma cova aberta no 
cho. A tenente-coronel Nancy Jaax adiantou-se para ver melhor e viu uma coisa que 
no esperava. O caixo estava coberto por uma bandeira. Afinal de contas, Curtis era 
um veterano. Comovida, ela chorou.
s quatro horas da tarde, no dia 7 de dezembro, quintafeira, o ltimo macaco foi morto 
e posto dentro do saco e o pessoal comeou a descontaminao. Tiveram muito trabalho 
para apanhar o macaquinho fujo. Levaram horas. Jerry Jaax entrou na sala onde ele 
estava escondido e passou duas ou trs horas perseguindo o animal com a rede. 
Finalmente, o macaco ficou preso entre uma gaiola e a parede, com o rabo de fora e o 
sargento Amen injetou uma dose macia de anestsico no rabo dele. Dentro de quinze 
minutos, o macaco ficou imvel, eles o tiraram do esconderijo e ele seguiu o caminho 
de todos os outros, carregado no fluxo do material.
Informaram Gene Johnson, pelo rdio, que o ltimo macaco estava morto. Ele mandou 
o sargento Klages inspecionar o prdio, para certificar-se de que no havia nenhum 
macaco vivo no prdio. Klages descobriu um freezer numa sala de armazenagem. 
Parecia sinistro e ele disse pelo rdio:
 GENE, TENHO UM FREEZER AQUI.
 Muito bem, veja o que tem dentro dele  disse Johnson.
O sargento Klages levantou a tampa e seus olhos encontraram os olhos abertos dos 
macacos congelados. Estavam em sacos de plstico, os corpos cheios de filetes de 
sangue congelado. Eram macacos da Sala F, o ponto quente original do surto, macacos 
sacrificados por Dan Dalgard. Fechou a tampa e chamou Johnson pelo rdio.
 GENE, VOC NO VAI ACREDITAR O QUE ENCONTREI NESTE FREEZER. 
TENHO DEZ ou QUINZE MACACOS.
 Nossa, que droga, Klages!
 O QUE eu FAO COM ELES?
 No quero mais problemas com macacos! No quero mais amostras! Descontamine 
todos!
 ENCONTREI TAMBM ALGUNS VIDROS DE SEDATIVO.
 Descontamine tudo, menino! Voc no sabe se alguma agulha suja foi inserida 
nesses vidros. Tudo deve sair desse prdio. Tudo para fora!
O sargento Klages e o civil Merhl Gibson tiraram os sacos do freezer e tentaram pr os 
macacos nas caixas de chapu, mas no conseguiram. Estavam contorcidos nas posies 
mais estranhas. Eles os deixaram no hall para descongelar. As equipes de 
descontaminao tratariam deles no dia seguinte.
Os 91-Tangos saram dois a dois do corredor, extremamente cansados, encharcados de 
suor e mentalmente exaustos pela tenso do medo contnuo. Haviam colhido um total de 
3.500 amostras clnicas. No queriam falar sobre a operao entre eles ou com os 
oficiais.
Quando partiram, de volta para Fort Detrick, viram Gene Johnson sentado na grama, 
debaixo de uma rvore, na frente do prdio. Ele no queria falar com ningum e eles 
tiveram medo de falar com ele. Sua aparncia era horrvel. Sua mente estava na zona 
quente, devastada, dentro do prdio. Ele examinava e reexaminava em pensamento tudo 
que aqueles meninos tinham feito. Se o cara est com a agulha na mo direita, voc fica 
 esquerda dele. Voc segura os braos do macaco juntos, nas costas, para que no 
possa virar e morder. Algum cortou o dedo? At aquele momento parecia que todos os 
meninos tinham feito a coisa certa.
A equipe de descontaminao vestiu-se imediatamente, enquanto os soldados saam do 
prdio. Agora estava escuro, mas Gene Johnson tinha tanto medo do Ebola que no 
queria deixar o prdio sem vigilncia nem por uma noite.
A equipe de descontaminao era liderada por Merhl Gibson. Ele vestiu o traje espacial 
e percorreu o prdio, para ver o que teria de ser feito. Mal podia acreditar no que via. As 
salas e as paredes estavam sujas de sangue, com papis e sacos plsticos espalhados por 
toda parte. Biscoitos de macaco estalavam sob seus ps. Havia pilhas de fezes de 
macacos no cho, espremidas contra as paredes e com marcas de pequenas mos. Com 
uma escova e um balde de desinfetante, ele tentou limpar uma parede.
Ento chamou Gene pelo rdio.
 GENE, A MERDA AQUI  COMO CIMENTO. NO VAI SAIR DE JEITO 
NENHUM.
 Faa o que achar melhor. Nossas ordens so para limpar tudo.
 VAMOS TENTAR RASPAR A SUJEIRA.
No dia seguinte eles compraram facas de pedreiro e esptulas de ao e a equipe de 
descontaminao comeou a trabalhar, raspando as paredes e o cho, quase sufocando 
de calor dentro dos trajes espaciais.
Milton Frantig, o homem que tinha vomitado na grama, h vrios dias isolado no 
hospital Fairfax, estava muito melhor. A febre desaparecera, no teve hemorragia nasal 
e comeava a se impacientar. Aparentemente ele no tinha o Ebola. Pelo menos, o vrus 
no aparecia nos testes com seu sangue. Devia ser uma gripe benigna. Os CDC 
finalmente disseram que ele podia voltar para casa.
No dcimo NONO dia do incidente com o frasco, como no tiveram nenhuma 
hemorragia nasal, Peter Jahrling e Tom Geisbert comearam a se convencer de que 
eram dois sobreviventes. O fato de Dan Dalgard e os dois empregados da casa dos 
macacos tambm no terem apresentado nenhum sinal de infeco pelo Ebola 
contribuiu para tranqiliz-los, embora fosse tudo muito estranho. O que, afinal, estava 
acontecendo com aquele vrus? Matava macacos como moscas, os vrus pingavam de 
cada poro dos animais, contudo nenhum ser humano foi atacado. Se o vrus no era o 
Ebola Zaire, o que era ento? Uma variedade mutante? E de onde ele vinha? Jahrling 
no tinha dvida que vinha da frica. Afinal, o sangue da enfermeira Mayinga reagira a 
ele. Portanto, devia estar intimamente relacionado ao Ebola Zaire. Estava se 
comportando como a variedade Andrmeda da fico. Justo quando pensamos que o 
mundo ia acabar, o vrus desapareceu e ns sobrevivemos. Os Centers of Disease 
Control empregaram todos os seus esforos para descobrir a origem do vrus e 
finalmente chegaram ao armazm de macacos Ferlite Farms, perto de Manila. Todos os 
macacos de Reston tinham vindo de l. A Ferlite Farms era uma escala na viagem dos 
macacos das florestas de Mindanau para Washington. Os investigadores descobriram 
que os macacos estavam morrendo tambm em grande nmero em Ferlite Farms. 
Porm, parecia que nenhuma das pessoas que trabalhavam com esses macacos tinha 
ficado doente. Se era um vrus africano, o que estava fazendo nas Filipinas? E por que 
as pessoas que tinham contato com os macacos no estavam morrendo? Mas o vrus 
podia destruir um macaco. Alguma coisa estranha estava acontecendo. No momento em 
que fechava o cerco para o golpe mortal, a natureza virava o rosto e sorria. Era um 
sorriso de Mona Lisa, que ningum sabia decifrar.
18 DE DEZEMBRO
A equipe de descontaminao lavou o prdio com desinfetante at tirar toda a tinta do 
assoalho de concreto e continuou a esfregar. Quando acharam que todas as superfcies 
do interior do prdio estavam bem esfregadas e desinfetadas, passaram para a fase final, 
o gs. Fecharam com fita isolante prateada as portas externas, janelas e entradas de ar 
do prdio. Fecharam com folhas de plstico as aberturas externas do sistema de 
ventilao. O prdio foi hermeticamente lacrado. Em vrios lugares, na parte interna, 
puseram pedaos de papel saturados com esporos de bactrias inofensivas, chamadas 
Bacillus subtilis niger.  muito difcil matar esses esporos. Acredita-se que uma 
descontaminao que mata o niger pode matar quase qualquer coisa.
A equipe levou 39 frigideiras eltricas Sunbeam para a casa dos macacos. As frigideiras 
eltricas Sunbeam so o instrumento preferido pelo Exrcito para uma operao de 
descontaminao. Estenderam um cabo eltrico no cho, por todo o prdio, com 
soquetes espaados, como o cordo de lmpadas de uma rvore de Natal, e ligaram 
neles as frigideiras eltricas. O cabo foi ligado na chave-mestra do prdio. Em cada 
frigideira puseram um punhado de cristais desinfetantes, brancos, que pareciam sal. 
Regularam as frigideiras para o mximo. s 18 horas do dia 18 de dezembro, ligaram 
a chavemestra e as frigideiras comearam a fritar. Os cristais ferveram, soltando gs. 
Como as portas, janelas e entradas de ar do prdio estavam lacradas, o gs no podia 
sair e ficou dentro do prdio durante trs dias. Penetrou nos condutores de ar, inundou 
os escritrios, entrou nas gavetas das mesas e nos apontadores de lpis nas gavetas. 
Infiltrou as mquinas Xerox, os computadores pessoais e as almofadas das cadeiras. 
Penetrou nos ralos no cho at encontrar o desinfetante depositado nos canos. 
Finalmente, a equipe de descontaminao, sempre com os trajes espaciais, entrou 
novamente no prdio e recolheu as amostras de esporos. O tratamento Sunbeam havia 
matado o niger.
H um antigo ditado no trabalho de biorrisco que diz, voc nunca pode saber quando a 
vida  exterminada. A vida pode sobreviver a qualquer ataque devastador.  muito 
difcil conseguir na prtica esterilizao total e inequvoca e  quase impossvel verificar 
depois. Entretanto, uma fritada Sunbeam que dura trs dias e que extermina todas as 
amostras de niger, significa sucesso. A casa dos macacos estava esterilizada. O Ebola 
tinha encontrado oposio. Durante um curto espao de tempo, at que a vida pudesse 
ser restabelecida no local, a Unidade de Quarentena de Primatas de Reston foi o nico 
prdio do mundo onde nada vivia, absolutamente nada.
A variedade mais perigosa
JANEIRO, 1990
A variedade DO ebola que explodiu perto de Washington continuou escondida em 
algum lugar da floresta tropical. O ciclo continuou, como deve continuar para que o 
vrus continue vivo. O Exrcito, tendo se certificado de que a casa dos macacos estava 
nuked, devolveu-a para a Hazleton Pesquisa de Produtos. A Hazleton comeou a 
importar mais macacos das Filipinas, da mesma casa de macacos perto de Manila e 
povoou o prdio novamente com macacos comedores de caranguejos, apanhados nas 
florestas tropicais de Mindanau. Menos de um ms depois, em 12 de janeiro de 1990, 
Dan Dalgard verificou que alguns macacos na sala C estavam morrendo com 
hemorragia nasal. Telefonou para Peter Jahrling.
 Parece que estamos com o mesmo problema outra vez  disse ele.
O vrus era o Ebola novamente, vindo das Filipinas. Dessa feita, uma vez que no houve 
nenhuma fatalidade humana no primeiro surto, o Exrcito, os CDC e a Hazleton 
resolveram apenas isolar os macacos e deixar o vrus ir em frente. Dan Dalgard 
esperava poder salvar pelo menos alguns macacos e sua companhia no queria ver o 
Exrcito de volta com seus trajes espaciais.
O que aconteceu naquele prdio foi uma espcie de experincia, um teste para o vrus 
Ebola. Agora, iam ver o que o Ebola podia fazer naturalmente, numa populao de 
macacos dentro de um espao fechado. O vrus Ebola Reston saltou rapidamente de sala 
para sala e  medida que desabrochava nos macacos, parecia sofrer uma mutao para 
algo muito semelhante ao resfriado comum. Mas era um resfriado Ebola. Os macacos 
morriam com grandes quantidades de muco transparente e muco verde escorrendo do 
nariz, misturado com sangue que no coagulava. Seus pulmes eram destrudos, 
apodrecidos, repletos de vrus Ebola. Os macacos tinham pneumonia. Quando aparecia 
um nico animal com hemorragia nasal numa sala, geralmente 80% dos animais da sala 
morriam logo depois. O vrus era extremamente contagioso para os macacos. Os 
cientistas do instituto suspeitavam que se tratasse de uma variedade mutante do Ebola, 
alguma coisa nova e um pouco diferente do que tinham visto um ms atrs, em 
dezembro, quando o Exrcito esterilizara a casa dos macacos. Era assustador  era 
como se o Ebola fosse capaz de mudar rapidamente. Uma variedade diferente podia 
aparecer no perodo de um ms. A doena agora parecia uma gripe Ebola ou um 
resfriado Ebola  e lembrava o fato de o Ebola ter relao com certos tipos de 
resfriados das crianas humanas. Era como se o vrus se adaptasse rapidamente aos 
novos hospedeiros, e fosse capaz de mudar suas caractersticas rapidamente quando 
penetrava numa nova populao.
Aparentemente o Ebola se movia atravs dos condutores de ar do prdio. Em 24 de 
janeiro, a sala B comeou a sangrar. Os macacos entravam em choque e morriam com 
sangue e muco escorrendo do nariz, olhos vermelhos e rostos inexpressivos como 
mscaras. Nas semanas seguintes, a infeco penetrou as salas I, F, E e D, matando 
praticamente todos os animais. Ento, em meados de fevereiro, um tratador de animais 
da Hazleton que chamaremos de John Coleus estava fazendo a necropsia num macaco 
morto e cortou o polegar com o bisturi. Ele estava cortando o fgado, um dos ninhos 
favoritos do Ebola. A lmina, com clulas de fgado e sangue, penetrou profundamente 
no seu dedo. John Coleus sofreu uma exposio macia ao Ebola.
O fgado que ele estava cortando foi mandado imediatamente para o USAMRIID para 
anlise. Tom Geisbert examinou um pedao no seu microscpio e, para seu horror, 
verificou que era incrivelmente quente  quero dizer, com vrus de parede a parede. 
Todos no instituto acharam que John Coleus ia morrer. Por aqui, disse-me Peter 
Jahrling, ns todos estvamos certos de que o cara estava morto. Os CDC resolveram 
no isolar John Coleus e ele continuou a visitar bares e a tomar cerveja com os amigos.
 Aqui no instituto  disse Peter Jahrling  ficamos completamente estarrecidos 
quando soubemos que o homem estava bebendo nos bares.  claro que os CDC no 
deviam ter permitido isso. Era um vrus muito grave e uma situao muito grave. No 
sabemos muita coisa sobre o vrus. Podia ser como um resfriado comum  podia ter 
um perodo de latncia no qual a pessoa est transmitindo o vrus, antes de demonstrar 
os sintomas da doena  e quando descobre que est doente j infectou mais de 16 
pessoas. H muita coisa que no sabemos sobre o vrus. No sabemos de onde vem e 
no sabemos sob que forma vai aparecer na prxima vez.
John Coleus precisou se submeter a uma pequena cirurgia. Foi operado durante o tempo 
de incubao, depois da exposio ao Ebola. No h registro de que ele tenha sangrado 
excessivamente durante a cirurgia. Tudo correu bem e ele est vivo at hoje.
Quanto  casa dos macacos, o prdio todo morreu. O Exrcito no precisou fazer outra 
operao de extermnio. Ela foi exterminada pelo vrus Ebola Reston Mais uma vez, no 
houve baixas humanas. Entretanto, ocorreu alguma coisa estranha, ou talvez sinistra. 
Quatro homens tinham trabalhado como tratadores na casa dos macacos, Jarvis Purdy, 
que teve um ataque cardaco, Milton Frantig, que vomitou no gramado, John Coleus, 
que cortou o polegar, e um quarto homem. A anlise de sangue dos quatro finalmente 
deu positiva para o vrus Ebola Reston. Todos foram infectados pelo agente. O vrus 
penetrou nas suas correntes sangneas e se multiplicou nas suas clulas. O Ebola 
proliferou nos seus corpos. Processou seu ciclo dentro deles. Viveu dentro dos 
tratadores de macacos. Mas aparentemente eles no adoeceram, nem quando o vrus 
estava se multiplicando nos seus corpos. Se tiveram dores de cabea ou ficaram doentes, 
no lembravam. Finalmente, o vrus saiu dos seus corpos naturalmente e, at o 
momento, nenhum deles parece ter sido afetado por ele. Eles esto entre os poucos, 
muito poucos sobreviventes do vrus Ebola. John Coleus certamente apanhou o vrus 
quando se cortou com o bisturi sujo de sangue, no h dvida alguma. O maior motivo 
para preocupao  que os outros no se cortaram, e mesmo assim o vrus penetrou na 
sua corrente sangnea. Entrou de algum modo. Provavelmente chegou ao sangue 
atravs dos pulmes. Quando se tornou aparente para os pesquisadores do Exrcito que 
trs dos quatro homens infectados no tinham se cortado, o USAMRIID concluiu que o 
Ebola pode se transmitir pelo ar.
O Dr. Philip Russell  o general que tomara a deciso de enviar o Exrcito para deter o 
vrus  recentemente me disse que embora ele estivesse morrendo de medo do 
Ebola, naquela poca, s mais tarde, quando se convenceu de que o vrus estava se 
espalhando no ar entre os macacos, compreendeu o verdadeiro potencial do vrus.
 Fiquei mais assustado em retrospecto  disse ele.  Quando vi a evidncia da 
transmisso por via area entre os macacos, eu disse para mim mesmo, Meu Deus, com 
algumas pequenas mudanas, esse vrus pode se tornar um viajante veloz de transmisso 
atravs do ar, entre os humanos! Estou falando da Morte Negra. Imagine um vrus com 
o potencial infeccioso da gripe e o ndice de mortalidade da peste negra da Idade Mdia 
  disso que estamos falando.
Os trabalhadores de Reston tiveram o Ebola vrus assintomtico. Por que no os matou? 
At hoje, ningum sabe a resposta. Ebola assintomtico  os homens foram infectados 
com alguma coisa como o resfriado Ebola. Uma pequena diferena no cdigo gentico 
do vrus, resultado de uma pequena mudana estrutural na forma de uma das sete 
protenas misteriosas da partcula do vrus, ao que parece, mudou extremamente o seu 
efeito nos humanos, tornando-o benigno ou inofensivo, embora destrusse os macacos. 
Ao que parece, essa variedade de Ebola conhecia a diferena entre um macaco e um 
homem. E se resolver mudar em outra direo...
Num dia de primavera visitei a coronel Nancy Jaax, para entrevist-la sobre seu trabalho 
durante o caso Reston. Conversamos no escritrio dela. Ela usava um suter negro 
militar com guias prateadas nos ombros  recentemente fora promovida a coronel. 
Um filhote de papagaio dormia numa caixa no canto. O papagaio acordou e gritou.
 Est com fome?  ela perguntou.  Est bem, est bem, voc  mesmo um bobo. 
 Tirou de uma sacola um funil de confeitar, encheu com comida de papagaio, enfiou a 
ponta no bico da ave e apertou. O papagaio fechou os olhos, satisfeito.
Ela indicou com um gesto os arquivos do escritrio.
 Quer ver algum Ebola? Pode escolher.
 Voc me mostra.
Ela foi at um arquivo, apanhou uma poro de lminas de vidro e levou para outra sala 
onde havia um microscpio com um par de visores binoculares, de modo que duas 
pessoas podiam examinar ao mesmo tempo.
Sentei na frente do microscpio e olhei para um deserto branco.
 Tudo bem, aqui est um muito bom  disse ela, pondo uma lmina no microscpio.
Vi um campo de clulas. Aqui e ali, bolses de clulas tinham explodido e derretido.
 Isso  tecido dos rgos masculinos de reproduo  disse ela.  Intensamente 
infectado. Isto  o Ebola Zaire num macaco exposto atravs dos pulmes, em 1986, no 
estudo que fiz com Gene Johnson.
Olhei para a fatia de testculo de macaco com uma sensao desagradvel.
 Quer dizer que penetrou nos pulmes do macaco e desceu para os...?
 Sim.  realmente terrvel  disse ela.  Agora, voc vai ficar tonto. Vou mostrar o 
pulmo.
A cena mudou e estvamos olhando para uma renda belga cor-de-rosa e podre.
 Isto  uma fatia do tecido do pulmo. De um macaco exposto atravs dos pulmes. 
V como o vrus parece ferver no tecido?  o Ebola Zaire.
Eu via clulas individuais e algumas delas inchadas, com pontos escuros.
 Vamos passar para maior magnificao.
As clulas ficaram maiores. Os pontos escuros apareceram como bolhas angulares 
escuras. As bolhas estavam saindo das clulas, como um pinto saindo do ovo.
 Esses so tijolos grandes e gordos  ela disse.
Eram cristalides de Ebola, explodindo nos pulmes. Os pulmes estavam pipocando 
Ebola no ar. Meu cabelo eriou na nuca e meu estmago deu uma virada completa. 
Senti-me como um civil vendo uma coisa que nenhum civil devia ver.
 Esses pulmes so muito quentes  disse ela, calmamente.  Est vendo aqueles 
tijolos brotando diretamente nos bolses de ar dos pulmes? Quando voc tosse, essa 
coisa sobe para sua garganta, misturada com o catarro. Por isso voc no vai deixar 
ningum com o Ebola tossir no seu rosto.
 Meu Deus, ele sabe tudo sobre pulmes, no  mesmo?
 Talvez no. Ele pode viver num inseto e os insetos no tm pulmes. Mas pode ver 
aqui como o Ebola se adaptou a este pulmo. Est brotando do pulmo diretamente para 
o ar.
 Estamos vendo um organismo altamente sofisticado, certo?
 Absolutamente certo. Este bandido tem um determinado ciclo de vida.  um jogo de 
e se?. E se ele entrar no pulmo? Se ele sofrer uma mutao pode ser um problema. 
Um grande problema.
Em maro, 1990, enquanto acontecia o segundo surto em Reston, os CDC criaram uma 
srie de restries sobre a importao de macacos, reforando os processos obrigatrios 
de testes e de quarentena. Tambm revogaram temporariamente as licenas de trs 
companhias, Pesquisa de Produtos Hazleton, Corporao de Primatas Charles Rivers e 
Worldwide Primatas Inc., multando as trs por violao das regras de quarentena. (Mais 
tarde as licenas foram revalidadas.) Desse modo os CDC suspenderam efetivamente a 
importao de macacos para os Estados Unidos por vrios meses. O prejuzo total da 
Hazleton foi demilhes de dlares. Macacos valem muito dinheiro. Apesar da ao dos 
CDC contra a Hazleton, os cientistas do USAMRIID, e at mesmo alguns dos CDC, 
foram unnimes em elogiar Dalgard e sua companhia por terem tomado a deciso de 
entregar a casa dos macacos ao Exrcito. Foi duro para a Hazleton, mas fizeram a coisa 
certa, me disse Peter Jahrling.
A Hazleton alugava a casa dos macacos de uma administradora de imveis. Como era 
de esperar, as relaes entre a Hazleton e a administradora no melhoraram durante a 
operao do Exrcito e durante o segundo surto de Ebola. A companhia desocupou o 
prdio que est vazio at hoje.
Peter Jahrling, que inalou o Ebola e viveu para contar,  hoje o cientista principal do 
USAMRIID. Ele e Tom Geisbert receberam o crdito pela descoberta da variedade 
Reston. Tinham direito a dar um nome ao vrus e, seguindo a tradio do batismo de 
vrus, eles o chamaram de Reston, o nome do lugar onde foi notado pela primeira vez. 
Em conversa, muitas vezes eles o chamam de Ebola Reston. Certo dia, no seu 
escritrio, Jahrling me mostrou a fotografia de algumas partculas do vrus Ebola. 
Pareciam espaguete ardente.
 Veja este lao. Veja este outro  disse Jahrling, traando o lao com o dedo na foto. 
  o Reston  oh, eu ia dizer Reston, mas no    Zaire. O caso  que no  fcil 
dizer a diferena. Isso nos leva a uma questo filosfica: por que o Zaire  quente para 
os seres humanos? Por que o Reston no  quente, quando esto to prximos um do 
outro? O vrus Ebola Reston , quase com certeza, transmitido por alguma via area. 
Aqueles empregados da Hazleton que tinham o vrus  tenho certeza de que o 
apanharam no ar.
 Quer dizer que nos desviamos de uma bala?
 Acho que no  disse Jahrling.  A bala nos atingiu. A sorte foi que era uma bala 
de borracha de um .22 e no uma dundum, de um .45. Minha preocupao  que todo o 
mundo est dizendo, Puxa, nos desviamos da bala. E na prxima vez que virem um 
Ebola no microscpio vo dizer: Ora,  s o Reston, e vo lev-lo para fora de um 
nvel de conteno biolgica. E ns todos vamos levar uma pancada na testa quando a 
coisa mostrar que no  o Reston, mas seu irmo maior.
C.J. Peters deixou o Exrcito para se tornar chefe do ramo especial de patogenia nos 
CDC Lembrando da emergncia Reston, ele me disse, certo dia, que tinha certeza de 
que o Ebola tinha se disseminado atravs do ar.
 Acho que o padro de transmisso que vimos e o fato de ter passado para outras salas 
sugerem que Ebola aerossol estava sendo gerado e estava presente no prdio  disse 
ele.  Se olhar para as fotos dos pulmes de um macaco com Ebola Zaire, ver que 
esto entupidos de Ebola. Voc viu essas fotos?
 Sim. Nancy Jaax me mostrou.
 Ento, voc sabe. Viu as partculas do Ebola nos espaos  de ar dos pulmes.
 Alguma vez tentaram pr o Ebola Reston no ar e espalhar entre macacos desse 
modo?  perguntei.
 No  respondeu ele, com firmeza.  No acho que seria uma boa idia. Se algum 
soubesse que o Exrcito estava fazendo experincias para ver se o vrus Ebola se 
adaptou para ser transmitido pelas vias respiratrias, seramos acusados de fazer 
experincias de guerra biolgica ofensiva  de tentar um apocalipse de germes. Por 
isso, resolvemos no fazer a experincia.
 Isso quer dizer que no sabem se o Ebola realmente pode ser transmitido pelo ar.
 Exatamente. No sabemos. S podemos imaginar se o vrus Ebola  capaz de fazer 
isso ou no. Se ele  capaz, ento  a pior coisa que podemos imaginar.
Assim, aos trs irmos (Marburg, Ebola Sudo e Ebola Zaire), juntou-se um quarto 
irmo, o Ebola Reston. Os pesquisadores do Ramo Especial de Patogenia dos CDC  
especialmente Anthony Sanchez e Heinz Feldmann  separaram os genes de todos os 
filovrus. Descobriram que o Zaire e o Reston so to parecidos que  difcil dizer como 
so diferentes. Quando conheci Anthony Sanchez e perguntei, ele me disse, Eu os 
chamo de primos irmos. Mas no sei dizer por que o Reston aparentemente no nos faz 
ficar doentes. Pessoalmente, no me sentiria muito bem se tivesse de manej-lo sem um 
traje espacial e procedimentos de conteno mxima.
Cada vrus contm sete protenas, quatro delas completamente desconhecidas. Uma 
pequena diferena numa das protenas do Reston pode ter sido o motivo pelo qual o 
vrus no se alastrou em Washington como um incndio incontrolvel.
Partculas do Ebola Zaire, aumentadas 17.000 vezes. Notar os laos de algumas delas, 
os chamados bastes de pastor ou parafusos, tpicos do Ebola Zaire e seus irmos. 
Fotografia de Thomas W. Geisbert, USAMRIID.
Partculas do vrus Ebola Reston. O caso  que no se pode ver facilmente a diferena 
entre os dois s olhando para eles. Peter Jahrling. Fotografia de Thomas W. Geisbert, 
USAMRIID.
O Exrcito e os CDC nunca rebaixaram o status de segurana do vrus Reston. Ele 
continua classificado como agente quente do nvel 4, e se voc quiser apertar a mo 
dele,  melhor vestir um traje espacial. Especialistas em segurana acham que no 
existem provas suficientes para demonstrar que o Reston no  um vrus extremamente 
perigoso. Na verdade, pode ser o mais perigoso de todos os irmos filovrus, devido  
sua aparente capacidade de se transmitir atravs do ar, talvez com maior facilidade do 
que os outros. Uma pequena mudana no seu cdigo gentico e ele pode se transformar 
numa tosse capaz de dizimar a raa humana.
Por que o vrus Reston  to parecido com o Ebola Zaire, quando o Reston 
supostamente vem da sia? Se as variedades vm de continentes diferentes, deviam ser 
muito diferentes umas das outras. Uma possibilidade  que a variedade Reston na 
verdade venha da frica, tendo voado num avio para as Filipinas, no h muito tempo. 
Em outras palavras, o Ebola j entrou na rede, e ultimamente tem viajado bastante. Os 
especialistas no tm dvida de que um vrus pode saltar em volta do mundo numa 
questo de dias. Talvez o Ebola tenha aterrissado na sia alguns anos atrs. Talvez  
isto  s uma suposio  o Ebola tenha viajado para a sia dentro de animais 
selvagens africanos. Houve rumores no sentido de que pessoas ricas nas Filipinas, 
proprietrios de terras na floresta tropical, tm importado ilegalmente animais africanos, 
soltando-os nas suas propriedades para caar. Se o Ebola vive em animais de grande 
porte, da frica  leopardos, lees ou no bfalo do Cabo  pode ter viajado para as 
Filipinas num carregamento de animais selvagens da frica. Isto  apenas uma 
suposio. Como ocorre com todos os outros vrus filamentosos, o esconderijo do Ebola 
Reston  desconhecido. Entretanto, parece provvel que todo o surto Reston comeou 
com um nico macaco nas Filipinas. Um macaco doente, que foi o caso ndice 
desconhecido. Um macaco comeou a coisa toda. Esse macaco talvez tenha apanhado 
quatro ou cinco partculas do Ebola que vieram de... adivinhe quem puder.
QUARTA PARTE
A CAVERNA KITUM
A rodovia
AGOSTO, 1993
A estrada para o monte Elgon segue para noroeste, saindo de Nairobi, na direo das 
montanhas do Qunia, subindo por colinas verdes que se erguem para o cu africano. 
Passa por pequenas fazendas e florestas de cedro e ento alcana uma crista escarpada e 
parece saltar no espao, numa taa enorme de nvoa amarela, que  o vale Rift. A 
estrada desce para o Rift, cortando joelhos escarpados da colina, at chegar ao fundo e 
se desenrolar no meio de uma savana pontilhada de rvores de accia. Continua 
beirando lagos de gua doce no fundo do Rift e passa por bosques de rvores fibrilosas, 
verdeamareladas cintilando ao sol. Seu curso  interrompido por cidades nas margens 
dos lagos e ento se volta para oeste, na direo do lago Vitria e de uma linha de 
colinas azuis, que formam o lado oeste do Rift, escala as colinas, agora uma via reta, 
estreita, pavimentada, com duas pistas, cheia de caminhes fumacentos, com os motores 
arquejando na subida, que se destinam a Uganda e ao Zaire.
A estrada para o monte Elgon  um segmento da rodovia da AIDS, a rodovia Kinshasa, 
que corta a frica pelo meio, o caminho percorrido pelo vrus da AIDS quando deixou a 
floresta tropical africana para se espalhar pelo mundo todo. A estrada era antes uma 
trilha de terra que levava ao corao da frica, quase impossvel de ser percorrida em 
toda a sua extenso. Foi pavimentada nos anos 70, vieram os caminhes e, logo depois, 
o vrus da AIDS apareceu nas cidades  beira da estrada. Exatamente de onde ele veio  
um dos grandes mistrios.
Eu conhecia bem a estrada para o monte Elgon. Viajei nela quando era menino, quando 
ela era uma trilha de terra.
Durante algum tempo meus pais, meus irmos e eu moramos na fazenda da famlia Luo 
nas colinas, na frente do lago Vitria  uma fazenda tradicional com cabanas de barro 
e uma boma para abrigar o gado. Desde os 12 anos eu no voltava  frica, mas quando 
se conhece a frica na infncia, ela se torna uma parte importante da nossa mente. Eu 
sabia o que era sentir a areia quente do rio nos ps descalos e o cheiro dos crocodilos. 
Conhecia a sensao spera das moscas tsts no meu cabelo. Lembro ainda o som das 
vozes falando ingls com o sotaque macio da lngua Luo, incitando-me a me sentir 
livre, livre, a comer mais gordura da cauda de carneiro. Eu sabia o que era acordar na 
luz cinzenta antes do amanhecer, sem saber onde estava, vendo uma parede de barro 
com um buraco no meio e aos poucos percebendo que o buraco era a janela da cabana 
de barro e que um bando de crianas me espiava por ela. Quando vi a frica outra vez, 
ela voltou, viva, cintilando com seu mistrio lembrado. O que voltou primeiro foi o 
cheiro da frica, o cheiro da fumaa dos fogos acesos para cozinhar, aquela nvoa de 
accia queimada e de eucalipto azul que cobre as cidades e penetra no corpo das 
pessoas. A segunda lembrana que me assaltou foi a multido caminhando ao lado das 
estradas, como se estivesse caminhando desde o comeo dos tempos, indo para lugar 
nenhum e para todos os lugares, sempre a p. Nas terras altas do Qunia os ps 
descalos, ou calados com sandlias, desenham nas curvas da estrada tranas de argila 
vermelha. As mulheres caminham cantando hinos cristos e algumas carregam 
guitarras, outras carregam na cabea sacos de carvo ou de sal.
O Land Rover, envolto numa nuvem de fumaa de leo diesel, saltou quando caiu no 
buraco da estrada. Robin MacDonald, meu guia, segurou com fora a direo que 
parecia querer saltar das suas mos.
 Oh, esta estrada est boa, homem  disse ele.  Da ltima vez em que passei por 
aqui, se estivesse comigo, voc teria chorado. H anos no vou ao monte Elgon, desde 
que era menino. Um amigo do meu velho tinha uma shamba l em cima  shamba  
uma fazenda  e ns sempre amos l.
Oh, era uma delcia, homem. A fazenda no existe mais. Ah, est kwisha  kwisha, 
acabada.
Ele desviou de um bando de cabras, usando livremente a buzina.
 Saia do caminho, homem  gritou para um bode.  Veja, ele nem se mexe.
O Land Rover roncou e acelerou.
Passamos por pequenas plantaes de milho. No meio de cada plantao havia uma 
cabana de cimento e no milharal as pessoas preparavam a terra manualmente, com 
picaretas. Cada centmetro de terra era plantado, at a porta das casas. Passamos por um 
homem a p na estrada, carregando uma mala amarrada com barbante. Acenou para ns. 
Passamos por outro, com uma capa de chuva inglesa e chapu de feltro, andando 
lentamente com uma bengala, um vulto cinzento na luz clara do sol. Muitas pessoas 
acenavam para o Land Rover e algumas paravam e olhavam demoradamente para ns. 
Paramos para esperar uma manada de bois que atravessava a estrada, conduzida por 
meninos Kikuyu com chicotes nas mos.
 Ai  disse Robin, sonhadoramente.  Quando eu era pequeno  ir a qualquer 
lugar neste pas era uma viagem de trs dias. A gente matava uma gazela Thomson e 
vivia da carne dela durante trs dias. Nos velhos tempos, h vinte anos, esta terra era 
toda floresta e pasto. Agora  milho. Milho por toda parte. E as florestas desapareceram, 
homem.
Robin MacDonald  caador profissional e guia de safri.  um dos poucos  cerca de 
duas dzias  caadores profissionais que ainda restam na frica. Eles levam os 
clientes para o mato alto para caar animais de grande porte. MacDonald tem o rosto 
largo, vermelho, lbios finos, olhos penetrantes, atrs dos culos com aros de metal, 
mas do rosto salientes, com o cabelo negro e crespo cado na testa. Ele detesta usar 
roupas caqui  acha que fica parecendo um maldito americano e alm disso, no  
confortvel no meio do mato. Para andar no mato ele usa um bon de beisebol, camiseta 
com manga curta preta, um faco de mato na cintura e tnis verdes  secados muitas 
vezes nas fogueiras de acampamento.  filho de um famoso caador profissional, Iain 
MacDonald, que morreu quando o avio que pilotava caiu na plancie africana, em 
1967, quando Robin tinha 13 anos. A essa altura, Robin j havia aprendido tudo que 
precisava. Tinha caado leo e leopardo com o pai e matado seu primeiro bfalo do 
Cabo, tambm com o pai ao seu lado, para o tiro salvador, se ele falhasse. Robin seguiu 
a pista de elefantes durante dias e dias com o pai no meio do mato espinhoso e seco do 
plat Yatta, levando apenas uma cantina com gua e uma ma.
 Aquele cliente, ele era um cara do Texas, aquele cara  explicou Robin.  Ele 
disse que podia ir a p, sem problema, disse que era um caador experimentado. Um dia 
ele sentou e disse: Que se dane isto tudo, no posso continuar. Arme um acampamento. 
Ento ns fizemos o acampamento e eu e meu pai fomos em frente e seguimos o 
elefante durante dois dias. Meu velho tomava s gua quando estava seguindo um 
elefante. Ele me disse, Enfie uma ma nessa mochila e vamos embora. E ento 
andamos no plat Yatta dois dias inteiros. Quando encontramos o elefante, levamos o 
cliente at onde ele estava e ele o matou.
 Quantos anos voc tinha?
 Sete, homem.
Ele no caa mais elefantes   a favor da proibio do comrcio de marfim , mas 
caa o bfalo do Cabo, que no  uma espcie ameaada e, segundo dizem, a caa de 
grande porte mais perigosa da frica.
Tem havido notcias de violncia tribal nas proximidades do monte Elgon Os Elgon 
Masai atacaram os Bukusu, um grupo tnico que vive no lado sul da montanha, 
queimando suas cabanas, matando com armas automticas e os expulsando das suas 
terras. Preocupado, eu telefonei para Robin, dos Estados Unidos, para saber sua opinio.
 Aonde voc quer ir? Monte Elgon?  disse ele. Sua voz sibilava e parecia muito 
distante.
 Vou levar uns dois trajes espaciais comigo  eu disse.
 O que voc quiser, homem.
  seguro viajar perto do monte Elgon?
 Sem problema. A no ser que acontea alguma maldita desordem.
Ele acendeu um cigarro barato e olhou para mim.
 Ento, quais so seus planos para a caverna? Vai colher algum espcime Caixas de 
merda de morcego ou coisa assim?
 No, s quero dar uma olhada.
 Eu costumava entrar naquela caverna, quando era pequeno  disse ele.  Ento, 
tem uma doena por l, hein? Que faz a AIDS parecer um espirro, certo? A gente vira 
uma sopa,  isso? Explode, certo? Puft!  saindo de todos os buracos,  essa a histria? 
Em quanto tempo?
 Mais ou menos sete dias.
 Puxa! Homem. Como  que se pega?
 Contato direto com o sangue. Pode tambm ser pelo ar. Tambm  transmitida 
sexualmente.
 Quer dizer, como a AIDS?
 Sim. Os testculos incham e ficam roxos.
 O qu! Os colhes crescem? Que beleza! Ento a gente fica com testculos de 
macaco azul! Cristo! Homem, essa  uma merda maldita mesmo.
 Voc acaba de dar uma descrio exata do agente  eu disse.
Robin deu uma tragada no cigarro. Tirou o bon de beisebol, passou a mo no cabelo e 
ps o bon outra vez.
 Tudo bem. Voc entra na caverna e olha a merda de morcego. E ento  ento  
depois voc explode em uma das minhas barracas e o que eu fao?
 No toque em mim. Enrole a barraca comigo dentro e leve para um hospital.
Seu rosto se enrugou numa risada.
 Certo. A gente chama os Mdicos Voadores. Eles pegam a barraca. E onde a gente 
manda entregar?
 Hospital Nairobi. Me deixe na entrada da emergncia.
 Est certo, homem.  isso que a gente vai fazer.
As montanhas Cherangani apareceram ao longe, uma cadeia na borda do Rift acidentada 
e verde, sob a camada de nuvens de chuva. As nuvens ficaram mais escuras e mais 
compactas quando nos aproximamos do monte Elgon, e pingos de chuva estalaram no 
pra-brisa. O ar ficou frio e spero. Robin acendeu os faris.
 Voc encontrou o desinfetante?  perguntei.
 Tenho meio galo a atrs.
 gua sanitria de lavar roupa?
 Isso mesmo. Ns chamamos de Jik, aqui no Qunia. Jik danado.
  como Clorox?
 Certo, Jik. Se voc bebe voc morre.
 Espero que mate o Marburg.
A paisagem ficou menos acidentada e passamos por algumas cidades. Por toda parte 
vimos caminhes estacionados na frente de barracas feitas com tbuas e metal. Eram 
pequenos restaurantes. Alguns tinham servio completo e ofereciam bode grelhado, 
cerveja Tusker, uma cama e uma mulher. Os mdicos que trabalham na frica 
acreditam que 90 por cento das prostitutas que trabalham na rodovia Kinshasa so 
portadoras do vrus da AIDS. Ningum sabe ao certo, mas os mdicos locais acham que 
cerca de 30 por cento dos homens e mulheres com idade de reproduzir, que moram nas 
vizinhanas do monte Elgon, esto infectados com o HIV. A maioria vai morrer de 
AIDS. Grande parte das crianas recm-nascidas vai contrair a AIDS e morrer na 
infncia.
A emergncia do vrus da AIDS foi sutil. O vrus fica incubado durante anos num 
hospedeiro humano antes de matlo. Se tivesse sido notado antes, podia se chamar 
Rodovia Kinshasa, devido ao fato de ter passado pela Kinshasa quando saiu da floresta 
africana.
Quando eu era menino, a rodovia Kinshasa era apenas uma trilha empoeirada que 
atravessava o vale Rift na direo do lago Vitria, pouco movimentada. Era uma estrada 
de cascalho, cheia de buracos, cortada muitas vezes por deslizamentos e com valas 
profundas capazes de rachar o chassi de um Land Rover. Viajando por ela, uma vez ou 
outra, vamos ao longe uma espiral de poeira que crescia, vindo na nossa direo. 
Tnhamos de passar para o acostamento e diminuir a marcha, com as duas mos no 
pra-brisa para evitar que fosse quebrado por alguma pedra que saltasse dos pneus do 
outro carro, que passava quase nos cegando com a nuvem de poeira amarela. Agora a 
estrada era pavimentada, com uma faixa pintada no centro e o movimento intenso e 
contnuo. Eram caminhes de carga, pickups e furges cheios de gente e a fumaa do 
diesel poluindo o ar. A pavimentao da rodovia Kinshasa afetou o mundo todo, e 
tornou-se um dos eventos mais importantes do sculo vinte. J custou pelo menos dez 
milhes de vidas humanas, e  provvel que o nmero total de mortes ainda exceda o da 
Segunda Guerra Mundial. Na verdade, eu tinha testemunhado o aparecimento da AIDS, 
num piscar de olhos, com a transformao de uma trilha de terra numa faixa de asfalto.
O acampamento
A mulher DE Robin, Carrie MacDonald  scia dele e muitas vezes o acompanha nos 
safris com clientes. Quando o cliente concorda, eles levam tambm os dois filhos 
pequenos. Carrie tem vinte e poucos anos, cabelos louros, olhos castanhos e um 
acentuado sotaque ingls. Seus pais a levaram da Inglaterra para a frica central quando 
ela era pequena.
Viajamos com dois Land Rovers, Carrie dirigindo um e Robin o outro.
 Sempre viajamos com dois veculos, neste pas, para o caso de um quebrar  
explicou Carrie.  Praticamente acontece sempre.
Os dois meninos viajaram no carro de Carrie. Levamos tambm trs homens da equipe 
de safri dos MacDonald, Katana Chege, Herman Andembe e Morris Mulatya. Eram 
profissionais de safri e se encarregaram da maior parte do trabalho da instalao do 
acampamento no monte Elgon. Falavam pouco ingls e tinham currculos compridos 
como um brao. Havia tambm dois amigos meus na expedio, ambos americanos. Um 
era um amigo de infncia, Frederic Grant, e o outro era uma mulher, Jamy Buchanan. 
Preparei uma lista de instrues para os dois dizendo o que deviam fazer se eu 
apanhasse o Marburg, fechei o envelope e escondi na minha mochila. Eram trs pginas 
datilografadas, um espao, descrevendo os sinais e sintomas da infeco por filovrus no 
organismo humano, bem como possveis tratamentos que podiam deter a destruio dos 
tecidos. No disse nada para meus amigos, mas pretendia entregar a lista se comeasse a 
sentir dor de cabea. Para no dizer mais, era um sinal evidente de nervosismo.
Robin passou para a outra pista, para ultrapassar um caminho e um carro apareceu de 
repente vindo em nossa direo. Piscou os faris e tocou a buzina.
Fred Grant segurou no banco com as duas mos e gritou:
 Por que esse cara est vindo em cima de ns?
 Tudo bem, ns vamos morrer, portanto no precisa se preocupar  disse Robin. 
Passou para a outra mo na frente do caminho, em cima da hora, e comeou a cantar:
Livin and a-lovin
And a-loving and a-livin  Yah!
Paramos para comprar de uma mulher, na beira da estrada, espigas de milho grelhadas 
num braseiro. O milho estava quente, seco e delicioso, e custou cinco centavos. Eles o 
chamam de farinhento.
Robin mastigou o milho enquanto dirigia. De repente, levou a mo ao queixo e 
praguejou violentamente.
 Meu dente! Maldita droga! A obturao caiu! Aquele cretino dentista maldito!  
Abriu o vidro e cuspiu o milho para fora.  Tudo bem, que beleza! Trs obturaes e 
todas j caram. Carrie me mandou ir l. Disse que era um bom dentista  ah!
Acelerou e quase encostou na traseira do Land Rover de Carrie. Os dois carros voavam 
agora pela rodovia Kinshasa como se estivessem grudados. Ele ps a cabea para fora e 
atirou o milho no Land Rover da mulher. A espiga ricocheteou no vidro traseiro. Carrie 
aparentemente nem notou. Passamos por uma tabuleta que dizia: Reduza a Carnificina 
na Estrada  Dirija com Segurana.
Quase no fim do dia, paramos na cidade de Kitale, no sop do monte Elgon para 
comprar cerveja Tusker e carvo. Kitale  uma cidade mercado. O mercado principal 
fica no fim da rua que leva ao centro, ao lado de uma antiga estao de trens, construda 
pelos ingleses. A rua  ladeada por enormes pinheiros azuis. Debaixo das rvores, na 
terra batida e entre poas de gua de chuvas recentes esto as barracas onde so 
vendidos guarda-chuvas e relgios de pulso de plstico. Mulheres ao lado da estrada 
vendem milho. Robin seguiu at o mercado e dirigiu devagar no meio do povo. Um 
homem gritou em swahili:
 Voc est na contramo!
 Onde esto as placas?  Robin gritou.
 No precisamos de placas aqui!
Estacionamos, comeamos a andar e fomos imediatamente cercados por cafetes. Um 
deles com uma parka de ski branca disse: Querem ir Kigawera? Querem? Eu levo 
vocs l. Venham comigo. Agora mesmo. Belas mulheres. Eu levo vocs l. Devia ser 
o bairro onde moravam as namoradas de Monet. Era a hora do rush na cidade e o povo 
enchia a rua, sob as rvores, passando por uma linha infindvel de pequenas lojas. O 
monte Elgon pairava sobre a cidade e as rvores, erguendo-se em toda a sua altura 
indefinida, uma sombra coberta por uma nuvem em forma de forja, banhada pela luz 
dourada do sol. Uma ponta da montanha erguia-se em diagonal, penetrando a nuvem de 
chuva. Um relmpago silencioso fuzilou em volta da montanha e depois outro  
relmpagos em cadeia, mas o som do trovo no alcanou a cidade. O ar estava frio, 
pesado, mido e repleto do cricrilar dos grilos.
Na nossa passagem pelas estradas de terra em volta do monte Elgon, vimos sinais de 
violncias recentes, cabanas vazias e incendiadas dos fazendeiros Bukusu. Tinham me 
avisado que amos ouvir tiros durante a noite, mas no ouvimos. Bananeiras murchas e 
doentes cresciam em volta das cabanas abandonadas, no solo abandonado, repleto de 
mato e rvores novas. Armamos o acampamento na mesma campina em que Charles 
Monet havia acampado. O cozinheiro, Morris Mulatya, despejou um saco de carvo no 
cho, acendeu o fogo, ps uma panela de metal em cima e comeou a ferver gua para o 
ch. Robin MacDonald sentou numa cadeira dobrvel e tirou o tnis. Massageou os ps 
e depois, tirando a faca da bainha, comeou a aparar os calos dos dedos. No muito 
longe, na entrada da floresta que circundava nosso acampamento, um bfalo do Cabo 
nos observava. Robin olhou para o bfalo.
  um macho  murmurou.  So uns filhos da me. A gente tem de ficar de olho 
neles. Eles levantam a gente, homem. O bfalo do Cabo j matou mais seres humanos 
na frica do que qualquer outro animal. Com exceo do hipoptamo, esses porcos 
gigantes j mataram mais.
Ajoelhei na grama e enfileirei as caixas que continham os trajes espaciais, aparelhagem 
de descontaminao e lanternas. O ar estava frio e azul e a relva e a floresta cheiravam  
chuva recente. A fumaa do acampamento espiralava no ar que vibrava com os rudos 
produzidos pela equipe dos MacDonald armando as tendas de safri. Carrie MacDonald 
andava pelo campo, organizando o trabalho, falando swahili com o pessoal. Um regato 
prximo murmurava no meio de um bosque. Robin olhou para cima e ouviu o canto dos 
pssaros.
 Est ouvindo isso? So turacos. E tem tambm uma poupa. E um pssaro-
camundongo cinzento, est vendo a cauda longa?
Ele se levantou e foi para o regato. Fui atrs. Robin olhou para a gua.
 Ser que tem truta aqui? Podia ser bom para pescar com isca artificial.
Mergulhei a mo na gua gelada e borbulhante, mas cinzenta, enevoada com poeira 
vulcnica, o tipo de gua que no pode ter trutas.
 Por falar nisso  disse Robin.  J ouviu falar em pescar crocodilo com isca 
artificial?
 No.
 Voc pe um pedao de carne numa corrente. Um pedao de carne deste tamanho. E 
logo o lugar fica cheio de moscas!  uma brincadeira! Eles fedem, os crocodilos. Voc 
est dentro da gua rasa e eles nadam para cima da gente. E a gua  barrenta. E voc 
no pode ver. E ento  puft! Eles arrastam voc para baixo. Fim da histria. Voc vira 
histria, homem. Fale da natureza. A coisa toda, pensando bem, est cheia de 
assassinos, dos rios at o mar.
Um jovem de boina e uniforme militar de trabalho apoiou um joelho na relva, 
segurando um rifle russo de assalto e nos observou sem muito interesse. Era Polycarp 
Okuku, um askari, ou guarda armado.
 Ecoesimba hapa?  Robin perguntou. Algum leo por aqui?
 Hakuna simba.  No sobrou nenhum leo.
Nota: Fly-fishing  pesca com isca artificial. Fly em ingls, mosca. (N. da T.)
Caadores furtivos comearam a aparecer no monte Elgon, atirando em tudo que se 
movia, incluindo pessoas, e por isso o governo do Qunia exigia que os visitantes do 
monte Elgon fossem acompanhados por guardas armados. A palavra swahili askari, que 
significava, antes, lanceiro, agora significa homem armado com rifle de assalto e que 
caminha na nossa sombra.
A caverna Kitum fica num vale arborizado a 2.400 metros de altitude na encosta leste da 
montanha.
 Ufa!  disse MacDonald, quando subamos ofegantes a trilha ngreme.  D pra 
sentir o cheiro do bfalo do Cabo daqui, hein? Mingi bfalo.
Mingi quer dizer muito. Muitos bfalos. As trilhas dos bfalos cruzavam na diagonal a 
trilha dos homens e eram mais largas, mais profundas e mais retas, mais prticas e 
fediam a urina de bfalo.
Eu levava uma mochila e procurava desviar das poas de lama da trilha.
Polycarp Okuku, o askari, levantou uma alavanca no cano do rifle de assalto, claque, ta 
choque. Com isso ele armou o rifle pondo uma bala no tambor.
 Especialmente na estao das chuvas, o bfalo do Cabo gosta de andar em bandos  
ele explicou.
O estalo da arma sendo carregada chamou a ateno de Robin.
 Que diabo  ele murmurou.  Esse brinquedo que ele carrega no  seguro.
 Veja  disse Okuku, apontando para alguns rochedos.  Hiracides.
Vimos um animal marrom, do tamanho de uma marmota, correndo agilmente entre as 
rochas. Um possvel hospedeiro do vrus Marburg.
O vale era coberto de oliveiras africanas, cedros africanos, paineiras com folhas largas, 
rvores de hagenia abyssinica, cobertas de musgo e tecas Elgon, esguias, jovens e 
cinzentas. Aqui e ali erguia-se uma rvore podo, com o tronco reto e prateado 
desaparecendo no verde indefinido e variado do espao biolgico. No era a floresta 
tropical das terras baixas, onde as copas das rvores se unem num dossel fechado, mas a 
floresta tropical africana de montanha, uma floresta com um dossel interrompido por 
aberturas e clareiras. A luz do sol caa como pontas de setas no solo da floresta, e 
inundava as clareiras onde relvas e papiros cintilavam com violetas selvagens. Na 
floresta tropical de montanha, as rvores erguem-se isoladas, como indivduos, como 
presenas. Cada rvore tem o prprio espao e os galhos ziguezagueiam na direo das 
nuvens e do cu, como braos erguidos. De onde estvamos, vamos as plantaes na 
parte mais baixa da encosta da montanha. Passando das terras baixas para as altas, as 
plantaes eram substitudas por grupos de arbustos, galhos e copas de rvores maiores 
e ento, para um lenol contnuo de floresta tropical africana primitiva, uma das mais 
raras e mais ameaadas florestas tropicais do planeta.
A cor da floresta era verde-prateada. Aqui e ali uma rvore podo aparecia acima do 
dossel. A seta  levemente afunilada e sobe em linha reta, atingindo uma altura 
espantosa, sem galhos, s vezes espiralada, e pode haver um leve balano ou uma 
curvatura na seta, dando a impresso de tenso e fora, como um arco distendido. L em 
cima, na ponta, a rvore podo se abre numa coroa em forma de vaso, como um olmeiro 
e os galhos voltados para baixo so cobertos por grupos de agulhas em forma de folhas, 
de um verde escuro e pontilhados por frutos redondos. Era difcil ver as rvores podo 
entre os arbustos cerrados perto da caverna Kitum porque no crescem muito naquele 
vale, mas vi uma rvore podo jovem com
2 metros de circunferncia e 30 metros de altura. Acho que comeou a crescer no tempo 
de Beethoven.
 O que falta aqui  caa  disse Robin. Parou, ajeitou o bon e olhou em volta:  Os 
elefantes foram todos liquidados. Se no tivessem matado os elefantes, homem, eles iam 
estar por toda esta montanha. Mingi elefante. Este lugar inteiro seria elefante.
O vale estava quieto, exceto pelo hu, hu distante dos macacos colobus que fugiam de 
ns  medida que subamos. A montanha parecia uma catedral vazia. Tentei imaginar 
como teria sido o monte Elgon quando manadas de elefantes andavam pela floresta de 
rvores podo, grandes como sequias. Apenas dez anos atrs, antes dos problemas, o 
monte Elgon era uma das jias da coroa do planeta.
A entrada da caverna Kitum dava para o topo do vale. Era quase invisvel da trilha e 
bloqueada por grandes pedras cobertas de musgo. Uma fileira de cedros africanos 
erguia-se na frente da caverna e um pequeno regato descia entre os cedros e caa sobre 
as rochas, enchendo o vale com o som claro da gua.  medida que nos aproximamos, o 
som da queda dgua ficou mais forte e o ar comeou a cheirar a coisa viva. Cheiro de 
morcego.
Urtigas gigantes que cresciam no meio das pedras encostavam nas nossas pernas nuas 
como pontas de fogo. Ocorreume que as urtigas so, de fato, agulhas de injeo. Clulas 
de fogo na planta injetam um veneno na pele. Elas abrem a pele. Mariposas e pequenos 
insetos voavam do interior da caverna, carregados por uma corrente contnua de ar frio 
que saa da entrada de pedra, como neve horizontal. A neve era viva. A neve era feita de 
hospedeiros. Qualquer um deles podia carregar o vrus, ou nenhum deles.
Paramos numa trilha de elefantes que ia dar na caverna, ao lado de uma parede de rocha 
coberta com marcas diagonais  as marcas das presas dos elefantes, tirando pedaos de 
pedra e comendo para se abastecer de sais minerais. Cerca de dois mil elefantes viviam 
na floresta do monte Elgon antes de os homens chegarem de Uganda com suas 
metralhadoras. Agora, os elefantes do monte esto reduzidos a uma famlia com cerca 
de setenta elefantes. Os caadores furtivos instalaram ninhos de metralhadoras na 
entrada da caverna Kitum e, depois disso, os elefantes sobreviventes aprenderam a 
lio. A manada se esconde do melhor modo possvel nos vales mais altos da montanha 
e as espertas fmeas velhas, as avs, que so as chefes da manada e dirigem seus 
movimentos, conduzem a manada ao interior da caverna de 15 em 15 dias, quando a 
fome de sal supera o medo da morte.
Os elefantes no eram os nicos visitantes da caverna Kitum. O bfalo do Cabo tinha 
deixado a marca das suas patas na trilha que levava ao interior da caverna. Notei pilhas 
de fezes frescas de bfalo e as marcas de patas de gamos dgua. A prpria trilha 
parecia feita com fezes secas de animais. Alm dos elefantes, vrios outros animais 
entravam na caverna, provavelmente  procura de sal  gamos do mato e gamos 
dgua, bfalos do Cabo, duiker vermelho, talvez macacos, talvez babunos e 
certamente gatos genet, que so gatos selvagens pouco maiores do que um gato 
domstico. Vrios tipos de roedores entram na caverna  ratos, musaranhos e ratos-do-
campo   procura de sal ou comida e esses mamferos fazem suas trilhas para o 
interior da caverna. Leopardos entram na caverna,  noite,  procura de uma presa. A 
caverna Kitum  no monte Elgon o equivalente  estao de trens subterrneos de Times 
Square. Uma zona de trfego subterrneo, um ponto de mistura biolgica, onde os 
caminhos de diferentes espcies de animais e insetos se cruzam num espao de ar 
fechado. Um bom lugar para um vrus saltar de uma espcie para a outra.
Abri o zper da minha mochila, retirei meu equipamento e arrumei sobre uma pedra. Eu 
havia conseguido os componentes de um traje espacial biolgico, de campo, de nvel 4. 
No era um traje pressurizado  no um traje Racal cor de laranja. Era um traje para 
corpo inteiro com presso neutra, capuz e respirador que cobria o rosto todo. O traje era 
feito de Tyvek, um tecido branco liso e resistente  umidade e  poeira. Tinha tambm 
um par de luvas de borracha verde de cano longo, botas de borracha amarela, e uma 
mscara negra com dois filtros de cor violeta. A mscara era uma mscararespirador 
North, de silicone de borracha com placa transparente Lexan, para boa visibilidade e os 
filtros eram do tipo capaz de deter vrus. A mscara parecia a cabea de um inseto e a 
borracha era negra e sinistra. Havia tambm um rolo de fita adesiva. Uma touca de 
banho de plstico  dez centavos cada uma, na Woolworth. Lanterna, lmpada na testa. 
Entrei no traje, primeiro os ps, puxei para cima at as axilas e vesti as mangas. Com a 
touca de banho bem esticada na cabea, abaixei o capuz do traje cobrindo-a. Fechei o 
zper do traje, da virilha at o queixo.
Geralmente  preciso uma equipe de apoio para vestir o traje espacial biolgico de 
campo, e meu companheiro de viagem, Fred Grant, desempenhou esse papel.
 Quer me dar a fita adesiva?  pedi a ele.
Fechei com fita isolante o zper da frente do traje, depois prendi os punhos das luvas nas 
mangas e os canos da botas nas pernas da cala.
Polycarp Okuku, sentado numa pedra, com a arma atravessada sobre os joelhos me 
observava com uma expresso cuidadosamente neutra. Evidentemente, no queria que 
ningum pensasse que o surpreendia o fato de algum vestir um traje espacial para 
entrar na caverna Kitum. Mais tarde ele falou longamente em swahili com Robin 
MacDonald.
Robin virou para mim e disse:
 Ele quer saber quantas pessoas j morreram na caverna.
 Duas  respondi.  No na caverna  morreram depois. Uma era um homem, a 
outra, um menino.
Okuku balanou a cabea afirmativamente.
 O perigo no  to grande  eu disse.  S estou sendo cauteloso.
Robin passou a ponta do tnis no cho. Voltou-se para o askari e disse:
 Voc explode, cara. Voc pega a coisa e pronto  puft!  fim da histria, voc  
histria. Voc pega esse a, cara, adeus.
No quero isso, eu pensei.
 J ouvi falar nesse vrus  disse Okuku.  Os americanos fizeram alguma coisa 
neste lugar.
 Voc j trabalhava aqui, ento?  perguntei.
 Eu no estava aqui ento  disse Okuku.  Ns ouvimos falar.
Eu pus a mscara. Ouvia minha respirao aspirando o ar pelos filtros e sibilando nas 
sadas de ar. Passei a fita isolante em volta da cabea.
 Como est se sentindo?  Fred perguntou.
 Bem.  Ouvi minha voz abafada e distante. O ar circulou na placa transparente e a 
limpou. Ento prendi a lmpada eltrica de mifreiro em volta da cabea.
 Quanto tempo vai ficar l dentro?  Fred perguntou.
 Podem me esperar de volta dentro de uma hora.
 Uma hora?
 Bem, me d uma hora.
 Tudo bem. E depois?  ele quis saber.
 Depois? Telefone para a polcia.
A entrada era enorme, e a caverna alargava mais l dentro. Atravessei a lama cheia de 
marcas de patas e continuei pela plataforma larga, atapetada com fezes secas e 
escorregadias. Com a mscara eu no sentia o cheiro das fezes nem dos morcegos. A 
gua do regato chegava at a entrada da caverna enchendo-a de ecos murmurantes. 
Olhei para trs e vi que as nuvens estavam mais escuras, anunciando a chuva da tarde. 
Acendi a lanterna e a lmpada na cabea e segui em frente.
A caverna Kitum abria-se para uma vasta rea de rochas cadas. Em 1982, dois anos 
antes de Charles Monet visitar a caverna, o teto despencou. O impacto partiu e amassou 
uma coluna que aparentemente sustentava o teto, deixando uma pilha de destroos de 
cem metros de largura e um novo teto se formou sobre os destroos. Eu levava um mapa 
dentro de um saco de plstico  prova dgua que servia para proteg-lo contra os vrus 
e permitiria que eu o desinfetasse depois. O mapa foi desenhado por um ingls, Ian 
Redmond, especialista em elefantes, que havia passado cinco meses na caverna Kitum, 
acampado ao lado de uma rocha, na parte interna, perto da entrada, para observar os 
elefantes que entravam e saam  noite. Ele no usou nenhum protetor de biorrisco e no 
ficou doente. (Mais tarde, quando contei a Peter Jahrling, do USAMRIID, sobre o 
acampamento de Redmond dentro da caverna Kitum, ele me disse, com toda seriedade: 
Ser que voc podia me conseguir um pouco do sangue dele, para a gente fazer uns 
testes?)
Foi Ian Redmond quem concebera a idia interessante de que a caverna Kitum tinha 
sido cavada na rocha por elefantes. No h dvida de que a caverna  muito antiga. As 
mes elefantes ensinam os filhos como raspar a rocha para tirar o sal  raspar a rocha  
um comportamento aprendido pelos elefantes, no instintivo, mas ensinado pelos pais 
 e esse conhecimento vem passando de gerao em gerao de elefantes h talvez 
centenas de milhares de anos, talvez desde muito antes de os humanos modernos 
aparecerem na Terra. Se os elefantes vinham raspando a rocha da caverna  razo de 
alguns quilos por noite, a caverna podia facilmente ter sido feita por elefantes no 
decorrer de algumas centenas de milhares de anos. Essa era a idia de Redmond. Ele 
chama isso de espeleognese por elefantes  a criao de uma caverna por elefantes.
A luz ficou mais fraca e a entrada da caverna, atrs de mim, era um crescente de luz do 
sol contra o teto alto e curvo. Agora a entrada parecia uma meia-lua. Cheguei a uma 
zona de poleiros de morcegos. Eram morcegos frutvoros. Perturbados pela luz, eles 
despencaram do teto e voaram por cima da minha cabea com seu som sibilante e 
estridente. As pedras debaixo do poleiro estavam cheias de guano pegajoso, uma pasta 
cor de espinafre com bolhas cinzentas, lembrando ostras Rockefeller. Por um breve 
momento, inexplicavelmente imaginei qual seria o gosto daquele guano. Afastei a idia. 
Era uma travessura da mente. No se deve comer merda alguma quando se est no nvel 
4.
Adiante do poleiro dos morcegos, a caverna era mais seca e mais empoeirada. Uma 
caverna seca e empoeirada  coisa fora do comum. A maioria das cavernas  mida, 
molhada mesmo, uma vez que a maioria das cavernas  feita pela gua. No havia o 
menor sinal de gua corrente na caverna, nenhum leito seco de rio ou regato, nenhuma 
estalactite. Era uma cmara enorme, seca, dentro da encosta do monte Elgon. Os vrus 
gostam de ar seco, de poeira e de escuro, e a maior parte deles no sobrevive por muito 
tempo quando exposta  umidade e  luz do sol. Logo, uma caverna seca  um bom 
lugar para a preservao de um vrus, para ficar inativo nas fezes ou na urina seca, ou 
at mesmo, quem sabe, para se mover no ar fresco, escuro, quase imvel.
As partculas do Marburg so resistentes e provavelmente podem viver por longo tempo 
dentro de uma caverna escura. O Marburg pode sobreviver no mnimo cinco dias dentro 
dgua. Isso foi provado por Tom Geisbert. Certa vez, s para ver o que acontecia, ele 
deixou algumas partculas de Marburg dentro de frascos com gua  temperatura 
ambiente, durante cinco dias, em cima de um balco (o balco era no nvel 4). Ento ele 
passou a gua para frascos que continham clulas vivas de macacos. As clulas ficaram 
cheias de cristalides, explodiram e morreram de Marburg. Tom descobriu assim que 
partculas do vrus Marburg com cinco dias so to letais e infecciosas quanto partculas 
frescas. A maioria dos vrus no vive por muito tempo fora de um hospedeiro. O vrus 
da AIDS sobrevive cerca de vinte segundos quando exposto ao ar. Ningum j tentou 
verificar quanto tempo o Marburg ou o Ebola podem sobreviver presos numa superfcie 
seca.  provvel que o vrus filamentoso seja capaz de sobreviver numa superfcie seca 
e fresca, por algum tempo  se a superfcie estiver protegida contra a luz do sol, que 
destri o material gentico do vrus.
Cheguei ao topo do monte de pedras e toquei no teto com a mo enluvada. Era enfeitado 
com formas marrons, quadradas  troncos de rvores petrificados  e fragmentos 
esbranquiados  pedaos de ossos petrificados. A rocha era cinza solidificada, 
relquia de uma erupo do monte Elgon. Era incrustada com enormes troncos de pedra, 
restos de uma floresta tropical carregada pela erupo e enterrada nas cinzas e na lama. 
Os troncos eram escuros e brilhantes e refletiam cores opalescentes  luz da minha 
lmpada. Alguns troncos tinham cado do teto, deixando espaos vazios forrados com 
cristais brancos. Eram cristais de sais minerais e pareciam ameaadoramente cortantes. 
Teria Peter Cardinal erguido o brao para tocar os cristais? Encontrei morcegos nas 
aberturas, entre os cristais  morcegos insetvoros, menores do que os frutvoros de 
perto da entrada da caverna. Quando a minha lmpada de cabea iluminou as aberturas, 
os morcegos saram de dentro delas, giraram sobre a minha cabea e desapareceram. 
Ento vi uma coisa maravilhosa. Um dente de crocodilo petrificado na rocha. O rio de 
cinzas tinha enterrado um rio onde viviam crocodilos. Os crocodilos, encurralados, 
morreram queimados numa erupo do monte Elgon.
Arrastando os ps no traje espacial, sobre pedaos de rocha cados do teto, afiados como 
navalhas, cheguei a uma pilha recente de fezes de elefante. Tinha o tamanho de um 
pequeno barril de cerveja. Passei por cima. Cheguei a uma fenda e iluminei com a 
lanterna. O abismo escuro parecia nunca ter fim. No vi nenhum filhote de elefante 
mumificado. Cheguei a uma parede, cheia de marcas das presas dos elefantes. Essas 
marcas estavam por toda parte. Continuei descendo e cheguei a uma coluna quebrada. 
Ao lado dela, um tnel continuava a descer. Entrei no tnel que dava uma volta e 
terminava na sala principal. Eu estava assando dentro do traje. Gotas de suor 
depositaram-se na parte interna da placa transparente e fizeram uma pequena poa na 
mscara debaixo do meu queixo. Meus passos levantavam p que subia em nuvens em 
volta das minhas botas. Era estranho estar molhado de suor e andando no meio da 
poeira. Quando estava saindo da passagem, bati com a cabea numa rocha. Se no 
estivesse usando o traje protetor, teria cortado o couro cabeludo. Parecia fcil um corte 
desse tipo no interior da caverna. Talvez essa fosse a rota da infeco: o vrus, preso na 
rocha, entra na corrente sangnea atravs de um corte.
Segui para o fundo, at chegar  parede final, na garganta da caverna. Ali,  altura dos 
joelhos, na escurido completa, encontrei aranhas nas teias. Seus ovos estavam 
espalhados, dependurados na rocha. As aranhas seguiam seu ciclo vital no fundo da 
caverna Kitum. Isso significava que encontravam alimento no escuro, alguma coisa que 
voava para as suas teias. Eu tinha visto mariposas e insetos alados saindo da caverna e 
me ocorreu que alguns deles podiam cair numa teia de aranha. As aranhas podiam ser 
hospedeiros. Podiam apanhar o vrus de algum inseto da sua dieta. Talvez o Marburg 
processasse seu ciclo no sangue das aranhas. Talvez Monet e Cardinal tenham sido 
picados por aranhas. Uma teia de aranha no rosto, no escuro, uma leve picada no rosto e 
nada mais. No se pode ver, nem sentir o cheiro ou a picada. E a pessoa s descobre que 
est l quando comea a sangrar.
Acontecia na caverna Kitum muita coisa que eu no compreendia. A caverna encaixa-se 
de modo um tanto misterioso no ecossistema da montanha, desempenha um papel na 
vida da floresta, mas que papel  esse, ningum pode dizer com certeza. Encontrei uma 
fenda que parecia cheia de gua clara e profunda. Pensei que a gua era imaginao 
minha. No podia ser gua, pensei, a fenda deve estar seca. Apanhei uma pedra e joguei. 
No meio do vo a pedra fez uma pausa e o ar se desfez em crculos concntricos. Caiu 
na gua. A pedra girou preguiosamente para baixo e desapareceu, e os crculos 
cresceram e desapareceram, refletindo a luz da minha lmpada nas paredes da caverna.
Passei por cima de placas de pedra cadas, de volta para a pilha de escombros, passando 
a luz da lanterna e a da cabea por toda parte. A sala tinha mais de cem metros de 
largura, maior em todas as direes do que um campo de futebol americano. A luz no 
penetrava nos cantos da sala e as duas extremidades se inclinavam para baixo 
desaparecendo no escuro. O monte de escombros no centro fazia a caverna parecer um 
cu da boca. Quando olhamos na boca de algum, vemos a lngua sob o cu da boca, 
curvando-se para baixo na parte de trs, na direo da garganta. Era o que parecia a 
caverna Kitum. Diga ahh, caverna Kitum. Voc tem um vrus? Nenhum instrumento, 
nenhum sentido pode nos dizer que estamos na presena do predador. Apaguei minhas 
luzes e fiquei no escuro completo, sentindo o suor pingar no meu peito, ouvindo o meu 
corao e o sangue na minha cabea.
A CHUVA DA TARDE CHEGOU. Fred Grant estava de p, dentro da caverna, para 
no se molhar, na zona cinzenta, em cima das fezes secas de elefante. O askari, sentado 
numa pedra, balanava a arma sobre os joelhos e parecia entediado.
 Bem-vindo  disse Grant.  Foi bom para voc?
 Vamos saber daqui a sete dias  eu disse. Ele me examinou atentamente.
 Parece que h umas gotas no protetor do seu rosto.
 Gotas do qu?
 Parece gua.
  s o suor no interior da mscara. Se tiver mais um pouco de pacincia, vou tirar 
esse traje.
Apanhei uma tina de plstico  parte do material que tnhamos carregado at ali  e a 
deixei debaixo da pequena queda dgua por um momento. Quando estava quase cheia, 
eu a levei para a trilha dos elefantes, na entrada, e derramei um galo de Jik danado 
na gua  gua sanitria.
Fiquei de p dentro da tina. Minhas botas desapareceram num redemoinho de terra e o 
Jik ficou marrom. Mergulhei a mo enluvada no Jik marrom, apanhei um pouco do 
lquido e joguei na minha cabea e na mscara. Com uma escova de banho, escovei as 
botas e as pernas da cala do traje para retirar as manchas visveis de sujeira. Mergulhei 
no desinfetante o mapa dentro do plstico, a lanterna e a lmpada da cabea. Tirei a 
mscara e ela foi pelo mesmo caminho, junto com os filtros. Ento meus culos foram 
para o Jik.
Tirei as luvas verdes. Elas foram para o Jik. Ento tirei o traje de Tyvek, descolando a 
fita adesiva aos poucos. O traje todo, com as botas amarelas, foram para o Jik.
Sob o traje eu estava usando cala, camisa e tnis. Tirei toda a roupa e guardei num saco 
de plstico  o chamado saco quente  com um pouco de Jik e o saco dentro de outro 
saco. Lavei a parte externa dos dois sacos com Jik. Tirei roupa limpa da mochila e me 
vesti. Acondicionei todo o material de biorrisco em dois sacos de plstico, um por cima 
do outro e acrescentei Jik.
Robin MacDonald apareceu silenciosamente no alto das rochas, na entrada da caverna.
 Senhor Merda de Morcego  disse ele , como foi?
Descemos a trilha carregando os sacos quentes e voltamos para o acampamento. A 
chuva estava mais forte. Sentamos nas cadeiras dobrveis na tenda maior com uma 
garrafa de scotch, enquanto a chuva caa com fora e sibilava entre as folhas. Eram trs 
horas da tarde. As nuvens ficaram mais escuras at o cu ficar negro e acendemos os 
lampies a leo. O trovo rolava em volta da montanha e a chuva era agora uma 
tempestade. O ar ficou gelado.
Robin sentou ao meu lado.
 Ah, homem, esta chuva nunca pra no Elgon. Isso acontece o ano inteiro.
Com um flash estroboscpico e um estalo, um relmpago partiu ao meio uma oliveira a 
menos de 15 metros da barraca.
A luz do relmpago delineou o rosto dele, os culos. Tomamos cerveja Tusker para 
acompanhar o scotch, e jogamos uma partida de pquer. Robin no quis jogar.
 Tome um pouco de usque, Robin  disse Fred Grant.
 Nada disso para mim  disse ele.  Meu estmago no gosta. A cerveja  perfeita. 
D protena e a gente dorme bem.
A chuva passou e as nuvens clarearam por um momento. Os galhos das oliveiras 
curvavam-se, pesados e seus ps estavam mergulhados na sombra. Pingos dgua caam 
pelas paredes de rvores. Os pssaros-camundongos soltavam seus gritos sonoros e 
ento tudo parou e o monte Elgon ficou silencioso. A floresta balanou suavemente. A 
chuva recomeou.
 Como est se sentindo, Sr. Merda de Morcego?  perguntou Robin.  Algum 
sintoma mental?  quando voc comea a falar sozinho no banheiro. Vai comear 
qualquer dia, agora.
Os sintomas mentais j estavam comeando. Eu no podia esquecer a pancada com a 
cabea no teto da caverna. Estava com um belo galo. Certamente haveria minsculos 
cortes em volta do galo. Eu comeava a compreender a sensao de ter sido exposto a 
um filovrus: vou ficar bem. Sem problema. As probabilidades so de que no fui 
exposto a coisa alguma. Enquanto isso, o melhor a fazer  ficar aqui sentado, tomando 
usque.
O aparecimento do vrus da AIDS, do Ebola e de outros agentes da floresta tropical 
parece uma conseqncia natural da destruio da biosfera tropical. Os vrus emergentes 
esto aparecendo em lugares da Terra biologicamente danificados. Muitos vm da 
periferia danificada da floresta tropical, ou da savana tropical que est sendo 
rapidamente povoada. As florestas tropicais so os reservatrios profundos da vida no 
planeta, contendo a maior parte das espcies de plantas e de animais. As florestas 
tropicais so tambm o maior reservatrio dos vrus, uma vez que todas as coisas vivas 
tm vrus. Quando eles saem de um ecossistema, tendem a se espalhar em ondas atravs 
da populao humana, como ecos da biosfera agonizante. Aqui esto os nomes de 
alguns vrus emergentes: Lassa. Rift Valley. Oropouche. Rocio. Q. Guanarito. V.E.E. 
Monkeypox. Dengue. Chikungunya. O hantavrus. Machupo. Junin. As variedades 
semelhantes ao vrus da raiva, Mokolo e Duvenhage. Le Dantec O vrus cerebral da 
floresta Kyasanur. O HIV  que  sem dvida um vrus emergente, porque sua 
penetrao na espcie humana aumenta rapidamente, sem nenhum fim em vista , o 
agente Floresta Semliki. Crimia-Congo. Sindbis. onyongnyong. O sem nome So 
Paulo. Marburg. Ebola Sudo. Ebola Zaire. Ebola Reston.
Num certo sentido, a Terra est criando uma resposta imune contra a raa humana. 
Comea a reagir ao parasita humano,  infeco de gente, os pontos mortos de concreto 
por todo o planeta, a deteriorao cancerosa na Europa, no Japo e nos Estados Unidos, 
inundado de primatas que se multiplicam, as colnias crescendo e se espalhando e 
ameaando abafar a biosfera com extino em massa. Talvez a biosfera no goste da 
idia de cinco bilhes de seres humanos. Ou podemos dizer tambm que a amplificao 
extrema da raa humana, ocorrida nos ltimos cem anos, mais ou menos, produziu, de 
repente, uma grande quantidade de carne, que est sentada em todas as partes da 
biosfera e que pode no ser capaz de se defender contra uma forma de vida que talvez 
queira consumi-la. A natureza tem meios interessantes de manter o prprio equilbrio. A 
floresta tropical tem as prprias defesas. O sistema imune da Terra, por assim dizer, est 
vendo a presena da espcie humana e comea a se revoltar contra ela. A Terra est 
tentando se livrar de uma infeco causada pelo parasita humano. Talvez a AIDS seja o 
primeiro passo num processo natural de limpeza.
A AIDS talvez no seja ainda o pior desastre ambiental do sculo 20. Pode ter saltado 
para os seres humanos de primatas africanos, de smios e macacos antropides. Por 
exemplo, o HIV-2 (uma das duas principais variedades do HIV pode ser um vrus 
mutante que saltou para ns do macaco africano chamado sooty mangabey, talvez 
quando caadores de macacos tocaram tecido sangrento). O HIV-1 (a outra variedade) 
pode ter saltado para ns dos chimpanzs  talvez quando os caadores matavam os 
chimpanzs. Uma variedade de vrus simiano da AIDS foi isolada recentemente de um 
chimpanz, no Gabo, na frica ocidental, e  talvez a coisa mais prxima do HIV-1 
que j se encontrou no reino animal.
O vrus da AIDS foi notado pela primeira vez em 1980 em Los Angeles por um mdico 
cujos pacientes gays estavam morrendo atacados por um agente infeccioso. Se naquela 
poca algum tivesse sugerido que essa doena de homens gays no sul da Califrnia 
vinha dos chimpanzs selvagens da frica, a comunidade mdica teria um acesso 
coletivo de riso. Ningum est rindo agora. Acho extremamente interessante considerar 
a idia de que o chimpanz  um animal ameaado da floresta tropical e depois 
considerar a idia de que o vrus que passou do chimpanz, de repente, no est 
ameaado por coisa alguma. Pode-se dizer que os vrus da floresta tropical sabem muito 
bem cuidar dos prprios interesses.
O vrus da AIDS  um mutante rpido, em mudana constante.  um hipermutante, um 
modificador da forma, alterando espontaneamente suas caractersticas  medida que se 
move atravs das populaes e dos indivduos. Ele muda at durante o curso de uma 
infeco, e a pessoa que morre de HIV geralmente foi infectada por mltiplas 
variedades que surgiram espontaneamente no seu corpo. O fato do vrus mudar 
rapidamente significa que vai ser muito difcil criar uma vacina para ele. Num sentido 
mais amplo, significa que o vrus da AIDS  um sobrevivente natural das mudanas no 
ecossistema. O vrus da AIDS e outros vrus emergentes esto sobrevivendo ao 
naufrgio da biosfera tropical porque podem mudar mais rapidamente do que as 
mudanas que ocorrem nos seus ecossistemas. Devem ser muito bons para escapar dos 
problemas, se alguns deles existem h quatro bilhes de anos. Isso me faz pensar em 
ratos abandonando o navio.
Suspeito que a AIDS pode no ser a demonstrao mais importante do poder da 
Natureza. Se a raa humana  capaz de manter uma populao de cinco bilhes ou mais, 
sem um confronto com um vrus quente,  ainda uma questo em aberto. No 
respondida. A resposta est escondida no labirinto dos ecossistemas tropicais. A AIDS  
a vingana da floresta tropical. Apenas o primeiro ato da vingana.
Sem problema, eu pensei.  claro que vou ficar bem. Ns vamos ficar bem. Sem 
problema. Tudo vai ficar bem. Muita gente entrou na caverna Kitum e no ficou doente. 
Trs a dezoito dias. Quando comea a amplificao, voc no sente nada. Lembrei de 
John McCormick, o funcionrio dos CDC que discordou do Exrcito sobre o modo de 
tratar o surto do Ebola Reston. Lembro-me da sua histria no Sudo, caando o vrus 
Ebola. Depois de uma viagem de avio at o interior da selva, ele enfrentou o Ebola 
face a face, numa cabana cheia de gente que estava desmoronando e sangrando e 
espetou uma agulha no polegar, e teve sorte, e sobreviveu  experincia. Foi quando 
McCormick fez uma descoberta importante, uma das principais sobre o tratamento do 
vrus Ebola. No Sudo, pensando que ia morrer de Ebola, ele descobriu que uma garrafa 
de scotch  o nico tratamento eficiente para exposio a um filovrus.
Num dia de outono, fui at a casa dos macacos abandonada para ver o que tinha 
acontecido com ela. Era um dia quente de vero indiano. Uma nvoa marrom pairava 
sobre Washington. Sa da Beltway e me aproximei discretamente do prdio. Estava 
deserto como um tmulo. Uma folha ou outra caa da rvore de liquidmbar. Muitos 
escritrios em volta do estacionamento tinham placas de Aluga-se. Senti a presena, 
no de um vrus, mas de doena financeira  sinais clnicos dos anos 80, como a pele 
que descasca depois de uma febre muito grave. Atravessei o gramado atrs do prdio, 
at o ponto de insero, uma porta de vidro. Estava trancada. Pedaos de fita adesiva 
prateada pendiam do batente da porta. Olhei para dentro e vi o assoalho com manchas 
marrom-avermelhadas. Um aviso na parede dizia, Limpe sua prpria sujeira. Ao lado 
dele, vi o corredor da cmara de descontaminao, a zona cinzenta por onde as equipes 
tinham passado para a zona quente. As paredes eram cinzentas, a zona cinzenta ideal.
Pisei em pedaos de plstico na grama. Encontrei bagas de sabugueiro amadurecendo 
em volta de uma mquina de controle de ar enferrujada. Ouvi uma bola saltar, e vi um 
menino brincando com uma bola de basquete num playground. As batidas da bola 
ecoavam surdamente na antiga casa dos macacos. Ouvi vozes de crianas vindas da 
creche, entre as rvores. Explorei os fundos do prdio, cheguei a uma janela e olhei para 
dentro. Trepadeiras tinham crescido dentro do prdio, encostando no vidro  procura de 
luz e calor. Onde aquelas trepadeiras tinham encontrado gua dentro do prdio? Era 
uma madressilva do Trtaro, uma planta que cresce em lugares abandonados e montes 
de lixo. As flores no tm cheiro nenhum. Isto , tm cheiro de vrus e florescem em 
ecossistemas danificados. O Trtaro  a terra dos mortos na Eneida de Virglio, o 
mundo subterrneo onde os vultos dos mortos murmuravam nas sombras.
Os ramos entrecruzados da trepadeira me impediram de ver a zona quente. Era como 
olhar para uma floresta tropical. Fui para o lado do prdio e encontrei outra porta de 
vidro lacrada com fita adesiva. Encostei o nariz no vidro e com as mos em concha nos 
lados dos olhos, espiei para dentro. Vi um balde com uma crosta seca e marrom. Parecia 
excremento seco de macaco. Fosse o que fosse, devia estar misturado com Clorox. Uma 
aranha tinha estendido a teia entre a parede e o balde de lixo e estava pegando insetos. 
No cho, debaixo da teia, estavam as conchas vazias de moscas e de vespas amarelas. 
Como estvamos no outono, a aranha tinha deixado ovos na teia, preparando-se para o 
seu ciclo de multiplicao. A vida tinha se estabelecido na casa dos macacos. O Ebola 
havia levantado a cabea naquelas salas, ergueu suas cores, alimentou-se e foi vencido 
naquela floresta. Ele vai voltar.
Personagens principais
NA ORDEM DE APARECIMENTO
Charles Monet  Um expatriado francs que vivia no oeste do Qunia. Em janeiro de 
1980 ele praticamente explodiu com o vrus Marburg durante uma viagem de avio. 
Ten. Cel. Nancy Jaax  Veterinria patologista no USAMRIID. Comeou a trabalhar 
com o vrus Ebola em 1983, quando a luva do seu traje espacial se rasgou. Em 1989 
passa a chefe da patologia e, no outono de 1989, toma parte na operao de biorrisco 
Reston.
Cel. Jerry Jaax  Veterinrio, chefe da diviso de veterinria no USAMRIID. Casado 
com Nancy Jaax. Nunca havia usado um traje espacial, mas foi designado para liderar a 
misso SWAT em traje espacial durante a operao de biorrisco Reston. Eugene 
Johnson  Caador de vrus, civil, trabalhando para o Exrcito. Especialista em Ebola. 
Na primavera de 1988, depois da morte de Peter Cardinal, chefia uma expedio do 
Exrcito na caverna Kitum, no monte Elgon. Chefe de logstica e segurana na operao 
de biorrisco Reston. Peter Cardinal  Menino dinamarqus, visitando os pais no 
Qunia, no vero de 1987, morre vitimado pelo vrus Marburg. O Exrcito tem uma 
variedade de Marburg com seu nome, em seus freezers.
Dan Dalgard  Veterinrio da Unidade de Quarentena de Primatas Reston (a casa dos 
macacos em Reston). Peter Jahrling  Virologista civil do Exrcito. Descobridor da 
variedade de vrus que atacou a casa dos macacos em Reston. Tom Geisbert  
Estudante de doutorado. No outono de 1989 estava trabalhando como tcnico 
responsvel pelo microscpio eletrnico no USAMRIID. Cel. Clarence James Peters 
(CJ. Peters)  Mdico, chefe da diviso de avaliao de doenas no USAMRIID. 
Chefe geral da operao de biorrisco Reston.
Dr. Joseph McCormick  Chefe do Ramo Especial de Patogenia dos CDC Tratou 
pacientes humanos com Ebola numa cabana no Sudo, onde picou o dedo com uma 
agulha ensangentada.
General Philip K. Russell  O general que deu a ordem para o envio dos militares para 
Reston.
(As patentes militares so da poca da operao Reston.)
Glossrio
agente quente  Um vrus extremamente letal, potencialmente transmitido pelo ar.
amplificao  Quando um vrus se multiplica (1) no corpo de um hospedeiro 
individual ou (2) numa populao de hospedeiros.
anima) sentinela  Um animal suscetvel usado como alarme para a presena de um 
agente quente, uma vez que esse agente no pode ser detectado por nenhum instrumento 
conhecido Funciona como o canrio nas minas.
rea cinzenta, zona cinzenta  Uma rea ou zona intermediria entre uma zona quente 
e o mundo normal. Um lugar onde dois mundos se encontram.
cadeia explosiva de transmisso letal  Uma praga onde o agente letal infeccioso se 
dissemina explosivamente no meio de uma populao, matando grande parte dela. 
Tambm chamado queima.
caixa de chapu  (gria militar) Continer cilndrico de biorrisco feito de papelo 
encerado. Chamado tambm continer de sorvete.
caso ndice, o  O primeiro caso conhecido num surto de doena infecciosa. s vezes 
dissemina a doena numa grande rea.
continer de sorvete  Ver caixa de chapu.
cristalides  Ver tijolos.
decon  (gria militar) Descontaminao.
desmoronar e sangrar at a morte  (gria militar) Morrer de choque, com hemorragias 
profusas em todos os orifcios do corpo.
Ebola  Um vrus externamente letal dos trpicos. A origem exata  desconhecida. 
Tem trs subtipos conhecidos: Ebola Zaire, Ebola Sudo e Ebola Reston.  parente 
prximo do vrus Marburg. Todos eles so da famlia dos filovrus.
EnviroChem  Lquido desinfetante verde, usado nos chuveiros das cmaras de 
compresso. Um eficiente matador de vrus.
esterilizao  Destruio total e inequvoca de todos os organismos vivos. 
Extremamente difcil de ser conseguida, e quase impossvel de ser verificada.
extrema amplificao  Quando um vrus se multiplica em toda parte dentro do 
hospedeiro, transformando o hospedeiro parcialmente em vrus.
FHS  Febre hemorrgica simiana. Um vrus de macacos, inofensivo para humanos.
filovrus  Uma famlia de vrus que compreende apenas o Ebola e o Marburg. Neste 
livro tambm chamado de vrus filamentoso.
HIV  Vrus humano de imunodeficincia, o causador da AIDS.  um agente 
emergente do nvel 2 originrio da floresta tropical da frica. Origem exata 
desconhecida. Agora amplificando globalmente. Seu nvel mximo de penetrao na 
espcie humana  completamente desconhecido. Ver amplificao.
hospedeiro  Um organismo que serve de moradia e geralmente de alimento para um 
parasita, como um vrus.
maca-bolha  Casulo de bioconteno porttil, usado para transportar um paciente 
quente.
microscpio eletrnico  Um microscpio grande e muito potente que usa raios de 
eltrons para fazer imagens de pequenos objetos, como vrus.
microssurto  Termo criado pelo autor para indicar um surto pequeno, s vezes 
invisvel, de um vrus emergente.
nuke  (gria militar) No sentido biolgico, tentativa de esterilizar completamente um 
lugar. Ver esterilizao.
queimar, queimando  Veja cadeia explosiva de transmisso letal.
quente  (gria militar) Letalmente infeccioso, no sentido biolgico.
raiva distendida  Ver vrus Marburg.
replicao  Autocpia. Ver amplificao.
Rodovia Kinshasa  A rodovia da AIDS. A principal via percorrida pelo HIV quando 
saiu da floresta tropical da frica central. A estrada liga Kinshasa, no Zaire,  frica 
oriental.
Slammer  (gria militar) O hospital de isolamento do nvel 4 de biossegurana no 
USAMRIID.
submarino  (gria militar) O necrotrio do nvel 4 de biossegurana, no USAMRIID.
sute quente  Um grupo de salas de laboratrio do nvel 4 de biossegurana.
terceiro espao  Hemorragia macia sob a pele.
tijolos  Blocos de partculas de vrus, com aparncia de puro cristal, que crescem no 
interior de uma clula. Conhecidos tambm como corpos de incluso. Neste livro 
muitas vezes so chamados de cristalides.
traje espacial Chemturion  Traje espacial biolgico para trabalho pesado, 
pressurizado, usado nas reas de conteno do nvel 4 de biossegurana. Chamado 
tambm de traje azul, devido  sua cor azul forte.
traje Racal  Traje espacial porttil, com presso positiva e suprimento de ar por 
bateria. Para uso em trabalho de campo de extremo biorrisco com vrus supostamente 
transmitidos pelo ar. Tambm chamado de traje laranja por causa da sua cor.
USAMRIID  Instituto de Pesquisa de Doenas Infecciosas do Exrcito dos Estados 
Unidos, em Fort Detrick, Frederick, Maryland. Tambm chamado instituto.
variedade Mayinga  A variedade mais quente conhecida do vrus Ebola. Vem de uma 
enfermeira chamada Mayinga N. que morreu no Zaire em 1976.
vrus  Um agente causador de doena, menor do que uma bactria, consistindo numa 
concha de protenas e membranas e um ncleo contendo ADN ou ARN. O vrus 
depende de clulas vivas para se multiplicar.
vrus emergente  Vrus que nos ltimos tempos tem aumentado sua incidncia e 
parece que vai continuar aumentando. (Stephen S. Morse)
vrus Marburg  Parente prximo do Ebola. Foi chamado de raiva distendida depois 
da sua descoberta.
zona quente rea quente lado quente  Uma rea que contm organismos letais, 
infecciosos.
Crditos
Meu primeiro agradecimento  para o pessoal civil e militar do USAMRIID, como um 
todo. s pessoas que tomaram parte na operao Reston arriscaram suas vidas 
anonimamente, sem esperar que seu trabalho sequer viesse a ser conhecido do pblico.
Sou extremamente grato  minha editora, na Random House, Sharon DeLano. Num 
certo momento, eu disse a ela, Deus est nos detalhes, e ela respondeu, No, Deus 
est na estrutura. Agradeo tambm a Sally Gaminara, da Doubleday, U.K., por suas 
valiosas idias editoriais. Agradeo a ajuda de Ian Jackman e a Harold Evans.
Por me ajudar a manter minha famlia solvente, minha gratido a Lynn Nesbit. 
Tambm: Robert Bookman, Lynda Obst, Cynthia Cannell, Eric Simonoff e Chuck 
Hurewitz. Obrigado a Jim Hart por suas conversas extremamente perceptivas e a Ridley 
Scott.
Este livro comeou como um artigo no New Yorker. Sou grato a Robert Gottieb, que 
encomendou o artigo, e a Tina Brown, que o publicou e deu asas a ele. Agradeo a John 
Bennet, o editor do artigo e a Caroline Fraser, a revisora. Meus agradecimentos tambm 
a Pat Crow, Jill Frisch, Elizabeth Macklin e Chip McGrath.
Recebi orientao filosfica de Stephen S. Morse e Joshua Lederberg, ambos 
virologistas da Universidade Rockefeller, de Nova York. Algumas das preocupaes (e 
temores) expressos neste livro foram trazidas  ateno do mundo numa importante 
conferncia sobre vrus emergentes, organizada e presidida por Morse, realizada em 
maio de 1989, estranhamente meses antes do surto Reston. Na conferncia, Morse criou 
o termo vrus emergente. Fui influenciado tambm por dcadas do pensamento e 
comentrios de Lederberg. Qualquer tolice cientfica cometida neste livro  somente 
minha.
No USAMRHD, meus agradecimentos especiais vo para o Dr. Ernest Takafuji, 
comandante do USAMRIID, e para David Franz, subcomandante. Quero agradecer a 
ajuda de Peter Jahrling, Nancy e Jerry Jaax, Tom Geisbert e Eugene Johnson, nas 
passagens que descrevem seus pensamentos e sentimentos durante a crise Reston. Curtis 
Klages, Nicole Berke Klages, Rhonda Williams e Charlotte Godwin Whitford tambm 
me ajudaram e me dedicaram grande parte do seu tempo. Agradeo tambm a Cheryl 
Parrott, Carol Linden, Joan Geisbert, Curtis Klages e Ed Wise, bem como aos outros 
91-Tangos e tratadores civis de animais que me descreveram suas experincias em 
Reston. E muito obrigado a Ada Jaax.
Nos Centers for Disease Control, pela concesso generosa do seu tempo e por partilhar 
comigo suas lembranas, agradeo ao Dr. C.J. Peters e a Susan Peters, Dr. Joel Breman, 
Heinz Feldmann, Thomas G. Ksiazek, Dr. Joseph B. McCormick e Anthony Sanchez. 
Em outras instituies, David Hoxsoll, Dr. Frederick A. Murphy e Dr. Philip K. Russell. 
No Qunia, Dr. Shem Musoke, Dr. David Silverstein e coronel Anthony Johnson.
Na frica do Sul, Dra. Margaretha Isaacson e Dr. G.B. Bennie Miller.
No rio Bighorn, Dr. Karl M. Johnson. Na Hazleton Washington, agradeo a Dan 
Dalgard a assistncia que me deu nas partes do livro que descrevem seus pensamentos, 
bem como por me deixar transcrever trechos da sua Cronologia dos eventos.
Na Fundao Alfred P Sloan  Agradeo a Arthur L. Singer, Jr. por seu substancial 
interesse e apoio. Na Universidade Princeton, agradeo a Carol Rigolot, do Conselho de 
Humanidades.
Na Conservao Internacional, agradeo a Peter A. Seligmann e a Russell Mittermeier. 
Quero registrar o fato de que, ao que parece, foi Mittermeier quem primeiro comparou a 
espcie humana a uma pilha de carne esperando para ser consumida. Referente  viagem 
 caverna Kitum, agradeo especialmente a Graham Boynton, bem como a Christine 
Leonard, Robin e Carrie MacDonald, Katana Chege, Morris Mulatya Herman Andembe 
e Jamy Buchanan. Ian Redmond me forneceu informao valiosa sobre a caverna. No 
posso deixar de mencionar tambm a ajuda de David e Gregory Chudnovsky. Obrigado 
a muitos amigos: Peter Benchley, Freeman Dyson, Stona e Ann Fitch, Sallie 
Gouverneur, William L. Howarth, John McPhee, Dr. David G. Nathan, Richard oBrien, 
Michael Robertson, Ann Waldron, Jonathan Weiner e Robert H. White. Agradeo ao 
meu av, Jerome Preston, Sr., e aos meus pais, Jerome Preston, Jr. e Dorothy Preston, 
por seu apoio, e agradeo especialmente ao meu irmo, Dr. David G. Preston, por seu 
entusiasmo pela histria, e ao meu outro irmo, o escritor Douglas Preston.
MEU agradecimento final E O MAIOR a minha mulher, Michelle Parham Preston, por 
seu apoio extraordinrio e por seu amor.
319
Fim
